... Subentenda-me: abril 2026

domingo, 19 de abril de 2026

Nem sobra tanta falta assim

Escrevo muito sobre o que me falta, mas e sobre o que me sobra? Por que não escrevo? Sempre pensei que é porque o que me sobra não me deixa desperdiçar tempo. Meus excessos me ocupam porque me têm. Me têm nos detalhes de mim que minhas faltas nunca terão, porque minhas faltas são imaginárias. São o vazio. Necessárias, sim. Mas eternamente a ausentes de mim. Distantes do que é me possuir. E o inverso também é verdadeiro. Não tenho o que me falta, por isso falta. Para além da inexistência da contemplação escrita do que possuo, o que falta me inspira num lugar diferente. Me inspira num infinito de possibilidades inexploradas que eu julgo como imprescindíveis pra me fazer viver a presença ainda mais presente. Por mais contraditório que seja. Minha mente tem seus momentos de subdivisão, e quando lembro das minhas faltas no cotidiano, em contexto onde eu não possa explorar o inexistente escrevendo, me agarro no que não possuo pra me entregar com mais força ainda ao palpável. Não sei explicar. Me dá vontade de amar ainda mais intensamente, rir descontroladamente, me irritar profundamente. Meu sangue ferve com a minha vida enquanto ela acontece. Meu normal é mergulhar fundo nos desdobramentos de tudo. Não economizo dedos, ouvidos e voz. Eu me dou por inteira. Eu me doo. Eu sinto tudo, eu me divirto, eu choro, eu pulo, eu danço. Eu gargalho alto. E se nesses relances me surge a súbita lembrança do que não tenho, me recarrego de mais energia pra entregar o dobro. Não sei. Meus anseios fazem eu me jogar ainda mais pra vida, até nos cenários menos favoráveis. Eu gosto disso. E não que eu exatamente queira o que me falta. Nem todos os meus desejos são realizáveis. Mas preciso deles pra lembrar de mim. Desejo o que ainda quero ter e o que não posso ter. Amo e sigo desejando sem fazer distinção. Me alimento disso, faço de combustível pra inflamar ainda mais a minha chama. É material e não é. Quero tudo, até querer o que não quero. Alguns desejos existem apenas pra serem desejados, pra serem gasolina. O fogo que eu de fato quero já queima, e queima alto. A vida sobre a qual eu não escrevo porque é muito gostosa de viver requer muito de mim. Dessa vida eu não me ausento, exceto quando eu escrevo e mergulho no irreal dos meus desejos. Essa vida que me tem com mais força quando meus desejos me sacodem enquanto vivo porque é como se a irrealidade deles me lembrasse de desfrutar e sentir ainda mais prazer pelo o que é real. O meu real que se me faltasse eu morreria. E morreria numa morte que não seria morte de transformação, mas morte de desgostar da vida. Eu amo tanto meu real e não escrevo sobre porque é tão melhor me deleitar da realização de sonhos antigos. Eu não imaginava uma família tão bonita, uma filha tão bonita, uma casa tão bonita, com amigos tão bonitos. Eu não me imaginava, um dia, tão bonita. Mas tenho e sou. Além da imaginação, há um mundo de toques e cheiros e cores. Um mundo de sensações, de abraços e beijos e choros. Um mundo de encontros e reencontros longe da tela, dos memes, dos produtos. Nesse mundo que eu habito e me entrego e gosto de me entregar inteira. Um mundo de posses em que eu também sou possuída e possuo, em proporções equivalentes, com gozos compartilhados. Sinto que eu tirei o bilhete premiado da vida. Sinto a sorte, me sinto forte. Sinto que quitei minhas dívidas e que não preciso de troco. Não quero troco. O que eu