... Subentenda-me: janeiro 2014

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Pra você

Bom dia, hoje não acordei muito cedo, fui dormir meio tarde ontem, e nem foi porque fiquei até tarde vendo tv ou lendo algum texto da faculdade. Fui dormir tarde porque o sono não vinha e eu aproveitei pra pensar em você. Por isso estou te escrevendo agora. Fico muito feliz em saber (ou querer acreditar que sei) que você se importa com o que eu escrevo, que você lê e que quando termina sorri bonito e pensa no quanto é bom pra você que exista alguém no mundo que sinta o que eu sinto, que sinta como você também sente. Antes de eu te conhecer, em uma das minhas lamentações sobre a tristeza de não saber em que parte do mundo estava o amor da minha vida, a minha melhor amiga me surpreendeu com uma coisa bonita: disse que eu sinto, e que ela não conhece ninguém que sinta mais do que eu. Ela não conhece ninguém que sinta a tristeza e a felicidade mais do que eu consigo sentir. E eu parei pra pensar em uma coisa que eu tinha esquecido de relacionar: aquela lamentação não era só uma lamentação, era o meu sentir. Esqueci que quando a gente senta e chora e se odeia a gente só está sentindo à flor da pele. Eu sou essa pessoa, eu sempre senti muito, tudo. Eu sempre consegui alcançar coisas lá no fundo, coisas alheias ao que comumente se consegue observar, absorver. 

Depois dessa conversa, mais uma vez, parei pra pensar se existia alguém no mundo que sinta como eu. Alguém que consiga se sentir verdadeiramente feliz com coisas mínimas. Alguém que se questione, alguém que se sinta insatisfeito mas que depois reflita e volte a valorizar numa intensidade muito maior tudo o que tem, todos que tem. Alguém que se divirta com piadas toscas e que não se importe em parecer só mais um palhaço extrovertido que todo mundo critica por não saber da sua profundidade. Alguém que saiba reconhecer gente de verdade e que saiba permanecer. Alguém que se indigne e se incomode com injustiças. Alguém que conquiste o amor de todo mundo sem precisar fazer tipo, sem precisar subir num pedestal, apenas sendo o que é e gostando das coisas que gosta porque quer, e aprendendo a gostar do que gostam os que gosta. Alguém que saiba falar sério quando necessário, e que saiba ter bom humor, sorrir, e dar motivos pra que os que estão perto sorriam também. 

Eu sempre me considerei desse tipo de gente, e quis comigo alguém exatamente assim. E então apareceu você que não é uma cópia de mim mas veio com sinuosidades que se encaixam às minhas. Apareceu você que se orgulha do que sou e que conhece cada jeito meu, e que me olha e se admira com as minhas expressões e pensa "nossa, como eu amo cada detalhe, cada defeito dessa mulher", assim como eu faço quando te observo. Você que não me sufoca porque sabe que me tem. Você que continua sendo você, e me fazendo continuar a ser quem eu sou, mantendo a nossa individualidade mesmo nós nos compondo tão bem como um só. Você que é como a minha casa, e não me incomoda e me acolhe e é o melhor lugar do mundo. Você que me faz entender agora porque valeu tanto a pena as minhas lamentações, os amores frustrados, os erros, as ressacas por causa de todos os fins. 

Você que é tão importante e tão lindo e tão feito pra mim que me fez esquecer do ridículo, me motivando a te escrever com tanto amor como se eu já te conhecesse, como se você já estivesse aqui. Você que, na verdade, não está aqui mas está por aí assim como eu esperando o dia em que a gente vai finalmente entender a trajetória, o passado. Você que vai ser comigo o que eu espero que seja, esperando de mim tudo o que só eu vou saber te dar. Você que mesmo sem ter aparecido merece desde já um texto escrito com todo o amor que eu estou te guardando há tempos. Você que talvez já esteja perto, ou muito longe, mas que está caminhando até mim. Você que me motiva a procurar, a chorar por todos os caras errados na esperança de que esses caras errados sejam ou me encaminhem pro cara certo que é você. Você, que fará valer a pena as minhas noites de insônia, os meus textos com verbos no passado mesmo eu ainda estando no presente e as minhas cartas sem destinatário. 

