... Subentenda-me: 2026

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Inferno astral

Eu tinha acabado de me dar conta de que toda lucidez que eu achava que tinha alcançado era ilusão. Não me despi de nenhuma necessidade de representação. Nunca. Intelectualizei tudo, bem rainha de espadas. Mas a racionalidade adoece. Nunca me curei. 

Segui me explicando tim tim por tim tim. Cada passo, cada impulso, cada palavra. Lá estava eu fazendo exatamente o que eu tinha acabado de me dar conta que era problemático fazer. Lá estava eu fugindo pros mesmos lugares mesmo depois de conscientemente perceber que o tempo todo tudo sempre foi uma fuga. 

A fuga do medo, do pavor. Medo de perder, medo de não estar preparada pras surpresas desagradáveis da vida. Medo de encarar a realidade de frente e aceitar que eu não faço outra coisa senão me proteger de quem eu sou mas não tenho coragem de ser.

Me dei conta de um jeito avassalador de todo o luto que resisto loucamente de sentir, de permitir que me invada. Por quê? Porque eu me acho muito realizada pra sofrer, ao mesmo tempo que não sei me sentir digna de viver se não estiver sofrendo por algo. Porque não quero ser ingrata. Porque enquanto acho que me atendo, enquanto deixo minhas lágrimas aparecerem, é justamente quando mais resisto.

Não é nem nunca foi choro de quem tem a delicadeza sutil de se permitir não refletir nada no espelho, de quem aceita não ser nada. Não. Sempre foi choro de quem se engana, se conta histórias, cria suas narrativas confortáveis pra seguir se protegendo, se nutrindo dos mesmos sofrimentos de sempre.

Sempre chorei choros de dores sabidas, conhecidas, que me blindavam das dores imprevisíveis. Eu achei que era choro de cura, mas nunca foi. Talvez agora, finalmente, seja. 

Ou eu quero urgentemente que seja, porque eu preciso sentir que posso fazer por mim tudo. Me garantir a saúde mental, emocional, que sempre me prometi.

Eu continuo mentindo pra mim mesma mas eu sei, no fundo eu sei, que não sei nada. Que estou perdida. Perdida e sozinha sem poder chorar pelo o que realmente quero. Sem poder chorar sem outros motivos que camuflem minhas verdadeiras razões pra sofrer. 

Razões essa que sempre me acompanharam mas me acostumei a ignorá-las e a criar fantasias sobre elas. Inconscientemente me obriguei a achar que tudo sempre teria um final feliz, que desejos seriam realizados e que quando isso acontecesse não seriam revelados os pormenores que estavam ocultos por esses tais desejos. Como se eu não fosse nunca perceber que mesmo no melhor dos cenários tudo sempre seguiria me tumultuando. 

Agora eu sei de tudo mas eu não sei abandonar. Não sei deixar de ser quem eu sou porque eu sempre fui tudo isso. É que eu só sei existir se eu puder assistir a esse filme conforto. 

Temo a realidade. Temo o desconhecido. Temo tudo o que eu sempre achei que encarava com desenvoltura. 

Agora estou aqui sentindo o peso do meu corpo, com uma agulha no braço direito. Rodeada de tosse e luz branca, sentindo as lágrimas escorrerem sem eu fazer força. É um lugar seguro pra chorar pelas mentiras que sempre me contei. 

Quando o impacto atingiu meu carro por trás eu não estava presente, mas fui absolutamente puxada pra isso. Pro presente, pro concreto, pro material. É como se a vida me obrigasse a encarar o espelho, de um modo a me desfazer da minha imagem, do meu ensaio. 

Não tem ninguém aqui agora, estou estraçalhada como o meu carro, invisível como achei que já tinha me permitido ser mas na realidade nunca consegui.  

Esse texto não é um registro da minha cura se aproximando, e sim a mais pura demonstração de que estou longe dela. De que estou querendo, a todo custo, alcançar o que me dizem pra fazer. E me dizem pra abraçar o obscuro de mim, porque é quando mais me encontro. Quero fingir que estou fazendo isso, sempre em busca de mais sanidade, de mais controle, de menos culpa. 

Eu só faço o que eu acho que é certo e isso me afasta do que eu quero que seja certo e, no fim, eu não estou fazendo nada, só estou mentindo, fantasiando, alimentando as mesmas dores conhecidas pra tentar me proteger. 

Talvez agora eu, pelo menos, esteja sendo honesta sobre saber que tudo isso que eu faço é quase o mesmo do que escrever uma novela pra eu mesma encenar. O cenário onde sou a atriz, a diretora, e a plateia. Não quero mais. Estou, mais do que nunca, exausta. 

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Cabelo branco

Estávamos, minhas amigas e eu, rindo e contando sobre a nossa juventude. Compartilhando os relatos açucarados, os amores, as fugas e as memórias. Em dado momento, eu, sempre enérgica, performática, levantei e me utilizei dos meus habituais gestos e trejeitos afoitos pra argumentar com certa valentia que não importa a minha idade, ainda que eu tenha oitenta anos vou continuar me sentindo jovem. 

Relatei às amigas a conversa sobre esse mesmo assunto que eu tive com meu marido outro dia quando estávamos no trânsito. Deixei mais do que registrado, tanto pra ele quanto pra elas, que meu objetivo de vida é ser velha e feliz. Esse é o plano.

Manifestei que meu desejo é poder acompanhar o tempo passar de um jeito suave, sem lutar contra mas sem me submeter à deterioração. Quero seguir conformada, sentir a emoção de envelhecer sem sucumbir à idade, às convenções que eventualmente ainda existam e queiram me anular enquanto pessoa velha que serei. 

É certo que só não envelhece quem morre, então afirmei veementemente que estou preparada. Eu não quero morrer cedo, e pretendo seguir assim, viva e jovem, com toda a idade que me vier. 

Acontece que a vida é engraçada e surpreendentemente irônica. No meio desse papo calcinha, uma breve ida ao banheiro me suspendeu bruscamente da fantasia da juventude permanente que eu estava esbravejando como sendo meu destino. 

Eis que não passaram nem dez minutos de toda essa conversa fiada e uma rápida olhada no espelho enquanto eu lavava as mãos me apresentou ao mais emblemático representante da passagem do tempo: um cabelo branco. Sim, meu primeiro cabelo branco. 

Inacreditável. 

Fiquei atônita. Ri sem parar diante de tamanha piada que a vida estava me contando. Meu coração até acelerou. Ao meu lado, minha amiga testemunhou essa gracinha de Deus. Ela também não estava acreditando naquele timing perfeito. Choramos de rir. 

Adorei vivenciar essa surpresa engraçada. Gosto que a existência de vez em quando nos sujeita à esses eventos sincronizados. Foi hilário. 

Mas, apesar disso, depois do pico de serotonina, é claro que minha cabeça que insiste em pensar demais começou a cutucar meu coração com vara curtíssima. Passei a sentir uma angústia, uma agoniazinha. 

Lembrei de quando encontrei meu primeiro pelo pubiano, as angústias foram parecidas. Visualizar registros da passagem tempo em tempo real angustia mesmo. 

E não é que eu tenha sofrido pelo meu primeiro cabelo branco, mas devo admitir que me vi, inevitavelmente, diante de uma marcante melancolia por ter que lidar com mais uma despedida. 

Antes, quando a angústia era por conta do pelo pubiano, era a despedida da menina que se tornava mulher. Agora, seguirei mulher, mas me despeço das minhas cores. A maturidade descolore algumas coisas mesmo, por mais que a gente não queira. A natureza é infalível.  

Esse cabelo branco danado trouxe consigo uma carga que eu estava evitando, desviando ao máximo. É claro que tenho sentido o tempo passar, mas tento não aprofundar meus pensamentos nas dinâmicas do tempo justamente pra conseguir lidar com mais leveza.  

Mas o bendito cabelo branco me fez atentar pra alguns detalhes do cotidiano que, apesar de imperceptíveis, estão lá, fortemente presentes. Eu os ignoro, mas estão lá. 

Logo lembrei da realidade mais gritante que me escancara o passar do tempo: não tenho mais uma bebê em casa. 

Quando isso aconteceu? 

Não que eu não tenha percebido, mas opto por ir seguindo o fluxo das transformações pra não sofrer. 

Acompanhar uma criança crescer é mágico e único, mas também contraditório. 

Outro dia mesmo quando cheguei em casa ela estava olhando pela janela com cara de sono, tinha acabado de acordar. 

Ela, hipnotizada olhando pra longe, pensando pensamentozinhos distantes. Eu, dentro do carro, hipnotizada olhando pra ela. 

Não demorou muito e ela acordou do transe, e eu também. Lamentei tanto não ter pegado o celular pra registrar pra sempre aqueles olhares, aquela expressão, aqueles cachos. Aqueles segundos me escaparam tão rápido. Eu queria morar dentro daqueles segundos. 

E de repente me invade um medo tão grande de perder da memória. Essa é uma das maiores angústias da maternidade. A contradição de que em muitos momentos a gente quer que o tempo passe, mas enquanto está passando queremos que seja eterno. 

Eu quero eternizar muitos momentos e não posso. Ela está mudando o tempo todo e nunca mais eu vou poder experimentar de novo tantos inícios. 

