... Subentenda-me: setembro 2011

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Leve, azul, rosa. Com areia nos pés.

Às vezes é inevitável, não é? Digo, essas coisas que a vida muitas vezes impõe. A forma de como passamos a enxergar o simples de maneira tão mais complexa e cheia de obrigações. A forma com que os acontecimentos nos fazem mudar de caminho só porque é mais fácil de chegar, só porque a estrada é menos esburacada. Ou talvez não. É muito constante essa fuga pra algum lugar onde tudo parece mais calmo, mais confortável. Do que se faz? Do que se compõe a complexidade de tudo que a gente cria justamente pra fugir do complexo? O amor está presente, eu sei que está e sempre esteve. Amor nas escolhas, amor nas desistências. O problema é que muitas vezes o nosso amor tão bem cuidado e querido passa ser responsável por te condenar a um cárcere privado, à tortura dos relacionamentos. O problema não é amar, não é se dedicar. Tudo se complica quando já não há o prazer em fazer tudo isso, quando tudo se torna um simples produto do costume, da presença de algo que nem sempre faz bem. Sabe, muitas vezes acho que a propaganda toda é tão superficial. O amor não é autossuficiente, o amor depende de muita coisa. A gente faz tudo com muito amor, sempre. E eu não me culpo por ter amado tanto viver uma verdade inventada, por ter me empenhado em viver uma coisa que remetia promessas lindas de alegrias. É assim mesmo. As pessoas felizes supervalorizam tanto a felicidade acreditam que esse sentimento mora e dorme juntinho com o amor por alguém. Aquele amor, sabe? Aquele que a gente ama amar de vez em quando, mas que de vez em quando também deixa a gente mal. Aquele que nos faz sonhar e deixa o coração bem quentinho, mas que também faz ele chorar, comprimido, agarrado entre as pernas, coitado. Aquele que você sente quando chega alguém, te sorri bonito, te encanta e te leva junto dele, até quando der. Ou será que é a carência que faz a gente acreditar nesse amor? Sei que é bom demais ter companhia, mas entenda, o tempo muda tanta coisa, tantos olhares, interpretações. O tempo me fez ver que quem faz a promessa de felicidade ao se ter um amor, um amor que dói, é justamente essa carência. Amor mesmo vai além do desejo de ter um par pertinho o tempo todo pra tapar uns buracos. Amor mesmo não dói assim. Acho que descobrir isso me endureceu. Eu não quero dividir nenhuma alegria, eu quero amar sozinha todas as minhas coisinhas sem precisar de alguém pra curar minhas faltas. Eu fico aqui, bem, sentindo sozinha o gostinho de querer amar alguém de verdades em precisar inventar, ou tapar meus olhos pra dor. E também sem precisar esperar ansiosamente esse alguém chegar. Minha sorte é que as decepções, as escolhas erradas, as pessoas ruins que deixaram coisas ruins, me impulsionam tanto a amar melhor, a amar os detalhes, o processo. Não sei se você entende, mas me veja, me sinta, observe como eu amo olhar as estrelas sem ninguém ao lado. Já sofri muito. Já amei demais uma invenção, amei junto, amei separado, porém sempre amei. Amor de carência, que seja. Hoje eu quero continuar amando, sem essa auto cobrança pra amar e ser amada por alguém só porque me sinto só. Quero seguir amando tudo, alguma história bonita, algum escritor que me inspira sensações coloridinhas e aconchegantes. Quero amar as folhas voando com o vento na praça. Quero amar os musicais da disney sozinha, por mim. Não quero precisar sentir só coisas boas pra me sentir feliz. Quero ficar sozinha pra amar tudo sem resposta, sem confirmação de reciprocidade, e, principalmente, sem exigir isso. Estar constantemente livre do sentimento que me obrigar a estar amando alguém me causa. Quero estar constantemente bem convivendo com o sentimento de amar a mim. Você imagina o quão ruim é viver com na presença de algo e não sentir exatamente tudo o que você precisa pra ficar tranquilo? É tão mais proveitoso estar livre pra amar o que eu quiser, seja esse algo animado ou inanimado, aeróbico ou anaeróbico, tanto faz. Eu prefiro amar uma sensação, uma viagem, um livro, um carinha legal que me faz sorrir, do que simplesmente viver presa a algo "seguro" pelo qual eu não sinto amor só porque me resgata dos meus abandonos? Quero dividir com alguém meu amor, sim, mas que seja uma troca justa. Por enquanto prefiro ele sendo só meu, sem dar nem receber. Prefiro ele comigo, se dedicando as minhas manias, as minhas risadas, aos meus passeios sozinha olhando pro céu, as minhas tardes bonitas. Eu quero o amor na liberdade que é poder conviver bem comigo, pra daí sim conviver com outra pessoa. Eu quero o amor nessa coisa de decidir que eu não preciso de alguém pra ser feliz, e que ser feliz não é sinônimo de ter alguém só porque a maioria das pessoas que se dizem felizes têm. A minha felicidade é diferente, eu faço, eu crio, eu invento ela sozinha, eu sei me virar. Quando há uma dívida, uma culpa, o amor se esvai, e quando estou só a culpa fica longe e eu não cobro nada de ninguém. Eu juro que se você pudesse me ver não me reconheceria. Eu vivi mais do que eu quis, mais da minha idade, mais da minha própria realidade. Agora eu só amo. Não que eu não queira, só não faço mais da presença de uma pessoa boa a razão pela qual eu deva sentir amor. Você vê como as coisas são, não é? Outro dia te confessei, me confessei, confessei pro mundo como é bom ter os "alguéns" que a vida nos trás. Não deixo de amá-los, apenas deixei de esperá-los. Sem pressa, talvez com alguns tropeços no meio do caminho, mas lutando pra me desfazer das ansiedades desnecessárias. Tudo mais leve, mais azul, mais rosa. Com as areias nos pés, com as dores no abdômen causadas pelo riso, não mais pelo choro. “E o resto que venha se vier", disse Caio. E eu te digo: que o resto não venha logo, só pra me deixar amar um pouco mais a felicidade de ser só.