sábado, 25 de janeiro de 2014

Minha vida quase sem mim

A morte me incomoda bastante e em todas as minhas divagações ela quase nunca fica de fora. É ruim ter a certeza de que um dia tudo acaba e de que estamos caminhando pra isso, inevitavelmente. Semestre passado, em uma das aulas onde a professora apresentava situações hipotéticas a respeito do que seria uma breve introdução ao assunto das sucessões, eu tive que me lembrar de que as coisas findam e de que o fim ainda vai se relacionar com a continuidade de tudo enquanto a gente já está fora do jogo. Não é nada fácil pensar na morte dos que eu amo, e também não é fácil pensar na minha morte. Eu gostaria muito de possuir a serenidade de algumas pessoas e aceitar a morte como sendo algo natural e necessário. Pensar em morrer pode ser muito reconfortante em algumas ocasiões, como quando penso que apesar de tantas diferenças entre todas as pessoas do mundo, todas terão o mesmo fim. Enfim, essa é só uma introdução dispensável pra descrever e registrar o dia em que eu achei que iria morrer (claro, se a morte não acontecer antes de eu voltar aqui pra recordar).

Bem, eu sempre fui muito nervosa com relação à saúde, meu pai até costuma dizer que desde que nasci ele não se lembra de um mês sequer em que eu tenha ficado sem ir a um hospital. É bem provável que ele esteja exagerando, pois nesses quase dezenove anos eu consigo lembrar de vários meses saudáveis da minha vida. Sim, é verdade que a quantidade de meses visitando um hospital supera, mas e daí? Isso só é válido mesmo pra ressaltar a aflição que se faz presente em mim todas as vezes em que passo mal. E como muitas outras vezes, três dias atrás eu comecei a sentir coisas estranhas e resolvi me adiantar um pouco e consultar o doutor Google colocando os meus sintomas e esperando um diagnóstico não muito preocupante, a fim de me tranquilizar e achar a solução rápida pros meus problemas. Pois é, mas acontece que o doutor Google só faltou imprimir automaticamente o meu atestado de óbito. E, claro, eu automaticamente pirei, os sintomas se agravaram a nível máximo, eu fiquei ofegante, comecei a tremer, senti como se o chão estivesse abrindo. 

SIM, EU ACHEI QUE EM MENOS DE 48 HORAS EU ESTARIA MORTA. Claro, não por acaso, afinal o doutor Google fez questão de me dizer que em casos como o meu, na melhor das hipóteses eu ficaria em coma. Então eu imediatamente mudei de planos, larguei meu material, entrei no carro do meu pai e chorando disse a ele pra correr comigo ao hospital. Nunca vou esquecer daquele caminho e nem de como eu convenci a mim mesma de que era o último da minha vida. Agora, parando pra pensar, me impressiono com a forma de como mergulhei de cabeça nessa realidade e de como foi tão intensa a forma como me senti. Não sei, se o doutor Google tivesse me dito que eu ainda teria algumas semanas de vida, ou um mês pelo menos, acho que eu ficaria menos louca (ou muito mais) e teria feito tudo o que desse na telha já que eu teria pouco tempo de vida. Mas o fato é que foi tudo muito forte, todos os pensamentos ruins vinham até mim com uma veracidade que me faria ganhar um oscar se eu estivesse atuando num filme. Crise de ansiedade total. 