Daqui a pouco tempo ela vai tomar banho sozinha e não vai precisar mais de mim pra não deixar o shampoo cair nos olhinhos, pra cantar juntas a música do ratinho tomando banho e pra dançar Livre estou como as próprias Elsa e Anna. Queria poder guardar tudo isso pra reviver sempre que me desse saudade. Não posso. 

Até outro dia ela falava igual ao cebolinha e agora pronuncia o R perfeitamente, enrola a língua toda orgulhosa. Eu vou sentir tantas saudades daquela cebolinha. 

Finjo que não vejo pra não doer tanto, como doeu agora que esse cabelo branco me lembrou dessa realidade efêmera, que ao mesmo tempo que é linda, é breve. Esse tal cabelo branco que me lembrou que daqui a duas semanas ela faz quatro e em mais alguns dias faço trinta e um. 

Trinta e um e um cabelo branco (até onde se sabe). 

Sei que meu discurso em prol do prolongamento da minha juventude não foi da boca pra fora. De fato não tenho medo de envelhecer, mas isso não significa que o passar do tempo não possa me doer. Essa é a grande reflexão que o cabelo branco me provocou.

Me dói a filha que cresce rápido demais, e me dói também outro fato que o cabelo branco me lembrou: em breve eu nunca mais vou ter trinta e poucos anos. Eu, que já nem tenho mais vinte e poucos anos mas sinto como se tivesse quinze.

O tempo passou e algumas chances também. E não há nada que se possa fazer pra voltar no tempo e encaixar nada em tempo nenhum. O que passou, passou pra sempre. 

Eu não renego nada que me ocorreu. Eu amo tudo e viveria tudo de novo, com os exatos mesmos personagens. Gosto do que me tornei e me tornei o que sou a partir de tudo o que passou por mim. Mas, mesmo assim, não posso negar que dentre as coisas que me escapam e sempre me escaparam, algumas teriam se encaixado muito bem nos meus vinte e poucos anos. 

Ainda que fosse pra dar errado como deu todo o resto. Eu ia adorar ter vivido um erro bem específico. Um erro que eu gostaria que tivesse sido um grande erro pra que, quem sabe, eu nem precisasse reescrever minha história. 

Um erro que me permitisse estar aqui, exatamente aqui, lamentando o crescimento da mesma filha, rindo com as mesmas amigas, no trânsito com o mesmo marido, sentindo outra falta qualquer no mundo físico dos meus vinte e poucos anos. 

É doído que eu pense nisso agora por conta desse cabelo branco, mas é irremediável e humano também. A fantasia tem dessa mania de criar cenários, e esse seria o melhor dos mundos: um erro de fato vivido e finalizado. Como todos os meus outros erros. Um erro inofensivo.  

Lamento que algumas coisas sempre vão me acompanhar. É a vida. Assim incontornável, incontrolável, não editável. 

O meu cabelo branco de agora e os que ainda virão vão me lembrar que eu nunca mais vou ser quem fui, que eu nunca mais vou ter a possibilidade de realizar sonho nenhum na janela da minha juventude. Nem que eu permaneça jovem, o tempo passou e nada vai resgatar esse tempo, a não ser minhas memórias. E, para os primeiros anos da minha filha, nem a memória conforta. Eu sempre vou querer reviver.

Sinto e lamento as impossibilidades em torno do tempo.

Lamento o tempo tirando de mim a infância da minha filha, tirando a minha juventude que nunca mais vai poder conhecer um mundo diferente do meu. Lamento profundamente apesar de amar a vida, amar a oportunidade de estar viva pra achar meu primeiro cabelo branco. 

Mesmo assim, ainda que o coração tenha ficado pequeno, sigo defendendo que minha velhice será jovem. Eu sei que o tempo passou e vai continuar passando, por isso aceito a filha que cresce, aceito os desejos que ficaram pra trás. Mas difícil, difícil mesmo vai ser aceitar que, infelizmente, eu sou alérgica a tinta pra cabelo. 

Can I handle the seasons of my life?

domingo, 19 de abril de 2026

Nem sobra tanta falta assim

Escrevo muito sobre o que me falta, mas e sobre o que me sobra? Por que não escrevo? Sempre pensei que é porque o que me sobra não me deixa desperdiçar tempo. Meus excessos me ocupam porque me têm. Me têm nos detalhes de mim que minhas faltas nunca terão, porque minhas faltas são imaginárias. São o vazio. Necessárias, sim. Mas eternamente a ausentes de mim. Distantes do que é me possuir. E o inverso também é verdadeiro. Não tenho o que me falta, por isso falta. Para além da inexistência da contemplação escrita do que possuo, o que falta me inspira num lugar diferente. Me inspira num infinito de possibilidades inexploradas que eu julgo como imprescindíveis pra me fazer viver a presença ainda mais presente. Por mais contraditório que seja. Minha mente tem seus momentos de subdivisão, e quando lembro das minhas faltas no cotidiano, em contexto onde eu não possa explorar o inexistente escrevendo, me agarro no que não possuo pra me entregar com mais força ainda ao palpável. Não sei explicar. Me dá vontade de amar ainda mais intensamente, rir descontroladamente, me irritar profundamente. Meu sangue ferve com a minha vida enquanto ela acontece. Meu normal é mergulhar fundo nos desdobramentos de tudo. Não economizo dedos, ouvidos e voz. Eu me dou por inteira. Eu me doo. Eu sinto tudo, eu me divirto, eu choro, eu pulo, eu danço. Eu gargalho alto. E se nesses relances me surge a súbita lembrança do que não tenho, me recarrego de mais energia pra entregar o dobro. Não sei. Meus anseios fazem eu me jogar ainda mais pra vida, até nos cenários menos favoráveis. Eu gosto disso. E não que eu exatamente queira o que me falta. Nem todos os meus desejos são realizáveis. Mas preciso deles pra lembrar de mim. Desejo o que ainda quero ter e o que não posso ter. Amo e sigo desejando sem fazer distinção. Me alimento disso, faço de combustível pra inflamar ainda mais a minha chama. É material e não é. Quero tudo, até querer o que não quero. Alguns desejos existem apenas pra serem desejados, pra serem gasolina. O fogo que eu de fato quero já queima, e queima alto. A vida sobre a qual eu não escrevo porque é muito gostosa de viver requer muito de mim. Dessa vida eu não me ausento, exceto quando eu escrevo e mergulho no irreal dos meus desejos. Essa vida que me tem com mais força quando meus desejos me sacodem enquanto vivo porque é como se a irrealidade deles me lembrasse de desfrutar e sentir ainda mais prazer pelo o que é real. O meu real que se me faltasse eu morreria. E morreria numa morte que não seria morte de transformação, mas morte de desgostar da vida. Eu amo tanto meu real e não escrevo sobre porque é tão melhor me deleitar da realização de sonhos antigos. Eu não imaginava uma família tão bonita, uma filha tão bonita, uma casa tão bonita, com amigos tão bonitos. Eu não me imaginava, um dia, tão bonita. Mas tenho e sou. Além da imaginação, há um mundo de toques e cheiros e cores. Um mundo de sensações, de abraços e beijos e choros. Um mundo de encontros e reencontros longe da tela, dos memes, dos produtos. Nesse mundo que eu habito e me entrego e gosto de me entregar inteira. Um mundo de posses em que eu também sou possuída e possuo, em proporções equivalentes, com gozos compartilhados. Sinto que eu tirei o bilhete premiado da vida. Sinto a sorte, me sinto forte. Sinto que quitei minhas dívidas e que não preciso de troco. Não quero troco. O que eu tenho me supre, me sobra. Sempre sobra. Quando tudo está escasso, a vida me surpreende com o dobro. O dobro de amor, o dobro de segurança, o dobro de lealdade. Na verdade, a vida multiplica. Mas multiplica porque aprendi a fazer a conta certa. Ninguém multiplica subtraindo. Parei de subtrair de mim o que não me dá retorno. Business, investimentos. Eu não gasto mais um tostão se não for pra ganhar dois. Essa analogia com dinheiro é boa porque não há nada mais material do que o dinheiro. Eu gosto de dinheiro, gosto que construímos uma boa relação, sem dependências. Gosto que ele não me sustenta, mas me apoia. Se estou falando sobre o que me sobra ele também precisa aparecer. Daqui eu espero multiplicá-lo como a vida tem feito com as minhas felicidades todas. Essa vida que me presenteia com a simplicidade de um domingo completo, com o barulho da chuva, numa cama grande, quente, aninhada de amor e filha que dormem o sono que eu mais amo contemplar. Eu tenho tudo. Tenho e quero mais. Mais filhos? Quem sabe? Mais ninho e mais sorte eu sei que quero. Certo que agora exatamente eu não quero nada, nem mesmo um sol. Tá gostoso aqui porque estar aqui me remete à força de quem está segura porque é amada. Estou segura enquanto chove. Segura de que o sol vai voltar, e mais segura ainda de que, independente de que tempo faça lá fora, eu sou amada. Foi exatamente isso que eu pedi. Essa vida que tem sabor de ovo de Páscoa com recheio de morango que estava esquecido na geladeira e foi achado despretensiosamente. Essa vida que tem a graça de filha pequena que se lambuza comendo esse tal ovo de Páscoa. Essa vida alegre como quem se acaba de rir fazendo montinho em cima de mim, e me aperta com força enquanto eu, involuntariamente, grito gritos semi eróticos. O peso de homem me ativa gemidos, é mais forte do que eu. E se me ofertassem viver qualquer desejo impossível, eu negaria. O desejo impossível só me serve pra ser desejo. Viver desejo nenhum me serve se não couber nesse meu ninho, nessa vida colorida. A cabeça inventa mas sabe que já tenho quem me aguente, quem me segure, quem me suporte. Eu não sou fácil. Não é fácil me satisfazer, não é. Eu não aceito pouco, sempre digo. Que eu siga desejando, inventando e criando onde o imaginário não afeta a minha realidade de pessoa satisfeita. Satisfeita até com o que me falta. Satisfeita, feliz e sem arrependimentos. Satisfeita, forte e livre das amarras de um ego inflado. Satisfeita, estável e leal. Satisfeita e corajosa. Eu sou tanta coisa. E eu saber disso não infla meu ego, solidifica ele. Eu, hoje, consistente de mim. Eu, hoje, usufruindo das relações saudáveis, enxergando quem é quem, abrindo a porta da minha casa só pra quem não me olha com olhos de quem calcula quem tem mais e quem tem menos. Eu, sabendo reconhecer as entrelinhas, me afastando das pessoas certas que eram erradas, me redimindo com as pessoas erradas que eram certas. Eu, sem orgulho, completa mesmo nas oscilações, consciente de mim. Disposta, sempre disposta. E por isso, agora, nada mais me importa. Até o tempo pra escrever sobre o que eu tenho me sobrou. Sempre sobra, nunca falta. Sobram mais dias felizes que eu quero viver desesperadamente presente. Seja no sol da praia do farol velho, correndo pela areia, olhando o céu mais bonito do mundo. Seja aqui, assistindo pela janela as plantas do meu jardim mais verdes do que nunca balançando e tomando água. Eu sei que não dá pra ter tudo, mas, se prestar bem atenção, dá sim. 