tenho me supre, me sobra. Sempre sobra. Quando tudo está escasso, a vida me surpreende com o dobro. O dobro de amor, o dobro de segurança, o dobro de lealdade. Na verdade, a vida multiplica. Mas multiplica porque aprendi a fazer a conta certa. Ninguém multiplica subtraindo. Parei de subtrair de mim o que não me dá retorno. Business, investimentos. Eu não gasto mais um tostão se não for pra ganhar dois. Essa analogia com dinheiro é boa porque não há nada mais material do que o dinheiro. Eu gosto de dinheiro, gosto que construímos uma boa relação, sem dependências. Gosto que ele não me sustenta, mas me apoia. Se estou falando sobre o que me sobra ele também precisa aparecer. Daqui eu espero multiplicá-lo como a vida tem feito com as minhas felicidades todas. Essa vida que me presenteia com a simplicidade de um domingo completo, com o barulho da chuva, numa cama grande, quente, aninhada de amor e filha que dormem o sono que eu mais amo contemplar. Eu tenho tudo. Tenho e quero mais. Mais filhos? Quem sabe? Mais ninho e mais sorte eu sei que quero. Certo que agora exatamente eu não quero nada, nem mesmo um sol. Tá gostoso aqui porque estar aqui me remete à força de quem está segura porque é amada. Estou segura enquanto chove. Segura de que o sol vai voltar, e mais segura ainda de que, independente de que tempo faça lá fora, eu sou amada. Foi exatamente isso que eu pedi. Essa vida que tem sabor de ovo de Páscoa com recheio de morango que estava esquecido na geladeira e foi achado despretensiosamente. Essa vida que tem a graça de filha pequena que se lambuza comendo esse tal ovo de Páscoa. Essa vida alegre como quem se acaba de rir fazendo montinho em cima de mim, e me aperta com força enquanto eu, involuntariamente, grito gritos semi eróticos. O peso de homem me ativa gemidos, é mais forte do que eu. E se me ofertassem viver qualquer desejo impossível, eu negaria. O desejo impossível só me serve pra ser desejo. Viver desejo nenhum me serve se não couber nesse meu ninho, nessa vida colorida. A cabeça inventa mas sabe que já tenho quem me aguente, quem me segure, quem me suporte. Eu não sou fácil. Não é fácil me satisfazer, não é. Eu não aceito pouco, sempre digo. Que eu siga desejando, inventando e criando onde o imaginário não afeta a minha realidade de pessoa satisfeita. Satisfeita até com o que me falta. Satisfeita, feliz e sem arrependimentos. Satisfeita, forte e livre das amarras de um ego inflado. Satisfeita, estável e leal. Satisfeita e corajosa. Eu sou tanta coisa. E eu saber disso não infla meu ego, solidifica ele. Eu, hoje, consistente de mim. Eu, hoje, usufruindo das relações saudáveis, enxergando quem é quem, abrindo a porta da minha casa só pra quem não me olha com olhos de quem calcula quem tem mais e quem tem menos. Eu, sabendo reconhecer as entrelinhas, me afastando das pessoas certas que eram erradas, me redimindo com as pessoas erradas que eram certas. Eu, sem orgulho, completa mesmo nas oscilações, consciente de mim. Disposta, sempre disposta. E por isso, agora, nada mais me importa. Até o tempo pra escrever sobre o que eu tenho me sobrou. Sempre sobra, nunca falta. Sobram mais dias felizes que eu quero viver desesperadamente presente. Seja no sol da praia do farol velho, correndo pela areia, olhando o céu mais bonito do mundo. Seja aqui, assistindo pela janela as plantas do meu jardim mais verdes do que nunca balançando e tomando água. Eu sei que não dá pra ter tudo, mas, se prestar bem atenção, dá sim. 

