Pois é, olha essa recaída. Fiz a besteira de sentir saudade,
de ir buscar os teus detalhes que ficaram, de ler o que a gente dizia, de rir e
querer me transportar de novo pra aquela realidade. E o quê
que a vida fez da nossa vida, hein? Fez
que eu te perdi. E agora eu só consigo me odiar por perceber que não, você
nunca foi o vilão da minha história. Você não queria me fazer mal nenhum, mas
eu acreditei nisso, eu te afastei, eu te disse pra ir embora, eu me proibi de
te amar. E te amei calada, e sufoquei, e estou sufocando com o amor que ainda
resta. Hoje eu vi que podia ter feito tanta coisa diferente, que podia ter te
feito querer ficar, que podia ter te dado aquele beijo e perdi as duas
oportunidades de te fazer se apaixonar por mim, de esquecer que existia o mundo
a nossa volta e te beijar e não largar nunca mais. Eu fiz o que você disse pra
eu não fazer, eu deixei você ir, e tudo o que eu nunca quis na vida foi te
perder. Sabe o que eu queria mesmo? Ter ficado no teu colo pra sempre, ter cheirado o
teu cangote noites a fio, ter te dito: “Não me acha louca, não me dispensa, não
se assusta, mas fica comigo porque eu te amo. Eu te amo como eu nunca amei
alguém na minha vida. Fica, aguenta junto comigo todos os problemas, eu te
seguro, tu me segura”. Não fiz, não é? Sim,
não fiz porque eu sou uma garotinha e você é homem demais pra mim, e eu não
aguentaria te segurar, e eu cairia, e eu me machucaria. Mas eu não tentei, e
isso me faz sentir uma dor maior do que a que eu sentiria se não tivesse te aguentado e caído no chão. Eu perdi
o grande amor da minha vida sem o grande amor da minha vida saber que ele era o
grande amor da minha vida. Sem ele saber que eu achava o sorriso dele a coisa
mais bem feita de todo o universo, sem ele saber que a cor dos olhos dele era
divina e muito mais quando iluminada pelo poste de luz de uma rua qualquer. O
grande amor da minha vida nunca soube que eu adorava tudo nele, que eu adorava
acariciar aquela barba e que eu poderia viver o resto da vida me arranhando
ali, esfregando o meu rosto como um gatinho que brinca com um novelo de lã. O
grande amor da minha vida nunca foi meu porque eu desperdicei todas as chances
de fazê-lo querer ser. Ai, sabe, eu te amo muito e te amo desde sempre sem
saber que te amava, e se eu pudesse te ligaria às quatro da manhã, só
pra te pedir pra vir me tirar da beira do abismo, pra vir passar a mão nos meus cabelos e dizer que está tudo bem porque você está ali e nunca mais vai sair.
Mas olha, eu acho que eu vou sair dessa, apesar de tudo, apesar de sentir a sua
falta como os pulmões sentiriam dos alvéolos, eu vou sair. Eu já consigo não
temer te ver, apesar de saber, também, que se te visse eu choraria um rio de
lágrimas por não ter coragem de te sorrir como sempre, de te perguntar qual o
teu caminho, e ainda mais por saber que ele não é o mesmo que o meu e
nunca mais vai pra mesma direção. Tenho que te dizer que eu estou saindo e me
divertindo, e rindo e achando a juventude uma maravilha. Tenho que te dizer que
tem gente boa me fazendo bons convites e que eu tenho aceitado, e que não vai
demorar muito pra eu ser feliz de novo, pra me aparecer um cara suficientemente
especial ou extraordinariamente especial que vai me fazer feliz de novo. E nós
vamos discutir política, e vamos lutar por uma boa causa, e vamos gostar de quase todas as mesmas
coisas, e vamos pegar vento, e vamos sair por aí cantando canções do Alceu
Valença e similares, e vamos gostar de tudo o que fizermos juntos. Mas nós NÃO
vamos ser TÃO felizes quanto seríamos você e eu, do jeitinho que a gente era. E
eu vou amar mais um milhão de vezes, e eu vou chorar por mais um milhão de
pessoas, mas é você, foi você, será você. É por você que a minha mãe pergunta e
eu não sei o que dizer, é a você que se referem quando me perguntam: “E aí, já
conseguiu superar?”. Pois veja, você é o grande amor da minha vida e não sabe
disso e nunca saberá, e se acontecer de eu te ligar bêbada, chorando e soltar
alguma coisa a respeito, ignora e continue sendo feliz como eu abdiquei de te
fazer. Mas saiba que hoje, agora, nesse momento, eu trocaria tudo pela gente. O
meu celular, o pendrive com todas as músicas do Chico, o meu solitário de
ouro, o único travesseiro que me faz conseguir dormir e todo o resto das minhas essencialidades. Trocaria. Por você. E sim, eu vou aprender, estou aprendendo, me ensino
todos os dias a como viver sem você, e depois de tantos anos vivendo com,
saiba, é muito difícil reaprender o sem, mas eu consigo. Só não deixo de te
amar, e me proíbo de esquecer, e me culpo a vida toda porque a minha voz não é
a última que você ouve antes de ir deitar.