terça-feira, 7 de abril de 2026

Atualizando minha lista de ódios

Eu odeio quem puxa o freio de mão a cada sinal fechado. Isso não tem propósito. Odeio esperar. Odeio sentir fome e odeio também o mau humor que eu fico quando estou com fome. Odeio meu trabalho naquilo que envolve meu trabalho. Apesar de amar quem divide os dias obscuros comigo e deixa tudo mais leve. Odeio a cara de pau de quem acha que pode fazer o que bem entende com o dinheiro público. Odeio muito quando chove e eu não estou em casa. Odeio borrar as unhas do pé recém feitas. Odeio. Odeio mais do que borrar as unhas da mão. Odeio aquela velha chata e mal amada de energia ruim. Odeio ser alérgica. Odeio mais que tudo no mundo quando a Livia adoece. Apesar de ser fofo, odeio quando o Diego fala sem parar sobre as mudanças que ele faria em cada ponto problemático da cidade e como ele repete todas as vezes que passamos por cada ponto, quase todos os dias. Odeio, mas finjo que ouço com atenção, me indigno e ainda incentivo toda a revolta dele. Odeio quando alguém que costuma me chamar por determinado nome meu, resolve me chamar por outro. Odeio quando a minha mãe ainda tenta me controlar. Odeio quando ela está de mau humor e automaticamente me contamina. Odeio o fato de ela ser a pessoa mais ingênua e trouxa que eu já conheci. O que falta nela é ódio. Odeio quando eu odeio ela, mas odeio. E odeio de forma proporcional ao amor que sinto por ela. E sim, eu amo muito. Odeio o meu chefe, odeio a burrice dele, o mau caratismo dele, a presença dele. Meu Deus, eu odeio muito esse homem! Odeio como ele subestima a todos enquanto que ele é o maior panaca da face da terra, plagiador, ambicioso, miserável e infeliz. Ele jura que ninguém percebe. Odeio que meus joelhos entregam que não tenho mais vinte e poucos anos. Odeio quando eu mexo no que tá quieto na tentativa de viver bem com o meu passado, mesmo sabendo que viver de passado é viver enterrada entre as coisas que não podem mais voltar. E também odeio essa minha mania de tentar estar em paz com tudo, enquanto que eu sei que isso é uma grande ilusão. Odeio ficar procurando sentidos, elaborando até exaurir. Odeio porque nada faz sentido, e nunca vai fazer. Nem eu. Odeio que todo mundo acha que a minha casa virou um salão de festas e agora tudo precisa ser aqui. Odeio até a hora de começar a festa, porque quando começa eu gosto. Odeio quando surge uma demanda urgentíssima justamente no momento em que eu estou vivendo o auge do meu descanso remunerado, lendo um livro ou assistindo novela de fruta. Isso acaba com meu astral de princesa good vibes dos chakras alinhados. Odeio ter que bater meta de proteína. Odeio nunca conseguir bater meta de proteína. Odeio quando eu me odeio porque eu me amo tanto que não admito me odiar, mas às vezes me odeio. Me odeio quando me percebo ainda buscando aprovação alheia, quando me pego esperando validação. Me odeio porque sinto que trabalhei muito duro pra me livrar desses hábitos, mas eventualmente ainda retornam. A evolução é uma estrada cheia de curvas. Odeio ter tanta consciência disso. A ignorância é realmente uma dádiva. Odeio meu antigo nariz. Odeio meu novo nariz. Odeio que eu sou uma pessoa que está vivendo entre narizes. Isso é horrível. Odeio quando minhas unhas quebram. Odeio que o Alto Pindorama não fica a uma hora daqui. Odeio conversas de mães. Dependendo das mães, claro. Mas de modo geral odeio quando me reúno com outras mães e o papo se encaminha pra um mar de lamúrias sobre a criação dos filhos, sobre os aborrecimentos, os desafios, as birras, as mal criações. E eu fico lá tentando não menosprezar as reclamações de quem não entende nada sobre comportamentos naturais de um cérebrozinho imaturo pra não parecer a mãe que se acha perfeita. Longe de mim me achar a mãe perfeita, mas não sei enxergar minha maternidade com olhos de quem perde algo se eu só ganhei. Se eu sento com mães é pra falar das gracinhas, das sacadas fantásticas, dos raciocínios geniais. Mas sempre tem a chata. Vai chata, fala chata. Eu odeio as chatas. Enfim, eu odeio muita coisa. Acho importante listar. Isso me aterra no presente, no que é material. Me afasta dos devaneios. O amor leva a gente pra um mundo de fantasias, de primavera, de mentira. Não é saudável morar no que não pode existir sempre. Eu preciso do ódio pra me lembrar que sou real, ainda que eu prefira mil vezes o fogo que arde sem se ver, a ferida que dói e não se sente, o contentamento descontente e a dor que desatina sem doer. Mas, deixa pra lá, de amor eu falo todo dia. Hoje eu quero o ódio do poema em linha reta, o ódio que fez Chuck Noland jogar Wilson pra longe. Hoje eu só quero odiar com muita dedicação, pra sobreviver. Amar demais não salva, aliena. Preciso odiar pra me equilibrar. A minha balança quase quebrou pro lado do amor e eu odeio coisas com defeito. Ocupam espaço e não servem pra nada. Amanhã eu vou acordar mais bonita porque o ódio também faz bem pra pele. 

domingo, 5 de abril de 2026

Feliz Páscoa

 


Alguém entrou na minha cabeça e conseguiu traduzir meus pensamentos. Vou guardar aqui pros próximos anos, caso eu esqueça de lembrar o que eu já sei. 

quinta-feira, 26 de março de 2026

Não sei quantas almas tenho


Não sei quantas almas tenho.

Cada momento mudei.

Continuamente me estranho.

Nunca me vi nem achei.

De tanto ser, só tenho alma. 

Quem tem alma não tem calma. 

Quem vê é só o que vê, 

Quem sente não é quem é

Atento ao que sou e vejo,

Torno-me eles e não eu. 

Cada meu sonho ou desejo 

É do que nasce e não meu. 

Sou minha própria paisagem, 

Assisto à minha passagem,

Diverso, móbil e só, 

Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo 

Como páginas, meu ser 

O que segue não prevendo,

O que passou a esquecer.

Noto à margem do que li

O que julguei que senti.

Releio e digo: «Fui eu?»

Deus sabe, porque o escreveu.


Fernando Pessoa


quarta-feira, 25 de março de 2026

Uma deusa, uma louca ou uma feiticeira?

