Daqui a pouco menos de um mês completo 30 anos e tenho sentido profundamente o impacto da chegada dessa idade tão simbólica.
Em verdade, o difícil mesmo é algo não me impactar. Tudo sempre me impactou. Do acontecimento mais banal ao mais estremecedor.
Sempre observei tudo, sempre estive atenta à representação das coisas ao meu redor, atenta às pessoas, aos meus amores e desamores, por menores que fossem.
Isso me faz sentir um orgulho muito acolhedor e confortável de mim mesma. Orgulho por ter me ouvido indiscriminadamente ao longo de toda a minha vida.
Eis então que jána iminência de outro aniversário, tenho revivido cada fase com uma doçura imensa. Diferente de outros anos em que, nesse mesmo período, eu cantava Janaína me identificando com o afinco de quem também era só lembrança de amores guardados e mais uma pessoa que tem medo do futuro e se alimenta do passado, posso dizer que essa parte, enfim, já não me descreve.
Agora, quando recordo os meus fatos passados sinto, na realidade, um aconchego e, ao mesmo tempo, um certo distanciamento de quem valoriza mas não se alimenta disso. Relembro os momentos de tristeza e de felicidade como quem lê um livro bom. A cada memória acessada me redescubro um pouco mais, e me admiro.
Junto a tudo isso, no momento presente também me encontro num estado consciente onde ressignifico e até mesmo modifico visceralmente minha autopercepção. Tenho obstinadamente varrido de mim limitações que eu mesma me impus ao longo desses 30 anos.
E, bem, apesar de não ser uma tarefa fácil, ainda assim é bela de ser apreciada, justamente em virtude de tanta paixão e persistência para alcançar o êxito máximo nesse meu processo de aprimoramento.
Leio meus textos antigos e observo que, em essência, essa sempre foi uma busca muito presente. Eu sempre quis não me perceber como me percebia: insegura, frágil, feia, desajeitada.
Mas até então era apenas busca, apenas ambição. Eu lutei por isso, eu sofri pra chegar até esse atual estágio em que ativamente reprogramo tudo o que eu pensava sobre mim mesma e transformo em algo melhor e mais compatível com quem verdadeiramente sou.
Cada texto meu tentando me convencer do meu merecimento. Tudo o que consumi e que me acrescentou o mínimo de autoamor. Cada música, cada livro, cada filme, cada conversa profunda que tive.
Tudo isso estava por trás de uma jornada de aperfeiçoamento lenta e maçante. Porque romper padrões de uma vida inteira definitivamente não pode ser comparado a estar em um parque de diversões.
Mas essa era eu tentando, era eu sonhando em chegar nesse exato ponto da vida. De virada de chave. De me olhar e me reconhecer. De intencionalmente sair de um lugar que não me refletia em verdade.
Eu nunca me senti pequena, mas me via assim.
Por dentro não — por dentro eu sempre fui tão grande. Eu só não sabia observar isso. Não sabia ver, no lado de fora, a minha imensidão.
Sei que a percepção das pessoas a meu respeito influenciou nessa confusão e na imprecisão com que formei a minha autoimagem. Estive, dessa forma, confusa por muitos anos, guerreando entre o que eu sentia que era e a forma como eu me percebia no mundo. Tudo a meu respeito me fascinava e me enlouquecia.
Apesar disso, acredito que mesmo em meio à tanta desordem, segui nutrindo meu amor por mim. Lá dentro. Ainda que eu não me enxergasse em correspondência com o que eu sentia a meu respeito, quem eu era por dentro nunca deixou de se alimentar desse amor.
Cada fio condutor que me trouxe para a minha vida atual foi criado por esse amor. Era bem tímido, mas estava ali, permaneceu e cresceu.
Penso que tudo me ocorreu de forma perfeitamente calculada pra me fazer sentir e ver por fora a minha grandiosidade justamente agora, com 30 anos. Não sei, pra ficar mais redondinho, talvez.
Precisamente nesse ponto da vida tenho visto com clareza absoluta tudo o que esteve embaçado por muito tempo.
O meu momento presente é doce, sem ser enjoativo. Sutil, ameno, tranquilo e feliz. Sinto as minhas emoções com ternura e sem urgências. Recebo minhas lágrimas de alegria e de tristeza com extrema delicadeza e permissão.