Fomos a caminho do hospital, e a cada sinal vermelho eu pensava nas coisas que eu mais amava e nas coisas que eu ainda queria fazer. "Meu Deus, e a minha mãe? Como a minha mãe vai sobreviver sem mim? Por favor, alguém tem que acalmar a minha mãe.", "E o meu curso? Merda! Logo agora que eu realmente estou me apaixonando pelo Direito. Não quero morrer, preciso me formar", "E o meu marido, e os meus filhos? Eu quero ter filhos, eu quero ter um amor de verdade", "E meus amigos? E minha família? Eu não posso morrer às vésperas do aniversário de quatro anos da Laurinha. Não posso não ver o Rhyan crescendo.", "Eu realmente não vou ver o final de How I Met Your Mother? Vou morrer sem ter assistido os melhores filmes da face da terra, sem ter escutado as melhores músicas?". Então, esses foram alguns dos pensamentos que me fizeram chorar copiosamente no trajeto casa-hospital. E meu pai do lado, tentando me acalmar: "Fica calma, tu vais ficar bem". 

Chegando lá a médica começa a me atender já preocupada, pois eu não parava de chorar. Como o que eu estava sentindo não se relacionava com a especialidade dela, ela resolveu me encaminhar pra um especialista de sobreaviso, e, caso não fosse a especialidade dele, ele me encaminharia pra outro. Eu já sabia o que eu tinha, quase digo pra ela me internar de uma vez e acabar logo com isso. Mas não, e que bom que não falei nada, apenas obedeci (apesar de meio neurótica eu ainda consigo ser racional). Resumindo tudo, o médico que me atendou apontou o problema, me examinou, marcou alguns exames e disse que todas as minhas dores eram reflexo do meu estado emocional. 

Ainda não fiz os exames, ainda não sei com exatidão o que tenho e ainda continuo sentindo os mesmos sintomas, em proporções bem menores, claro. Eu ainda não sei se vou morrer logo, se o doutor Google estava certo, se eu posso acusar o hospital de negligência por não ter providenciado exames mais a fundo naquele momento mesmo. Continuo não sabendo se vou me formar, ou se estar viva pra ver o crescimento do Rhyan e da Laurinha, ou se vou ter filhos e um amor de verdade. Não sei como vai ser o final de himym, nem vi os melhores filmes, nem ouvi as melhores músicas. Eu não sei absolutamente nada sobre o dia de amanhã e nem sobre o final do dia de hoje. Sei que eu tenho muitos planos e muitos sonhos e muitos medos e muitas ambições. Depois desse episódio aprendi que é assim mesmo que as coisas acontecem, e num piscar de olhos tudo pode sumir. Talvez o doutor Google estivesse errado, ou talvez esteja certo. Mas o que eu consigo alcançar agora, após esse surto momentâneo, é que a vida é surpreendente. Eu já sabia, sim, mas eu ainda não havia me deparado tão assustadoramente com a sua brevidade. 

Eu ainda não morri, mas consegui aprender, com toda essa loucura que durou menos de duas horas, tudo o que realmente me importa. O amor importa, a vontade adquirir conhecimento pra ajudar as pessoas e tentar minimamente transformar o mundo importa, dar valor a cada personagenzinho que já passou por mim e me ensinou algo de bom importa. Muita coisa importa. Eu não sou um nada como muitas vezes já achei, eu não sou incapaz de praticar mudanças como muitas vezes, até por comodidade, me acusei. Eu não sou feia, nem burra, nem boba, nem insuficiente como muitas vezes já fizeram eu me achar. Eu sou muito mais do que isso. Eu sou o carinho e a cumplicidade e o companheirismo que tenho por meus pais. Eu sou as conversas profundas sobre juventude e relacionamentos que tenho com a Milena. Eu sou os conselhos que ela me dá. Eu sou as tardes caminhando até a casa do Willame e conversando sobre como pensar positivamente encaminha até nós coisas positivas e sobre como a felicidade está nos breves momentos em que atingimos a paz de espírito. Sou os conselhos que dou ao Pedro e também sou as palavras de conforto que ele precisa ouvir quando está triste e pensa em desistir do curso, ou da namorada. Sou as minhas lágrimas quando alguém machuca a Renata. Sou a minha dor por conseguir ser empática o suficiente pra sentir a dor de quem vive indignamente, de quem não é amparado e é tratado como lixo. Eu sou a vontade de continuar e melhorar a mim, e de ajudar a melhorar os outros, e de ajudar a melhorar o mundo. Eu sou as minhas saudades, eu sou o amor que tenho aqui acumulado pra dar pra alguém que realmente mereça. Eu sou a minha vontade de ser mãe. Eu sou muita coisa e peço encarecidamente a Deus que ainda me deixe continuar sendo.

