Há quem não acredite nos misticismos das coisas todas. Mas como eu poderia não acreditar?
Se não há correspondência entre a vida real e o esotérico, o sobrenatural, como se explica, por exemplo, que na minha vida a carta da morte tenha sempre representado o que, em seguida, aconteceu?
Sei que as cartas de tarô descrevem vivências reais, e a realidade da morte é, por si, a mais forte transformação e finalização de ciclos. Mas quem, senão um representante do lado de lá, interviria pra que justamente essa carta pulasse pra fora do deck um pouco antes da morte acontecer?
A carta da morte é sempre um marco. Sempre que surge, tudo muda.
Da primeira vez, a morte, de fato, veio. No tarô e na vida!
E depois disso tudo mudou.
Dessa vez, a morte, propriamente dita, veio impiedosa com quem fica, como geralmente é.
Antes dela chegar oficialmente, eu pedi perdão e perdoei.
Aconteceu em uma tarde qualquer. Eu saí do elevador e fui em direção a uma sala fria. Chegando lá, me encostei na barra de proteção de ferro gelado da cama e fiquei encarando o homem que participou diretamente do desenho de toda a minha existência.
Pedi perdão e perdoei, ao som dos ruídos e apitos de aparelhos salva-vidas, respirando um cheiro forte de álcool que até hoje quando sinto me remete instantaneamente àqueles dias tão brancos e inevitáveis.
E depois segui pra uma rua tumultuada como a vida da qual eu estava me despedindo. Ou das vidas. Da minha, ou pelo menos o que eu sabia dela até então. E da dele, que estava indo embora sem outra possibilidade de escolha.
O choro desse dia foi inesquecível.
Era choro com lágrimas de quem queria voltar no tempo pra crescer de novo exatamente do mesmo jeito, pra entender tudo, se rebelar menos, abraçar mais.
Choro de quem queria mais praias com ondas fortes aos cinco anos e um braço que segurava pra sentir a força delas sem permitir afogamentos. Choro de quem queria dormir ao lado de roncos por tardes inteiras mais um pouco, mesmo com tanta infância lá fora. Era o meu choro profundo querendo dizer que:
"Eu ficaria trancada em casa de novo porque agora sei que tinhas medo que o mundo me levasse de ti. Eu ficaria de novo porque agora, nesse momento, eu também tô morrendo de medo que o mundo te leve de mim e queria poder fazer alguma coisa. Queria poder te prender nessa vida pra sempre como me prendias em casa. Hoje sei que fizeste por amor, apesar dos danos. Era amor do mais puro e genuíno, porque se não fosse eu não estaria chorando e pensando em voltar a viver tudo o que tanto me limitou só pra viver de novo a alegria dessa infância limitada contigo, a parceria da juventude limitada contigo. Era amor porque eu reconheço, aqui, na iminência da tua perda definitiva, que todos os males me vieram para o bem de me fazer ser quem eu sou."
Esse era choro de antecipação da morte.
Aconteceu intenso quando eu estava parada em frente a entrada de um supermercado movimentado, com muita gente me olhando e querendo me consolar, enquanto eu perdia o ar e pensava em tudo isso que eu queria dizer mas só consegui por telepatia.
No fatídico dia do fim, o choro mudou e passou a ser um choro de finalização da morte. Finalização porque, até ser concretizada de fato, a morte estava sendo vivida diariamente.
Esse choro era mais eterno do que emergente. O ar era como água, entrava e saía dos meus pulmões preenchendo tudo como uma enxurrada. Não me faltava o ar, como da outra vez. O ar veio em excesso e saiu pelos meus olhos. Me afundando igual Alice no país das maravilhas.
Até que o caixão fechou e a morte veio.
A morte veio.
Ele foi.
Nesse dia, ele foi.
Pra sempre.
Pra sempre aqui no que dá pra ser visto, mas nunca dentro da minha cabeça e do meu coração.