domingo, 18 de setembro de 2011

Aula de Português

Textos que me fizeram pensar, sorrir, ou simplesmente viajar no meio da aula de Português:

"Arrumar o homem"

Não boto a mão no fogo pela autenticidade da estória que estou para contar. Não posso, porém, duvidar da veracidade da pessoa de quem a escutei e, por isso, tenho-a como verdadeira. Salva-me, de qualquer modo, o provérbio italiano: "Se não é verdadeira... é muito graciosa!"
Estava, pois, aquele pai carioca, engenheiro de profissão, posto em sossego, admitido que, para um engenheiro, é sossego andar mergulhado em cálculos de estrutura. Ao lado, o filho, de 7 ou 8 anos não cessava de atormentá-lo com perguntas de todo jaez, tentando conquistar um companheiro de lazer.
A ideia mais luminosa que ocorreu ao pai, depois de dez a quinze convites a ficar quieto e a deixá-lo trabalhar, foi a de pôr nas mãos do moleque um belo quebra-cabeça trazido da ultima viagem à Europa. "Vá brincando enquanto eu termino esta conta". Sentencia entre dentes, prelibando pelo menos uma hora, hora e meia de trégua. O peralta não levará menos do que isso para armar o mapa do mundo com os cinco continentes, arquipélagos, mares e oceanos, comemora o pai-engenheiro.
Quem foi que disse hora e meia? Dez minutos depois, dez minutos cravados, e o menino já o puxava triunfante: "Pai, vem ver!" No chão, completinho, o mapa do mundo.
Como fez, como não fez? Em menos de uma hora era impossível. O próprio herói deu a chave da proeza: "Pai, você não percebeu que, atrás do mundo, o quebra-cabeça tinha um homem? Era mais fácil. E quando eu arrumei o homem, o mundo ficou arrumado!"
"Mas esse garoto é um sábio!", sobressaltei, ouvindo a palavra final. Nunca ouvi uma verdade tão cristalina: "Basta arrumar o homem (tão desarrumado quase sempre) e o mundo fica arrumado!"
Arrumar o homem é a tarefa das tarefas, se é que se quer arrumar o mundo.
(Dom Lucas Moreira Neves, Jornal do Brasil, 1997)



