... Subentenda-me: 2025

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

A carpa

Minha paciência cíclica rapidamente desloca do centro dos meus interesses aquilo que não me acende a alma.

Meus interesses prioritários, primários, primeiros. 

Faço, então, essa roda girar mais lento quando é pra abraçar meu mundo de coisas intocadas. 

Essas tais que eu própria muito afastei de mim e agora quero apanhar como um peixe em minhas mãos. 

A carpa. 

Quero também dizer: "ah, essa carpa está impossível!".

E tem estado impossível mesmo conter minhas entregas, minhas inspirações. 

Tento acalmar o que em mim arde de verdadeiro e incontrolável impulso de viver porque ainda preciso de certo espaço pra vida que é menos interessante, mas necessária. 

Tenho é vontade de correr pra recuperar todo tempo perdido, os livros não lidos, os poemas não concebidos.

Concebidos por mim, a partir de mim e de tudo que achei que não tinha mas sempre esteve comigo. 

Tudo o que eu cheguei a achar que não era meu. 

Quero me alcançar e me abraçar. 

Quero fazer todas as colagens que não fiz. 

Nunca fui pouco.

Hoje me sei tanto que me divirto nessa imensa roda gigante que defino agora como sendo "tudo o que não me deixaram ser e mais um pouco do que aprendi a ser para pagar as contas". 

Ninguém precisa entender. 

É compreender, sem prender. 

O mistério da poesia não é transparente. Nem tudo nasce, de pronto, revelado. 

Mas a carpa, não. 

Ela já pulou impossível! 



*Dia 07/07/25 urano entrou em gêmeos.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Mesmo que acabe, não vai terminar

Tenho chorado. Muito. Ao longo do ano evitei, mas agora me permiti chorar. No meio da rua, quando fui ao comércio procurar a saia de tule verde pra cantata de natal do colégio da minha filha. No café da manhã, enquanto tocava um samba e a gente cantava. A noite, enquanto eu era soterrada de beijos por quem me ama tanto e me cuida em todos os detalhes. É um choro tão confuso. 

É um choro de "sou tão feliz porque tenho tudo" com uma mistura de "sou tão triste porque esse buraco não fecha mesmo eu tendo tudo". 

Esse misto de completude, alegria, culpa, ingratidão tem me jogado num liquidificador que remexeu aqui dentro o que eu já achava ter acomodado num baldinho cheio até a borda de água parada. Nem uma gota a mais, nem uma gota a menos. Minha água. 

Bobagem, né? A gente nunca sabe o quanto de água que ainda pode sair da gente. 

Decidi não fechar mais torneira nenhuma. Então tenho gostado de chorar e sentir e sentir e sentir. 

E sinto tanto, e amo tanto. Me confundo, sim. Me embaralho um pouco, ainda. Mas já me entendo tanto, já me sei tanto. 

Eu sinto pra me cuidar. E não que eu tenha reprimido, não que eu tenha evitado sentir. Eu senti todos os dias desse ano, desde a hora em que eu acordava até a hora que eu ia dormir. Eu passei esse ano sentindo, mas sentindo sério. Sentindo com espadas. Sentindo racionalmente. 

Agora eu me permito sentir água. 

Abri a porta pra emoção toda que eu pedi educadamente pra me aguardar num quartinho de hóspedes ao longo dos últimos meses. Essa emoção que pacientemente me esperou deitada na cama olhando pro teto, que me liberou certo espaço pra que eu destrinchasse os aspectos mais ocultos e profundos de mim pra serem analiticamente constatados e tratados e organizados sem tanta interferência do que me derrete e tira do eixo. Essa emoção minha tão generosa agora veio, me abraçou. 

Ela me disse que fiz um bom trabalho, que chorar não faz mal. Eu posso, sem precisar ter medo de bagunçar o que tanto me dediquei a reconstruir. Ela deixou e eu chorei no colo dela. Eu lembrei de tudo com tanto amor. 

Ela deixou inclusive eu me sentir perdida e mexida. Segundo ela, preciso disso pra que ela exista, também. E ela precisa existir. 

E agora eu sinto, então, que meu choro pode ser chorado em paz. Que posso sentir meus conflitos sem paralisar porque se me recolhi pra me entender e entender tanta coisa, era justamente pra poder chegar nesse momento e chorar em paz. 

Preciso disso, ainda. Sou eu. 

Choro de emoção feliz e de emoção triste. Choro pelos novos encontros, pelos dias felizes, pela cantoria que ainda se faz presente na minha vida, mas agora no meu quintal, com muita gente boa cantando junta. Choro porque mesmo com tantos desafios mentais pra superar, não paralisei. Fiz o que quis, e fui além. Choro porque encontrei o perfume certo, pelo qual esperei a vida toda. Me reconheço nele, não sei explicar. Acho que ele me achou justamente agora porque sou digna de cheirar como cheira a pessoa que realmente sou.

E eu sou a mesma, porém outra. 

Choro porque sinto saudades e acho que sempre vou sentir. Agora aceito, e não mais com medo das aparições, dos fantasmas, dos ecos. Choro porque é triste, só. É profundamente triste, mas tão meu. Choro porque finalmente posso respirar e dizer que é meu. Choro porque me livrei do peso de achar que nada nunca foi meu, do peso de achar que eu incorporei alguém e me idealizei e nunca fui nada. 

Agora sei que até o que não era meu, simplesmente é. Vejo em mim o que me deram. Vejo e não mais rejeito. Não me sinto mais medida por outra régua. Me sinto inspirada, apenas. E se me deram é meu. Vejo em mim quando eu me percebo tão artística, tão criativa. Quem eu seria sem o que me deram? 

Eu certamente não seria eu. Nem eu antes, nem eu agora.

Eu agora precisei nascer de novo mas tenho a memória genética de tudo o que passou. Eu sou o presente e o futuro, mas também sou o passado. 

Eu amo viver. Amo tanto que me libertei da ideia boba de querer apagar de mim o que passou só porque eu precisava nascer de novo. 

Como eu poderia honrar meu amor pela vida abandonando parte do amor que tive? Como eu posso viver sem permitir que a vida atue de acordo com a sua natureza que concentra tudo na gente, que faz a gente crescer sendo um amontoado de coisinhas que passaram por nós? 

Eu tentei muito me livrar de umas coisinhas, até que vi que não posso, nem quero. Precisei me dedicar muito até entender isso. E entendi. 

Então por isso eu choro. Choro porque amo o que me ocorreu e, por mais que minha escolha doa, essa dor faz também eu me sentir viva. É contraste. Passei a saber lidar. 

E eu lido assim, chorando, escrevendo, lembrando quando é tempo de lembrar.

Agora, dezembro, é tempo de lembrar. Sempre dezembro. 

Eu lembro e amo tanto. Amo tudo, amo tudo junto. E amando assim, os conflitos todos vão se dissipando. Dissipando enquanto escrevo isso e noto que eu tenho um peito que cabe muito amor. 

Eu penso na sorte. Que sorte tive de ser presenteada com tanta poesia nessa vida, desde cedo. 

As coisinhas que me amontoam estão aqui agora organizadinhas. E mesmo que não estejam, sempre estarão. Às vezes a gente precisa que as nossas coisinhas só estejam não estando, pra continuarem sendo só amor. 

Agora minhas coisinhas são só amor. Amor que me faz chorar. Chorar não mais pelo gatilho que me envolveu num medo de menina que foi abandonada sem uma despedida, mas pela força que tem a mulher que sou por causa dessa menina. 

Forte pra não deixar que essa menina grite mais e me faça ser quem não quero ser. Forte pra aceitar meus gatilhos e respeitá-los porque confio na ordem de tudo o que nos impulsiona a um caos dolorido, mas necessário. 

Agora amo e choro sem mais conjecturas tolas, entendendo que tudo é como tem que ser, aceitando o nível de maturidade de cada momento que me levou a agir sempre em busca do próximo nível. Sem julgamentos meus, sem julgamentos alheios. Fazemos o que temos que fazer, quando temos que fazer. Mesmo quando não queremos, ou quando nem sabemos o que estamos fazendo. 

Eu amo tanto, tudo. Como sempre amei. 

Tirei da gaveta minha madeira esculpida e olho agora com tanta ternura pros passarinhos que a vida me deu. 

Eu passarinha, você passarinho. E você passou, passarinho. Nós passamos. 

Mas estamos onde temos que estar. 

Todas essas cores, sabe? Nossas cores, elas são seculares.

Existem há milênios e milênios, desde quando eram só amor. E não que não tenha amor, mas tem também o que a humanidade faz com a gente, agora que a gente não é mais poeira de cores no espaço. 

Nossas cores tem tons de medo, de falta de coragem pra lutar, de abandono, de promessas vazias, de subjugação aos modelos impostos, à aparência, ao racional, ao sistema. Isso tudo lá atrás. Por isso essas cores só foram vistas de longe, nesse tempo de agora. E mesmo de longe esses tons chegaram aqui. 

Mas, passarinho, eu choro agora porque não quero perpetuar o que não é amor. Só quero amor. Por mim. Me amando assim eu te amo mais. Nos liberto das humanidades todas pra que nossas cores, coloridas só de amor, um dia se vejam e se amem com a pureza de onde viemos e nos encontramos pela primeira vez. Ou não. Quem sabe? 

Eu vou chorar muito, ainda. Sempre que der vontade. Mas também vou organizar muitas festas, fazer artesanato, desenhar, dançar, cantar. Vou fazer muito do que aprendi com quem me deu o que é meu, e também vou fazer muito do que tenho aprendido sozinha, comigo. 

Vou decorar mais a minha vida toda, como fiz com o bilhetinho do meu pai. Enquadrei sem precisar de nada além da minha vontade de fazer aquilo corresponder a arte que naturalmente é. Sem precisar recorrer a mais ninguém por me julgar, inconscientemente, incapaz de criar algo suficientemente belo. Fui lá e criei. E é mais bonito do que tudo o que poderia ter sido sugerido por qualquer outra pessoa que não fosse eu. 