Hoje eu quero que seja sobre a falta, a falta de sentido e o fato de que posso viver bem nas minhas faltas. Eu preciso provar isso pra mim. Que problema tem nisso? Talvez todos. Mas isso não é pra fazer sentido, e mesmo assim fará. Não como a reatividade pra eu desconstruir a expectativa de alguém só pra não entregar a esse alguém certo protagonismo, mas sim pra ser genuína diante das minhas inspirações. Inspirações e (in)compreensões. Isso tudo de que tento me alimentar o tempo todo. A loucura não passou, está no seu apogeu. Pois lá vamos nós. É pra isso que eu estou aqui, pra enlouquecer e não ter medo de enlouquecer. Pra tentar repetir até conviver bem com as verdades que não me assumo. Quem que eu estou enganando? É claro que eu ainda sirvo a uma perfeição de mim. E isso vem não de uma, mas de todas as fontes que me referenciam o que é belo e o que eu gostaria de ser. Ontem uma frase me pegou. Era sobre esse limbo, esse lugar sombrio. "Se permita ser uma incógnita". Fiquei reflexiva. Bem, não importa quantos cenários eu imagine, estou só. Aqui estou só. E gosto. Construir isso, habitar esse lugar solitário, ainda que por vezes acompanhada de delírios, é sustentar meu vazio? Ou é mais uma ferragem da sapata que estrutura uma nova versão ideal a partir do olhar de outros? Que outros? São sempre os mesmos com alguns agregados, não são? E sabendo de tudo isso, eu estou me pressionando a seguir cartilhas sobre as quais eu conheço pouquíssimo mas me julgo secretamente superior à maioria das pessoas pelo pouco que sei? Tenho me notado mais arrogante mesmo. Sem filtro pra desaforos. Que se exploda essa porra de mundo porque sei de onde vim e pra onde vou. Eu digo. Depois eu mesma acho graça da minha petulância. Como se eu realmente soubesse, como se eu não fosse indefesa, como se eu não morresse de medo das oscilações, minhas e dos outros. Nunca neguei meus medos e como me atingem. Fujo deles, mas sempre estão aqui. Está aqui também a supervalorização e centralização do meu eu. Me orgulho da consciência de que é tudo sobre mim, mas, na mesma proporção, me envergonho. Bobinha. Mas quem é que vai me dizer que eu não sou o centro do meu universo? E quem não é o centro do seu? E pra quem eu escrevo? Ai, que horror que eu tenho dessa pessoa pra quem escrevo. Eu tenho horror, eu saio correndo. Mas eu amo. Amo porque não sou eu, mas ao mesmo tempo sou. Mais cedo anotei num post-it: "me reescrever a partir de outros olhos". Escrevi quando ouvi que se escreve sobre si a partir do outro. Lembrar disso me exaure e eu sei bem o motivo. Mas achei, num lapso, que listar outros olhares que me descrevem poderia ressignificar esse meu drama. Ana Carolina. É estranho ler meu nome. Sempre achei. Não sei me apresentar. Nunca soube. Eu nunca sei se vou dizer "Ana Carolina", "Ana", "Carolina", "Carol". Acho Carol infantil, tenho dito que sou Carolina com mais frequência. Esse tal de infamiliar me pega bem nessas horas. Às vezes não me sinto nada Carolina, mas também não gosto mais da Ana, acredita? Eu nunca sei quem eu vou ser, é uma perdição. Mas ouvi outro dia: "não acho a Ana Carolina preguiçosa, acho que ela só tem energia pra fazer bem feito o que é do interesse dela". Nossa, como acertou. E nem foi uma crítica. Me reconheci aí e são desses olhares que quero me reescrever, porque são honestos. Talvez eu seja mesmo a Ana Carolina. Não é que me pareceu menos estranho agora? Mas, seguindo, também li algo sobre me permitir entrar nesse vale da estranheza, sobre não correr atrás desse reconhecimento de mim. Então é isso? Fazer desse lugar sombrio um lugar bom? Não, cala boca! É só pra deixar esse lugar sombrio ser sombrio mesmo. Um novo amor é sempre sombrio porque é novo. O novo assusta mas é divertidíssimo. Não quero não querer acertar só pra não parecer ser tão autoindulgente comigo mesma. É óbvio que eu quero sempre acertar. Não tenho dúvidas de que sei lidar com meus erros. Ora, veja só, até pra errar eu estou acertando. É um tanto problemático gostar tanto de mim assim até quando estou me odiando, não é? Eu não sei ser diferente disso mesmo que agora eu não tenha mais nada igual. Sabe? Coisas minhas, novinhas em folha. Ou não? Não, claro que não. Nunca é. Mas quem disse que isso tem que me preocupar ainda? Não tem. É viver na sabedoria de que eu sempre vou escrever aqui, me vangloriar, e me permitir me olhar por esse meu olhar também. Vou mandar mensagens desaforadas pra fornecedores que me destratam porque ninguém pode me destratar. Porque eu sou mulher destemida. Eu faço de um tudo pra ser vista como quem é. Coitadinha de mim. Vê só como eu passei a ser bem nojentinha? Mas eu não quero que me achem nojentinha. Quero ser quem entende das coisas, quem as pessoas procuram pra pedir orientação. Desde uma coisa banal até sobre uma teoria não sei das quantas que eu faço parecer pra todo mundo que entendo. Eu sou isso. Sou muita coisa e entre elas sou uma farsa. Nesse limbo talvez seja confortável isso de ser uma farsa. E é. Tem sido. É o tal do vazio. É isso de eu saber que sou tudo e também não sou nada e tá tudo bem? Que beleza. Eu gosto. Tenho vivido menos momentos de me projetar a uma certa consciência alheia a minha pra me avaliar, mas ainda acontece. Vou mentir pra quê? Outro dia aconteceu. Estávamos reunidos em família comendo churrasco numa segunda-feira despretensiosa. Estava fazendo uma noite estrelada, daí lembrei de me ver por cima. É dificílimo superar meus vícios. Mas quem foi que disse que preciso superar? Então deixa eu esfregar de vez em quando na cara desse fantasma que eu sou feliz à beça mesmo quando me desconheço. Deixa eu esfregar na minha cara, até porque é pra isso mesmo que servem os fantasmas. Servem pra lembrar que somos iguais e até nos confundimos entre nós mesmos. Porque na minha cabeça toda alma vagante é uma alma só fragmentada em infinitas almas. Eu não deixo de ser ninguém e ninguém deixa de ser eu. Mas que a gente muda, a gente muda. Mudamos e continuamos sendo. Loucura total. Mas tá vendo como eu me suporto e me lambuzo toda nesse lugar de confusão? Ou será que eu estou escrevendo tudo isso pra me convencer de que eu sei viver na falta? Será que eu sei que na verdade eu nunca vou de fato saber quem sou? Que droga! Espera. Vou começar de novo. 

segunda-feira, 23 de março de 2026

Morta-viva

Quem eu fui não existe mais e eu preciso elaborar isso. Sentir esse luto, encarar essa verdade. 

Há mais de um ano vivo esse processo de troca de pele. E nem eu sabia que meus rompimentos, minhas tragédias, minhas dores, eram apenas o início da minha morte. Eu até imaginei que aquele furacão de vontades inexplicáveis que tomou conta de mim e me fez agir tal qual esse fenômeno da natureza, destruindo tudo, pudesse significar algo sobre transformação, renovação, mas não exatamente que se tratava da morte inteira de mim.

Achei ser apenas sobre um novo mundo com espaço pra eu seguir por novos caminhos. Um mundo menos tumultuado por desejos irrealizáveis, por idealizações. Mas agora percebo minha ingenuidade. Esse mundo novo não dependia só de algumas despedidas pra ser inaugurado. Subestimei o furacão. Foi tudo muito além. 

Racionalizo agora, friamente, que talvez eu não tivesse a consciência real de que eu estava me matando. Naquele momento, eu, tola, sabia somente que algo precisava morrer. E matei, estripei, com requintes de crueldade. Eu fui junto. 

Talvez em alguma medida, com o passar do tempo, eu tenha suspeitado algo sobre minha existência estar se esvaindo. No entanto, sinto que me preocupei muito mais em sair do buraco negro que o luto pela perda de pessoas estruturantes me enfiou. Despreocupei de olhar pra mim com a benevolência que quem também estava morrendo merecia. 

O fato de eu estar morrendo me era sabido, até porque que uma parte de mim morresse era inevitável. Mas eu assumo que encarava essa morte apenas sob a perspectiva de que estava se abrindo espaço para um novo lugar melhor do que o lugar antigo. Eis mais uma demonstração da minha ingenuidade, do meu otimismo tóxico. É claro que essa promessa não se cumpriu. 

O novo lugar veio, mas não era bonito e ensolarado como imaginei. No primeiro momento achei que era pela morte de quem eu matei, e então me esforcei pra tratar minhas perdas, ter paciência pra ver o sol nascer. Na medida que os raios tímidos iam surgindo, eu até ia vivendo, mesmo morta. Mas tudo era de uma transição imprecisa. Morta-viva. Eu ainda não tinha a real dimensão do quanto de mim havia morrido. Achei que era pouco. 

Não era. 

Em certo momento eu mal sabia onde eu estava e assim estava tudo bem já que minhas energias estavam em outro canto, em outras dores. Mesmo com pouca visibilidade, fui construindo intuitivamente uma nova eu, em cima de uma eu toda morta, apodrecida, necrosada. Era tudo muito nebuloso. E sinto que ainda estou assim, meio lá, meio cá, mas agora de fato lúcida de que morri.

Minha lucidez veio de transmutação real. De corte real, de pontos cirúrgicos, de reestruturação completa. Remodelei quem eu era ainda no escuro sobre a intensidade da minha morte. Mas fiz o que eu senti que devia fazer. Quase que em abstração completa, em transe, apenas decidi pela metamorfose. 

Precisei mudar minha imagem pra entender que eu, definitivamente, não existo mais como eu era. Agora sou, de fato, outra. Outra em aparência, em crença, em cinismo. 

Me sinto cínica diante de tudo. Me sinto sã, mas endurecida. Estou mais rígida, intolerante. Estabeleci regras indiscutíveis e me coloquei a frente de mim mesma com um escudo indestrutível. Eu protegendo a mim mesma.