Ele precisou ir pra eu ressignificar quem ele foi pra mim, fazendo ser tão bonito quanto eu nunca tinha permitido que ele fosse.
Só depois do fim ele se tornou leve. E não que eu tenha esquecido dos tantos impactos, das crenças que criei, dos medos que além de me assustar, me limitaram.
Não esqueci, só transformei em amor.
A carta da morte estava certa e houve, enfim, a transformação.
A morte dele me fez potência, me fez mulher destemida, me preparou pra vida que eu tanto descrevi como a que eu queria viver.
E a vida que a gente quer viver, pra ser vivida na essência do sonho, com tudo de bom que foi idealizado, só se sustenta se o terreno estiver seco, sólido, capinado, organizado.
É certo que a morte bagunça tudo, mas não tem campo que não floresça depois de uma tempestade.
Sem a bagunça causada pela magnitude da morte, o ímpeto de faxinar tudo seria, talvez, menos intenso, mais preguiçoso ou até inexistente.
Há quem se acostume com essa bagunça e bagunce ainda mais o buraco profundo que a morte deixou. Mas quem sonhou tanto com uma vida real, consistente, colorida e diferente de um passado que precisasse ser ressignificado depois de uma perda, dificilmente desapega desse sonho.
Eu não desapeguei.
A morte foi impulso. A morte transformou, como sempre faz.
E, até que enfim, depois de muito chover, trovejar, me alagar e me afogar, eu consegui florescer.
A vida veio.
Me abri pro meu encontro comigo e com tudo o que sempre sonhei pra mim. Decidi.
Eu quero!
Isso tudo o que sobrou depois da morte - a bagunça - eu vou ajustar, arrumar, consertar, reformar.
Ajustei, arrumei, consertei, reformei.
Fiquei melhor do que nunca fui pra conseguir viver o amor sem o peso que me ensinaram que o amor deveria ter.
Consegui, depois de tanto suplicar, viver o amor leve que eu sempre achei que merecia.
Ele veio.
Veio um amor distante da urgência dilacerante e desesperada de antes. Veio um amor calmo, com jeito de manhã que não obriga a acordar cedo.
Veio um amor de rolar na cama, de permissão pra dormir mais um pouco, todos os dias.
Amor de conforto.
Amor de casar e desacreditar em tudo de ruim que dizem que o casamento pode ser.
Amor de sentir bem fundo a verdade da personagem mais amável que já vi nascer de um livro.
Sim, esse amor fez com que eu, assim como Aurora, mãe de Dalva, em Tudo é Rio, também não quisesse tomar conta pra medir com régua o que falta. Me fez querer escolher, todos os dias, tomar distância e diminuir distância, mas, sobretudo, caminhar.
Escolho, todos os dias, continuar caminhando ao lado desse amor tranquilo.
Tranquilo como o nome da cor que decidimos pintar a sala da nossa casa, porque tudo nesse amor faz sentido e me conforta, me acolhe e me aconchega. Sem caos, sem dor, sem trauma.
Esse amor que veio pra me dar mais amor. Especificamente o amor que me fez duvidar de todas as definições que antes eu idealizava, por ser maior.
O amor que nasceu de mim.
Quase exatos três anos depois, uma nova vida veio, decorrente da nossa.
Ela veio.
Mais uma vez confirmando a transformação da carta da morte.
E foi assim que eu conheci o amor infinito e indescritível de colocar outra vida no mundo.
É tão forte, tão complexo, tão além de mim, que até hoje pouco escrevi sobre.
Sempre me fugiram as palavras pra dispor sobre a totalidade do que é absoluto, do que vai acima de tudo o que eu achava que sabia sobre sentir e existir.
Não há descrição pra olhinhos que desde sempre me olharam como se eu fosse única. Os únicos olhos que me fizeram ter certeza disso. A certeza de que eu sou única simplesmente porque gerei a vida que pra mim é o meu próprio mundo.
Não posso mensurar em palavras o que representa o sentimento de ver o meu mundo crescendo, tomando forma.