Curriculum Vitae

Eu já dei risada até a barriga doer, já nadei até perder o fôlego, já chorei até dormir e acordei com o rosto desfigurado.
Já quis ser astronauta, violinista, mágico, caçador e trapezista.
Já confundi sentimentos, peguei atalho errado e continuo andando pelo desconhecido.
Já tentei esquecer algumas pessoas, mas descobri que essas são as mais difíceis de esquecer.
Conheci a morte de perto, e agora anseito por viver cada dia. Já fiz juras eternas, já escrevi no muro da escola, já chorei sentado no chão do banheiro, já fugi de casa para sempre, e voltei no outro instante.
Já saí para caminhar sem rumo, sem nada na cabeça, ouvindo estrelas.
Já vi pôr-do-sol cor-de-rosa e alaranjado, já me joguei na piscina sem vontade de voltar.
Já me apaixonei e achei que era para sempre, mas era um "para sempre" pela metade.
Já deitei na grama de madrugada e vi a Lua virar Sol, já chorei por ver amigos partindo, mas descobri que logo chegam novos, e a vida é mesmo um ir e vir sem razão.
Foram tantas coisas feitas, guardadas num baú chamado coração. E agora um formulário em interroga, me encosta na parede e grita: "Qual a sua experiência?"
Essa pergunta ecoa no meu cérebro: — "Experiência... Experiência" Será que ser "plantador de sonhos" é uma boa experiência?
Não! Talvez eles não saibam ainda conhecer sonhos!
(Autor desconhecido)


Sim ou não
O sim tem três letras
O não também
Talvez tem seis
Porque é a soma
do que os outros dois têm
A diferença entre eles é o til
Que o sim não tem
E o não tem sim

A gente só diz sim
ou não
E se, às vezes,
diz talvez
quer dizer
um desses dois
ou sim
ou não.

Pelo sim e pelo não
Não diga só talvez
diga não
não não é talvez
diga sim
sim não é talvez
ou não

(Alice Ruiz e Estrela Ruiz Leminski)

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Último texto.

Existe o último beijo, o último alô, o último abraço, a última despedida. Agora o que eu quero mesmo é ofertar um último texto, apenas pra finalizar tantos e tantos outros que fiz a fim de demonstrar amor, ou seja lá qual sentimento. Quero colocar a maldade de volta no envelope e devolvê-la ao remente. E gostaria muito de direcionar esse texto a você, meu querido, porém não sei se possuo tamanha capacidade para diferenciar qual de você merece mais. O você que você construiu pra mim, ou o você de verdade? Talvez os dois mereçam, não é? Tudo bem, então aí vai uma consideração para você que se construiu a fim especialmente para alguém - eu - altamente ignorável e pouco aproveitável. Para você eu não tenho ofensas ou ódio, apenas pelo fato de que também ajudei a te construir. Você se costurou, sim, mas eu te bordei paetês bonitinhos pra deixar a coisa mais alegre. E quem você era? Você era educado, gentil. Juro que nunca vi igual. Tamanha sutileza, elegância. Você conseguiu ser tudo o de mais perfeito, só não sei se a partir de uma verdade pessoal, ou se por uma necessidade em fazer com que os outros nunca saibam quem você é de verdade. Na verdade, agora acho que sei. Mas, de toda forma, você se construiu de um jeito realmente lindo, temos que concordar. Admirável a sua criatividade para criar um personagem tão real, sabia? Juro que quase acreditei que você poderia realmente existir, acredita? Se te amei? Amei, só não sei quem. Mas e você, se amou? Creio que sim, um criador sempre ama a sua criatura, não é? Você foi a sua própria criatura, obstinada a conquistar algo indefeso, algo que precisava de uma coisa tão perfeita quanto a que você se empenhou tanto em ser, em convencer. Você cuidou de você, de quem você criou. Fez com que ele pudesse ser aparentemente sincero em tudo, e olha só, você é muito bom nisso. O seu trabalho foi tão bem feito que eu até o aconselharia a não perder esse costume, mas o triste é quando quem você realmente é se mostra de verdade. Inevitável ele aparecer, ele está aí, ele é você. E agora, senhor de verdade, quem você é? Pelo visto é o contrário de tudo que criou, pois vejo uma coisa tão escura, tão triste, tão feia, que realmente custo a acreditar que possa um dia ter feito nascer alguém tão bonito. Ouço relatos de que você é do tipo que se dedica muito ao que quer até quando deixa de querer. E quando foi que você deixou de se querer? Sim, porque se precisa construir um outro muito melhor pra se dedicar ao que quer, é porque quem você é de fato não consegue sozinho, sem se inventar. Isso me faz pensar que há muito tempo você não se dedica a você, porque se talvez o fizesse não precisaria de tanto fingimento. Poderia ser o você que você é, menos falso e mais honesto. Honesto o suficiente pra não fingir dedicação nenhuma, bancando a transparência de quem é de verdade. A criação de uma criatura completamente diferente da sua verdadeira natureza não é uma forma de dedicação, é só maldade articulada. No fim, você não conseguiria ser diferente disso e mais real porque a gente só cuida da gente quando a gente sabe quem é. Você não cuida de você, você cuida de quem você quer parecer que é. Por puro prazer, quem sabe. E infelizmente da maneira mais sórdida possível. É uma válvula de escape pra escapar da pessoa nojenta que você sempre vai ser. Você se cria, não se mostra, só se cria. Você não é você. Você não existe. Ou, na verdade, quem você cria nunca vai existir. E eu compreendo a razão pela qual você insiste tanto em não se explorar, é bastante justificável, visto que você é um lixo. Um lixo não biodegradável, diga-se de passagem. E não pense que eu me importo por você não poder se reciclar, o problema é todo seu, o tormento vai ser todo seu. E você sabe disso, sabe que precisa ser quem não é pra poder agradar. Existe coisa mais deprimente? Certo que agora está feliz, as minhas cutucadas não são páreo para alguém que te convence exatamente do contrário. Alguém que acha que você é o que é, pelo menos até quando você não desistir, claro. Mas quem vai saber? E esse tempo de agora, a duração da sua felicidade, quem determina? Não sei. Que dure muito, que dure pouco, que não dure nada, que você morra. Imagina que simplório seria da minha parte dizer que no fundo você não é tão mau? Pois você é péssimo. Você é um monstro criado sei lá por quem, um monstro que cria outros monstros, e que cria outros monstros e outros monstros. Infinitamente: um monstro. Compare a minha mudança, procure nas outras páginas, analise o que eu te escrevi, leia a carta. Eu sinto dor? Não, eu sinto pena.