E pra finalizar, se eu pudesse dar um conselho pra alguém, eu diria: sei que às vezes pode ser intuitivo e sei também que existe algo que nos impulsiona a isso, mas, por favor, em hipótese alguma consultem o doutor Google, tenho sérias suspeitas de que ele é um charlatão. 


domingo, 19 de janeiro de 2014

Mergulhando de cabeça no fundo do poço...

Não vejo mais você faz tanto tempo
Que vontade que eu sinto
De olhar em seus olhos, ganhar seus abraços
É verdade, eu não minto

E nesse desespero em que me vejo
Já cheguei a tal ponto
De me trocar diversas vezes por você
Só pra ver se te encontro

(...)

Agora, que faço eu da vida sem você?
Você não me ensinou a te esquecer
Você só me ensinou a te querer
E te querendo eu vou tentando te encontrar
Vou me perdendo
Buscando em outros braços seus abraços
Perdido no vazio de outros passos
Do abismo em que você se retirou
E me atirou e me deixou aqui sozinho


Treinando o cérebro

Não é você
Não é você
Não é você
Não é você
Não seremos nós
Não seremos nós
Não seremos nós
Não seremos nós
Nunca mais
Nunca mais
Nunca mais
Nunca mais
Eu já te esqueci
Eu já te esqueci
Eu já te esqueci
Eu já te esqueci
Seu beijo não foi o melhor
Seu beijo não foi o melhor
Seu beijo não foi o melhor
Seu beijo não foi o melhor
Não foi
Não foi
Não foi
Não foi
Não te amo mais
Não te amo mais
Não te amo mais
Não te amo mais
Você foi o maior erro da minha vida
Você foi o maior erro da minha vida
Você foi o maior erro da minha vida
Você foi o maior erro da minha vida
Acabou
Acabou
Acabou
Acabou


Quem sabe assim eu me convenço...
Se precisar aumento as repetições.

Vômitos e sacadas

O que dizer depois de uma noitaça daquelas com os amigos? O que dizer quando se acorda às 6:33 da manhã com uma dor de cabeça irritante que você sabia que apareceria mas não fez nada pra evitar? Não sei. Não sei muito bem o que dizer, só sei que ontem eu fui feliz. Fui feliz ao não conseguir subir as escadas de tão bêbada, fui mesmo. E fico feliz agora quando lembro de ter vomitado pela sacada com a minha amiga batendo nas minhas costas e rindo, sem saber o que fazer. Inclusive, está aí uma coisa que sempre vai me fazer rir quando eu lembrar, vomitar na sacada. Já fui melhor do que isso. Bem, o fato é que, sendo inconsequente ou não, eu preciso pirar um pouquinho. E preciso sempre ter a consciência de que não fazendo mal pra ninguém, que mal tem? Por que eu fico me perguntando, será que não dói? Sim, magoar, não dói nada em quem o faz? Me desculpa mundo mas eu prefiro ficar louca e vomitar pela sacada do que abraçar os bons costumes e sair por aí fazendo o que eu bem entendo sem me preocupar se isso vai doer em alguém. Porque, sabe, vai doer. Eu viveria bem ao saber que alguém acorda de manhã sem vontade de se olhar no espelho por minha causa? O meu estômago não embrulharia ao imaginar que alguém poderia estar se sentindo um lixo por eu ter usado essa pessoa de acordo com as minhas conveniências? E nem ia doer a minha cabeça quando eu fosse tentar dormir ao pensar que alguém está andando por aí meio borocoxô, meio de cabeça baixa, meio com medo do mundo, meio se escondendo de toda a humanidade porque eu não me importei com os sentimentos dessa pessoa? Bom, se tratando de mim, prefiro mesmo ser a pessoa meio borocoxô, porque eu aguento! Eu aguento todas as rasteiras e me levanto. Fico um pouco bêbada, choro no ombro de um amigo e peço pra ele nunca me deixar, depois ele lava o meu rosto e tudo fica bem. Eu aguento!