Eu que movimento tudo ao meu redor, e tudo ao meu redor melhora pra mim. A praça fica mais bonita pra mim, a grama é cortada pra mim, a casa do vizinho fica mais bonita porque eu passo por ela e tenho que ver pela frente só o que é bonito como eu. 

A cidade se refez inteira, e justamente pelo meu caminho tudo o que era velho ficou novo, tudo se transformou. Tudo pra mim. 

As sincronicidades todas se dão por minha causa, e perceber isso me faz chorar. 

O que era conflito virou amor. O que me dificultava a vida agora facilita. O que me desafiava agora me respeita. O que não contribui pra minha evolução simplesmente se vai.  

E vou chorando, me sentindo agraciada pela beleza de tudo e chorando. 

Eu choro agora com a música que ouço. A que me fez escrever. Porque, sim, quando é pra sempre, pra sempre será. E minha alma tem certeza. Sempre será meu amor.

E que bom ter tido um amor de verdade. Levar comigo um amor de verdade. 

Choro porque meu amor de verdade desde antes da vida ser vida me ajudou a ser eu e a ganhar mais amores de verdade. 

Por eu ter sido exatamente quem fui, ter vivido como vivi e amado tão profundo como amei, é que posso aqui experienciar a plenitude de ser amada de volta, de ser tratada como rainha, de ver meu mundo sendo melhorado especialmente pra mim, de ter carinhos infinitos, de ser servida e valorizada, de ser beijada e abraçada, de ser mãe. 

Choro porque amo esse amor e todos os outros. Me permito amar, me permito ser, me permito ir. 

E vou. E tenho ido, chorando e sorrindo. "Chorrindo" dessa vida que eu amo viver, dessa história que eu amo que seja minha, dessa lonjura que me faz ter certeza que o amor é mágico, espiritual, forte e ilimitado.

Vou chorando de saudades sim. Aqui, sozinha, acompanhada de mim. Apreciando minha companhia como nunca antes apreciei. 

Vou chorando de amor por essa que me tornei. Essa que pode se abrir pra infinitude que é, que veio pra ser. Essa que pode ser, finalmente, o que veio pra ser. 

Vou sem precisar saber de lá, porque sinto. Sinto, recebo, e quero bem. Quero bem como quero bem a mim. Quero amor como quero pra mim. Quero esse encontro como eu me encontrei. 

Abandonei urgências, fraquezas e revoltas. Só te quero feliz, passarinho. Feliz sem mim. Quero que receba daqui meu amor. 

Meu amor que mesmo que acabe, não vai terminar.  

Daqui, vou ouvir a próxima música. A próxima me faz sorrir.

"¡Qué lindo corazón que estás acá y acá latiendo..."

É realmente lindo estar na terra. 

É lindo que o amor seja assim tão absoluto. 

É mais lindo ainda que meu choro tenha me lembrado disso pra eu, agora, chorar sorrindo pela coisa boa que tanto amor me faz. 



segunda-feira, 22 de setembro de 2025

Protagonista

Potência. Força. Loucura sã de quem tem feito um bom trabalho com o que me fizeram. 

E ninguém me fez nada a não ser me dar de presente pra mim. Eu não estaria aqui no meu trabalho confortável, no meu casamento confortável, na minha vida confortável se não fosse o desconforto de toda uma realidade pela qual eu nunca passei de olhos fechados. Não. Nada me passou em desatenção. Sempre estive atenta a cada poeirinha que me tocava. 

Nunca me senti tão vitoriosa, tão poderosa e tão FODA! E tenho reorganizado esse espaço aqui pra continuar voltando pra minha casa. Esse lugar o qual cheguei a cogitar ocultar dos registros da minha vida sendo que é exatamente meu dossiê, minha prova escrita e incontestável de tudo que sempre me provocou e me empurrou pra dentro de mim. 

Do devaneio mais bobo e adolescente até as reflexões mais profundas que uma garota poderia fazer. Que loucura, eu sempre fui um acontecimento. 

Me reler em todas as fases e pensar: QUE LINDO O QUE FIZ COMIGO MESMA.

Eu deixei migalhas pelo caminho e sempre quando me perdia, quando ainda me perco, eu me acho no que escrevi. No que detalhei da minha história, dos meus sentimentos. Eu sou psicanálise pura, eu sou um evento. 

Me apropriar disso é milagroso, é erupção vulcânica! Eu, com 30 anos, uma filha, um casamento e uma vida que é confortável sem jamais ser confundida com uma zona de conforto, tudo isso é, no mínimo, tudo o que sempre quis e lutei pra viver. E eu vivo essa vida confortável porque eu MEREÇO. E não estou na zona de conforto porque eu QUERO seguir sentindo desconfortos pra conquistar novos confortos que eu sempre vou merecer. Eu quero sempre mais do que já tenho! 

Cheguei num ponto tão fantástico aqui que tudo o que eu tenho agora, o antes, o durante, TUDO, é de um valor tão inestimável que só consigo festejar e rir e vibrar na certeza de que meu futuro me leva pra inadiável multiplicação disso tudo. 

Eu sinto um verdadeiro êxtase em estar viva. Eu reorganizo essa minha casa interna sem jogar ABSOLUTAMENTE NADA fora, porque eu tenho um espaço imenso. E cabe! Aqui dentro cabe o mundo! 

Esse ano tenho movimentado todas as minhas caixas, as minhas tralhas. Está tudo aqui, tudo catalogado, do maior pro menor. É tudo meu. Amo tudo, sigo amando. O meu amor me trouxe até aqui. Mas também meu ódio, minha vontade inexplicável de ocupar o lugar de ser minha propriedade. Esse bendito lugar que ocupo hoje, reconhecidamente.

Eu olho em volta e vejo um mundo inteiro confuso e perdido e vivendo nessa loucura que é a vida, que é a sociedade, que são as relações, as pessoas, e só consigo amar a realidade de morar dentro da minha própria cabeça. Eu sou fantástica. 

Eu, com 15 anos, estava divagando sobre amor, sobre o meu lugar no mundo! Que doideira, eu sempre fui boa. Não é à toa que sempre atraí gente profundíssima, gente que é e faz esse movimento todo, independente de se achar ou não. O tédio passou longe das minhas relações. Sempre atraí situações trampolim. Ou sempre fiz com que elas fossem isso pra mim. Meu Deus, eu sou o mago! É incrível como eu sempre soube utilizar as minhas ferramentas pra fazer o que tinha que ser feito comigo sem me colocar num lugar de fragilidade, de vítima. Eu sou um monstro! 

Me olho agora, depois de ter feito uma faxina imensa, exaustiva, aterrorizante, desde o fim do ano passado, e vejo uma mulher engrandecida, uma mulher sem precedentes. Uma mulher suada, descabelada, mas realizada com o resultado dessa limpeza toda. Está tudo um brinco, um sonho. 

Sim, eu estou vivendo o sonho de olhar em volta e dizer: UAU que trabalho bem feito, Carolina. 

Esses cômodos todos arrumados depois de toda a bagunça, toda a tristeza, depois de revirar tantos papeis e memórias. Tudo que é meu e eu cuidadosamente coloquei no lugar certo, enrolei em plástico bolha e posicionei no lugar mais inacessível das minhas prateleiras porque eu PRECISAVA do espaço que toda aquelas bugigangas e estavam ocupando. Minhas bugigangas, meus trecos. Amados, sim, mas espaçosos demais. Estava deixando tudo atravancado. 

E, ainda que toda essa arrumação tenha demorado, que orgulho sinto por ter conseguido fazer outras coisas enquanto eu arrumava. Porque só mesmo uma mulher da minha magnitude consegue fazer tão bem e simultaneamente tudo o que se propõe a fazer. 

A cada nova caixinha revisitada e realocada pra outro lugar mais apropriado, consegui logo preencher aquele vazio com o conteúdo que me faltava, com o projeto que me faltava, com o sonho que estava na lista pra ser realizado há tempos. Não adiei a realização de nenhum sonho porque estava nessa lida de arrumar a minha casa. 

Não sou pessoa que adia sonho nenhum pra nada. E realizei, e estou aqui, cheia de coisas adultas, cheia de rotina, de filha, de educação positiva, de maquetes escolares, de consultas, de imposto de renda, de tarefas domésticas e de novos sonhos e novos impulsos. Ainda totalmente intencional e atenta pra absolutamente todas as nuances que me atingem, aproveitando tudo pra continuar executando essa obra interminável e linda que é a minha vida. 

Estou aqui livre, num casamento que consegue ser tudo o que eu preciso pra me contribuir nessa jornada de continuar sendo minha. De papai e mamãe até a selvageria toda que eu tenho comigo. E sigo me satisfazendo sozinha quando a vida corre e não dá pra parar 5 minutos, mas eu paro e me amo porque eu me conheço! Ah, e como é bom me conhecer nos detalhes de mim, nos lugares de mim. 

E conhecer alguém, e viver com alguém, e não ser ingênua pra saber que o amor romântico é uma grande ilusão e tudo pode sempre acabar. Mas acordada pra dizer: que se dane, eu banco é tudo. Eu me entrego, eu sei onde estou, e eu estou lúcida, como sempre fui. Manifestamente desperta e esperta. 

Não dava pra viver a vida que eu quero e mereço viver sem reposicionar prioridades, sem reformar meus cômodos, trocar móveis do lugar. E eu não joguei minhas coisinhas fora não por apego, mas porque eu sou tão incrivelmente consciente que não tem nada aqui que não tenha uma qualidade altíssima e indiscutível. 

Aqui é tudo assinado, com design exclusivo, e tudo meu. Eu quero comigo porque me decora. Me preenche de personalidade, e me faz sentir totalmente dominante e proprietária. Como eu disse, a casa é grande. Onde já se viu? Eu não sou clean, minha casa não é clean, não é bege. Minhas paredes são coloridas e tem quadros e mais quadros, estantes cheias de peças de colecionador. Vou jogar fora pra quê? Eu preciso disso pra minha casa grande ter a minha cara, o meu borogodó. 