domingo, 11 de setembro de 2011

Reiventar-se

"Já me perdi no tempo e no silêncio que vem de ti
Já me esqueci no vento vendo o seu retrato.
É fato que eu não sei dizer ao certo se ter você por perto me faz tão bem
Mas que mal tem tentar, se depois eu tento te esquecer?

Roubaram tudo, só deixaram o desenho no papel
De você com a minha camiseta, sorrindo e olhando pro céu.
Apesar de tudo eu fiquei tão mais calmo.

Vem, me ajude a prosseguir que a vida segue
Com você aqui tudo é tão mais fácil
Então vem mesmo depois de tudo que passou
Se no final de tudo quem ficou foi eu
Mas o meu coração já se reinventou"

Composição do meu amigo Luis Henrique

sábado, 10 de setembro de 2011

O que te serviu me serve agora.

"Que se rale o coração, logo essa sensação de não estar fazendo nada que eu quero se perde dentro dos meus dias. Ou melhor, logo ela acaba. Acaba junto com esse amorzinho lindo que me jogou sem dó nem piedade nessa patifaria que é a vida de quem se deixa levar pelos outros e seu embalo egoísta. Afinal, pra quê ter replay do que não presta? Do que não vinga nem na bala?! Que pegue suas noites silenciosas depois que a música acaba, junte com a vontade de conversar com alguém que não existe e coloque no lugar de tudo de ruim que sente. Não quero mais. Nem as noites pingadas das últimas semanas e nem os dias inteiros com que eu sonhei. Nem quero que leia minhas mensagens,(...) nem quero mostrar o que eu estou aprendendo. (...) Nem quero que sinta falta, eu sei que não vai sentir, mas não quero nem que leia. Eu escrevo pra mim e no máximo pro mundo ler e me fazer criar vergonha na fuça pra nunca mais chegar perto de querer entrar naquela cretinice nojenta. E se tá difícil aí pra você com toda essa necessidade que você tem de ganhar carinho, como eu já disse, pega o que sobrou e se ocupa com isso antes que a situação piore. Pega a metade popular e conhecida da missa e fica com ela. (...) Ficar com o que você gosta e com o que gosta de você não vai ser sacrifício. Sacrifício vai ser você ter dignidade pra honrar alguma coisa, mas isso não é mais problema meu. Já que estou sendo sincera, saibam vocês que dói não querer mais. Saiba você: Dói não querer mais querer algo que um dia já se quis tanto. Além de querer pra sempre, eu queria querer pra sempre. Vocês não têm idéia de como eu posso ser forte quando decido querer alguma coisa, e agora me parece que eu vou descobrir o quão forte posso ser quando decido não querer." - D.C


