Ele tem vontade de pular daquela janela, ele fica perto quase toda noite e não pula. Ele diz sentir tudo, querer o mundo. Pela mesma janela pode ver os revoltosos, as marcas feitas pela impunidade estampada nas vozes roucas que permanecem em constantes gritos desgastantes. Ele diz "olá" pro mundo que nunca viu, que jura que quer ver mas nunca terá coragem. Ele está dentro do apartamento, dentro de mim, dentro de tudo que a gente não sabe, dentro de tudo que a gente dizia sentir. Fez-se de dias virados do avesso, quando o claro fica escuro e o escuro me chama até lá. Eu estava lá. Eu estava na sala e no sofá. Eu estava nas fotografias, nos desenhos, nos cobertores, nas almofadas. Eu estava lá onde eu nunca estive, e ele mesmo assim, no fundo, ainda queria se jogar. Ele viria antes, mas morreria. Ele estava sendo o que queria ser, sendo o que dava pra ser preso naquele mundo distante, num mundo só dele, só nosso. O Egito me dói. A praça Tahrir me dói. Ele me dói. Nós dois jogados no chão, nos dias, nas noites, nas manhãs de chuva do meu inverno instável. Eu não o conheci tanto, eu viajei pra longe mas não o conheci. Fui com ele até o fundo das nossas almas pérfidas, perdidas, confusas. Fui com ele e iria até ele pular daquela janela, até ele morrer na nossa viagem. Ele permanecia presente, feliz. Ele fazia planos, nós fazíamos planos. O fuso-horário o fez perder o sono, talvez por culpa minha, talvez por culpa de uma não adaptação. Agora no jornal eu ouço falar das revoltas no nosso local de fuga. As revoltas por outras causas. O nosso refúgio já perdido. Nada é igual. O ditador caiu e ele também. Ele pulou da janela quando estava voltando. Ele chegou em casa, ele estava morto. Nossa fuga não existiu, ele foi um sonho, o Egito foi palco do suicídio mais lindo que pude presenciar. Ele se matou em mim quando voltou pra menos longe. Eu já não o vejo, eu nunca vi. Eu só vejo o Egito e um vazio. Eu só vejo o desenho do que foi o pulo, ou o quase pulo, ou o que ele queria ter feito quando se dizia feliz. Eu o vejo toda noite pulando, se matando dentro do nosso sonho adolescente, fosco, islâmico. Eu que o vi tão longe de perto, de dentro, de tudo. Eu que estive, me mantive. Eu fiquei, eu nunca fui. Eu vi a morte no Egito, a peça teatral cujo personagem principal era muito feliz, fazia alguém muito feliz, mas ainda assim preferia pular da janela do apartamento e morrer. Morrer na frente da minha plateia. Um drama, uma tragédia romântica dentro de mim, dentro dele, dentro do seu corpo desmontado no meu chão.