Estava um caos? Sim. Agora não mais. Eu redecorei com o que já tinha, e guardei o que por hora não vibra com a minha energia. E esse espaço maior e livre tem acumulado tantos e tantos e tantos novos itens. 

E são histórias, eventos, reuniões, comemorações, encontros felizes. Tudo sendo vivido aqui nessa minha casa linda e organizada. Onde agora eu vivo melhor minhas coisas adultas.

Foi me desorganizando que me organizei, bem no estilo de Clarice. E veja só onde eu cheguei: leio Clarice! Em profundidade. Mais do que isso: ENTENDO CLARICE. Eu sou hoje o que por vezes pensei que jamais poderia ser. Na verdade, francamente, eu sou é o que sempre fui. 

E meu caos deu lugar a uma dinâmica contagiante e ordenada. Agora me acho melhor. Me acho na minha casa nova num vilarejo perto do mar, nas novas oportunidades acadêmicas de um mundo novo e capitalista que agora me faz mais sentido porque abandonei a culpa cristã que me impunha a bobagem inconsciente de demonizar o dinheiro. O que é isso? Eu amo o dinheiro, amo a vida que ele me proporciona. Amo que ele me ajuda a criar minha filha com a qualidade que muitas crianças infelizmente não têm. Sou grata a ele enquanto sinto e choro por cada criança sem amparo. E amo profundamente a clareza maior de saber que tudo isso se dá sem que eu sirva a ele. Eu sirvo a mim. Eu sou a minha Deusa. O dinheiro me serve! 

Agora, depois da ordem, consigo ler livros, e fazer cursos, e análise. Freud realmente explica! Agora eu sei. Desvendei um mundo interno infinito e parece que foi como num estalo que veio toda a transparência sobre a vida, sobre a minha vida. Troquei todas as lentes já desgastadas. Está tudo nítido.

Cada novo conhecimento me consome como uma avalanche. É tremendo. É determinante pra manutenção da minha força, do meu poder! 

Deus me livre nascer mulher e não me aproveitar de tudo o que vem embutido na gente. Eu sou mulher! E tenho desfeito as ilusões e idealizações que me são impostas. Que nos são impostas. Eu entendo a estrutura do lugar de um homem, enfim. E de onde essa estrutura quis me colocar, eu escapei. 

Olha pra mim, que orgulho! Eu escapei de me submeter! Eu escapo, eu escaparia e escaparei quantas vezes forem necessárias. Eu me alimento com gosto das tantas consciências que me fazem ser realista sobre todas as habilidades que eu preciso desenvolver em qualquer circunstância. Só me aprimoro! 

E se não fossem todos os registros daqui, talvez mais longe desse lugar explêndido eu estivesse. Registros de todos os meus amores românticos e adolescentes, de todos os meus fracassos, das minhas inseguranças, de um sentimento inventado e que eu usava pra justificar a projeção sobre mim mesma a partir do olhar de um outro que eu me apropriei pra tentar me ver melhor por tantos anos, sem dimensionar que esse mesmo olhar me limitava e me podava de tudo o que eu ainda poderia ser por conta própria, por causa de umas regras invisíveis, de uns contratos sem sentido, de umas prepotências inadmitidas por mim. Que loucura. 

Eu não demonizo ninguém, não me vitimizo de ninguém. Eu assumo toda a responsabilidade e é nesse peito aqui que eu bato pra dizer que eu aguentei e aguento qualquer coisa, e me refaço em busca de mim mesma. Nesse peito que já alimentou o maior amor da minha vida. Amor esse que não me envolve na ilusão de que é a única razão da minha felicidade, porque tenho muitas, e também porque estou acordada e quero que o meu amor, a minha menina, também tenha inúmeras razões pra ser feliz. 

Que ela seja livre de mim e se encontre até se bastar também. E sou eu, tudo o que sou e tudo o que sei que vai encurtar esse caminho pra ela. Sou eu quem vai fazê-la entender que ao nascer mulher ela já assumiu o risco de vivenciar violências e que isso é uma realidade, muito provavelmente um fato, mas não a determinará. 

Ela vai transitar aqui nesse mundo bosta sabendo o que ele é e, por mim, vai desviar de todas as agressões e de todos os abusos que vão, invariavelmente, cruzar o caminho dela. E se não desviar ela vai até cair, mas vai cair com classe, vai levantar com força e vai mostrar quem é que manda. E a mãe dela vai estar aqui pra ajudar a mostrar que quem manda é ela! 

Ela é a dancing queen dessa vida. Eu sou. A gente é! Somos invencíveis! 

E, mergulhada na potência que é conviver e interagir com outras mulheres absolutas, num novo mundo que agora habito, eu estou aqui bêbada de mim, de consciência, num espaço aberto, livre e transformador. Estou aqui, como sempre estive, mas em uma casa completamente nova, e numa vida completamente bela! 

Eu 

Estou, 

Mais do que nunca,

PRESENTE! 

Protagonista, dona, proprietária, e absolutamente minha!

The first, the last, MY EVERYTHING! 




terça-feira, 24 de junho de 2025

Carolina

Eu ouso dizer que poucas coisas são tão complexas e impactantes na existência humana quanto ver ruir os pilares do nosso eu. É forte e intenso a ponto de nos fazer ir buscar explicações sobre o que é isso que paira e ocupa um espaço imenso mesmo depois de deliberadas e intencionais rupturas simbólicas, encerramentos mentais e materiais. Nada. Nesse contexto, ainda que tudo se vá, tudo permanece no mesmo lugar.  

Acredito, agora, que dentre todas as experiências possíveis de serem vividas, aquele acontecimento ou vínculo que quando desmorona ou se modifica nos empurra a quase que compulsoriamente tentar encontrar as respostas de uma vida inteira é, sem dúvidas, a oportunidade de uma era. Ou de todas as eras. E também é uma das maiores dores. 

Diante disso, há dois caminhos: seguir ou paralisar. E é completamente compreensível a vontade de não dar mais nenhum passo adiante que aproxime de descobertas que vão derreter e deixar em carne viva tudo o que se sabe ou se imagina sobre si e, consequentemente, obrigar a reconfiguração de um funcionamento já tão estabelecido e automático da nossa alma errante. 

Esse é o ponto em que todos os erros podem vir a se tornarem acertos. Enfrentar e se agarrar a essa oportunidade assusta porque, sinceramente, quem vai querer acertar enquanto há tantos ganhos secundários em continuar errando? Os erros, as culpas, os arrependimentos, as tragédias, nos garantem vantagens e recompensas quase imperceptíveis que nos fazem querer continuar no engano. 

Eu não quero ganhar com os meus equívocos, meus desequilíbrios e com os erros da minha auto percepção. Não quero ocupar meu tempo me vitimizando com a dor de não me saber, enquanto poderia estar construindo o que de fato deve ser consolidado em mim. 

Por tudo isso decidi seguir o caminho desconfortável de trocar de pele, apesar da dor.  

Essa decisão transforma a mente numa maratonista. A realidade transmuta pra uma psicótica corrida rumo aos esclarecimentos capazes de amenizar tanta dor indefinida, que não se sabe exatamente nem de onde está vindo.

Busquei, inicialmente, pela minha tendência aos misticismos todos. As revelações espirituais explicaram e confortaram, mas não emudeceram a voz que não cala nunca, o grito interno e ensurdecedor que não desiste de perguntar, a todo momento: "quem você é sem isso?". 

E quando nenhuma regressão, apometria, mapa astral, leitura de tarô, conseguiram conter as minhas inquietações, não teve jeito, a única saída foi arregaçar as mangas e mergulhar bem fundo no inconsciente do inconsciente. 

Não sei exatamente como eu cheguei lá, mas cheguei. Não sei quem me levou ou se eu mesma vim me visitar enquanto minha própria consciência de um futuro onde tudo o que acomete as minhas atuais angustias já está repousando em berço esplêndido. 

Cheguei e me vi. Uma menininha tomando vitamina de mamão, sentada numa cadeirinha de balanço verde e branca enquanto, no outro quarto, duas pessoas discutem sobre suas próprias questões relacionais sob o manto da desculpa de que se trata apenas de algum debate necessário para o bom andamento da criação dessa menininha. 

Nunca foi sobre ela, sobre mim. Mas eu não sabia. 

Nessa retrospectiva de vida presente que eu mesma me conduzi a acessar, identifiquei que a gente dá amor da forma que recebeu. Isso é o que nos ensina a amar. 

É uma obviedade, eu sei. Mas é uma verdade pouco apreendida em essência. Acessei essa verdade e agora me questiono o que fazer com ela, uma vez que eu conscientemente entendo enfim que aprendi que só seria amada se atendesse à expectativas outras, exatamente como aquela menininha que recebia muito amor, no entanto apenas se obedecesse e fosse quem queriam que ela fosse. 

Não foi oferecido pra aquela menininha a segurança de se sentir amada independentemente e incondicionalmente. Com isso, foi entendido que só chegaria ao amor a partir da adequação. 

Ela também era o eixo de sustentação daqueles dois adultos. Era o que unia e direcionava seus interesses para um único ponto em comum. Acho pesado isso, tornar alguém tão pequena e frágil responsável por manter uma relação tão deteriorada. 

Por conta disso aprendi que tudo bem sustentar relações pra receber amor. Ser o melhor de mim pra alcançar reconhecimento, elogios e retribuição. 

Toda a base estava pronta pra eu crescer. Ou talvez nem tanto, mas não se pode evitar o tempo e as transformações que ele impõe. 

E então o acaso me direcionou pra que eu, de tão longe, encontrasse alguém cujas faltas preenchiam as minhas na exata medida. O que eu sabia dar era o que esse alguém precisava receber. 

Eu, justamente eu, que só sabia me sentir amada dando tudo de mim. 

E dei. 