É, querida, eu que sempre te julguei como a louca desvairada que não superava o primeiro amor, agora entendo cada linha que transmite toda a revolta de ter vivido e de ter querido viver tanta coisa. Entendo de toda essa cretinice suja que invade até a alma. Entendo o que falta em um coração antes tão "disputado" por nós duas e hoje refém de um sorriso desconhecido que não é nem o meu nem o seu. A verdade é que o sorriso não me importa, e provavelmente não te importa também. A verdade é que nada me importa, talvez me importe apenas dizer que, é, eu entendo da cretinice pela qual você passou. Pela qual estou passando agora. A sensação de sujeira em mim, no meu corpo, nos meus cabelos, nos meus ouvidos, é maior do que a de passar um dia inteiro de baixo do sol ou suando em um ônibus lotado. Você me entende, não é? Pois bem. Se hoje você consegue ser razoável e aceitar, essa é uma virtude que o tempo te deu de presente. Talvez um dia ele também me dê. Mas agora só consigo entender da patifaria, da falta de caráter, da baixeza imensa que, por vezes, até tenta me derrubar junto, mas me mantém muito, muito acima de tudo. Não, eu não quero que meu ódio esteja acima do "amor" de ninguém. Não quero impor isso a uma mente tão pouco provida de verdade, de coerência. Eu já disse tudo o que tinha que dizer, já me desfiz de toda a sujeira que depositaram na minha cabeça, e nada dói, nada machuca. Fico admirada com tamanha proeza vinda das minhas reações, mas ainda assim sinto uma infinita vergonha do mundo, do lugar que pode ser habitado por gente assim, gente má, egoísta, infeliz. Deus não mata, mas castiga, não é?

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Cuspida

Aquele momento que você começa a perceber que a vida nada mais é do que um presente ruim que você ganhou e não veio com a nota de troca. Tensão tensão tensão. Choros, medos, ataques histéricos de raiva do mundo, dos cabelos lisos, dos olhos azuis, dos sorrisos aparentemente sinceros. Eu tenho que conviver com a tensão que eu gero no resto das pessoas quando eu chego perto. Ih, se protege, ela ta chegando. O que é aquilo? Uma pedra na mão? É. Exatamente! Ninguém entende, né? Ninguém entende do meu prazer em errar, em ser estúpida, em brigar, em gritar. Ninguém consegue entender. Eu tenho que aceitar todo mundo sendo normal enquanto eu odeio a normalidade. EU TENHO, lógico. Joga nas minhas costas largas as suas frustrações, pode jogar. Joga aqui que eu aguento. Não é assim? Eu sei que eu não tenho razão, eu sei que eu sou uma infeliz desprovida de argumentos que já está em posição de defesa desde a hora que acorda de manhã. Alerta pra todos os lados. Ops, isso aqui é uma ironia? Se for, corre! Aliás, odeio esses "ias". Ironia, grosseria, antipatia. São os mais usados pelas pessoas na hora de me definir. Irônica, grosseira, antipática. Por que eu tenho que ser "ável" todo o tempo? Adorável, sociável, amável? Eu não quero, me deixa! Todo mundo critica, todo mundo pega no pé. Pô Carol, vacilou. E você não vacila nunca? Muito prazer mundo cheio de pessoas perfeitas onde eu sempre sou considerada a mais descontrolada. Você é muito gentil, sabia? Sim, eu simplesmente amo as pessoas que você coloca pra conviver comigo. Eu amo o moralismo delas, e também amo o fato de elas serem boazinhas o tempo todo. Eu amo elas nunca errarem, nossa, como eu amo a perfeição de todo mundo. Eu amo todos os avisos de que eu estou sendo injusta, eu amo mais ainda todas as expressões de desaprovação para com os meus comentários infelizes. Não, eu não faço sem querer não. Eu faço tudo intencionalmente. Todas as minhas atitudes são friamente calculadas pra que eu realize o meu objetivo de maltratar todos vocês. Juro. Eu durmo e acordo pensando no jeito de como eu vou ser cruel, todos os dias. Sim, porque a verdade é que eu não posso ficar chateada nunca, não é mesmo? Eu sou a experiência divina mandada ao mundo pra testar a paciência das pessoas e o quanto elas conseguem ser certinhas o tempo todo, educadas o tempo todo. É verdade. Eu nasci pra errar, eu nasci pra errar os erros que ninguém mais erra. Porque o mundo não poderia ser tão mau quanto eu, não é verdade? Se fosse assim, imagine só o caos que estaríamos vivendo!

