... Subentenda-me: 2013

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

30 coisas pra fazer e não fazer em 2014

1ª Parar de chorar por tudo, e se chorar que seja sozinha. (50% feito. Continuo chorando por tudo, mas sozinha).

2ª Evitar demonstrar suas fraquezas nas conversas de desabafo. Não desabe, fique firme e se empenhe em respeitar o item anterior. (É, até que funcionou na maioria das vezes).

3ª  Ouvir mais. (Sim, consegui ser uma boa ouvinte).

4ª Esperar a sua vez de falar, e se não te derem a vez respeitosamente peça licença e retire-se com toda a  educação. (Me calei bastante pra não explodir. Escandalizei algumas vezes, mas só com quem me permite.)

5ª Não se contradizer. Emita uma opinião apenas quando tiver absoluta certeza de que ela permanecerá. (Me contradisse algumas vezes porque mudei de opinião. Não consegui esperar ela estar completamente formada pra expressá-la. Vou me dedicar mais a isso em 2015)

6ª Adiantar todos os compromissos possíveis, evitar deixar tudo pra ultima hora. (É, também não consegui :/ ).

7ª Manter as médias acima de oito. (Acima de 6 deve estar bom Hahahaha)

8ª Sair mais. (Sim, saí bastante).

9ª Ouvir músicas novas. (Não tanto quanto eu gostaria).

10ª Falar mais baixo. (Não tanto quanto eu gostaria rs)

11ª Não ficar bêbada. (Ops, sem comentários).

12ª Não impor sua presença. (Consegui isso muito bem).

13ª Não ter recaídas por nenhum ex. (Isso aconteceu mas passou rápido. Ainda bem).

14ª Respirar fundo todas as vezes que sentir que vai explodir, gritar ou perder a paciência. (É, consegui mais do que em anos anteriores).

15ª Ajudar mais as pessoas (na medida do possível, não queremos nenhuma Madre Tereza :D). (Fui uma boa menina. Quero o presente do papai noel que não chegou até agora).

16ª Organizar um pendrive com as suas músicas preferidas (não fiz mas ainda vou fazer).

17ª Não esquecer de apertar Ctrl + B e envie todos os trabalhos pro seu e-mail assim que terminar. (Hahaha sim sim, nenhum trabalho perdido).

19ª Voltar a falar com o Higor. (Do jeito mais lindo de todos).
  
<3 p="">20ª Não se reaproximar de nenhum ex amor, ex ficante, e afins. (Ops. Mas em um caso valeu a pena, e está valendo até agora) 
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21ª Não criar expectativas. (Eu tentei e tento).

22ª Não admitir nenhuma desculpa com grau de importância inferior a oito como motivo pra não ir pra academia. (Hahahaha qualquer coisa pra não ir a academia).

23ª Parar de comer besteiras na unama. (Ops)

24ª Passar na prova de monitoria. (Nah)

25ª Não roer as unhas DURANTE O ANO TODO. (Dei umas vaciladas mas agora tô firme e forte).

26ª Assistir todos os filmes que todo mundo viu menos você. (Ainda não consegui).

28ª Perder o medo de trânsito. (Tô motora profissa).

29ª Evitar se apaixonar. (Ainda bem que eu não cumpri essa) 
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30ª Não aceitar nenhum pedido de namoro sem estar 100% apaixonada, ou sem haver a chance de você se apaixonar integralmente. (Fica pra 2015 Hahaha).

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Sobre Coragem e as várias vidas em uma só.

Acabei de ver no Facebook uma imagem aparentemente insignificante e irrelevante, mas que na sua essência acabou por fazer com que alguns sentimentos desabrochassem em mim. A imagem nada mais era do que uma foto do Coragem (do desenho Coragem, o cão covarde) com uma legenda dizendo que ele, mesmo morrendo de medo, nunca deixou de lado quem amava. Eu não sei se lembro muito bem, mas todos os episódios do tal desenho envolviam o cãozinho e seus donos passando por frequentes situações incomuns no sítio em que moravam. Os donos nunca se davam conta do perigo e etc, e o Coragem, apesar de viver aterrorizado com todos os acontecimentos bizarros naquela casa, permanecia ali. 