O arrependimento não é sobre ter dado tudo de mim. Acredito que quanto a isso ninguém tem culpa porque a raiz do problema é parental e na época dos meus pais as práticas corretas de como se educar um filho não eram tão divulgadas, era uma informação mais restrita. Ou talvez inconscientemente dispensada pelos traumas deles. 

Me sinto de certo modo até compreensiva por pensar assim. 

De toda forma, as coisas são como são e eu teria dado tudo de mim a quem quer que fosse que me desse o mínimo de atenção e retorno positivo. E foi bom me sentir assim, retribuída em alguma medida, requisitada, demandada. Os problemas de fato apareceram a longo prazo. 

No durante eu fui, muitas vezes, até indiferente aos efeitos que me causava amar tão errado. Mas tudo sempre esteve ali, mesmo quando não estava, já que nunca esteve. 

Eu soube o que era mesmo sem saber, porque a natureza do vínculo era o "não ser". Era a dificuldade, a impossibilidade, a disfuncionalidade. Exatamente como aquela união que me botou no mundo. 

E isso me acompanhou quase que a vida toda. Me vi, então, em todas as relações paralelas, em todas as situações, em todas as minhas questões, terceirizando uma avaliação de mim mesma numa busca inconsciente e frustrada pra ser um pouco mais como alguém por quem valesse a pena atravessar o país. 

Nunca fui, nunca alcancei esse ideal de mim a partir da ótica do ideal de um outro tão, justamente, idealizado. Eu criei uma régua invisível pra medir tudo de mim a partir do que eu suspeitava que seria suficiente para um outro que eu também criei. 

Dessa constatação veio a explosão, a carne viva, o caos, a grande revelação! 

Contraditoriamente, ter certeza da veracidade dessa percepção também é a maior das dúvidas. O que é realidade, o que não é? Nada é? E agora, o que eu faço com isso? Aquilo tudo que eu pensei que eu era não era eu? Era eu a partir do que eu quis muito ser pra ser plenamente amada por outro para atender ao seu suposto ideal que eu também inventei? Continuar buscando ser esse ideal de mim mesma a partir dessa régua invisível era manter viva a esperança de um dia poder ser suficiente pra viver alguma coisa com o alguém idealizado mesmo eu já tendo conquistado tudo o que quis? Ou continuar buscando ser esse ideal a partir dessa régua era a forma de manter vivo o vínculo com esse alguém justamente por eu já ter conquistado tudo o que quis? 

Confusão sem fim. Nessa imersão eu me vi vivendo a essência dessa busca inalcançável pra atingir um selo de qualidade imaginário por quinze inacreditáveis anos até quando não havia "presença", até quando eu achava que estava fazendo por mim. 

Eu transferi a responsabilidade de ser eu pra uma consciência desconhecida, hipotética. Eu construí minha identidade a partir de referências não minhas das quais eu me apropriei nem sei de quem. Não sei se de alguém real ou do que eu imaginei que esse alguém era. 

Isso tudo até o ponto em que eu sucumbi. E sucumbi não só ao me sentir sendo simbolicamente inutilizada ou porque escancarei a realidade de estar apenas ocupando um lugar de suporte e esteio. Sucumbi, na verdade, por sentir muito forte a necessidade de não mais me ver dessa forma em todas as minhas interações e por entender que o que me fazia sentir profundo amor também me mantinha refém desse modelo de amor irreal. 

Ao mesmo tempo que é um descanso, um diagnóstico, uma resposta, também é a finalização de muita coisa, em definitivo. Isso é triste, profundo, dilacerante, avassalador. 

Agora preciso redefinir tudo. Eu, o que sou, o que gosto, o que tenho de meu e não meu. Isso tem sido encontro e despedida. 

Tenho, agora, me despedido não só das minhas idealizações de alguém, mas, principalmente, de mim mesma. Ainda não sei ao certo o que fazer mas sinto orgulho por estar fazendo. 

Os resgastes todos dessas consciências embaçadas vieram sem muito preparo e proteção, mas me sinto inexplicavelmente bem amparada e conduzida. Sinto até disposição para continuar descobrindo os véus que me impediam de ver com clareza a mim e a vida. Espero conseguir, gradativamente, trocar essas lentes por lentes minhas. 

A resposta me trouxe certa tranquilidade para seguir sem culpa e sem nomear culpados. Seguir sem me responsabilizar ou me preocupar com meu comportamento, sem pensar em dar espaço pra eventuais retornos por puro vício. Seguir sem questionar se fiz o que era certo. 

Não é sobre nenhuma pessoa, é só sobre mim. 

Ainda existem lugares de mim desconhecidos a serem explorados, ainda vou precisar saber o que fazer e como ressignificar alguém numa nova ausência que agora não deve ser norte pra o futuro do meu eu mas sim apenas a referência do passado que me trouxe até aqui. 

Sinto que não posso descartar e apagar como fiz com tantos vestígios materiais. Aqui dentro de mim existem ainda tatuagens e espero que com o tempo desbotem. Mas algo mudou. Tudo mudou. Vou precisar renomear, reclassificar, reposicionar tudo dentro de mim. A maioria dos personagens, dos eventos, das lembranças. 

Há muito trabalho pela frente e mesmo sem talento pra trabalhos braçais e domésticos, vou enfrentar essa reconstrução. 

Decidi, então, começar a me despedir de tudo o que me induz ao eco de ser quem eu era a partir do que eu achava que precisava ser. E, pra isso, acho que não preciso mais me esconder no "sub" de nada. Decidi que abandonar esse espaço virtual de tantos anos é um bom início.

Sinto que consigo e devo, agora, me fazer ser, de fato, entendida, sem medo de ser quem sou. Sem hesitar, sem amolecer, sem olhar pra trás. 

Confesso que sinto medo, mas bati o martelo para dar início às minhas obras naquela terça de manhã, quando encarei essas verdades num silêncio melancólico de quem não pode chorar que nem criança, mas por dentro estava sangrando, sentindo abertas todas as minhas feridas anestesiadas pelo tempo. 

Pensei na responsabilidade que carrego agora que estou educando e ajudando um ser gerado por mim a formar o íntimo do íntimo do íntimo das suas relações futuras. Pensei no quanto quero fazer isso direito, dar o que não recebi, fazer todo o compliance da estrutura emocional dela ser eficiente, trabalhar preventivamente pra que tudo dê certo e ela saiba como lidar com as adversidades que inevitavelmente vão surgir exatamente porque recebeu o suporte inicial para construção de uma casa interna segura e confortável.

Pensei no quanto quero ensiná-la a se amar direito, enquanto me apertava o peito e o choro ficava empurrando as paredes da minha garganta por entender que ninguém me ensinou a me amar direito.

De repente voltei pra mim e interrompi esses devaneios agudos. Guardei a dor no bolso e precisei sair para ir até a reunião do colégio da mencionada filha que quero criar sem tumultuar todas essas complexidades do "eu".

A caminho da reunião decididamente afirmei pra mim mesma que me tornarei quem ela e aquela menininha que tomava vitamina de mamão precisam que eu seja. E por elas vou adiante, ainda que doa, ainda que eu estremeça ao longo dessa empreita. 

Logo em seguida recebi outra confirmação. Peguei o celular e fui convidada pelo spotify a ouvir um álbum novo de um artista que gosto. Me chamou a atenção uma música com meu nome. O ar condicionado do uber estava quebrado, o vento me bagunçava os cabelos. Coloquei os fones e ouvi um recado certeiro, emocionante, me dizendo pra continuar essa tarefa de renovação de mim. Sorri feliz com as lágrimas que enfim deixei cair. 

Ainda ouvindo, fechei os olhos e pensei: 

"É, Carolina, agora finalmente vais olhar com calma a janela."




quarta-feira, 14 de maio de 2025

Poema do preço baixo

Outro dia qualquer negociando

Quem dá menos? Quem dá menos?

E os preços baixos são baixos também em satisfação

Entre acordos e ajustes

Entre quem manda e quem faz

Eis uma cabeça que conduz

Junto de outras cabeças, 

mas diferente delas, questiona:

Como foi que os carros seguintes não viram aquele velhinho no chão?

Depois de um ônibus, mais um, mais outro e outro. 

No total três.

Como?

Em que momento a distração se fez tamanha que alguém pôde ser confundido com um asfalto remendado?

E as negociações seguem

Os preços baixos que nem tão baixos pois muito acima do

mínimo do mínimo do mínimo

Pra viver.

Enquanto um banco tenta comprar barato, que nem tão barato é

Um velhinho morre na sarjeta

depois de três, não dois, nem um

Três carros e um ônibus.

No total quatro.

Ou cinco? — um ônibus vale por quantos?

Entre as cabeças pensantes que se importam, ainda, em fazer o que é preciso

pra não ter, a cada mês, nem perto do preço que não é nada baixo, 

somente uma pensa, incessantemente: 

Em que momento a distração se fez tamanha que alguém pôde ser confundido com um asfalto remendado?

É que o preço baixo não é nada baixo e o velhinho,

no final,

não custou nenhum centavo de atenção. 

quinta-feira, 8 de maio de 2025

30

Daqui a pouco menos de um mês completo 30 anos e tenho sentido profundamente o impacto da chegada dessa idade tão simbólica. 

Em verdade, o difícil mesmo é algo não me impactar. Tudo sempre me impactou. Do acontecimento mais banal ao mais estremecedor. 

Sempre observei tudo, sempre estive atenta à representação das coisas ao meu redor, atenta às pessoas, aos meus amores e desamores, por menores que fossem. 

Isso me faz sentir um orgulho muito acolhedor e confortável de mim mesma. Orgulho por ter me ouvido indiscriminadamente ao longo de toda a minha vida.

Eis então que  na iminência de outro aniversário, tenho revivido cada fase com uma doçura imensa. Diferente de outros anos em que, nesse mesmo período, eu cantava Janaína me identificando com o afinco de quem também era só lembrança de amores guardados e mais uma pessoa que tem medo do futuro e se alimenta do passado, posso dizer que essa parte, enfim, já não me descreve.  