terça-feira, 7 de abril de 2026

Atualizando minha lista de ódios

Eu odeio quem puxa o freio de mão a cada sinal fechado. Isso não tem propósito. Odeio esperar. Odeio sentir fome e odeio também o mau humor que eu fico quando estou com fome. Odeio meu trabalho naquilo que envolve meu trabalho. Apesar de amar quem divide os dias obscuros comigo e deixa tudo mais leve. Odeio a cara de pau de quem acha que pode fazer o que bem entende com o dinheiro público. Odeio muito quando chove e eu não estou em casa. Odeio borrar as unhas do pé recém feitas. Odeio. Odeio mais do que borrar as unhas da mão. Odeio aquela velha chata e mal amada de energia ruim. Odeio ser alérgica. Odeio mais que tudo no mundo quando a Livia adoece. Apesar de ser fofo, odeio quando o Diego fala sem parar sobre as mudanças que ele faria em cada ponto problemático da cidade e como ele repete todas as vezes que passamos por cada ponto, quase todos os dias. Odeio, mas finjo que ouço com atenção, me indigno e ainda incentivo toda a revolta dele. Odeio quando alguém que costuma me chamar por determinado nome meu, resolve me chamar por outro. Odeio quando a minha mãe ainda tenta me controlar. Odeio quando ela está de mau humor e automaticamente me contamina. Odeio o fato de ela ser a pessoa mais ingênua e trouxa que eu já conheci. O que falta nela é ódio. Odeio quando eu odeio ela, mas odeio. E odeio de forma proporcional ao amor que sinto por ela. E sim, eu amo muito. Odeio o meu chefe, odeio a burrice dele, o mau caratismo dele, a presença dele. Meu Deus, eu odeio muito esse homem! Odeio como ele subestima a todos enquanto que ele é o maior panaca da face da terra, plagiador, ambicioso, miserável e infeliz. Ele jura que ninguém percebe. Odeio que meus joelhos entregam que não tenho mais vinte e poucos anos. Odeio quando eu mexo no que tá quieto na tentativa de viver bem com o meu passado, mesmo sabendo que viver de passado é viver enterrada entre as coisas que não podem mais voltar. E também odeio essa minha mania de tentar estar em paz com tudo, enquanto que eu sei que isso é uma grande ilusão. Odeio ficar procurando sentidos, elaborando até exaurir. Odeio porque nada faz sentido, e nunca vai fazer. Nem eu. Odeio que todo mundo acha que a minha casa virou um salão de festas e agora tudo precisa ser aqui. Odeio até a hora de começar a festa, porque quando começa eu gosto. Odeio quando surge uma demanda urgentíssima justamente no momento em que eu estou vivendo o auge do meu descanso remunerado, lendo um livro ou assistindo novela de fruta. Isso acaba com meu astral de princesa good vibes dos chakras alinhados. Odeio ter que bater meta de proteína. Odeio nunca conseguir bater meta de proteína. Odeio quando eu me odeio porque eu me amo tanto que não admito me odiar, mas às vezes me odeio. Me odeio quando me percebo ainda buscando aprovação alheia, quando me pego esperando validação. Me odeio porque sinto que trabalhei muito duro pra me livrar desses hábitos, mas eventualmente ainda retornam. A evolução é uma estrada cheia de curvas. Odeio ter tanta consciência disso. A ignorância é realmente uma dádiva. Odeio meu antigo nariz. Odeio meu novo nariz. Odeio que eu sou uma pessoa que está vivendo entre narizes. Isso é horrível. Odeio quando minhas unhas quebram. Odeio que o Alto Pindorama não fica a uma hora daqui. Odeio conversas de mães. Dependendo das mães, claro. Mas de modo geral odeio quando me reúno com outras mães e o papo se encaminha pra um mar de lamúrias sobre a criação dos filhos, sobre os aborrecimentos, os desafios, as birras, as mal criações. E eu fico lá tentando não menosprezar as reclamações de quem não entende nada sobre comportamentos naturais de um cérebrozinho imaturo pra não parecer a mãe que se acha perfeita. Longe de mim me achar a mãe perfeita, mas não sei enxergar minha maternidade com olhos de quem perde algo se eu só ganhei. Se eu sento com mães é pra falar das gracinhas, das sacadas fantásticas, dos raciocínios geniais. Mas sempre tem a chata. Vai chata, fala chata. Eu odeio as chatas. Enfim, eu odeio muita coisa. Acho importante listar. Isso me aterra no presente, no que é material. Me afasta dos devaneios. O amor leva a gente pra um mundo de fantasias, de primavera, de mentira. Não é saudável morar no que não pode existir sempre. Eu preciso do ódio pra me lembrar que sou real, ainda que eu prefira mil vezes o fogo que arde sem se ver, a ferida que dói e não se sente, o contentamento descontente e a dor que desatina sem doer. Mas, deixa pra lá, de amor eu falo todo dia. Hoje eu quero o ódio do poema em linha reta, o ódio que fez Chuck Noland jogar Wilson pra longe. Hoje eu só quero odiar com muita dedicação, pra sobreviver. Amar demais não salva, aliena. Preciso odiar pra me equilibrar. A minha balança quase quebrou pro lado do amor e eu odeio coisas com defeito. Ocupam espaço e não servem pra nada. Amanhã eu vou acordar mais bonita porque o ódio também faz bem pra pele. 

domingo, 5 de abril de 2026

Feliz Páscoa

 


Alguém entrou na minha cabeça e conseguiu traduzir meus pensamentos. Vou guardar aqui pros próximos anos, caso eu esqueça de lembrar o que eu já sei.