Essa imagem desabrochou, na verdade, um sentimento que está intimamente relacionado a uma discussão que constantemente tem feito parte das minhas divagações noturnas: as nossas várias vidas dentro de uma só. Não estou falando sobre as pessoas que fazem parte da nossa vida e nós as intitulamos como "razões" para continuarmos vivendo - apesar de precisar ressaltar que a presença dessas pessoas, de forma permanente ou momentânea, é responsável pelas tais várias vidas em uma só, porém explico isso mais adiante. Quando me refiro as nossas "várias vidas em uma só" estou apenas rebatizando uma coisa óbvia e bem simples que podemos perceber com facilidade: as mudanças que ocorrem com a nossa maneira de pensar, de se comportar, e de lidar com outras pessoas com o passar do tempo.

É engraçado que a vida nos imponha várias realidades, em várias épocas, determinando quem nós seremos em cada uma das vidas que temos dentro da nossa própria vida (isso tá ficando estranho, mas acompanhe). Quando eu era criança eu era uma pessoa diferente de agora, não pensava muito além do sabor do biscoito do lanche da tarde, me comportava e lidava com as pessoas de acordo com o que a minha realidade de criança exigia de mim, e isso, com o tempo, foi se desenvolvendo até criar uma outra pessoa. Vemos muito em filmes e séries aquele encontro do "eu" adulto voltando ao passado e mudando alguma atitude do "eu" criança ou mais imaturo que altera um acontecimento do futuro. É sobre isso. Esses tantos “eus” que somos ao longo da vida. 

Agora eu posso dizer com toda a certeza que a interpretação do desenho que eu tinha quando criança deve permanecer intacta, assim como todas as minhas atitudes, afinal eu era criança, era uma outra vida, não era eu. O que diferencia as minhas interpretações de Coragem hoje e há dez anos atrás é o tempo, foram as pessoas que passaram, são as pessoas que ficaram, e tudo o que aconteceu nesse período. 

Se não fossem alguns personagens no seriado da minha vida, a tal legenda da foto não teria o mesmo valor pra mim. Se não fosse o amor da minha mãe e toda a sua dedicação eu não entenderia porque vale a pena lutar por quem a gente ama mesmo quando sente medo. Se eu não tivesse sido apaixonada por fulano de tal e se isso não tivesse me feito refletir sobre como é importante ignorar certas inseguranças quando realmente acreditamos em algo, eu não entenderia porque diabos o Coragem estufava o peito, se borrava todo mas enfrentava as assombrações pra salvar os seus donos. Se não fossem vários desses diversos fatores que fazem parte das minhas várias vidas em uma só, eu não seria o meu próximo eu. 

Pois é, ainda não conheço a Ana Carolina do futuro, não conheço as pessoas que ela vai conhecer, não conheço quem ela vai amar, não conheço seus filhos, seu marido. Mas eu sei que a Ana Carolina do futuro vai conhecer todo mundo que eu conheço, vai amar quem eu realmente amo, e ainda vai ser muito do que quem eu sou hoje é, graças a tudo o que a Ana Carolina do passado fez eu me tornar. 

Talvez a Ana Carolina do futuro mude algumas concepções, melhore, se aprimore, e agradeço desde já aos responsáveis por essas lapidações. A graça desse jogo de várias vidas em uma só é que, mesmo desconhecendo aquela pessoa que você foi um dia, foi essa pessoa, com todos os seus erros e acertos, que fez você ser quem você é, em qualquer uma das suas vidas. 

Obrigada a todos que acrescentaram algo de muito válido nas minhas vidas até hoje, vocês criaram uma boa pessoa, vocês me fizeram desenvolver o intelectual, o emocional, o lúdico, o racional, o relacional e seja lá mais o que houver. Obrigada as minhas vidas do passado e a minha vida do presente, vocês são responsáveis por algo muito bom que está por vir. E ah, um agradecimento especial para a Ana Carolina de oito anos: obrigada por ter assistido "Coragem, o cão covarde" mesmo sem entender muito bem a profundidade que aquilo teria pra você (pra mim) um dia. 

sábado, 9 de novembro de 2013

A mesma falta de sempre

Sinto falta de respirar o cheiro de quando era você quem eu amava. Sinto falta da inspiração que nunca mais foi a mesma. E será mesmo que a gente tem sempre que querer as mesmas coisas? Eu não quero. Mas quis você tanto que nunca vou deixar de pensar no bem, no mal, nos passos que eu teria que dar pra te encontrar se eu fosse andando, no amor que era da quantidade desses infinitos passos. Hoje eu olhei pra chuva caindo no asfalto e vi o desenho dos pingos no chão sendo desenhados por ti. Seriam mais bonitos. Como tudo foi. Bonito. Você. Que saudade de sonhar contigo, de querer mais do que tudo no mundo ver você pelo olho mágico. Hoje não sou a mesma, as águas não são as mesmas. Hoje meus amores se perderam na imensidão que é não amar de verdade, que é amar por amar, sem porquê. O meu era você. Porque eu não tinha mas iria ter, um dia. Não consigo mais sentir, nem te amar, nem chorar. Não consigo te amar agora mas lembro tanto do amor de antes que é como se eu ainda amasse.

domingo, 20 de outubro de 2013

Depois de sete dias.