Agora, quando recordo os meus fatos passados sinto, na realidade, um aconchego e, ao mesmo tempo, um certo distanciamento de quem valoriza mas não se alimenta disso. Relembro os momentos de tristeza e de felicidade como quem lê um livro bom. A cada memória acessada me redescubro um pouco mais, e me admiro. 

Junto a tudo isso, no momento presente também me encontro num estado consciente onde ressignifico e até mesmo modifico visceralmente minha autopercepção. Tenho obstinadamente varrido de mim limitações que eu mesma me impus ao longo desses 30 anos. 

E, bem, apesar de não ser uma tarefa fácil, ainda assim é bela de ser apreciada, justamente em virtude de tanta paixão e persistência para alcançar o êxito máximo nesse meu processo de aprimoramento. 

Leio meus textos antigos e observo que, em essência, essa sempre foi uma busca muito presente. Eu sempre quis não me perceber como me percebia: insegura, frágil, feia, desajeitada. 

Mas até então era apenas busca, apenas ambição. Eu lutei por isso, eu sofri pra chegar até esse atual estágio em que ativamente reprogramo tudo o que eu pensava sobre mim mesma e transformo em algo melhor e mais compatível com quem verdadeiramente sou. 

Cada texto meu tentando me convencer do meu merecimento. Tudo o que consumi e que me acrescentou o mínimo de autoamor. Cada música, cada livro, cada filme, cada conversa profunda que tive. 

Tudo isso estava por trás de uma jornada de aperfeiçoamento lenta e maçante. Porque romper padrões de uma vida inteira definitivamente não pode ser comparado a estar em um parque de diversões.

Mas essa era eu tentando, era eu sonhando em chegar nesse exato ponto da vida. De virada de chave. De me olhar e me reconhecer. De intencionalmente sair de um lugar que não me refletia em verdade. 

Eu nunca me senti pequena, mas me via assim. 

Por dentro não — por dentro eu sempre fui tão grande. Eu só não sabia observar isso. Não sabia ver, no lado de fora, a minha imensidão. 

Sei que a percepção das pessoas a meu respeito influenciou nessa confusão e na imprecisão com que formei a minha autoimagem. Estive, dessa forma, confusa por muitos anos, guerreando entre o que eu sentia que era e a forma como eu me percebia no mundo. Tudo a meu respeito me fascinava e me enlouquecia. 

Apesar disso, acredito que mesmo em meio à tanta desordem, segui nutrindo meu amor por mim. Lá dentro. Ainda que eu não me enxergasse em correspondência com o que eu sentia a meu respeito, quem eu era por dentro nunca deixou de se alimentar desse amor. 

Cada fio condutor que me trouxe para a minha vida atual foi criado por esse amor. Era bem tímido, mas estava ali, permaneceu e cresceu. 

Penso que tudo me ocorreu de forma perfeitamente calculada pra me fazer sentir e ver por fora a minha grandiosidade justamente agora, com 30 anos. Não sei, pra ficar mais redondinho, talvez.

Precisamente nesse ponto da vida tenho visto com clareza absoluta tudo o que esteve embaçado por muito tempo. 

O meu momento presente é doce, sem ser enjoativo. Sutil, ameno, tranquilo e feliz. Sinto as minhas emoções com ternura e sem urgências. Recebo minhas lágrimas de alegria e de tristeza com extrema delicadeza e permissão. 

Me sinto constantemente abraçada pela vida, privilegiada, abençoada. E não só por conta das minhas conquistas, mas também por conseguir entender, com muito afeto, o propósito que envolve cada contraste.

Abdiquei de algumas coisas que eram valiosas pra mim não porque quis, mas porque precisei. Não temi as consequências, mesmo sabendo que me trariam certo sofrimento. E, por mais doloroso que seja, às vezes até desesperador, foi em razão de toda essa reconfiguração intencional que passei a encontrar muito rapidamente o sentido por trás das minhas decisões difíceis que tiveram como resultado acontecimentos inesperados que, sob determinada ótica, podem até ser considerados ruins. 

Eu me vejo absurdamente sã e lúcida diante de cada perda, de cada desconforto, de cada incerteza, de cada antipatia. Sinto o que precisa ser sentido e, por isso, consigo facilmente identificar os motivos pra que eu ainda tenha que lidar com alguns desses amargos da vida. 

Entender tais motivos, por si só, me faz automaticamente retomar a doçura que me pertence e salpicar confeitos granulados coloridos nas minhas dores, nos meus dramas. 

Os motivos, via de regra, estão relacionados com o meu processo de amadurecimento, o meu crescimento, a minha evolução. Traduzindo em letras garrafais que quando algo não está inteiramente bom é porque ainda não aprendi o que precisava ser aprendido. 

E eu aceito com muita resiliência pagar qualquer preço pra aprender o que tenho que aprender porque finalmente racionalizei que toda essa imensidão que carrego em mim necessita de uma base sólida de muita consciência e sabedoria pra seguir coesa, pra seguir me fazendo me reconhecer externamente, nas minhas atitudes, nos meus gestos e nas minhas expressões. Com a segurança de quem banca a responsabilidade de ser muita coisa.

São os meus contrastes que me oportunizam isso porque, a partir do gerenciamento correto dos efeitos que eu permito que me causem, é que alcancei a clara e objetiva verdade sobre estar experienciando essa vida, agora. 

A verdade é que não há como bancar a luz de tudo sem também conseguir bancar a sombra. Aprender isso abre os portões pra todos os outros aprendizados porque saber sentir o bom e o ruim, sem esmaecer, é o que resume a experiência de viver.

Já estava na hora de eu conseguir dominar os efeitos que o bom e o ruim de tudo me causam sem sucumbir ou depender de algo, do passado, ou até mesmo de uma visão equivocada sobre mim. 

E eu amo viver, eu amo sentir como eu sinto, eu amo chegar sozinha a essas conclusões. E agora passei a amar ainda mais os detalhes até daquilo que me causa dor porque internalizei que absolutamente tudo coopera para o meu bem. 

Tudo cooperou até aqui. 

A minha inspiração pra escrever esse texto nasceu de mais um dos elementos da minha busca por transformação: mais uma uma conversa profunda. Despretensiosamente, no meio do meu expediente, depois do meu melhor amigo puxar um papo furado qualquer, alcançamos a profundidade que era costumeira nas nossas conversas. 

Lá pelas tantas, quando a gente já tinha soltado umas boas risadas das nossas histórias, da época da faculdade, dos "e se" que acompanham todo mundo, senti de manifestar o meu gostar e fui retribuída.

Declarar meu amor nunca foi incomum, eu sempre fui quem diz o que sente. Eu sempre me declarei pra quem eu amo. 

Mas me veio tanta emoção nessa súbita vontade de manifestar o meu bem querer por quem me acompanha há tanto tempo, que chorei. E chorei um pouco mais por me sentir amada e por racionalizar que nunca estive só nessas minhas construções. 

Chorei por ver que tenho, além de paixão e persistência para alcançar meus objetivos, relações tão preciosas, longas e profundas, e que essas relações também foram responsáveis por sustentar boa parte dessa minha busca que agora se consolida na realização do sonho de me ver como realmente sou.

Chorei por essa conversa que veio em seguida: 


Tendo em vista que já tem um tempo que me obriguei a viver o agora, também me emocionei por me dar conta muito honestamente que não estou dentro das estatísticas daqueles que com 30 anos pensam que não realizaram muitos sonhos na vida. Eu, de fato, realizei.  

Hoje entendo que se realizei é também porque consegui listar meus sonhos. Eu já cheguei a achar que não os tinha, mas agradeço por ter decidido organizá-los. 

Além de estar vivendo o sonho de me reconhecer como eu realmente sou, vivo alguns dos meus outros sonhos tão desejados. 

Vivo um amor tranquilo, que me oportuniza todos os dias ser a melhor e mais amada versão de mim mesma. Um amor que me deu uma família, uma casa com janelas que me mostram árvores imensas, com vento corrente, espaço, luz dourada de fim de tarde, um terraço, um jardim e muito amor. Um amor que cuida de mim em cada momento do dia, fisicamente, emocionalmente e materialmente, que não me aprisiona, não me limita e sim me liberta de todos os medos e traumas que já tive. 

Vivo o sonho de ter tido uma filha indescritivelmente melhor do que o próprio sonho que sonhei. Inteligente, autêntica, cheia de presença e personalidade. Que me ensina, todos os dias, as mais variadas lições a partir de um amor infinito e puro. Me ensina mais sobre o desinteresse sincero que é amar alguém verdadeiramente.

Vivo ela a cada instante e a tenho como meu encontro diário com Deus, com a alma que sempre vi em tudo. É quem me demonstra a força absoluta da existência e o prazer que é estar fazendo parte dela justamente por ter quem eu tenho e por ser quem eu sou. É quem me oportuniza corrigir erros que foram, sem intenção, cometidos comigo, pra que ela se reconheça, muito mais rapidamente, no que tem de melhor. E ela tem muita coisa. 

Vivo a velhice saudável de uma mãe incomparável, incondicionalmente amada, enlouquecidamente apreciada.  

Vivo a presença de poucos mas excelentes e valiosos amigos que me inspiram e incentivam a seguir amando, me expressando, e a me ver grande como quem eu realmente sou. Vivo, assim, cada vez mais na certeza de que o amor próprio se fortalece e se alimenta de vínculos consistentes. E que bom que os tenho. 

Vivo a beleza da sensação plena de, como descreveu meu grande amigo, "olhar de outra maneira pra mim mesma" e faço isso de uma forma tão generosa que me faz sentir a intensa completude por ser exatamente quem eu sou às vésperas de completar 30 anos. 

Eu nunca quis além disso e mesmo assim sinto que já ultrapassei, há tempos, o que a minha imaginação queria pra mim. 