sábado, 18 de janeiro de 2014

Hoje decidi escrever sobre ele

É fato que me encontro em um estagnado estado de inspiração e é inevitável e necessário admitir que de todos os meus amores ele é o mais inspirador. Perturbador, interessante, impossível, e estupidamente charmoso de um jeito erradamente compreendido devido a minha realidade de nunca tê-lo visto. Agora faz um frio que me remete quase que imediatamente à época em que eu o amava. À época em que o meu maior desejo era conhecê-lo e com isso atormentava-me todos os dias a irresistível vontade de correr até o seu encontro. Corrida esta que, curiosamente determinada por mim como a quantidade de passos que representava a minha quantidade de amor, nunca pôde ser iniciada, fora algumas vezes em sonhos e em delírios noturnos sem grande influência em minhas ações. Pois bem. Ele. Ele que nunca soube por mim o quanto eu o amava, soube apenas pelo que foi capaz de deduzir como sendo o meu amor. Talvez pra ele isso não tenha se resumido a muito além de uma paixão passageira que não conseguiu ter uma significativa importância em razão das nossas condições. Sim, nossas condições de amor nunca foram muito favoráveis. Inclusive, nem sei porque chamo de condição visto que condição não havia, nunca houve. Mas eu jamais acreditei na possibilidade de amor como algo comum. Na verdade, quero dizer, sim, eu acreditava. Antes dele aparecer, é claro. Quando a sua personalidade cruzou o meu caminho de adolescente confusa e sem perspectivas eu tive a certeza irremediável de que um romance comum e cotidiano não caberia, pois era aquele erro e alucinação que eu queria viver, ou, com todo o perdão que o clichê da palavra exige, sonhar. E sim, sonhei. Mais do que sonhei, levitei, desincorporei de mim. E quanto mais, agora, eu classifico tudo o que fomos, a inverdade que fomos, me divirto. Não em sentido de deboche a pessoa que fui ou a quem fomos, me divirto pela diversão de fato existente. Divertido o passar do tempo, o não passar do tempo, o sair do tempo. Inegável o quanto era desejada uma tal viagem, uma tal possibilidade. Até hoje não sei ao certo o que esse moço de tão indecifráveis intenções tinha para cativar todas as partes de mim, mas tinha. E, diferente dos meus amores posteriores, irrelevantes em suas possíveis realidades que poderiam ser facilmente trocadas pela irrealidade dele, ele conseguiu, de tão distante, me aproximar de tudo o que bastava a aproximação. Me bastava aproximar de mim. Ele conseguiu, me aproximou do que eu sempre quis estar do lado, do que eu sempre quis entender, caminhar junto e atender a pedidos. Acho que conseguiu fazer com o que eu soubesse o que eu era e o que sou por motivos de também ser muito como eu, ou completamente o inverso de mim, ou, quem sabe até, ser apenas o que inventei dele. Diferente de tudo, de todos, ele veio com a única finalidade de, sem saber, fazer eu me saber um pouco mais, me saber o quanto ele não se sabia. Talvez ele seja aquela pessoa que aparece uma vez na vida de todo mundo, mudando as coisas, reorganizando as coisas, misturando. Deixou muito do não sei o quê que ele aprendeu e quis me ensinar. Levou de mim, pelo menos, um pingente dourado pra guardar em um baú junto de alguns perfumes, e uma carta largada em algum canto da casa. Sinto muito pelo pingente não ser de ouro, e