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Uma em ponto

É tarde, passa da meia-noite e sabe aquele zumbido que fica no ouvido quando o silêncio é absoluto? Pois é. O tamanho do quarto não faz jus ao tamanho da alma, ao tamanho do querer, ao tamanho de tudo que não é meu e deveria ser. O zumbido agonia e não tem culpa por simplesmente surgir já que o barulho não existe e o silêncio é inevitável. Escrever não ajuda, mas alivia. Alivia o que mesmo? A pausa nos sentidos inerte graças ao silêncio ou à ausência? A ausência não é mais um problema, o problema é não haver problema, quando fica tanto faz. É como quando alguém decide ir embora por conta própria e você se machuca, mas o orgulho faz pensar que já que você não faz falta pra esse alguém, esse alguém também não deve fazer falta pra você. E faz? E todas as decisões feitas baseadas em um futuro instável, inseguro, valeram a pena? O zumbido continua e ausência até invoca um amor próprio tímido, acompanhado de um amor pela vida, pelas oportunidades perdidas, por aquele do passado que queria dar o mundo mas foi recursado. E nem existe arrependimento, era mundo demais pra mim. Ou será eu que era demais pra aquele mundo? Quanta prepotência! Mas justa, era um mundo pequeno, ainda. E nada facilita mesmo. Tem gente que não nasce pra viver pedante diante da vida, diante das pessoas, diante de uma verdade que não condiz com a realidade. Eu estava pedindo demais antes desse zumbido todo. Sei que às dez pra uma da manhã esse zzzzzzzzz se ameniza junto com a falta, e o sono chega, e a casa, já vazia de verdades imaginadas e querências de amor fajuto, só espera por mim. Nesse quarto pequeno, com cama pequena e já grande demais pra acomodar todas as perturbações e oscilações de humor que trago junto às roupas que me aqueceram ou fizeram sentir calor durante o dia e, há uma hora dessas, se perdem junto das roupas dos outros dias num leve tirar e num brevissímo se jogar na cama vazia. Sim, é preciso colocar toda essa roupa pra lavar. 

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

De mim para mim.