O interessante é que, mesmo em posse de tanto, agora me sinto com ainda mais desejo de viver essa vida. Ter ainda mais do que tenho, experienciar o mundo, conhecer sabores e lugares que nunca cogitei, sentir ainda mais amor e felicidade por tudo, pela vida, pelos meus. 

Buscar permanecer em coerência com quem agora sinto e vejo que sou. Ampliar isso. Dar conta dos medos que por ventura ainda me restem, das inseguranças que ainda me restem, das saudades que ainda me restem. 

Há alguns meses senti um chamado muito forte pra mudar muita coisa de lugar e me desfazer de cargas que não eram minhas. Um chamado para eliminar idealizações, expectativas frustradas, e, acima de tudo, as velhas impressões de mim mesma que estavam atreladas ao que não era meu. 

Esse chamado foi a parte final dessa rota que me trouxe até aqui. Inegavelmente, foi doloroso e desafiador, e serviu pra aterrar e me fazer decidir de uma vez por todas alcançar o que ainda estava sem perspectiva de se realizar. Ou que, pelo menos, eu achava que estava. De todo modo, atendi a esse chamado e não me arrependo. 

Desde então me envolvo de corpo e alma na atmosfera que tentei expor com esse texto. Desde então habito esse novo início, acesso essa nova realidade, e posso dizer que sou essa nova eu.

E assim, consignado em verbos todo o meu processo, é que deixo aqui meus votos para que os meus 30 - e seguintes - me abracem, me inebriem, me envolvam, me encantem, me elevem, me façam dançar, me façam cantar, me façam sentir o ápice do ápice do ápice da alegria de estar viva. Da alegria que me pertence e eu quero mais, em potência máxima e volume ensurdecedor. 

Aos meus 20 e tantos anos... que orgulho! Vivemos! Inteira, forte e presentemente. Vivemos! 

Obrigada! 


"Y el lugar correcto es el ahora para caminar..."


terça-feira, 18 de março de 2025

Remexendo aquele baú cheio de ácaros pela ultima vez?

Eis o que faço quando não consigo me regular: eu escrevo. Expurgo de mim em palavras o que insiste em fazer eu me perder em pensamentos que são como labirintos. Enquanto não escrevo sinto como se eu deliberadamente quisesse ou aceitasse ficar presa nesses corredores infinitos de divagações confusas. 

E não quero. 

Escrevo, então. Escrevo porque não posso dizer. E hoje quero explodir do que não digo. Não quero ficar conscientemente presa num lugar de onde sei como sair. 

Hoje sinto que não existe, no mundo, quem me entenda. Ou talvez exista. Ou talvez tenha existido. 

Sei que é sobre essa indefinição de existência tamanha confusão e aflição. Labirintos, bagunças. Labirintos bagunçados. 

Existe? Existo? Existimos? 

Eu não sei. 

Que criação é essa que ainda me detém e perturba? 

Esse emaranhado de energia que acumulo no peito como um novelo de lã embaraçado, o qual tento desembolar, desatar nós. Tento enquanto pulsa o coração ao mesmo tempo que encolhe. E dói. 

Não quero sentir. Fujo. Não quero, mas sinto. E sinto muito. É difícil admitir. 

Mesmo negando, tanto sentir me atordoa, me tortura, por conta de uma inevitável desorganização. No meio de tudo, me forço a voltar. Estalo os dedos e me puxo pro presente, pro real. Olho pro meu entorno, agradeço, vejo e aprecio o que tenho com imenso amor e orgulho. 

Mesmo negando, sinto a minha sorte ao mesmo tempo em que sinto absoluta falta do que nunca me pertenceu além de pertencer a minha própria imaginação. De tudo o que eu dizia ser meu porque o fiz pra ser assim. 

Eu criei. 

Depois de muitos anos equilibrando esse entre tantos pratos, me aborreci e quebrei. Quebrei um prato que, mesmo depois de tantas vezes ter ameaçado se espatifar no chão, sempre lutei contra a gravidade pra manter girando no palitinho. 

Fui cruel, fui o próprio chão - ou talvez ainda mais dura que ele. Enfim, decidi pela ruptura que disse que nunca aconteceria. 

Desde então os meus dias têm sido felizes e tristes. Tenho sido duas pessoas. Eu, real. Eu, refletida no espelho. 

Enquanto sorrio, meu eu refletido segue presa, oculta e lidando sozinha com o peso dos "nuncas", dos "sempres", dos "eu te amo" que foram ditos reiteradas vezes pra minha criação. 

Esse meu reflexo sente tudo o que não posso sentir exatamente nesse momento em que eu, em frente a ele, sorrio. E sorrio verdadeiramente, amando tudo verdadeiramente.

O que fazer, então, pro meu reflexo não sentir o que em mim sei que está? Silenciado, reprimido, escondido, mas está. 

Encontro todas as vezes quando olho no espelho e decido manter assim porque é um esconderijo seguro que só eu vejo, que só eu visito. 

Penso que eu queria muito que apenas o espelho me obrigasse a encarar as tantas verdades que nego. Queria porque, se assim fosse, bastava eu não me olhar no espelho. 

Mas não.

Também está na minha insônia, nos meus sonhos, nos meus trajetos. 

A exemplo disso, vejo quando adormeço e me vem alguém deitar no colo e dizer que o que não é dito quer dizer muita coisa. E depois surge o desenho de um navio em uma noite escura e uma carta que li mas perdi da memória quando acordei. 

Não lembro o que estava escrito, mas lembro que enquanto lia, no sonho, novamente sentia pulsar o coração desse tal jeito que encolhe e dói. 

Sei que são muitas espadas, mentes cansadas de tanto pensar e não saber como agir. Bloqueios e cortes dolorosos. 

Em mim, nas profundezas, minhas versões anteriores gritam de desespero. Me pedem, me imploram. 

"Deixa ficar, vai buscar, do jeito que for, de qualquer jeito. Qualquer jeito é alguma coisa. Deixa estar. É nosso. É tempo, muito tempo." 

De cima, digo que não. Falo com cada uma delas, tentando explicar com todo amor que tenho por quem nós somos, que apesar de ser muito nosso, ao mesmo tempo nunca foi. 

Ouço com carinho, me compadeço, sinto muito, até choro, mas, tal como uma professora do jardim de infância ou uma mãe dedicada, me utilizo da educação positiva, me inclino, olho nos olhos, e, num tom de voz ameno, acalmo os nervos de cada uma que fui. 

Tranquilizo todas elas pra conseguir seguir os dias com menos rompantes até a próxima crise das minhas versões tão mal acostumadas, conformadas e nutridas de um amor que elas sustentam e lutam pra manter ilusoriamente perto, sozinhas. 

Assim tem sido. Na maior parte do tempo eu sou bem sucedida, apesar de tanta força empregada me desgastar constantemente. 

É que esse leão, apesar de domesticado, é instável e imprevisível. Mas na grande maioria dos dias eu consigo adestrá-lo com muita habilidade e um trato generoso que honra as suas origens e sua história.

Infelizmente - ou felizmente - hoje não consegui. Sucumbi ao cansaço porque tantas vozes, tantas súplicas, tantos corredores, e tantos reflexos de tantos espelhos me deixaram realmente exausta a ponto de paralisar. 

Estou aqui colocando pra fora. Estou aqui, forte e fraca. Pairando entre o real e o imaginado mais uma vez porque requer muita disciplina e rigidez me convencer de que é preciso abrir mão do que criei e me responder se o que criei realmente existe. 

Apesar de irritada por ceder, entendi que preciso racionalizar. 

"É assim pra ser mesmo? Essa transformação é de fato inevitável? Se tudo é criação minha, preciso quebrar esse elo? Onde eu guardei as chaves?"

Daí sinto racionalmente as saudades intensas que tanto abafei. Pra resolver acho que preciso revisitar o lugar do qual decidi que precisava me afastar. Concluo que somente assim vou conseguir demonstrar pras minhas versões o motivo dessa decisão, até que entendam e silenciem. 

E, num limiar entre o racional e o irracional, se fez meu equilíbrio. Tantas dúvidas fazem parte do processo e não adianta mais fingir que não existem. 

Talvez o novo caminho não esteja tão desbravado como pensei. Há, ainda, esforço para abrir espaço pra essa nova estrada pela qual preciso passar e enfim chegar num outro destino que não sei onde é, mas me atrai. 

É duro ter que fazer isso sozinha. É duro encarar que um dia desbravei outra estrada, que me levava a um lugar que eu acreditava ser habitado somente por mim e pela minha criação. É duro pensar que eu fiz questão de me fazer ser um lugar seguro tendo a falsa sensação de que eu, como sendo um lugar seguro aqui, também teria o meu lugar seguro lá. 

Agora parece que nunca tive. 

De toda forma, é duro pensar em me despedir de vez de tantos arquivos, e sons, e cartas e sonhos de um dia poder ver, sentir, abraçar e beijar o que eu criei. Será que realmente devo?

Abro meu baú cheio de ácaros e me deparo com meus próprios batimentos. Batimentos tais que eu queria que tivessem sido os mesmos a inspirarem aquelas palavras datilografadas. Eu sei que não. 

Aquelas são palavras que decorrem de abandono outro e me encontraram porque somente a mim eram confiados assuntos intocados. Por eu ser esse lugar seguro. Por eu ter me feito ser. 

Mesmo diante dessas constatações, ainda consigo sentir ternura por imaginar ter sido de fato vista em lugares que nunca estive. Em seguida, lamento não ter nascido máquina de datilografia para que em mim fosse depositado com decidida dedicação um maior cuidado. 

Dito isso, instantaneamente reflito: será que só o que tenho em comum com aquela máquina é a incapacidade de apagar os erros? 

Logo percebo que não, afinal eu nunca havia sido tão inflexível. Até agora. Questiono a minha inflexibilidade, mas acabo por compreender que nesse momento eu preciso, por força, ser exatamente assim, como a máquina de datilografia.

