Faço, então, essa roda girar mais lento quando é pra abraçar meu mundo de coisas intocadas.
Essas tais que eu própria muito afastei de mim e agora quero apanhar como um peixe em minhas mãos.
A carpa.
Quero também dizer: "ah, essa carpa está impossível!".
E tem estado impossível mesmo conter minhas entregas, minhas inspirações.
Tento acalmar o que em mim arde de verdadeiro e incontrolável impulso de viver porque ainda preciso de certo espaço pra vida que é menos interessante, mas necessária.
Tenho é vontade de correr pra recuperar todo tempo perdido, os livros não lidos, os poemas não concebidos.
Concebidos por mim, a partir de mim e de tudo que achei que não tinha mas sempre esteve comigo.
Tudo o que eu cheguei a achar que não era meu.
Quero me alcançar e me abraçar.
Quero fazer todas as colagens que não fiz.
Nunca fui pouco.
Hoje me sei tanto que me divirto nessa imensa roda gigante que defino agora como sendo "tudo o que não me deixaram ser e mais um pouco do que aprendi a ser para pagar as contas".
Ninguém precisa entender.
É compreender, sem prender.
O mistério da poesia não é transparente. Nem tudo nasce, de pronto, revelado.
Tenho chorado. Muito. Ao longo do ano evitei, mas agora me permiti chorar. No meio da rua, quando fui ao comércio procurar a saia de tule verde pra cantata de natal do colégio da minha filha. No café da manhã, enquanto tocava um samba e a gente cantava. A noite, enquanto eu era soterrada de beijos por quem me ama tanto e me cuida em todos os detalhes. É um choro tão confuso.
É um choro de "sou tão feliz porque tenho tudo" com uma mistura de "sou tão triste porque esse buraco não fecha mesmo eu tendo tudo".
Esse misto de completude, alegria, culpa, ingratidão tem me jogado num liquidificador que remexeu aqui dentro o que eu já achava ter acomodado num baldinho cheio até a borda de água parada. Nem uma gota a mais, nem uma gota a menos. Minha água.
Bobagem, né? A gente nunca sabe o quanto de água que ainda pode sair da gente.
Decidi não fechar mais torneira nenhuma. Então tenho gostado de chorar e sentir e sentir e sentir.
E sinto tanto, e amo tanto. Me confundo, sim. Me embaralho um pouco, ainda. Mas já me entendo tanto, já me sei tanto.
Eu sinto pra me cuidar. E não que eu tenha reprimido, não que eu tenha evitado sentir. Eu senti todos os dias desse ano, desde a hora em que eu acordava até a hora que eu ia dormir. Eu passei esse ano sentindo, mas sentindo sério. Sentindo com espadas. Sentindo racionalmente.
Agora eu me permito sentir água.
Abri a porta pra emoção toda que eu pedi educadamente pra me aguardar num quartinho de hóspedes ao longo dos últimos meses. Essa emoção que pacientemente me esperou deitada na cama olhando pro teto, que me liberou certo espaço pra que eu destrinchasse os aspectos mais ocultos e profundos de mim pra serem analiticamente constatados e tratados e organizados sem tanta interferência do que me derrete e tira do eixo. Essa emoção minha tão generosa agora veio, me abraçou.
Ela me disse que fiz um bom trabalho, que chorar não faz mal. Eu posso, sem precisar ter medo de bagunçar o que tanto me dediquei a reconstruir. Ela deixou e eu chorei no colo dela. Eu lembrei de tudo com tanto amor.
Ela deixou inclusive eu me sentir perdida e mexida. Segundo ela, preciso disso pra que ela exista, também. E ela precisa existir.
E agora eu sinto, então, que meu choro pode ser chorado em paz. Que posso sentir meus conflitos sem paralisar porque se me recolhi pra me entender e entender tanta coisa, era justamente pra poder chegar nesse momento e chorar em paz.
Preciso disso, ainda. Sou eu.
Choro de emoção feliz e de emoção triste. Choro pelos novos encontros, pelos dias felizes, pela cantoria que ainda se faz presente na minha vida, mas agora no meu quintal, com muita gente boa cantando junta. Choro porque mesmo com tantos desafios mentais pra superar, não paralisei. Fiz o que quis, e fui além. Choro porque encontrei o perfume certo, pelo qual esperei a vida toda. Me reconheço nele, não sei explicar. Acho que ele me achou justamente agora porque sou digna de cheirar como cheira a pessoa que realmente sou.