Há quanto tempo você está se dedicando, menina? Você não percebe a mania que tem de se envolver em eternidades momentâneas? Não dura, nada dura pra você. Esse amor, como todos os outros, não vai durar. Você relutou choros e gritos e murmúrios graças às improbabilidades, agora você está ai, completamente seca. Você sabe que dói, mas você se anestesia nem sei com o que. Você entrou em uma cápsula de proteção blindada, ninguém entra e ninguém sai. O que você acha disso, menina? O que você acha também de andar iludindo corações que amam, igualmente como o seu amou? Eles não são todos iguais, meu bem. Eles são todos lindos. Uns mais possíveis, outros não. Uns são mais desejáveis, já outros, considerados por você como meramente aproveitáveis. E o que você acha disso? Algum deles te estragou, não foi? Eu lembro de você tão doce, tão esculpida para amar. Agora você está ai, completamente seca. Não te dói além da dor que ele deixou a dor também de não conseguir amar além, mesmo tentando? Eu percebo seu esforço por algo real, mesmo que cansada dos irreais. Aceite meu conselho, acredite nas minhas crenças, eu sei que esse algo real existe. Ele chega em nova forma pra você todos os dias, no mesmo fluxo de rapidez com que você sempre olha olhos desconhecidos. Na realidade, esse fluxo de rapidez já pode ser considerado algo real, algo real diário, que dura milésimos de segundos. E nós podemos treinar essa sua habilidade, meu amor, o que você acha? Treinar até o momento em que você finalmente se desprender de tanta secura. Você sabe que pode. Você lembra que me disse que gosta dos risos bons que alguns te causam? E com ele você já não se preocupa, você me disse. Você me disse que ele, além de ter vários outros imprevistos, também é cheio das indecisões. Eu entendo tanto o seu desejo de certeza, sempre te entendi tanto, menina. Sempre tão convicta e necessitada de segurança. Eu sei que te fizeram acreditar que você não tem mais que esperar mais nada de ninguém, e dou razão, aceito, concordo, só não apoio. Não apoio porque eu te via linda demais esperançosa. Teu brilho nos olhos era gerado daquela certeza de que algo bom sempre te esperava a cada esquina. E aquele seu otimismo incomparável de: "Se não foi nessa esquina, vai ser na outra". Não se perca das suas próximas esquinas. Ou, aliás, se perca sim. Sempre existirão esquinas, em todos os lugares, só não se distraia, só não ande olhando pro chão. Eu sempre te admirei tanto, e sempre gostei tanto dos seus pensamentos maduros e tão pouco egoístas. Eu sempre estive aqui, sempre, desde que você nasceu, nós sabemos. Nós fomos deixando de ser crianças, só nos separamos pra que eu sempre pudesse vir te dizer o quanto te gosto e o quanto te quero menos desacreditada nas coisas. Aceito seu egoísmo agora, aceito. Aceito que você tenha que acordar dos sonhos malucos, colher os frutos podres que você plantou e não regou. Eu aceito que você pense em si, esse trabalho não podia ficar todo pra mim. E da mesma forma, aqui, te encontro você. Pensando em si pra não me deixar trabalhando sozinha, sim, porque eu só existo pra pensar em você e nas suas fragilidades, e nos seus medos, e nas suas agonias, justamente pra que a gente chegue até aqui. Até quando você tenta ser egoísta você pensa em alguém. Por mais que esse alguém seja eu, você. Seus amores tem sido frustrados, até hoje não deram muito certo, ainda. De certa forma são meus amores também, mas nós duas sabemos que você sempre foi a parte sensível de nós. Agora você está ai, seca. Tentando imitar quem? Tentando ser quem? Eu que sempre fui o equilíbrio entre a realidade e todos os seus devaneios? Eu te quero protegida por você e por mim, como tenho feito, como temos feito. Vamos dar um jeito. Só não corra mais dos seus desejos tão bonitos. Não é porque você conheceu o amor uma vez e está querendo fugir dele agora que vai ter que fugir sempre. Existem tantos tipos de amor que nós ainda não conhecemos. Você é responsável por essa parte, pelo amor. Não nos tire a chance de amar de novo. Nem foi tão séria assim a sua decepção. Ela só é canalha, infeliz, maldita, mas séria? Quem disse? Seu destino te apresentou o errado certo. Foi assim. Dê-se a chance de conhecer os certos errados que têm por ai. Certo sempre foi chato demais pra você, não foi? O errado sempre tem que estar no meio por uma questão de turbulência necessária. Gente como você que só sabe viver nos extremos, nas intensidades. Eu te admiro por isso. Tão cheia de energia, e de sorrisos, e de abraços, e de beijos. Existe alguém no mundo que pode te odiar tanto? Quem tem feito isso é você. Não se odeie. Você está se sentindo como uma moça muito só, que lê um livro lindo, chora de deleite profundo, se vê rompendo linhas tênues entre tudo o que você queria viver e não pode. O livro é lindo, eu sei. O príncipe é lindo, tudo o que você sempre sonhou. Então você quase acredita que há um envolvimento entre vocês. Você aqui, lendo, e ele lá, vivendo. Ele tem princesas na história, ele corre até elas e ama, isso dói em você. Mas você sente que se pudesse entrar na história estaria agarrada na cintura dele cavalgando junto no cavalo branco, não é? Você não pode, meu bem. E mesmo com a quase certeza de que ele te amaria se você fizesse parte da literatura dele, o amor entre vocês é completamente impossível. Vamos aceitar isso? Vamos viver no mundo real agora, vamos? Existem tantas sensibilidades perdidas e tão pouco exploradas por aí. Deixa que uma hora você dobra na esquina certa. Mas não perde isso, meu bem. Deixa o tempo passar e curar teus joelhos machucados até a hora em que você puder correr de novo e sem muito medo de cair. O problema não está em machucar os joelhos, o problema está em machucar em cima dos machucados, pois vai ser sempre mais difícil de cicatrizar. Eu te amo, menina. Você é linda, e a gente vai sair dessa.