Me sinto constantemente abraçada pela vida, privilegiada, abençoada. E não só por conta das minhas conquistas, mas também por conseguir entender, com muito afeto, o propósito que envolve cada contraste.
Abdiquei de algumas coisas que eram valiosas pra mim não porque quis, mas porque precisei. Não temi as consequências, mesmo sabendo que me trariam certo sofrimento. E, por mais doloroso que seja, às vezes até desesperador, foi em razão de toda essa reconfiguração intencional que passei a encontrar muito rapidamente o sentido por trás das minhas decisões difíceis que tiveram como resultado acontecimentos inesperados que, sob determinada ótica, podem até ser considerados ruins.
Eu me vejo absurdamente sã e lúcida diante de cada perda, de cada desconforto, de cada incerteza, de cada antipatia. Sinto o que precisa ser sentido e, por isso, consigo facilmente identificar os motivos pra que eu ainda tenha que lidar com alguns desses amargos da vida.
Entender tais motivos, por si só, me faz automaticamente retomar a doçura que me pertence e salpicar confeitos granulados coloridos nas minhas dores, nos meus dramas.
Os motivos, via de regra, estão relacionados com o meu processo de amadurecimento, o meu crescimento, a minha evolução. Traduzindo em letras garrafais que quando algo não está inteiramente bom é porque ainda não aprendi o que precisava ser aprendido.
E eu aceito com muita resiliência pagar qualquer preço pra aprender o que tenho que aprender porque finalmente racionalizei que toda essa imensidão que carrego em mim necessita de uma base sólida de muita consciência e sabedoria pra seguir coesa, pra seguir me fazendo me reconhecer externamente, nas minhas atitudes, nos meus gestos e nas minhas expressões. Com a segurança de quem banca a responsabilidade de ser muita coisa.
São os meus contrastes que me oportunizam isso porque, a partir do gerenciamento correto dos efeitos que eu permito que me causem, é que alcancei a clara e objetiva verdade sobre estar experienciando essa vida, agora.
A verdade é que não há como bancar a luz de tudo sem também conseguir bancar a sombra. Aprender isso abre os portões pra todos os outros aprendizados porque saber sentir o bom e o ruim, sem esmaecer, é o que resume a experiência de viver.
Já estava na hora de eu conseguir dominar os efeitos que o bom e o ruim de tudo me causam sem sucumbir ou depender de algo, do passado, ou até mesmo de uma visão equivocada sobre mim.
E eu amo viver, eu amo sentir como eu sinto, eu amo chegar sozinha a essas conclusões. E agora passei a amar ainda mais os detalhes até daquilo que me causa dor porque internalizei que absolutamente tudo coopera para o meu bem.
Tudo cooperou até aqui.
A minha inspiração pra escrever esse texto nasceu de mais um dos elementos da minha busca por transformação: mais uma uma conversa profunda. Despretensiosamente, no meio do meu expediente, depois do meu melhor amigo puxar um papo furado qualquer, alcançamos a profundidade que era costumeira nas nossas conversas.
Lá pelas tantas, quando a gente já tinha soltado umas boas risadas das nossas histórias, da época da faculdade, dos "e se" que acompanham todo mundo, senti de manifestar o meu gostar e fui retribuída.
Declarar meu amor nunca foi incomum, eu sempre fui quem diz o que sente. Eu sempre me declarei pra quem eu amo.
Mas me veio tanta emoção nessa súbita vontade de manifestar o meu bem querer por quem me acompanha há tanto tempo, que chorei. E chorei um pouco mais por me sentir amada e por racionalizar que nunca estive só nessas minhas construções.
Chorei por ver que tenho, além de paixão e persistência para alcançar meus objetivos, relações tão preciosas, longas e profundas, e que essas relações também foram responsáveis por sustentar boa parte dessa minha busca que agora se consolida na realização do sonho de me ver como realmente sou.
Chorei por essa conversa que veio em seguida:
Tendo em vista que já tem um tempo que me obriguei a viver o agora, também me emocionei por me dar conta muito honestamente que não estou dentro das estatísticas daqueles que com 30 anos pensam que não realizaram muitos sonhos na vida. Eu, de fato, realizei.