Em frente às tralhas que precisei trazer à luz, tomo um gole do meu chá de maçã com canela. Sinto o vapor e o cheiro. Me acalmo, sorrio, sinto certa felicidade por ter comigo, ainda, algumas poucas memórias vivas que, apesar de tudo, são tão bonitas. 

Penso, então, nessa cidade de tantas árvores percorrida por quem nunca esteve nela em minha companhia e lembro que pensava muito sobre isso em outros dezembros também. 

Acho que o cheiro do chá me remeteu a um acolhimento e melancolia que já vivi nesses outros dezembros. 

Sempre dezembros. 

Ao engolir o gole de chá engoli junto a "nostalgia de coisas que me antecederam". Entendi, enfim, o que queria dizer. É mesmo sobre as coisas que existem ou existiram mas nunca foram vividas. 

Demorei anos, mas entendi. 

Como negar essa parte de mim, então? Eu e as minhas meninas anteriores fomos feitas disso. A partir disso. Não só, sabemos. Mas preciso sim aceitar que é muito significativa pra nós toda essa construção. É uma parte que, da minha parte, sempre foi pura e sincera. Eu criei, vi nascer, vi crescer. Tinha amor. 

Me vem à mente "não me arrependo de você", de Caetano. 

"Vi cê me fazer crescer também pra além de mim..."

Por que cresci com isso devo me obrigar a não ligar para os enganos, para as quantidades mínimas afeto? Ou um afeto enviado apenas pra garantir a minha permanência, que seria, no fundo, um pouco de sanidade em meio a tanta loucura e tanto medo? 

E então a resposta me veio num insight dilacerante: 

Sim! Devo me obrigar porque, no fim das contas, o que quer que tenha sido não requer nenhuma exigência. Simplesmente foi. 

Com isso, percebo que a principal questão também está respondida: 

Sim, a minha criação existe! Independente de como, quando, onde, se material ou não. E não preciso me desfazer de nada. 

Racionalizando isso, me entristeceu pensar que, existindo, a minha criação pode sentir, ainda hoje, como eu sinto.

Sentir a falta da parte pura e sincera que dei. 

Eu ainda não tinha pensado nisso e quando pensei me senti como naqueles filmes com efeitos especiais em que alguém começa a ser sugado pra um buraco negro. 

É, esse sempre foi um ponto fraco meu: pensar na dor que o que eu criei pode sentir sempre me atingiu na alma. 

Apesar de minhas decisões serem concretas e irreversíveis, me encontro agora diante da dificuldade real de tê-las tomado. A dificuldade que vem da possibilidade de existência de uma dor para a qual fechei os olhos querendo não considerar. A minha também. Ignorei o dolorido porque realmente subestimei tudo. Achei que seria mais fácil.

Em relação a mim, devo reconhecer que achei que descarregar alguns pesos me traria alívio e nada mais. Fui ingênua. Evitei, a todo custo, ver que essa dor existe, e, se não existir no que é real, existe no imaginário do que é a minha criação porque, no fim das contas, só o que eu criei sabia, de alguma forma inexplicável, todas as dores que eu sempre senti. Mesmo sem falar nada. 

Fora essa criação, ninguém entende nem nunca vai entender. É nesse ponto que me sinto só. 

Até penso que queria conseguir descrever com a precisão absoluta que me fizesse ser entendida por todo o mundo pra eu me sentir menos solitária. Penso mais um pouco e logo rio. 

É cinicamente engraçado porque, a bem da verdade, eu gosto assim e lido bem com a solidão de saber o que só eu sei. Guardar isso me denota um mistério que cai bem a minha personalidade extravagante. 

É como se eu mostrasse tudo de mim, mas, lá no fundo, escondesse esse segredo. Um segredo que antes não era tão solitário porque, na verdade, somente eu e minha criação sabíamos. 

Talvez, então, finalmente aceitar que minha criação continua existindo me faça sentir menos desacompanhada porque, mesmo não estando, agora de forma alguma, pelo menos em algum lugar tudo o que sabemos ainda vive. 

O que sabemos é intocável, inalienável, infinito. 

Infinito enquanto passado e enquanto futuro, justamente por ser inalcançável. 

Isso me conforta. 

Toco mais uma vez no que tenho de concreto e está em meu baú.

Sinto vibrar a energia de um papel, de uma madeira esculpida, de um selo postal.

Subitamente me vem que não tenho nem porque tentar definir nada, já que eu nunca vou entender tudo. Eu devo mesmo é aceitar que a minha criação é algo especial justamente por estar entre dois mundos. Um mundo de partículas e um mundo de ondas.  

O que é real vai doer, o que não é vai curar. 

Curar a dor, curar o vazio, curar a falta. Vai preencher o que nunca foi preenchido, vai reanimar o que está desacordado, vai transmutar o que já não pode mais ser do jeito que é e vai fazer o que era pouco se tornar muito maior por conta do que farei com isso, sozinha.  

Agora, enfim, isenta de qualquer idealização. Simplesmente meu porque seremos só nós. Eu e as versões de mim, sem outra versão de um modelo de tudo o que eu sempre quis, tendo em vista que agora eu sou, seguramente, quem eu sempre quis ser. 

Ter medo de reconfigurar qualquer criação minha me distanciaria do que tanto lutei pra conquistar. 

Ao remexer esse baú depois de tanta resistência, posso enfim me permitir manusear a minha vida e tudo o que me faz ser eu. A minha criação também sou eu. E se eu me amo, nunca vou deixar de amar o que criei. 

Isso é honrar a mim. 

E vou honrar, também, me conformando de que tudo vai continuar sendo, em essência, meu. Minha criação. Mesmo que agora tenha sido desmontado, quebrado, os cacos são partes do todo e eu vou guardar. Não faz mal porque o que eu criei sempre foi distante e agora, além de distante também está fragmentado. E tudo bem, não tinha outro jeito. 

Seja como for, existe

De todo modo, além disso, agora sinto que posso aceitar que se estive junto mesmo sem estar, estive porque quis. 

Tudo pra mim era suficiente porque sempre foi ao que pertenci. Entendo, assim, que eu criei e também fui criada. Passa a fazer sentido esse emaranhado. É como um composto químico mutante que alterna os papeis de criador e criatura. 

Por fim, amadureço e me respondo algumas das muitas dúvidas que me surgiram. Finalizo essa imersão com uma certeza quase óbvia, mas que relutei pra internalizar: é possível deixar ir sem negar a existência. 

É uma certeza coerente, justamente pelo fato de que não é preciso deixar ir nada que não existe. O simples fato de eu ter deixado ir, a minha criação, já pressupõe a sua existência. Negar o que foi e o seu papel é ainda mais prejudicial do que o próprio desgaste por sua passagem. 

Coerente eu sempre fui e, com tanto entendimento, agora posso, em paz, amenizar.

Amenizar pra mim as palavras duras que eu disse e me atormentam. Amenizar porque tudo é como tem que ser. Tudo sempre foi como tinha que ser. Desde a concepção. E como tem que ser é bom também. Há um incontestável propósito maior a ser admirado na aceitação das coisas como são.  

Essa sou eu saindo do labirinto e reconhecendo a importância de tudo ser simplesmente como é, mesmo que doa. 

As coisas como são sempre tem dois lados. O triste pode ser bem triste, mas o lado feliz pode ser euforicamente feliz. É desse lado feliz que escolho ficar.  

Mas ainda para honrar a mim, e, por consequência, a minha criação, vou mandar por telepatia um recado: 

"Se perca, mas se encontre. Se encontre quando pensar em mim. No que fui e no que fomos. Em criação. Assim, seguirei sendo um lugar seguro. Me perdoe pelas palavras cruéis. You know that I'd be with you if I could.

Agora vou continuar, já regulada. 

A estrada precisa ser desbravada e eu estou disposta. O meu baú cheio de ácaros vai ficar bem guardado e agora eu me permito vir ver de vez em quando. 


sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025

Obrigada, Carrie Bradshaw.

Quem diria que uma série de jovens adultas de trinta e poucos anos, independentes, extremamente empoderadas, donas dos seus corpos e da sua sexualidade, vivendo em Nova York nos anos 90, tentando se descobrir entre os seus desejos profissionais e amorosos mais intensos, me cativaria tanto, não é mesmo? 

Pois eu diria! Isso é totalmente a minha cara! 

Sem contar as meninices, as roupas, os sapatos, a atmosfera de "peruas convictas" que me envolve porque eu sei que uma parte de mim ama a futilidade, já que eu acredito fortemente que mereço desfrutar de todas as experiências dessa vida, incluindo as experiências materiais. 

O supérfluo, o conforto, o luxo. Tudo isso não me parece só um amontoado de partículas. O dinheiro e tudo o que pode ser comprado com ele pra prover minha satisfação pessoal também tem uma energia que, por sorte, ressoa com a minha. 

De todo modo, meu tributo à Sex And The City por óbvio não se resumiria à estética encantadora dos anos 90, dos looks e dos sapatos, apesar de que essa parte também guarda importância e impacto diante das minhas preferências e apreciações terrenas. 

Mas, para além disso, SATC me acolheu num sentimento de conforto e de compreensão de mim mesma, da juventude, da liberdade feminina e do entendimento de que a passagem do tempo, apesar de ditar regras, não impõe nada pra quem no fundo sabe que ele só serve pra estabelecer uma ordem cronológica para os acontecimentos. 

SATC me conectou com questionamentos femininos ainda muito presentes, mas, mais do que isso, me fez atentar para as sutilezas das relações e de como estar atenta à essas sutilezas é inspirador. 

Questionar tudo a minha volta, tudo o que me impacta, é importante e promove muito desenvolvimento pessoal. Eu, sem dúvidas, consigo identificar muito disso numa escritora de Nova York que vive analisando como as situações dariam um bom texto bem humorado sobre o sexo e as relações interpessoais, mas que logo supera essa premissa e se utiliza de dessas tais análises pessoais pra evoluir tanto a ponto de deixar de ser “só” uma colunista de sexo e virar uma grande escritora conceituada e respeitada.