Eu concordo que a gente tem que viver cada momentinho inconsequente, sair por ai encostando em qualquer vaga disponível pra esquecer do mundo do lado de fora. Concordo que a gente tem é que mandar todas as proibições pro espaço mesmo, não se importar com as exigências que as nossas outras escolhas nos impuseram porque, que se dane, o que vale é ali e agora. Mas eu discordo. Discordo porque acho que não dá (não mesmo) pra ignorar e ser indiferente quando não estamos mais na zona da vontade de permanência sem maiores envolvimentos, quando já não estamos ali pelos mesmos motivos que nos fizeram ir inicialmente. Mudamos. Mudamos os nossos interesses e as nossas disposições. Sem perceber, mudamos. E o mais vulnerável sempre foge. Em qualquer situação sempre há quem seja mais frágil e não suporte e não aceite (ou não possa) se dispor a viver como dá depois de ter ultrapassado o limite entre a indiferença e a mínima afetuosidade. E que eu me afetei com um certo afeto imprevisível é fato. Mas eu também sei girar, girar, girar, sentar no sofá, respirar fundo, fechar os olhos, sentir todo o meu corpo entrar em confronto armado contra a minha tontura e esperar passar. Passa. Depois de sete dias eu me refaço, tal como Cubas. E esqueço.


"Com efeito, ao cabo de sete dias, estava farto da solidão; a dor aplacara; o espírito já se não contentava com o uso da espingarda e dos livros, nem com a vista do arvoredo e do céu. Reagia a mocidade, era preciso viver." - Memórias Póstumas de Brás Cubas

domingo, 13 de outubro de 2013

Cansada

Hoje eu queria dizer que cansei. Cansei do desamor e da minha desorganização. Cansei de não descansar, de não fazer a cabeça parar de pensar, de se perder, de querer. Querer um amor, um gole, um porre pra esquecer. Cansei de sonhar voltar e ver uns certos olhos com aquelas certas cores olhando pra tudo em volta, afoito. Cansei da esperança de sair e encontrar, e não encarar e abaixar a cabeça pro mundo porque ver de perto o que fica longe dói mais do que nunca ver qualquer coisa que eu tenha querido ao meu lado. Cansei de escrever pra que alguém entenda se ninguém me lê. Se eu, ao ler depois de muitas translações, não lembro do que eu entendia. E não lembro mesmo. Não lembro do impossível que eu tanto admirava e respirava e gostava de viver, não lembro do sépia que eu me convencia como sendo meu tom preferido. Não lembro dos dias que eu descrevi, das ilusões que eu inventei. Cansei de me esforçar pra lembrar lembranças apagadas pelo tempo, pelas outras lembranças, pelas outros dias e outros sonhos e outros tons e outras possibilidades. Cansei de morar com as minhas insatisfações insistentes porque sei agora que elas se mudam aos poucos, levando caixas de pertences com fotografias e músicas e cheiros e gostos sem que eu perceba. Cansei de me negar a existência das substituições. Cansei e dizer algo insubstituível, inesquecível, irresistível. Cansei de mentir. Cansei de me impedir de olhar pro novo se é o velho que faz meu coração bater mais forte.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Azeda, mas feliz.