Agora, aqui, estou identificando minhas armaduras, e ainda trocando de pele. Chego a uma conclusão sofrida: quem eu fui não existe mais e eu ainda não havia chorado por isso. Chorei por tudo mas nunca exclusivamente pela minha morte. E nem me culpo, já que eu não sabia o tamanho do estrago até realmente me desconfigurar. 

Meu espelho reflete quase que literalmente outra pessoa que eu ainda odeio porque não me despedi de mim como eu deveria. Ainda vivo inebriada pela minha sombra que delimita meus contornos antigos. Não me reconheço em quem sou agora, mesmo me sabendo por inteira. Por tudo, acredito que o que me falta é chorar a minha morte desesperadamente. Chorar pelo apego, pelo medo profundo em perder a doçura que antes eu tinha. Medo de deixar de enxergar a vida com graça e leveza. 

Quero pensar que sei que é tudo meu e está apenas temporariamente desorganizado, e pra organizar só preciso desanuviar meu tempo ruim chorando a minha própria morte pra ver meu sol raiar inteiro. Preciso olhar pra essa nova que sou e encontrar nela só o essencial daquela que fui. No momento não acho. No momento é como se eu já tivesse gastado todas as minhas lágrimas. 

Não sei por onde começar, mas quero começar acreditando que o dia de amar essa nova pessoa vai chegar. Que vou conseguir me olhar na certeza de ser quem sempre quis ser. Não perfeita, não lindíssima, mas eu. Confiante, confortável na minha pele. 

Ainda está um alvoroço danado aqui dentro. Um estranhamento profundo. Uma tristeza por não ser quem eu era e uma tristeza por não me encontrar em quem sou. Apesar disso, essa tristeza não me faz me querer de volta. Eu continuo achando que aquela outra alguém não era quem eu nasci pra ser, apesar de sentir muito amor e carinho pela minha versão de tantos anos. 

Agora me vejo talvez mais próxima de ser quem eu sempre quis, ou talvez muito distante. Me sinto perdida. Consciente do chão que já percorri, mas momentaneamente perdida, ou paralisada. Não sei se o que me falta é coragem pra continuar andando ou se simplesmente é o momento em que preciso parar e descansar. Creio na segunda opção como a melhor resposta, até porque vai ser exaustivo demais chorar a minha morte enquanto sigo andando. 

Sei que preciso parar pra sentir minha perda definitiva de mim, recalcular a rota, reabastecer meu combustível. Achar um novo jeito de apreciar minhas transformações, por mais assustadoras que elas sejam. Apreciar meu tímido raio de sol. Olhar em volta, dizer adeus pra quem eu era com a mesma profundidade que eu disse adeus pra tanta coisa. 

Quero, depois desse descanso, me ver com amor. O amor que não sinto agora. Agora, precisamente, sinto pavor. Estou apavorada por não me encontrar e não conhecer muito bem essa nova que sou. É confuso, atordoante. Me sinto no limbo de mim. 

Apesar de tudo, vou deixar um pouco de lado a minha esperança habitual pra sofrer. Como sempre faço. Porque eu sei ser feliz, mas também sei não ser. Daí uma das minhas características que perduram mesmo que eu morra mil vezes: eu sei sentir o que for preciso. 

Agora vou forçar minhas lágrimas secas de quem já vem de um longo percurso pelo deserto. Nesse desacerto, nessa dor de me desconhecer em carne, corpo e mente, porque meu coração permanece intacto por trás da camada de gelo que se fez pra ele acalmar e parar de bater tão rápido. 

O desconhecido que eu desbravo sempre mas sempre me atrofia, agora está mais intimidador do que nunca. Eis que é a hora de mergulhar nesse desconhecido e chorar minha morte, enfeitar meu túmulo, lamentar a minha partida. 

Vou sofrer tudo o que eu puder, deixando me invadir toda a dor até a loucura me esclarecer o que está conturbado, fazendo todo esse estranhamento passar. E então, depois da tempestade, no conforto estarei eu, nova em mim, certa de que quem não me conhece não pode mais ver pra crer. Porque aquela que eu fui não existe mais. E aí, enfim, vou poder dizer: "Ainda bem. Bem-vinda, nova eu". 

terça-feira, 10 de março de 2026

De uma noite sem beijos antes de dormir

Ele me elogiou espontaneamente. Me chamou de extraordinária. Depois interrompeu, deu um passo pra trás e disse que não pode me elogiar muito porque a areia do meu caminhão pode tombar sobre ele. Eu pedi pra ele repetir o que disse. Ele repetiu, rindo, já prevendo as consequências dessa infeliz colocação. Comecei então o meu TED talk.

Perguntei pausadamente se ele havia dito o que eu pensei ter ouvido. Ele confirmou, sem graça, achando que ainda estávamos sob o manto da descontração. Entreguei sutilmente mais uns metros de corda pra ele se enforcar e não demorou muito pra que as mais ocultas inseguranças se manifestassem.

"Então quer dizer que você não pode me elogiar pra eu não te superar?". Gaguejos vieram.

Educadamente e em tom de voz ameno comecei manifestando meu total descontentamento com o ato falho que a fragilidade da masculinidade dele me revelou.

Eu disse que não existe a possibilidade de eu me limitar por ele e que ele, se quiser, que me alcance ou banque toda a areia do meu caminhão. Que aguente e seja homem pra não intencionar que uma mulher restrinja sua evolução por ele, sendo o contrário disso a covardia para a qual eu não bato palmas e muito menos me submeto.

Ele paralisou, os olhos marejaram e as pálpebras inferiores ficaram vermelhas. O choro másculo entalado e o meu, digno, escorrendo pelo meu rosto e molhando os meus lábios que não paravam de proferir as palavras duras que eu lutei muito pra aprender a dizer sem parar pra respirar, sem me diminuir, sem temer qualquer abandono.

Mesmo sem fôlego segui comunicando o que acabara de me ferir porque doeu num lugar muito específico, conhecido por nós dois: o lugar da minha guerra contra minha baixa autoestima. Guerra esta que ele presenciou e me viu vencer. Ele, que tanto me ouviu lastimar por anos sobre a dificuldade que foi pra mim construir a fortaleza que hoje habito.

Chorei não como quem duvida de onde está ou de quem é, e sim como quem honra o esforço que foi aceitar que o que eu sou não se limita. O esforço de aceitar que ninguém mais me limita, nem eu.

Eu fiz isso comigo por muito tempo, e admito. Foi um processo árduo, triste e solitário me libertar de tantas amarras e correntes que eu mesma me envolvi, mas consegui.

Em nome dessa luta, o que começou como uma simples brincadeira machista, se transformou em um dos meus melhores e maiores manifestos. Na expressão real da minha cura.

Eu disse firmemente que ele não deseje me paralisar pra se sentir melhor consigo mesmo. Para além disso, acrescentei que não dependo de elogios pra me abastecer e esse caminhão vai continuar se enchendo de areia até transbordar, e seguirá assim.

Enquanto ele respirava ofegante e incrédulo, eu me posicionava, mais uma vez, a favor da minha autonomia e independência pra ir além das minhas proibições anteriormente auto impostas e que hoje assumem a função de ser impulso.

Eu não sou pouco, eu não quero pouco.

Segui construindo esse prédio que agora habita a mente dele: a cada frase, um novo tijolo. Afirmei com uma sinceridade ferina que minhas escolhas me trouxeram até aqui e que se as escolhas feitas por ele não o colocam no mesmo patamar de satisfação que hoje eu estou, sinto muito, que ele então faça novas escolhas, mas não me impeça, nem em pensamento, de continuar subindo as minhas escadas.

Logo mais ele tentou vestir a típica roupa de vítima acuada, reconhecendo sua insegurança e confirmando a existência do medo de me perder pra minha evolução. Lamento este que não me comoveu, apesar de eu compreender o motivo estrutural que o encaminha pra esse receio.

Internamente até reconheço a vantagem de poder dialogar com um homem não violento, racional e que demonstra considerável interesse na sua reconstrução, mas não me permito ludibriar por justificativas que me convidam pra um jogo emocional perigoso.

Diante disso, verbalizei que nenhum medo dele deve se interessar pela minha regressão, ainda que em segredo. Ele negou esse interesse e eu pontuei que não há outra interpretação.

Ele tentou me contornar apresentando outro ponto de vista mas não o deixei concluir e anunciei que minhas declarações são apenas o registro de uma premissa inegociável: aqui, nesse relacionamento, nunca haverá submissão ou limitação do meu progresso.

Ponto final.

O perdão veio agora com mais vigor. "Eu sou péssimo". Ele dizia repetidas vezes. Eu, impaciente, concordei mas disse que não admiro a autopiedade em excesso. Deixei em destaque que o que me mantém é o resultado prático dos ajustes que precisam ser feitos.

Enxuguei minhas lágrimas contidas mas honestas e finalizei a conversa propondo uma profunda reflexão.