E eu sou a mesma, porém outra.
Choro porque sinto saudades e acho que sempre vou sentir. Agora aceito, e não mais com medo das aparições, dos fantasmas, dos ecos. Choro porque é triste, só. É profundamente triste, mas tão meu. Choro porque finalmente posso respirar e dizer que é meu. Choro porque me livrei do peso de achar que nada nunca foi meu, do peso de achar que eu incorporei alguém e me idealizei e nunca fui nada.
Agora sei que até o que não era meu, simplesmente é. Vejo em mim o que me deram. Vejo e não mais rejeito. Não me sinto mais medida por outra régua. Me sinto inspirada, apenas. E se me deram é meu. Vejo em mim quando eu me percebo tão artística, tão criativa. Quem eu seria sem o que me deram?
Eu certamente não seria eu. Nem eu antes, nem eu agora.
Eu agora precisei nascer de novo mas tenho a memória genética de tudo o que passou. Eu sou o presente e o futuro, mas também sou o passado.
Eu amo viver. Amo tanto que me libertei da ideia boba de querer apagar de mim o que passou só porque eu precisava nascer de novo.
Como eu poderia honrar meu amor pela vida abandonando parte do amor que tive? Como eu posso viver sem permitir que a vida atue de acordo com a sua natureza que concentra tudo na gente, que faz a gente crescer sendo um amontoado de coisinhas que passaram por nós?
Eu tentei muito me livrar de umas coisinhas, até que vi que não posso, nem quero. Precisei me dedicar muito até entender isso. E entendi.
Então por isso eu choro. Choro porque amo o que me ocorreu e, por mais que minha escolha doa, essa dor faz também eu me sentir viva. É contraste. Passei a saber lidar.
E eu lido assim, chorando, escrevendo, lembrando quando é tempo de lembrar.
Agora, dezembro, é tempo de lembrar. Sempre dezembro.
Eu lembro e amo tanto. Amo tudo, amo tudo junto. E amando assim, os conflitos todos vão se dissipando. Dissipando enquanto escrevo isso e noto que eu tenho um peito que cabe muito amor.
Eu penso na sorte. Que sorte tive de ser presenteada com tanta poesia nessa vida, desde cedo.
As coisinhas que me amontoam estão aqui agora organizadinhas. E mesmo que não estejam, sempre estarão. Às vezes a gente precisa que as nossas coisinhas só estejam não estando, pra continuarem sendo só amor.
Agora minhas coisinhas são só amor. Amor que me faz chorar. Chorar não mais pelo gatilho que me envolveu num medo de menina que foi abandonada sem uma despedida, mas pela força que tem a mulher que sou por causa dessa menina.
Forte pra não deixar que essa menina grite mais e me faça ser quem não quero ser. Forte pra aceitar meus gatilhos e respeitá-los porque confio na ordem de tudo o que nos impulsiona a um caos dolorido, mas necessário.
Agora amo e choro sem mais conjecturas tolas, entendendo que tudo é como tem que ser, aceitando o nível de maturidade de cada momento que me levou a agir sempre em busca do próximo nível. Sem julgamentos meus, sem julgamentos alheios. Fazemos o que temos que fazer, quando temos que fazer. Mesmo quando não queremos, ou quando nem sabemos o que estamos fazendo.
Eu amo tanto, tudo. Como sempre amei.
Tirei da gaveta minha madeira esculpida e olho agora com tanta ternura pros passarinhos que a vida me deu.
Eu passarinha, você passarinho. E você passou, passarinho. Nós passamos.
Mas estamos onde temos que estar.
Todas essas cores, sabe? Nossas cores, elas são seculares.
Existem há milênios e milênios, desde quando eram só amor. E não que não tenha amor, mas tem também o que a humanidade faz com a gente, agora que a gente não é mais poeira de cores no espaço.