Estou sem um propósito, agora, sentada no chão gelado e pensando sobre o que, de fato, me corrói por inteiro e merece ser descrito por mim em algumas muitas linhas. Pois então, analisando bem, não estou corroendo nada, pra ser sincera estou corroída. Cética, descrente, ausente de mim, meio morta, meio torta, meio... jogada no chão pensando no que eu ando fazendo da vida e no que a vida anda fazendo de mim. Ah, como eu odeio as minhas lamentações, como eu odeio o meu mimimi. Mas se tem uma coisa que eu posso dizer é que eu virei isso tudo: um mimimi, um não me toque, um "não fale comigo enquanto eu estou olhando pro nada", um monte de desaforos, uma tristeza hipócrita, um alguém que finge sentir cócegas o tempo todo pra dispensar as perguntas. Mas, em meio a tudo isso, dá vontade de ser tanta coisa, só pra esquecer, ignorar, viver bem com as cócegas que me faço até acreditar que estou rindo porque o mundo não é tão preto e branco quanto parece. Pela primeira vez - pra minha felicidade e total admiração pela minha mais pura independência sentimental - não é pela falta de alguém. Quanto a isso digo apenas que reconheço o valor de sair a noite, ser um pouco feliz, dar algumas risadas, sentir um outro cheiro, ouvir certas músicas e beijar certas bocas. Mas sinto que ainda não estou preparada para o desprendimento e dedicação, o momento é outro, os desejos são outros, e as erupções também. Acho que finalmente eu me encontro em uma estabilidade antes tão almejada, e o fato de eu ser um mimimi, estar corroída e lamentar alguns arrependimentos só ajuda nessa tal estabilidade, o que é muito contraditório quando comparado a outros momentos da minha vida, mas aproveito o avesso de toda uma inquietação anterior pra me sentir mais segura em dizer que não preciso de mais nada que antes eu julgava precisar pra me sentir mais feliz.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Vida que segue

Haverá um dia em que você vai acordar de um sonho querido e sentir um monte de emoções diferentes. Aí então você vai precisar levantar, andar um pouco pela casa, beber uma água, voltar e sentar na sua cama, ficar parado ou se esconder entre as cobertas, tanto faz. Vai ficar do jeito mais confortável possível pra organizar aquelas emoções. Você vai se sentir por um lado saudoso, nostálgico. Por outro lado você vai perceber bem claramente como tudo sempre muda e tem que mudar, como você deixou pra trás ou foi afastado de coisas que amava e não pode mais voltar pra essa realidade e ainda assim se sentirá bem por isso. Bem porque tudo o que viveu até esse dia fez você ser quem você é, fez você se diferenciar do resto do mundo, porque o resto do mundo pode ter vivido um milhão de experiências maravilhosas mas não tão grandiosas quanto as suas. Não tão grandiosas quanto você julga que as suas experiências foram. 

Nesse dia você vai lagrimar muito, seu estômago vai embrulhar. Ah, com certeza vai. Você vai se encolher lentamente em posição fetal, e nem vai se dar conta disso. Você vai pensar no quanto foi feliz, no quanto se frustou, no quanto teve que lidar com muitas aflições. E nesse momento, ao pensar nos contras do seu passado, você vai olhar pro presente e agradecer pela sua atual tranquilidade - em comparação à confusão que vivia anteriormente, agora você vive tranquilo. Você vai continuar com o peito apertado, mas essa sensação vai se dissipando aos poucos quando perceber que não foi de todo ruim. 

Não, a vida até aqui não foi ruim. Foi angustiante, às vezes alegre, às vezes melancólica. Foi... 

Você vai notar que você continua vivendo angustias, diariamente, e pode até acontecer de você ainda não conseguir comparar as suas angustias de agora às angustias passadas. Mas você já viveu, você já sabe como a vida funciona, você já tem em mente as possibilidades do que está por vir. Você já não se engana mais, você sabe que daqui a um tempo a angustia do passado pela qual você se lamenta agora já terá sido substituída. Aquele amor antigo que você imagina que nunca mais sentirá igual certamente dará o lugar a outro. Sim, você sabe disso e isso vai amenizar cada vez mais o seu aperto no peito. 

Mas, em contrapartida, sua cabeça vai começar a trabalhar com comparações de antes e depois. Nesse momento pode ser que doa um pouco, pode ser até que você chore. Você vai pensar em tudo o que teve e já não tem mais. Depois vai aceitar que não tem por um motivo simples que talvez justifique a ausência de tudo o que já foi presente: o tempo. Sim, podia ser a vida, o destino, as ocasionalidades, mas ah, o tempo engloba tudo isso. O tempo e as suas surpresas, o tempo sempre trabalhando pra que você mude junto com a sua realidade. O tempo mudando a realidade de todas as pessoas, mudando tudo e todo mundo. 