Enfim. Eu bem que poderia ficar horas discorrendo sobre vários aspectos, sobre os personagens e as suas personalidades marcantes e bem construídas. Mas eu preciso falar sobre a Carrie! É com certeza sobre ela esse texto. 

É recorrente ler a respeito da série e ver que a opinião popular abraça muito pouco a protagonista. 

"Sempre que tiver dúvidas sobre como agir, pense em como Carrie Bradshaw agiria e faça exatamente o contrário". Essa é uma piada frequente na rede. 

Engraçada? Sim! 

Concordo? Em partes. 

Afinal, quem nunca foi Carrie Bradshaw?

Eu, sempre. 

Eu também errei, me equivoquei, fiz escolhas ruins e me precipitei muito antes de me encontrar e criar raiz no meu lugar. 

E, ainda hoje, mesmo depois de me estabilizar e não mais viver as intensas nuances da solteirice, me vejo na Carrie e no que ela tem de mais predominante: a sua verdade! 

A Carrie nunca fugiu dos erros, nunca negou as vontades. Ela se ilude, encara qualquer derrota e não teme em dar a volta por cima. A Carrie me inspira a escrever, a me cultuar, me priorizar, a pensar sobre mim, sobre o mundo a minha volta, os meus desejos secretos, os meus sonhos reprimidos. 

Pra chegar aqui eu transicionei entre tantas de mim assim como a Carrie já foi tantas dela mesma. 

Eu já fui pra alguém a Carrie complacente, se bastando em ser pro Big qualquer coisa entre a amante fiel e a amiga disponível para absolutamente todas as horas pra ganhar quase nada. Eu já relevei tanto, já suportei tanto quanto ela. Já acreditei, já me senti insuficiente, já chorei, já fiquei obcecada. Mas também já dei um basta. Bem no estilo “YOU AND I NOTHING!!!!!”.

Hoje eu continuo sendo a Carrie. A Carrie do pós Big. A Carrie que teve que jogar as cinzas dele de uma ponte em Paris ao som de Hello it’s me. 

Hoje eu sou a Carrie reinventada, madura, ainda fiel e leal aos meus poucos e bons. Sou a Carrie que nunca desistiu de amar e sempre deu um jeito de se encontrar e reencontrar, de se consolidar no que em algum momento já foi questionado ou motivo de descrença sobre quem ela seria, sobre o que ela conquistaria. 

Hoje eu sou a Carrie sólida, apreciada, autoapreciada. Sou a Carrie do novo testamento, a Carrie de Just like that, a Carrie que lamenta não ter mais a Samanta e o Big, que morre de saudades infinitas, mas não admite parar de viver por conta da ausência deles. A Carrie das rugas, mas ainda assim a Carrie da beleza e da elegância. 

E sim, a Carrie fez mais isso por mim: refinou meus gostos, me fez treinar o meu olhar pra me ver com a beleza que é minha em conjunto com a beleza do que pode ser meu parcelado no cartão de crédito pra me deixar ainda mais bela. 

A Carrie, pra mim, é o equilíbrio perfeito entre o fútil e o útil, entre os rompantes de jovem adulta inconsequente, insegura e apaixonada e a serenidade que a experiência pode trazer pra lidar com as situações mais inesperadas e dolorosas. Ela é de um amadurecimento bonito, de amizades consistentes, de disposição para estar presente nas celebrações felizes e nos velórios. 

A Carrie me encanta e me inspira quando reflito sobre a complexidade do que é ser mulher, viver essa vida adulta que às vezes é extremamente certa e inabalável mas pode, do nada, te transtornar. Essa vida de infinitas subidas e descidas que fazem enlouquecer quem não está preparado pra flutuar com as imprevisibilidades de tudo, mas igualmente bonita e cheia de motivos pra gargalhar, de lugares pra conhecer, de pessoas pra admirar e de séries dos anos 90 pra assistir. 

Eu sigo me encantando com a profundidade das relações reais e fictícias, e aprendo tanto. 

Com SATC aprendi a amar a personagem principal que, por mais controversa que seja (ou a que mais é taxada de chata, trouxa e sem amor próprio), me ensinou que tanto faz o que pensam, desde que a gente esteja de fato seguindo o nosso coração. 

Que a maturidade vem com o tempo, que os equívocos são necessários e que ressignificar e restaurar relações demonstra a nossa fé nas pessoas, no amor que nos une a elas e, por fim, na capacidade de mudar, de ceder e aprender a amar do jeito certo, a si e aos outros. 

Que mulheres verdadeiramente fortes não se deixam de lado, mesmo depois de algumas perdas que podem parecer irreparáveis.

E ainda pra acrescentar mais sobre tantos ganhos, aprendi com SATC que pra ser uma mulher verdadeiramente forte é imprescindível estar rodeada de outras mulheres verdadeiramente fortes.

O feminismo de SATC me traz a certeza de que eu preciso das minhas mulheres fortes junto de mim e de que juntas somos mais fortes ainda, apesar de muita coisa. 

Apesar das diferenças, das discordâncias, eu, assim como a Carrie, também sou o que sou por conta de quem nunca me abandonou. Também sou o que sou por ter escolhido ser quem também não abandona. E não julga, e está disposta, e ajuda desde a escolha de um sapato até a desconstrução daquele pensamento intrusivo, da síndrome de impostora que vez ou outra acomete as minhas mulheres. 

Então, Carrie Bradshaw, obrigada. 

Obrigada por me provocar de novo a vontade de escrever, por me fazer querer sempre me acolher e amadurecer, por me tranquilizar que tudo vai dar certo mesmo depois da gente se decepcionar aqui e alí, e me mostrar que as nossas amigas são a família que a gente escolhe pra compartilhar a vida e as nossas vulnerabilidades. Obrigada pelas risadas infinitas, pelas vergonhas alheias insuperáveis, pelo Big, pelo Aidan, pelos looks e sapatos. 

Toda uma geração agora é compreendida por mim. Exceto pela parte da Carrie ser considerada a pior personagem pra maioria.

Isso não! Isso é, sem dúvidas, uma grande babaquice! 

quarta-feira, 15 de janeiro de 2025

Presentes, recados e agradecimentos

Hoje, dia 14 de janeiro de 2025, quero registrar o quanto me sinto intensa e profundamente grata! 

Os acontecimentos de hoje foram eternos.

Desde que internalizei que o presente é tudo, passado e futuro, eu sou, sinto e vivo, mais do que nunca, em estado permanente de gratidão.

Isso porque nesse presente mora o tempo onde devo ser o que preciso. É nesse presente que mora a eternidade dos "agoras" que me acompanham. É nesse agora que eu preciso ser grata. 

A todo momento os eventos reforçam isso pra mim. 

No presente de hoje ganhei presentes e recados de Deus. 

De Deus e de mim. 

Nem preciso ser presenteada de fato para entender o presente como um presente, mas hoje fui. Como comprovação de que quanto mais se dá, mais se recebe. 

Pela manhã acordei de um sonho. Aflita. Abracei o meu dia e segui, apesar do lamento do sonho. Conscientemente feliz. 

Logo me invadiu um entusiasmo com brilho diferente dos entusiasmos dos outros dias. 

Vibrante, reluzente e COR DE ROSA. 

Avassalador. 

Eu não sabia o porquê, mas ainda durante a manhã pensei com clareza sobre os presentes que meu presente tem me dado. Não muito depois disso Diego veio me mostrar o que logo mais seriam novos presentes. Físicos também, mas não só. 

Encontramos à venda nos classificados virtuais um quarto infantil dos sonhos, com móveis e brinquedos anunciados pra saírem depressa e darem espaço para, quem sabe, os itens que acompanham o presente de quem tanto ali brincou, ou, de toda maneira, para o novo que o presente sempre requer. 

Seria até isso uma coincidência com o meu presente? Eu acho que não. 

Aqueles brinquedos tinham a magia e o afeto que a Lívia merece receber. De nós e da vida. 

Perguntei, então, valores. 

Outros presentes. 

Mas além, ganhei de presente a delicadeza da avó dos netos donos dos brinquedos que agora pertencem à neta da minha mãe. 

Ternura, afeto, zelo e recado de Deus pra mim. Pra nós. 

Ela disse: "Não me agradeça. Deves ser um ser de luz e muita sorte". 

Eu sou. 

E ao ir buscar, Diego se deparou com os móveis e brinquedos organizados, limpos e dispostos em exposição como se, de fato, estivessem sendo dados de presente, e não comprados. 

Mas alheio à precificação de tudo, impressionante mesmo foi o valor de tudo o que ela me deu. 

Além do valor próprio daqueles itens que claramente fizeram parte da sua alegria por tantos anos, ela conseguiu valorizar ainda mais. 

Caixas com laços vermelhos. 

Ursinhos posicionados como se em uma vitrine. 

Que pena Lívia não ter ido buscar. Mas que bom que temos fotos. 

A verdade é que não nos custou nada! 

Recebi como presente daquela avó o valor de todo o carinho da entrega, dos objetos, das suas histórias, das suas memórias felizes e eternas.  

Quanto amor ali.

Quanto mais de amor eu consigo sentir? 

Sempre vem mais do que acho que posso.

Eu disse: "Cuidaremos com muito cuidado e amor de tudo isso que já deve ter feito suas crianças muito felizes."

Cuidarei. Como cuido e quero cuidar de tudo o que recebo da vida e de mim mesma.

De mim, sim, porque sei profundamente sobre os resultados do meu estado de gratidão constante: 

Quanto mais agradeço, mais tenho razões para agradecer. 

Por fim, ela disse: "Feliz vida pra vocês!" 

E mal sabe ela o quanto fez parte, hoje, da felicidade que já vivemos. 

Recebi, assim, com todos os acontecimentos desse dia, o recado que havia pedido em outro momento. Impossível não reconhecer. 

Obrigada!  

Vou seguir agradecendo.