Meu mundo me buscando. Primeiro com o olhar, depois com os movimentos limitados de um corpinho indefeso, depois com balbucios, depois com palavras, depois com gritos me chamando de mamãe todos os dias quando chego em casa, depois com o impacto de um abraço intenso, resultado de uma corrida que deu impulso pra uma pequeneza de gente me agarrar as pernas.
Não tem como fazer virar texto a felicidade pela palavra nova, pela frase nova, pela ideia nova, pelo entendimento de conceitos, pelos conceitos aplicados no contexto correto, enfim... felicidade pelo amor que sustenta uma vida inteira.
Da primeira vez que a carta da morte veio, o fim de ciclo precedeu o início de outro, maravilhoso, indescritível, cheio de vida e desse amor.
Não tem nenhum outro amor que me sustente mais do que esse.
Todo esse amor me fez não temer a morte. E qualquer morte.
Não só a morte literal, que ceifa a vida e paralisa os batimentos cardíacos. Mas me fez não temer a morte das relações que deixam de me engrandecer e me afastam de viver o amor de tudo.
E eis então que, cinco anos depois, a carta da morte volta aparecer. E eu, mesmo destemida dela por conta de todo o amor e vida que tenho e ninguém me tira, aceitei que algo estava pra mudar de novo.
Junto da morte, a torre. Estruturas que já não se mantém. Perdas, rupturas inesperadas, caos.
Apesar de sem medo, não posso negar que o pressentimento do luto me entristeceu. Eu sabia o que precisava morrer, dessa vez.
A falta do medo não significa ausência da dor. Significa apenas que aceito perder tudo pra ganhar tudo, ainda que eu sofra. Isso porque sei que a transformação que me aguarda no capítulo seguinte vai fazer com que essa dor seja ressignificada, inevitavelmente. Vai promover a cura e vai abrir espaço pra deixar mais vida entrar.
E, sem surpresa alguma, a finalização de outro ciclo aconteceu.
Apesar da morte de agora não ter sido literal, ela é, de toda forma, existente. Uma finalização marcante, digna de choro, de lamento, e de uma dor semelhante à dor que a morte biológica causa.
Com isso, me deparei com a verdade de que a morte das relações e amizades não é, necessariamente, menos dolorosa. A morte dói, de qualquer maneira. E algumas mortes, ainda que não ocorram ao pé da letra, doem como se assim fossem.
Aceitei. Me permiti sentir essa dor.
Ele foi.
Um amor antigo, um amigo, uma outra parte de mim.
Passados os primeiros dias de ausência, de luto e de estranhamento, eis que a temporada das flores não demorou pra surgir, dessa vez.
Não passei por tempestades e bagunças. Creio que porque minha plantação anterior floresceu muito resistente.
Muito do que eu já havia organizado em mim se manteve, se estruturou e me protegeu.
Me senti, logo, viva!
A vida está vindo.
Já dancei no banheiro, já me emocionei com um sentimento forte de que nada mais me prende, me sobrecarrega. Já agradeci, já me liberei.
Senti saudade, sim, porque faz parte do processo. Bordei o passarinho em linha vermelha, fiz um quadro das bordas da caixa e do alecrim. Me cerquei do amor que eu dei e voltou pra mim.
Enfim, ressignifico, agora, essa morte.
Levarei comigo lembranças do que não foi vivido em matéria mas me moldou pra uma vida inteira.
E escolho levar comigo em nome da intensidade que entreguei, da disposição, do afeto e do amor que depositei sem esperar em troca nada além do mínimo. Hoje sei que às vezes o mínimo é muito pra quem não sabe lidar, mas não me cabe.
Não me coube.
Eu cresci.
E agora, finalmente, estou pronta!
Pronta pra receber o sol, a estrela, a temperança, o mundo, o dez de copas... tudo isso que vem depois da morte.
Já veio uma vez, quando eles vieram.
Que venha de novo agora, e ainda melhor do que eu posso imaginar.