pela carta não estar grafada pelas minhas juras de amor eterno que de tão eterno me faz escrever sobre ele - não mais para ele - mesmo depois de ter deixado de amá-lo. Na realidade, eu me pergunto todos os dias se deixei de amar, se passou, se dói, se algum dia doeu. Não encontro respostas cabíveis para poder definir a minha atual situação e o meu atual sentimento. Sei que doeu, não sei se dói, sei que passou e sei também que nunca passará. Se deixei de amar? Talvez sim e talvez não. Talvez sim por ter percebido, não muito tempo depois, que não nascemos pra morar na mesma cidade, ou bairro, ou rua, ou ilha. Morar no mesmo país nos bastava, nos bastou. Talvez não, porque, enfim, como deixar de amar? Como deixar de querer o que mais se quis na vida? Sei lá. Só sei que ele foi um diazinho como esse, ele foi alguns desenhos, algumas músicas, algumas bandas apresentadas e que ainda permanecem na minha playlist. "This is no declaration, I just thought i'd let you know goodbye". Ele foi um vidro, um do outro lado da tela, da vida, do mundo, do continente. Ele sabe. E de amor, amor mesmo, eu não sei falar. Eu digo que foi amor, a gente acha que foi amor. Mas o que é o amor? O amor foi ter querido fazer cafuné enquanto ele dormia? Foi ter ligado às três da madrugada pra falar barbaridades adequadas para o horário? Foi o que eu sentia quando ele perguntava por que eu era tão longe? É. Acho que amor são esses detalhezinhos e aparentemente insignificantes que a gente não esquece. Quero dizer, que eu não esqueço. E me proíbo de esquecer, saiba você ou quem quer que seja. Chame das maiores incoerências, ou coerências, tudo o que digo que senti, mas senti. Pobre de quem não sente nem de perto, pobre de quem acha que sente, pobre de quem engana o que sente, pobre de quem não quer sentir o que sente, pobre de quem não liga pro que o outro sente. Pobre eu não sou. Eu senti. Senti o que não presta, o que presta, o descartável, o quase insubstituível.  Por ele, senti e sinto saudade. Saudade daquilo que ainda não encontrei, daquilo que faz eu mentir para as minhas razões, paixões e exatidões que de tão inexatas me fazem perder o senso, o juízo, o equilíbrio, a veracidade de tudo o que eu admiro e admirei. Mas não me importo porque enquanto eu lembrar dele está tudo bem. Mesmo que nós não sejamos mais o que nunca fomos, mesmo que nós nos acompanhemos como bons amigos e apreciadores mútuos de uma sagacidade só presente no outro. Espero que este seja o meu papel. E, como diz a música, isso não é uma declaração. Isso aqui é um registro, uma causa a ser defendida por mim até o fim da vida. Porque eu gosto do que puxa, do que suga, do que detém uma dedicação imprudente e quase que indecifrável a alguém, a um querer, a um mistério, a uma mentira. Gosto do meu inexplicado gosto pelo inexplicável. Gosto de tentar explicar o que ele foi porque ele não se explica, não se vê e não se alcança. Não sinto mais vergonha ao expressar esses sentimentos persistentes. E me orgulho, do tamanho de um universo cheio de galáxias inexploradas, por tê-lo conhecido. Me orgulho por ter me apaixonado e, pra isso, não ter precisado tocá-lo com o dedão do pé ou ter visto qual a cor dos olhos dele ao sol.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Li enquanto estava numa sala de espera e lembrei de você.