Ao lembrar de tudo o que tinha e perdeu você vai começar a sentir algo semelhante a agulhinhas te perfurando, ou seja lá o que for. Mas sabe, você vai conseguir pensar direito. Afinal, você optou por organizar as suas emoções. Sim, você vai conseguir espremer algumas coisas boas. Você vai pensar que perdeu muito do que tinha, mas em compensação todas as perdas foram, ao mesmo tempo, te reconstruindo. Reconstruindo a pessoa que você é, reconstruindo o que de fato é importante pra você, reconstruindo pelo que vale a pena se entregar, sofrer, chorar. Você vai ver que aprendeu com tudo isso e de novo vai se voltar pra sua realidade e sentir que tudo está em constante mudança, que o tempo tem esse poder de te tomar coisas e te presentear com outras na mesma proporção. Você, por vezes, pode até ser indiferente aos presentes do tempo, vai achar que não compensa a perda, mas em momentos como esse, em um dia como esse, depois de um sonho bom, você vai ver que sim, valeu. 

Valeu ter vivido o que viveu. Valeu ter chorado o que chorou. Valeu ter perdido o que perdeu. 

Você vai se arrepender muito de ter pedido pra esquecer pra sempre aquela pessoa. NÃO. Agora você não quer mais esquecer ninguém. Você quer ter por quem chorar, ter por quem sentir saudades. Você já sabe que isso faz você ser quem é, amar as coisas que ama. Você sabe que todas as pessoas que viveram junto com você até aqui te fizeram gostar do que você gosta, abominar o que você abomina. Você percebe que gosta de ser quem é justamente por ter tido na sua vida certos "alguéns" que deixaram um pouco de si com você. 

Você vai sentir muito, ainda muitas vezes, a falta de pessoas, a falta de uma época, de uma antiga facilidade em escrever e descrever o que sente, e vai se lamentar porque já não se sente a vontade pra isso. Mas então você vai se recuperar, sentar na sua cama de novo e começar a pensar nas suas obrigações. Vai pensar nos textos que tem pra ler, na pessoa boa que você conheceu e mal vê a hora de reencontrar.

Você vai enxugar as lágrimas, que a essa altura não se aguentaram e se esparramaram pelo seu rosto. Vai respirar fundo numa sensação deliciosa de alívio e boas lembranças. Você vai se sentir uma boa pessoa, você vai dar bom dia pra todo mundo, você vai sorrir amigavelmente, você vai ajudar quem precisa de você. Você vai fazer o que tem que fazer. Sim, você vai continuar...

Continuar, sabendo que logo mais haverá outro dia em que vai acordar de mais um sonho querido, e assim por diante. 


domingo, 14 de julho de 2013

"Sobra tanta falta"

Ninguém nunca vai me olhar como tu me olha, nem paralisar, nem abaixar a cabeça, e nem sorrir de cantinho enquanto me observa.

Ninguém nunca vai me fazer sentir o que eu sinto quando te vejo tocando pra mim, ou quando diz que acha uma graça as dancinhas que eu faço pra disfarçar meu nervosismo.

Ninguém nunca vai conseguir me alcançar como tu, porque tu me faz sentir abraçada pela ausência de nunca ter te tocado. Abraçada pelo nosso passado, pelo tempo até chegar aqui e por essa coisa que é tão forte mas compulsoriamente reprimida.

Apesar na necessidade de discrição, aqui dentro nunca deixou de ser o que é. E por ti é um mundo inteirinho.

Por ti o que eu sinto pode ser mensurado por cada centímetro que nos separa, e mais as ruas, os bairros, as cidades, os estados, as casas. Os passos que eu precisaria dar pra te encontrar.

E ainda que o tempo passe (mais ainda), eu sei que tu não passa. Talvez se ausente, ou suma, ou case de verdade, ou tenha filhos, ou adote mais gatos. Passar não passa. Não importa quanta bagagem tu ainda vá acumular, eu sei, daqui de dentro não te deixo sair. Nunca deixei.

E hoje eu vejo que a nossa vida vai ser essa mesmo. Esses amores, essas frustrações, essas saudades de tudo que não fomos e bem provavelmente não iremos ser. Mas ainda assim é tu, sempre foi e sempre será. Porque tu me bagunça, porque me dá uma pontada no coração sempre que eu lembro da infelicidade de não ter encaixado o meu rosto no teu cangote pra te dar um cheiro de alguns minutos eternos.