Após alguns anos, nessa noite não nos beijamos antes de dormir.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Talvez seja só uma etiqueta

O não dito é ruído de quem não exercita memória, de quem teme a dor e, por tanto temer, repete. O não dito é dito mesmo quando não se quer dizer. O não dito é palavra ausente que se faz presente. Palavra que não é dita, mas existe. E por existir, se expressa. Palavra não dita de dor não visitada vira cena. Cena de filme repetido, que já se sabe o final. E, mesmo assim, é filme que se assiste em looping porque ultrapassa o caráter de mero entretenimento. É padrão. Padrão de dor descuidada confirmando existência na palavra que não se diz. E existir é só o que se quer, ainda que pela dor. Os clássicos do cinema mudo são em branco e preto. Essas cenas sem palavras, também. A falta de cor na cena corrói a palavra. Ou a palavra morre soterrada por sintomas no fundo do poço do recalque, ou encara a dor de frente até lembrar de onde vem, pra tentar resgatar sua voz emudecida. Encarar a dor de frente resgata a voz da palavra porque essa voz nasce do grito abafado de dor que não se quer sentir. Tolice da palavra pensar que o que dói é o som. A dor continua doendo mesmo com grito abafado porque nesse fundo do poço até grito abafado faz eco. Essa voz é voz de lembrança escondida pelo contraditório medo que tenta proteger da dor, sem perceber que tanta proteção leva à recorrência. Tanto da dor sentida quanto das dores derivadas dela. Esse medo faz a cena acontecer exatamente igual incontáveis vezes e manda recados que, mesmo silenciosos, são ouvidos. São recados mudos de quem não quis ouvir a voz da dor. É recado de criança que quer colo mas não sabe falar, que atua em resmungos, mexendo aleatoriamente os bracinhos em busca do leite, em busca do colo, em busca de alguém que limpe a sua fralda suja. A criança, pra sobreviver, depende dessa cena bem feita, do recado bem dado. Essa é a representação do fato de que o não dizer também diz. No entanto, o não dizer gera dependências, gera cansaço. Cansaço pra quem não diz, e cansaço pra quem vive de interpretar recados. É a fralda? Não. É fome? Não. Que exaustão! Nunca vai conseguir dizer, mas era só uma etiqueta. Daí porque importa aprender ou reaprender a deixar a palavra falar. A cena esgota. Mas, para além disso, é certo que uma criança pequena não cabe de exemplo. Ou cabe, até. Existir, pra criança, é novidade, e isso também pode ser uma dor. De todo modo, criança pequena só tende a crescer e ainda está sendo apresentada à palavra. Lhe resta, ainda, a alternativa de aprender direito. Ou, lhe resta pelo menos a eventual sorte de que lhe ensinem, não a palavra por si só, mas a capacidade de ouvir suas dores pra que as palavras exerçam seu papel de palavra que pode ser dita. Não se trata da criança lembrar da voz da dor pra se curar de palavra que não vem pro mundo. Mas, talvez, se possa falar da gente grande que se encontra com a criança que foi e não aprendeu a ouvir suas dores. Encontrar essa criança de fase qualquer, exatamente quando a dor nasceu. Lembrar da criança, lembrar da voz da dor da criança. Ir de encontro, sentar pacientemente e ouvir. A voz da criança, a voz da dor. A origem da palavra não dita. Aí então a criança fala, a dor dói. Todos choram. Desmoronam e aquele fundo do poço vira lama. Ninguém se mexe, ninguém faz nada. Só tem dor e lama. Mas as palavras surgem, tímidas. As palavras doem. Tudo dói. Dói mas não mata. É dor de liberdade. De quem vai subir as paredes desse poço. É sempre possível subir as paredes desse poço. Essa dor que não mata é dor de criança que está crescendo e aprendendo a dar voz a palavra. Crescer dói e aprender a falar também. E a dor de liberdade ensina que o grito não precisa ser abafado, que ele se transforma e, aos poucos, ameniza. A criança enfim aprende que a dor pode não deixar de doer, mas pode deixar de gritar. Aprende que se a dor gritar, não precisa mais ser soterrada no fundo do poço. A voz do grito é a voz da palavra. É a palavra que pode ser dita em alto e bom som. É o som da palavra que faz filme novo e colorido. É o som da palavra que substitui os recados silenciosos pela honestidade e transparência de quem sente a dor. É justo ser honesto e transparente com a sua criança. E o silêncio dá lugar à clareza de uma vida plena sem tantas encenações, sem tantos padrões nocivos, sem tanta dor de repetição. E, no fim das contas, agora se sabe dizer que era só uma etiqueta. 

domingo, 25 de janeiro de 2026

Sonho

Um sonho espiritual. Algo transcendia e eu admirava. Algo sem definição porque, nesse ponto, se restringia ao sensorial. Não sei se pela fase do meu sono ou se por não ser apenas um sonho. A sensação resplandecente de experienciar o que não se pode traduzir em palavras se manteve por tempo suficiente e, ainda assim, um tempo curto. Depois, um fundo preto de rostos monstruosos sendo deformados e transformados em outros rostos monstruosos. Enquanto aguardava o medo e ele não vinha, eu apreciava. Assistia fascinada aquela dança de rostos feios trocados em looping no centro de uma escuridão. A mente racional me dizia para temer, no entanto eu sentia uma curiosidade latente que me fazia querer acompanhar a próxima transformação. E a próxima e a próxima e a próxima. Como se eu tivesse perdido o pavor dos meus monstros? Não sei. Logo o fundo preto de rostos assustadores se tornava um cenário embaçado, também escuro, onde está alguém. Alguém com quem eu não sonhava já há alguns bons meses. Nesse cenário eu corria para olhar esse alguém de frente. Eu o segurava pelo braço, mas ele se soltava. Eu continuava tentando encarar, mas ele fugia. Eu não sei o que eu sentia. Acho que nada. Parecia comum. Como se a natureza desse alguém fosse essa: escapar. Não lembro de me sentir inconformada no sonho. Lembro de tentar e aceitar a fuga. Em seguida eu aparecia em frente a um computador e encontrava e-mails perdidos, nunca lidos por mim, como se de tempos atrás, desse mesmo alguém. Aquela descoberta era dramática e a minha surpresa maior não eram os e-mails em si, nem o conteúdo deles, mas sim a minha desatenção por nunca ter reparado que haviam chegado. Por ter vivido tão imersa em mim mesma até eu esquecer de me lembrar, até qualquer comunicação se tornar uma possibilidade que não merecesse minha vigília. Era surpreendente o fato de eu não perceber quando deixei de me importar. O conteúdo da mensagem era emocional, listava uma série de arrependimentos e dores. E eu lia sem me consumir. Lia com carinho, compaixão e lamento, mas sem mergulhar naquela piscina de lástimas. Ao terminar de ler, decidida a não responder, eu pensava: isso já acabou há muito tempo. Depois esse alguém já sem contornos, embaçado, surge em frente a mim e pouco permanecia. Muito rapidamente uma espécie de tapume preto se colocava em frente a ele. Como uma cortina que se fecha após um espetáculo. Acordei. Com a exata mesma sensação de quando se assiste a uma ótima peça de teatro. Encantada com o fim, nutrida com a arte daquela representação. Sem urgências, sem apegos, e entendendo um pouco mais sobre como o inconsciente é bom em contar histórias. 

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Uma gata parindo e quebrando espelhos

Tenho feito muito pela minha soberania psíquica, pela reestruturação da minha identidade, pra que ela exista e se solidifique sem a interferência persistente do olhar do outro. Isso tem sido motivo de orgulho — o que não significa que eu já tenha concluído o processo. O processo é que tem me orgulhado. 

No presente momento da minha vida consigo compreender que essa nova identidade da qual preciso me apropriar, a qual sofre menores interferências, não existia até então porque estava programada pra viver e crescer alienada. 

Essa programação não decorre apenas dos eventos da minha infância, mas sim, principalmente, da própria estrutura social e patriarcal que empurra as mulheres pra serem silenciadas, se distanciando continuamente dos seus desejos. 

Tal estrutura, inclusive, é que fundamenta os eventos da minha infância — e da infância de todas as mulheres, eu diria. 

Fomos criadas pra não nos reconhecermos enquanto seres desejantes porque isso mantém o controle das nossas vidas resguardado às figuras masculinas que se beneficiam da solidez do patriarcado. Esse é um fato indiscutível, em que pese agora esse cenário esteja sendo gradativamente desconstruído por mim e por muitas outras. 

Faz parte dessa desconstrução, do desmantelamento dessa estrutura, a tomada de consciência, o despertar, a tragédia que inevitavelmente rodeia a definição de limites claros.

Não é fácil desmontar um palco onde os malucos ainda dançam, enquanto dançam. Requer, sem dúvidas, uma maluquice maior. Requer coragem pra ser intolerante com o intolerável. Requer bravura pra gritar o que não se aguenta mais engolir em nome de papeis impostos: o cuidado, o carinho, a proteção. Esses papeis que inconscientemente assumimos e que agora não queremos mais executar. 

Eu não quis, e por isso rasguei uma roupa que sempre vesti e me coube, pra tentar me desprender das tantas amarras que me imobilizavam por eu ter nascido inserida nesse universo de silenciamentos. 

Tenho feito isso de um jeito esplendoroso, admirável, sem, no entanto, me exigir resultados rápidos. Tenho respeitado meus processos, sem interrompê-lo. Fazendo pequenas emersões à superfície pra respirar, tomar fôlego, e continuar mergulhando. Não tenho me sobrecarregado, não tenho exigido de mim além do que posso dar. 