Hoje entendo que se realizei é também porque consegui listar meus sonhos. Eu já cheguei a achar que não os tinha, mas agradeço por ter decidido organizá-los.
Além de estar vivendo o sonho de me reconhecer como eu realmente sou, vivo alguns dos meus outros sonhos tão desejados.
Vivo um amor tranquilo, que me oportuniza todos os dias ser a melhor e mais amada versão de mim mesma. Um amor que me deu uma família, uma casa com janelas que me mostram árvores imensas, com vento corrente, espaço, luz dourada de fim de tarde, um terraço, um jardim e muito amor. Um amor que cuida de mim em cada momento do dia, fisicamente, emocionalmente e materialmente, que não me aprisiona, não me limita e sim me liberta de todos os medos e traumas que já tive.
Vivo o sonho de ter tido uma filha indescritivelmente melhor do que o próprio sonho que sonhei. Inteligente, autêntica, cheia de presença e personalidade. Que me ensina, todos os dias, as mais variadas lições a partir de um amor infinito e puro. Me ensina mais sobre o desinteresse sincero que é amar alguém verdadeiramente.
Vivo ela a cada instante e a tenho como meu encontro diário com Deus, com a alma que sempre vi em tudo. É quem me demonstra a força absoluta da existência e o prazer que é estar fazendo parte dela justamente por ter quem eu tenho e por ser quem eu sou. É quem me oportuniza corrigir erros que foram, sem intenção, cometidos comigo, pra que ela se reconheça, muito mais rapidamente, no que tem de melhor. E ela tem muita coisa.
Vivo a velhice saudável de uma mãe incomparável, incondicionalmente amada, enlouquecidamente apreciada.
Vivo a presença de poucos mas excelentes e valiosos amigos que me inspiram e incentivam a seguir amando, me expressando, e a me ver grande como quem eu realmente sou. Vivo, assim, cada vez mais na certeza de que o amor próprio se fortalece e se alimenta de vínculos consistentes. E que bom que os tenho.
Vivo a beleza da sensação plena de, como descreveu meu grande amigo, "olhar de outra maneira pra mim mesma" e faço isso de uma forma tão generosa que me faz sentir a intensa completude por ser exatamente quem eu sou às vésperas de completar 30 anos.
Eu nunca quis além disso e mesmo assim sinto que já ultrapassei, há tempos, o que a minha imaginação queria pra mim.
O interessante é que, mesmo em posse de tanto, agora me sinto com ainda mais desejo de viver essa vida. Ter ainda mais do que tenho, experienciar o mundo, conhecer sabores e lugares que nunca cogitei, sentir ainda mais amor e felicidade por tudo, pela vida, pelos meus.
Buscar permanecer em coerência com quem agora sinto e vejo que sou. Ampliar isso. Dar conta dos medos que por ventura ainda me restem, das inseguranças que ainda me restem, das saudades que ainda me restem.
Há alguns meses senti um chamado muito forte pra mudar muita coisa de lugar e me desfazer de cargas que não eram minhas. Um chamado para eliminar idealizações, expectativas frustradas, e, acima de tudo, as velhas impressões de mim mesma que estavam atreladas ao que não era meu.
Esse chamado foi a parte final dessa rota que me trouxe até aqui. Inegavelmente, foi doloroso e desafiador, e serviu pra aterrar e me fazer decidir de uma vez por todas alcançar o que ainda estava sem perspectiva de se realizar. Ou que, pelo menos, eu achava que estava. De todo modo, atendi a esse chamado e não me arrependo.
Desde então me envolvo de corpo e alma na atmosfera que tentei expor com esse texto. Desde então habito esse novo início, acesso essa nova realidade, e posso dizer que sou essa nova eu.
E assim, consignado em verbos todo o meu processo, é que deixo aqui meus votos para que os meus 30 - e seguintes - me abracem, me inebriem, me envolvam, me encantem, me elevem, me façam dançar, me façam cantar, me façam sentir o ápice do ápice do ápice da alegria de estar viva. Da alegria que me pertence e eu quero mais, em potência máxima e volume ensurdecedor.
Aos meus 20 e tantos anos... que orgulho! Vivemos! Inteira, forte e presentemente. Vivemos!