Porque mesmo com tanto tempo e tanta gente, tu és a minha maior referência, a minha maior inspiração. Porque tu és o rosto mais bonito que eu já vi na vida e porque eu consigo ser verdadeiramente feliz ao te ver de longe mesmo isso sendo tão pouco perto do tudo que tem aqui dentro, que eu guardo, que eu sufoco esses anos todos.

E agora a gente tenta, né? Construir uma vida de gente grande, com responsabilidades e outros envolvimentos. Eu sei, é necessário.

Mas não me esquece não. Não deixa de pensar com carinho em mim não.

Não deixa de te cuidar, já que eu nunca pude fazer isso.

Porque eu te amo e nunca vou deixar de amar.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Posso viver sem você, mas por enquanto tá difícil.

Pois é, olha essa recaída. Fiz a besteira de sentir saudade, de ir buscar os teus detalhes que ficaram, de ler o que a gente dizia, de rir e querer me transportar de novo pra aquela realidade. E o quê que a vida fez da nossa vida, hein? Fez que eu te perdi. E agora eu só consigo me odiar por perceber que não, você nunca foi o vilão da minha história. Você não queria me fazer mal nenhum, mas eu acreditei nisso, eu te afastei, eu te disse pra ir embora, eu me proibi de te amar. E te amei calada, e sufoquei, e estou sufocando com o amor que ainda resta. Hoje eu vi que podia ter feito tanta coisa diferente, que podia ter te feito querer ficar, que podia ter te dado aquele beijo e perdi as duas oportunidades de te fazer se apaixonar por mim, de esquecer que existia o mundo a nossa volta e te beijar e não largar nunca mais. Eu fiz o que você disse pra eu não fazer, eu deixei você ir, e tudo o que eu nunca quis na vida foi te perder. Sabe o que eu queria mesmo? Ter ficado no teu colo pra sempre, ter cheirado o teu cangote noites a fio, ter te dito: “Não me acha louca, não me dispensa, não se assusta, mas fica comigo porque eu te amo. Eu te amo como eu nunca amei alguém na minha vida. Fica, aguenta junto comigo todos os problemas, eu te seguro, tu me segura”. Não fiz, não é? Sim, não fiz porque eu sou uma garotinha e você é homem demais pra mim, e eu não aguentaria te segurar, e eu cairia, e eu me machucaria. Mas eu não tentei, e isso me faz sentir uma dor maior do que a que eu sentiria se não tivesse te aguentado e caído no chão. Eu perdi o grande amor da minha vida sem o grande amor da minha vida saber que ele era o grande amor da minha vida. Sem ele saber que eu achava o sorriso dele a coisa mais bem feita de todo o universo, sem ele saber que a cor dos olhos dele era divina e muito mais quando iluminada pelo poste de luz de uma rua qualquer. O grande amor da minha vida nunca soube que eu adorava tudo nele, que eu adorava acariciar aquela barba e que eu poderia viver o resto da vida me arranhando ali, esfregando o meu rosto como um gatinho que brinca com um novelo de lã. O grande amor da minha vida nunca foi meu porque eu desperdicei todas as chances de fazê-lo querer ser. Ai, sabe, eu te amo muito e te amo desde sempre sem saber que te amava, e se eu pudesse te ligaria às quatro da manhã, só pra te pedir pra vir me tirar da beira do abismo, pra vir passar a mão nos meus cabelos e dizer que está tudo bem porque você está ali e nunca mais vai sair. Mas olha, eu acho que eu vou sair dessa, apesar de tudo, apesar de sentir a sua falta como os pulmões sentiriam dos alvéolos, eu vou sair. Eu já consigo não temer te ver, apesar de saber, também, que se te visse eu choraria um rio de lágrimas por não ter coragem de te sorrir como sempre, de te perguntar qual o teu caminho, e ainda mais por saber que ele não é o mesmo que o meu e nunca mais vai pra mesma direção. Tenho que te dizer que eu estou saindo e me divertindo, e rindo e achando a juventude uma maravilha. Tenho que te dizer que tem gente boa me fazendo bons convites e que eu tenho aceitado, e que não vai demorar muito pra eu ser feliz de novo, pra me aparecer um cara suficientemente especial ou extraordinariamente especial que vai me fazer feliz de novo. E nós vamos discutir política, e vamos lutar por uma boa causa, e vamos gostar de quase todas as mesmas coisas, e vamos pegar vento, e vamos sair por aí cantando canções do Alceu Valença e similares, e vamos gostar de tudo o que fizermos juntos. Mas nós NÃO vamos ser TÃO felizes quanto seríamos você e eu, do jeitinho que a gente era. E eu vou amar mais um milhão de vezes, e eu vou chorar por mais um milhão de pessoas, mas é você, foi você, será você. É por você que a minha mãe pergunta e eu não sei o que dizer, é a você que se referem quando me perguntam: “E aí, já conseguiu superar?”. Pois veja, você é o grande amor da minha vida e não sabe disso e nunca saberá, e se acontecer de eu te ligar bêbada, chorando e soltar alguma coisa a respeito, ignora e continue sendo feliz como eu abdiquei de te fazer. Mas saiba que hoje, agora, nesse momento, eu trocaria tudo pela gente. O meu celular, o pendrive com todas as músicas do Chico, o meu solitário de ouro, o único travesseiro que me faz conseguir dormir e todo o resto das minhas essencialidades. Trocaria. Por você. E sim, eu vou aprender, estou aprendendo, me ensino todos os dias a como viver sem você, e depois de tantos anos vivendo com, saiba, é muito difícil reaprender o sem, mas eu consigo. Só não deixo de te amar, e me proíbo de esquecer, e me culpo a vida toda porque a minha voz não é a última que você ouve antes de ir deitar. 