Sem correr, mas também sem paralisar, sigo destravando cadeados e mudando de fases de um jeito fluido e compreensivo comigo mesma. E uma das ferramentas que tenho utilizado é a escrita de textos imensos que me esclarecem e me ajudam a desbravar tanto chão a ser percorrido. 

A exemplo disso, esse texto. Esse texto cujo ímpeto da elaboração surgiu após eu ler Água-Viva, de Clarice Lispector. Sinto que me preparei a vida toda pra estar pronta pra ler Clarice Lispector. Não canso de dizer. 

Lendo Água-Viva me encontrei com alguns novos questionamentos, muitos insights, e choros inesquecíveis. Foi necessário e fortalecedor ler esse livro exatamente quando li. 

Entre tantas novas questões, o tema "desejo" martelou com força. Eis então o link com a minha longa introdução. 

De posse do conhecimento de que fomos criadas para não desejar, ler Clarice é disruptivo: ela dá permissão ao desejo, aos renascimentos em nome de sermos libertas pra desejar. 

Mas libertas de quem? Quem é esse outro que nos proíbe de desejar? A quem demos esse poder exatamente? Alguém que é alguém e não a estrutura em si? Ou a estrutura e qualquer alguém são a mesma coisa quando esse alguém encontra benefícios dentro dessa estrutura? 

De toda maneira, sendo o outro quem quer que seja, nunca deixará de ser objetivamente parte do todo se há um ganho, uma sorte, um prêmio a partir da nossa desaceleração, do nosso não agir, do nosso impulso de recusa — ou de aceitação — controlado e domesticado. 

E então Clarice vem e me fala de uma gata parindo! A gata parindo que na verdade remete à castração de um ideal simbólico, de um amor simbólico. Nascimento, separação, liberdade. 

Castrar para nascer. O corte. Fazer um corte para nascer de fato. Antes disso o que havia? Uma unidade, penso eu. Antes disso havia uma gata que carrega algo no ventre e desse algo não poderá nunca se desfazer sem que haja um rompimento. 

"Romper o cordão umbilical com os dentes". 

Para nascer é preciso romper. A liberdade do nascimento vem de um corte, de uma brecha que se abre. Essa liberdade que é, também, solitária. 

Cortar um ideal simbólico, entendendo esse ideal simbólico justamente como sendo esse outro — ou outros — que silencia desejos é o nascimento que liberta. 

Da minha perspectiva essa libertação conversa diretamente com a minha necessidade de recompor minha identidade distante de influências limitadoras, distante de um eventual espelho que me estruturou enquanto pessoa. Limitar desejos aqui poderia ser lido como a proibição para desejar indiscriminadamente, sem regulações imaginárias a partir, justamente, de um outro que me apresenta o que é desejável e o que não é! 

Uma gata parindo pode também ser o ato de quebrar um espelho. É sobre o corte, a ruptura, a quebra, o desfazimento. 

Pra que algo nasça é preciso rasgar a placenta, cortar o cordão. Para deixar nascer essa identidade livre precisei fazer cortes, quebrar espelhos. É a liberdade de permitir um nascimento, a independência de uma imagem refletida em espelho novo. 

E esse processo além de solitário, é doloroso. A gata parindo e o espelho quebrando. Tudo dói. Dói parir, dói não me ver refletida em lugar nenhum. Mesmo que esse lugar representasse a impossibilidade de manifestação livre de desejos, era lugar conhecido, onde se sabia ser quem se era. 

É um novo espelho que reflete a nova identidade agora. Há o estranhamento. Há a solidão de não saber quem se é porque esse novo reflexo nunca foi visto antes. Dói a solidão desse desconhecimento. 

Mas, ainda assim, apesar de forte e doloroso, é possível sentir que existe amor. A placenta do apego foi rompida, doeu, mas existe amor. É um amor que separa o que sempre esteve íntegro, que elimina o que era conhecidamente familiar. E, por ser amor, é o que sustenta. 

É amor que vem da liberdade da separação. A separação que liberta para que se viva distante do que regulava o desejo. 

Segue doendo o meu nascimento, a quebra dos espelhos, mas, como bem lembra Clarice, "nós só nascemos para nós mesmos quando nos separamos". Isso vem desde o furo narcísico, desde quando ser recém-nascido era literal.  

Estou buscando nascer pra mim. Eu sou a gata parindo enquanto quebro espelhos. 

Esta é a base da minha tragédia". 

Nesse processo — que talvez ainda esteja acontecendo, não sei ao certo porque a dor atordoa e a gente fica meio sem se situar — houve instinto, houve raiva, houve gatilho. 

Eu comi minha própria placenta, como a gata, pra sobreviver. Antes eu era alimento de outro, de outros, até que passei a comer a minha própria placenta. 

Esse antes, enquanto eu era alimento, representa o desejo por quem limita o desejo. 

Dei de mim sem dar a mim porque, de certo modo, nutrindo o outro eu também me acessava, me via refletida na melhor e mais idealizada versão. 

Antes, eu existia em dinâmicas de doação unilateral. Dinâmicas essas ensinadas, programadas pra se darem exatamente dessa maneira. Cresci pra isso, pra acreditar que essa doação é o que traduz quem se é. Muitas ainda acreditam. 

Eu me privava de me alimentar de mim para manter o outro vivo, sem perceber que existem outros "its", existem alimentos dos quais preciso me alimentar antes de pensar em alimentar o outro. 

Clarice é visceral e me ensina que posso morrer pra nascer infinitas vezes se for necessário. Sem medo, porque viver é isso! Viver é reconhecer desejos, lutar por eles, entregar, perder, pular de abismos que também são espaços pra bater asas. Sem isso não há vida, não há jogo. 

Eu, enquanto gata que está parindo, que comi e ainda como da minha própria placenta, que cortou cordões, que quebrou espelhos, que sofreu a dor de separações... eu quero nascer e me alimentar de outros "its" porque não posso me negar a vida.

Aceitei, antes de tudo, a nova vida, a nova identidade, com tudo o que ela exige: amor, dor, desejo, separação, transformação. 

Sem isso eu estaria me suicidando diante da vida, me rendendo ao que me limitava desejo, ao que me ensinaram a ser. Abdicando da singularidade de ser quem sou, da grande oportunidade que é nascer de novo. Ser eu, espécie raríssima, com a capacidade de sentir, pensar e existir exatamente do meu jeito.  

Mas, ainda assim, surge a dúvida: como romper placentas pra me distanciar do que me limitava o desejo se o que me limitava desejo também era desejo? A contradição enlouquecedora me abateu, sim. Enquanto a dor doía, essa pergunta ruminava. Um enlace paradoxal. 

Paro de nascer ou continuo? Se estou nascendo para desejar e o que desejo também limita o meu próprio desejo, então vou começar a liberdade de desejar não desejando? Mas eu quero desejar qualquer coisa, é justamente pra isso esse parto. 

Eu não quis desistir do parto e sigo parindo. Quis me desfazer dos aspectos todos que me entrelaçavam ao meu desejo carrasco, achando que eu só poderia nascer para mim com a separação e, nesse ponto, acreditei na separação como sendo a negação da existência. 

Errei. 

Negar existência é manter unidade, porque se não existe não deixa de ser, apenas deixa de estar. Se de fato não fosse, não precisaria ser negado. Negar a existência só mantém oculto o que nunca foi embora e está escondido. Negar a existência é auto engano. 

Por sorte logo chegou a ajuda: Clarice me veio dizendo que viver também é suportar a verdadeira vida num equilíbrio trágico entre "entregar-se e preservar-se, queimar-se e salvar-se". 

O enlace paradoxal não precisa se resolver, afinal. Isto porque não há lógica, não há como alcançar o total entendimento racional sobre a vida e sobre mim. E se não há explicação racional é preciso abandonar a necessidade de compreender. 

Clarice me disse que viver é se segurar nessa verdade latente da força que pulsa dentro, mesmo sem provas ou coerência. 

Isso responde que não preciso parar de parir porque minha liberdade de desejar não se compromete em nada pela existência do meu desejo ao me limita. Existe e pronto, não há explicação. Essa é uma verdade latente de força que pulsa. 

Haveria, então, liberdade em manter aquilo que não me liberta? 

Essa resposta me atravessa o encantamento e o entendimento maior sobre a liberdade: ela é ilimitada. Não manter qualquer desejo que existe, mesmo que racionalmente não deva existir mas ainda assim continua existindo, pulsando, é o que prende, é o que compromete a liberdade.  

"Preservar a chama do meu desejo". Esse desejo é o que me faz seguir sendo única na minha espécie, na minha singularidade. E assim não me rendo à exigência de explicar, negar, reprimir o que não se pode evitar. 

Liberdade também é aceitar tudo o que não se traduz como sendo o que é. Eu, o outro, o desejo que persiste, as coisas como foram, as coisas como são, as coisas que nos fizeram sermos quem fomos até o ponto de precisarmos nascer de novo... 

Segui me fazendo perguntas. Temi que a "não compreensão do que por si só se explica" pudesse me aprisionar novamente do real, do que é sólido, do racional, do consistente. 

As novas respostas me conduziram delicadamente à necessária lucidez quanto ao equilíbrio entre a realidade e a manutenção do que me é e sempre será subjetivo. 

O subjetivo que me define a existência, que está, também, nos eventos da infância e na realidade social patriarcal inconscientemente imposta. Que está em tudo que me limita mas também me torna quem sou. 