Nossas cores tem tons de medo, de falta de coragem pra lutar, de abandono, de promessas vazias, de subjugação aos modelos impostos, à aparência, ao racional, ao sistema. Isso tudo lá atrás. Por isso essas cores só foram vistas de longe, nesse tempo de agora. E mesmo de longe esses tons chegaram aqui.
Mas, passarinho, eu choro agora porque não quero perpetuar o que não é amor. Só quero amor. Por mim. Me amando assim eu te amo mais. Nos liberto das humanidades todas pra que nossas cores, coloridas só de amor, um dia se vejam e se amem com a pureza de onde viemos e nos encontramos pela primeira vez. Ou não. Quem sabe?
Eu vou chorar muito, ainda. Sempre que der vontade. Mas também vou organizar muitas festas, fazer artesanato, desenhar, dançar, cantar. Vou fazer muito do que aprendi com quem me deu o que é meu, e também vou fazer muito do que tenho aprendido sozinha, comigo.
Vou decorar mais a minha vida toda, como fiz com o bilhetinho do meu pai. Enquadrei sem precisar de nada além da minha vontade de fazer aquilo corresponder a arte que naturalmente é. Sem precisar recorrer a mais ninguém por me julgar, inconscientemente, incapaz de criar algo suficientemente belo. Fui lá e criei. E é mais bonito do que tudo o que poderia ter sido sugerido por qualquer outra pessoa que não fosse eu.
Eu que movimento tudo ao meu redor, e tudo ao meu redor melhora pra mim. A praça fica mais bonita pra mim, a grama é cortada pra mim, a casa do vizinho fica mais bonita porque eu passo por ela e tenho que ver pela frente só o que é bonito como eu.
A cidade se refez inteira, e justamente pelo meu caminho tudo o que era velho ficou novo, tudo se transformou. Tudo pra mim.
As sincronicidades todas se dão por minha causa, e perceber isso me faz chorar.
O que era conflito virou amor. O que me dificultava a vida agora facilita. O que me desafiava agora me respeita. O que não contribui pra minha evolução simplesmente se vai.
E vou chorando, me sentindo agraciada pela beleza de tudo e chorando.
Eu choro agora com a música que ouço. A que me fez escrever. Porque, sim, quando é pra sempre, pra sempre será. E minha alma tem certeza. Sempre será meu amor.
E que bom ter tido um amor de verdade. Levar comigo um amor de verdade.
Choro porque meu amor de verdade desde antes da vida ser vida me ajudou a ser eu e a ganhar mais amores de verdade.
Por eu ter sido exatamente quem fui, ter vivido como vivi e amado tão profundo como amei, é que posso aqui experienciar a plenitude de ser amada de volta, de ser tratada como rainha, de ver meu mundo sendo melhorado especialmente pra mim, de ter carinhos infinitos, de ser servida e valorizada, de ser beijada e abraçada, de ser mãe.
Choro porque amo esse amor e todos os outros. Me permito amar, me permito ser, me permito ir.
E vou. E tenho ido, chorando e sorrindo. "Chorrindo" dessa vida que eu amo viver, dessa história que eu amo que seja minha, dessa lonjura que me faz ter certeza que o amor é mágico, espiritual, forte e ilimitado.
Vou chorando de saudades sim. Aqui, sozinha, acompanhada de mim. Apreciando minha companhia como nunca antes apreciei.
Vou chorando de amor por essa que me tornei. Essa que pode se abrir pra infinitude que é, que veio pra ser. Essa que pode ser, finalmente, o que veio pra ser.
Vou sem precisar saber de lá, porque sinto. Sinto, recebo, e quero bem. Quero bem como quero bem a mim. Quero amor como quero pra mim. Quero esse encontro como eu me encontrei.
Abandonei urgências, fraquezas e revoltas. Só te quero feliz, passarinho. Feliz sem mim. Quero que receba daqui meu amor.
Meu amor que mesmo que acabe, não vai terminar.
Daqui, vou ouvir a próxima música. A próxima me faz sorrir.
"¡Qué lindo corazón que estás acá y acá latiendo..."
É realmente lindo estar na terra.
É lindo que o amor seja assim tão absoluto.
É mais lindo ainda que meu choro tenha me lembrado disso pra eu, agora, chorar sorrindo pela coisa boa que tanto amor me faz.