sábado, 18 de maio de 2013

Posso viver sem você

Hoje eu vou falar francamente, sem metáforas e etc. Hoje eu gostaria de dizer que eu te amo pra caramba, ainda, e que infelizmente eu demorei muito pra perceber esse amor. Demorei pra me permitir e pra gostar e pra dizer que era amor mesmo e não uma atração maldita que eu lutava pra me convencer. Pois é. Amo mesmo e do jeito mais inconsequente. Amo sem muitos motivos relevantes, a não ser o de que você foi sim o que eu mais gostei de viver, de sentir. Tudo bem, eu não deveria me orgulhar em dizer tudo isso devido às circunstâncias, devido a ausência de todo o seu merecimento, mas eu também não mereço um montão de coisas e ainda assim, estou aqui, ó, com um peso do tamanho do mundo nas costas, tentando me desfazer dessa tralha toda que eu carrego dia após dia. E sim, aos poucos vai deixando de pesar. Ainda tenho que admitir que eu saio por aí com um medo danado de te encontrar, de sentir o meu coração sambando, quase morrendo, coitado. Voltei agorinha mesmo de um lugar que algumas vezes nós estivemos juntos e confesso que tremi ao imaginar a sua presença. Mas veja só que progresso: eu já consigo olhar pra coisas que me lembram você sem sofrer tanto. Já posso pedir um suco de abacaxi sem lembrar que também era o seu preferido. Hoje foi bem diferente do dia de ontem. Hoje não lamentei seu nome, não ponderei as minhas falhas e incoerências, nem imaginei ter podido fazer tudo diferente. Não me culpei por me apaixonar e te exagerar pra mim num nível muito maior do que você realmente era. Hoje não te exaltei e nem superestimei a sua importância. Hoje não senti falta do que vivi e nem quis te ver de novo, sentir seu cheiro de novo. É, ontem foi o último dia. Ontem eu fiz tudo isso e um pouco mais. Ontem chorei no telefone com alguém que sabe me ouvir e me deixa chorar e chora comigo. Chorei porque eu acho que não era você, não era pra ser mesmo, mas eu queria muito, muito que fosse. Chorei porque eu já sofri bastante e acho que Deus está preparando uma coisa bem bonita pra eu viver, pra eu poder amar. Bom, pelo menos deveria estar. Ontem eu chorei porque eu também fiz muita bobagem, coloquei toda a minha intensidade em você mesmo sabendo que eu jamais seria correspondida na mesma proporção. Sim, eu sou consciente de tudo. A culpa é muito minha também. Mas ontem eu queria que tivesse sido, e quis muito que ainda pudesse ser. Hoje não quero mais. Hoje eu respirei fundo e mesmo ainda fraquinha, mesmo ainda cambaleando, tive certeza de que vai deixar de ser você. Hoje eu fui feliz sem precisar tomar um porre daqueles e vomitar a minha alma depois. Fui feliz sem precisar ir pra uma festinha qualquer pra tentar me fazer sentir um pouco mais incluída e menos pózinho. Hoje esqueci de você, só pra você saber. E se estou lembrando agora é pra deixar registrado o primeiro dia que você não foi o que mais me doeu. Consegui sentir mais dor vendo o último capítulo de uma novela boba, consegui me sentir pior vendo o velhinho que vigia a porta de uma loja na madrugada. Enfim, eu posso viver sem sentir saudades de você, sem querer te ligar implorando pra você vir me buscar. Eu posso viver sem o seu cheiro, sem o seu beijo, sem os seus gostos, sem os seus egoísmos, sem as suas vontades inesperadas, sem as suas decisões mais impensadas. Posso viver sem socar desesperadamente aquele travesseiro branco. Posso viver sem você.

domingo, 5 de maio de 2013

Estou com muita dor de cabeça pra pensar num título.