Eu sou, e sempre serei, o que transita no simbólico de mim, nos meus "its", no outro alienante mas também objeto de desejo. 

Meu "it" maior é minha alma e ela se faz de coisas imateriais que não posso negar pois se o fizesse estaria negando a mim própria. 

Viver longe do fogo que me aquece a alma, que é prejudicial mas ainda assim aquece? Pra não me queimar? E eu morreria de frio? 

Eu, que já me queimei inteira, que já estive em carne viva. Eu. Logo eu. Negar um fogo de vida agora? 

É válida a preocupação e o medo de manter acessa a chama do desejo que pode me limitar dos meus próprios desejos outros. Não é irrelevante considerar que esse medo existe pra que eu não me permita seguir existindo prisioneira. Mas estou parindo, fiz cortes e quebrei espelhos. 

Ainda que eu ainda esteja nascendo, já rasguei a placenta de toda maneira. Não há volta. 

A liberdade canta. 

No simbólico de mim ainda mora a realidade de que esse outro alienante também me empurrou para o encontro com uma parte de mim mesma. O outro não é só o outro, em alguma medida o outro também é quem eu fui. 

Ainda que nesse ponto me apareçam novas perguntas saltitantes que questionam o que é meu e o que é do outro, lembro rapidamente que se eu pulsei num lugar que o outro me deu e lá me reconheci, é tudo meu. 

Se em outro momento houve desequilíbrio e dei ao outro o protagonismo pra representar a chama do meu desejo, hoje sei que não mais. 

Não mais porque eu sou a bendita de uma gata parindo! 

Clarice me encaminha e acalma ao me dizer muito intimamente que esse outro não me faz conter, mas me faz pulsar pela transformação, pelo meu nascimento, pela liberdade. E eu não habito mais o "it" da minha alma pra encontrar o outro como um objeto de desejo impossível que quanto menos tenho, mais eu quero. Preservo o outro apenas naquilo que me devolve a mim, no que me ativa meu encontro comigo. 

Eu, nascendo agora, só quero o outro de impulso pra sempre me submeter ao meus nascimentos. Ainda que doa. Esse outro, qualquer outro, o outro estrutural. Só quero como elo entre todas que serei e a minha subjetividade que justamente impulsiona a esses tantos nascimentos. 

Os outros que eram desejo alienante, limitadores de desejo, agora não são mais. São o que me joga à liberdade de quem deseja sem amarras. Os outros que não são mais sujeitos do meu desejo, mas sim objetos. Os outros que não são protagonistas de uma imagem ideal, de uma fantasia, de um sonho paralisante, de uma régua de mim mesma. Os outros só são auxiliares. 

Esse outro, esses outros, não proíbem e, assim, o paradoxo está enfim desfeito. 

Esse outro, esses outros, é, são, fósforos que acenderam a chama do meu desejo. Mas eu sou a chama! Sigo acessa mesmo sem esses tais fósforos. Me acendo sozinha, se precisar. Minha chama acende da minha própria eletricidade. E estou finalmente livre pra não medir a altura dessa chama, a intensidade dos meus desejos. 

Quem queima, quando queima, onde queima... sou eu. 

Deixei todos os outros quando cortei o cordão, quando quebrei os espelhos, por não sustentar mais a forma antiga de mim. 

Enquanto outros comem de outra fome, do alimento e da nutrição de outros, eu, gata parindo, tal como Clarice, seguirei me alimentando de mim, da minha placenta, do meu leite, todas as vezes que eu precisar nascer. Serei a chama, todas as vezes que eu precisar queimar. E quebrarei todos os espelhos que fizerem eu me enxergar distorcida de mim. 


"Sinto que estou parindo. E é florido como um parto". 


Texto escrito em: 25/09/2025 

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Eis aqui mais um ponto de ebulição

Não tem vez que eu leia que não me dê vontade de escrever. Até me pergunto se por isso que nunca consegui ler muitos livros ou abandonei vários pela metade.

E não que eu não me envolva, não me estarreça, não me entregue. É que me invade uma incontrolável ansiedade de criar, também, algo incrível.

No fim, essa ansiedade me atrasou leituras profundas. E muitas vezes sem propósito valoroso já que a vontade súbita da escrita nem sempre se concretizava. Ou era abafada, ou nascia um texto sobre mim e as percepções que eu precisava desenvolver naquele momento.

Pensando bem, talvez seja injusto afirmar que minha ansiedade me atrasou de conhecer os grandes clássicos, assim em tom de desprezo. Que me atrasou é fato, mas preciso ser mais cuidadosa comigo mesma e não tratar como ausência de um propósito valoroso os textos que nasceram de mim. Como se isso fosse pouca coisa...

Em que pese meus textos sobre mim não pudessem realmente ser comparados aos grandes livros que eu deixava de ler, acredito, por fim, que me prepararam pra que eu me conhecesse tanto a ponto de ser, um dia, alguém que de fato estivesse pronta pra entender a vida por trás de tantas páginas mágicas.

Escrevendo sobre minhas impressões adolescentes fui me encontrando com muita consciência ao longo dos anos. Hoje sei bem cada trajeto que percorri, fosse nos meus momentos de lucidez ou de loucura.

Relendo meus escritos do passado, quando esse ímpeto interruptivo ainda era indomesticável, compreendi muito da minha imprecisão, realinhei minhas expectativas diante da vida, me emocionei, me admirei, me orgulhei. Absolutamente me encontrei comigo.

Ainda que em linhas por vezes mal escritas, me esclareci de mim. Organizei aquela cabecinha atordoada e movimentada de coisas que não entendia, coisas que começavam no peito a borbulhar impacientes enquanto se lia um livro bonito, e logo subiam pra cuca bagunçada suspender aquela leitura que se assemelhava a um fogão aquecendo um alimento e o deixando a ponto de ebulição.

Ler era isso, pra mim.

Ler me aquecia tanto que eu ficava louca pra escrever porque eu precisava me encontrar na minha loucura e aquelas palavras coordenadas e profundas, ainda que igualmente loucas, me empurravam pra querer que de minha cabeça saísse também uma loucura sã, clareada em composições estruturadas, concisas, coerentes — mesmo que eivadas das incoerências de gente que sente.

Penso que talvez fosse como um chamado. Um chamado pra que eu, um dia, me organizasse tanto a ponto de conseguir também gestar um livro. 

Quem sabe?

É certo que um corpo precisa amadurecer pra estar pronto pra gestar. É possível que meus livros interrompidos estivessem me encaminhando pra esse amadurecimento. Mas não só o amadurecimento de quem pode gestar um livro, estavam me encaminhando para me fazer crescer até aprender a ler, ser capaz de ler pra receber o ouro que só um livro lido inteiro pode oferecer.

Teria sido um amadurecimento mais demorado se eu não tivesse sequer tentado ler ao longo do caminho? Se eu tivesse desistido, se eu tivesse me assustado com a quentura que ler me provocava e não me aproximasse mais de nenhuma multidão de palavras quentes entre capas?

Acredito que sim, teria demorado mais. Eu teria chegado aqui, mas talvez não agora, talvez bem tarde quando não desse mais tempo de usufruir de qualquer amadurecimento.

Acredito que teria demorado porque de pronto não me recordo de outra coisa que me fizesse entrar em estado de ebulição até fervilhar na minha mente o ímpeto de juntar palavras e palavras na tentativa de traduzir meus sentimentos, a não ser um livro.

Na realidade, posso até estar mentindo. É possível sim que a vida me provocasse algo nesse sentido, mas agora, analisando melhor, penso que nada na vida era tão consistente em transmitir todo esse fogo quanto virar as páginas de um livro e sentir meu coração bater mais forte até cutucar minha cabeça com ideias que queriam virar frases a serem registradas imediatamente.

A vida me provoca, sim, impulsos de escrita. Mas a vida, numa correnteza de emoções oscilantes, me leva. Me leva e faz passar, me leva e eu esqueço, me leva e já foi.

Um livro instantaneamente me joga em outra correnteza de emoções, que não oscila tanto, é contínua, às vezes suave, às vezes intensa, mas, sobretudo, contínua. Contínua. E interrompível.

É possível parar uma leitura, mas nem sempre dá pra parar a vida e escrever escrever escrever até os dedos doerem.

Na vida tem muita vida, vem outra cena, outra dinâmica, outro ímpeto que é substituído por outro e outro e outro. E nunca escrevo. Pelo menos não até eu encarar uma situação tão efervescente que me faça ouvir uma ameaça gritante, como quem me diz em tom agressivo e violento: “ou você escreve, ou você morre”.

Às vezes escrevo. Às vezes morro.

De toda forma, evoluindo agora nessa coisa de ser leitora sinto que enfim já consigo controlar minhas ebulições. Contudo, contraditoriamente a esta afirmação, confesso que escrevi esse texto logo após interromper “A Amiga Genial”.

A vantagem é que, depois de eu muito desenvolver esses súbitos acessos de inspiração inevitável até aprender a administrá-los, o tal controle que agora possuo consegue me fazer escrever um texto a partir de uma outra ansiedade: a ansiedade pra continuar a minha leitura.

Até porque não é todo dia que a gente lê Elena Ferrante pela primeira vez e esse aquecimento aqui dentro, sem dúvidas, merece ser apreciado. Escrevendo. E lendo