As Moléculas. O amor.


Sempre soube que não duraria muito tempo. De fato, durou bem pouco. Mas a verdade é que o tempo do amor não é o mesmo tempo da vida. Este se mede em minutos, dias, anos; e aquele se conta em batidas cardíacas. E neste rápido tempo que passamos juntos, meu coração bateu tão forte e tão ligeiro, que sinto como se te amasse antes de te conhecer... Antes mesmo de começar a rodar o cronômetro da vida... Como se nosso amor fosse (e é) uma invenção de outra era, de outra vida. Como se o nosso sentimento fosse mais do que um simples afeto, porém a energia cósmica que mantinha as estrelas no céu...

O teu toque em mim era o imã que ativava a conexão invisível entre a transcendência e o universo; e entre o artista e sua obra. E nós – eu e tu – éramos o passo do bailarino, a palavra do escritor e a explosão de uma supernova a anos-luz de distância.

Mas no nosso último enlace, enquanto estávamos unidos em lágrimas acesas, minha essência se dissipou pelos teus braços e minha alma se dissolveu em moléculas, para vagar a esmo por entre os prédios desta cidade ou no vazio da galáxia, buscando novamente uma força que as una derradeiramente em um só corpo.

E tudo que tenho. Tudo que tu tiveste. Todos os objetos que existem no cosmo perderam a razão de ser na tua ausência e tendem a despencar do infinito, rasgando o céu como estrelas cadentes. E só então entendo para onde vão as alianças de um amor perdido e em que dimensão estão as cartas de amor de uma paixão que não existe mais. E, em brasa, descubro como destruir a memória da dança que as estrelas faziam no céu toda vez que tu seguravas a minha mão.

E imagino os livros que te dei, as roupas, as joias e as minhas esperanças derrotadas explodindo em faíscas coloridas e brilhando nos céus das noites mais escuras; nossa paixão falida, sendo estrelas mortas, mas fazendo sonhar os novos amantes.

E nesta queda, eu te chamo. E sei que tu me ouves... Porque a minha voz é a voz de tudo. É a voz da tua solidão. É a voz do infinito.

Que os meus objetos signifiquem por mim...
Que tu nunca me esqueças...
Que os pássaros sejam a música que guia teus passos de ballet e o universo vazio seja a inspiração para eu continuar escrevendo nessa vida...
Que as estrelas parem de despencar... E que meus dedos dilacerem o tempo e, numa outra dimensão, minhas moléculas consigam se unir novamente.
Que minha alma te acompanhe na tua dança... E tua voz sussurre as belas frases dos meus textos...

E que eu continue te amando de longe... Até o dia em que uma chuva de meteoros faça brilhar em ti novamente a estrela repetida de uma paixão que já morreu há tempos.
* Saulo Sisnando é escritor.

Viajante

Tempo, era isso pra ser? Eram estes pra estar? Por que tu te calas? Meus sinais o universo não manda, e tu, o que fazes? Só fazes passar. Está passando agora e trazendo contigo, na mesma viagem, um cheirinho de passado. Que injusto tu és! Por que tu me atiças com as tuas bagagens, com as minhas bagagens que tu brincas de levar pra um lado e pro outro? Tu te aproveitas que essas tais lembranças não são frágeis e as trasporta, e me enlouquece. Queria eu poder entrar nessa mala e ir junto. Por que não? Tempo, tu que és um dos deuses mais poderosos, o que te custa me levar? Eu posso desintegrar  e se chegar lá meio torta, meio descompensada, meio do lado errado, não vou me importar, talvez eu me endireite. Eu quero ir só olhar, não sejas tão cruel. Deixa eu ver de longe o que eu nunca vi, deixa eu olhar de perto o que tu só prometeste e não cumpriu. Tuas bagagens, minhas bagagens, essas lembranças serão mais leves. Por que não me deixas ir nessas tuas viagens, nesses teus retrocessos? Sabe, eu cansei das promessas que todos fazem em teu nome, não quero mais esperar até o dia em que tu resolvas me mandar alguém pra ajudar a carregar tanto peso, tanto pretérito. E nem ouso me iludir que tu pararás de viajar. Não vais parar de viajar através de ti mesmo, não é? Aliás, me diga o que tu és? Uma matrioska? Um túnel envolto a outro e outro e outro? Às vezes sinto que sou eu quem te percorre, noutras te sinto dando voltas e voltas dentro de mim, como agora. Te sinto indeciso, viajando em ti pra trás e pra frente, encarrilado em trilhos que se embaralham dentro de mim, dando um nó quando chegam no coração. Como pode um trilho dar um nó, Sr. Tempo? Como podes me deixar apegada a esses teus vagões que carregam esses caixotes lotados das tuas bagagens, minhas bagagens, lembranças. Quem te governa?