A estranheza, a dificuldade em permanecer em meio ao que todo mundo julga “normal”, e a minha fraqueza expressa em lágrimas libertas por consequência disso demonstram apenas o meu amor errado, o meu desalinho em amar direito, o meu desalinho em amar o que todo mundo acha correto e aceitável.

O meu amor não é assim e agora talvez eu deva me orgulhar por isso. A fraqueza se dá porque o meu amor é exigente demais, e teimoso demais. O meu amor é tão bobo e ingênuo que sempre cisma errado. Enxerga errado, ouve errado e fala errado. O meu amor parece ter saído de um circo. É um palhaço, que só me engata a trapezistas saltitantes e encantadores que me deixam apaixonada por todos aqueles saltos enquanto ignoro o fato de que um trapézio só não tem graça. 

Agora estou aqui, avaliando o meu amor e seus enganos. Seus tropeços, suas falhas, suas mais triviais confusões. Percebendo como ele age sempre como se estivesse a afirmar, teimoso, o contrário de uma obviedade qualquer. E quem discute diante de tanta impetuosidade? Ele sempre me ganha e convence, mesmo eu sabendoque está enganado.  

O meu amor não tem jeito manso e sonha em ser, ainda que afoito, só de alguém. Por isso tantos erros, tantas confusões. 

Alguém que não está nas baladas. Alguém que deve estar lendo, num quarto, aprendendo sobre qualquer coisa muito interessante pra falar a respeito comigo algum dia. Alguém que não me cause aversão por ser esnobe e prepotente com todo mundo. Alguém que não minta e não contribua para a criação de expectativas furadas em mim. Alguém que não olhe nos meus olhos como se parecesse sentir o mundo não sentindo nada. Alguém de verdade. Alguém que me diga que quer ficar não por não ter algo mais interessante pra fazer, mas porque adora o jeito que eu falo sem parar, mexendo com as mãos quando fico nervosa. Alguém que me mande uma música e sinta exatamente o que a letra quer dizer. Alguém que proponha um passeio inesperado, nem que seja pra ficarmos sentados, conversando e atirando pedrinhas num laguinho qualquer da Batista Campos. Alguém que goste de Chico, The Smiths e Los Hermanos (ou que não tenha preconceitos musicais). Alguém que saiba ou queira saber sobre os amores doentis do Hitler, e que me conte ou me deixe contar o que sei sem achar bizarro esse meu interesse incomum. Alguém que tenha responsabilidades, mas que abra mão de alguma tarefa dispensável pra jantar comigo e com a minha mãe. Alguém que goste de pubs. Alguém que me dê segurança suficiente pra assistir a um filme de terror. Alguém que me deixe fazer o que quero quando euquiser porque quero amar e ser livre também. Alguém que não seja um trapezista. Alguém que não me faça mais ter que sair procurando em todos os lugares que não me pertencem algo pra me confortar. Alguém que não faça as minhas fraquezas se revelarem. E, principalmente, alguém que não me faça chorar. 

Esta breve pausa entre um amor e outro.

de novo esta breve pausa entre um amor e outro
terei dias de vento e noites de embriaguez pela frente
alguns jantares aborrecidos e quanta gente a me insultar
terminaste outro relacionamento, és um homem supérfluo

entre um amor e outro irei ao cinema sozinho
intimamente satisfeito mas faltando uma mão pra segurar
os amigos incautos dirão coitado, que solidão infértil
os inimigos torcerão para que ela seja inóspita e difícil de levar

entre um amor e outro se passarão poucos meses
admito que me faz falta a companhia de uma mulher
que tenha tão belos cabelos quanto ideias
onde andará essa que irá acalmar os ânimos de quem ora por mim

de novo esta breve pausa ente um amor e outro
me cai bem um trajeto assim, várias estações e nenhuma acolhida
hoje o coração a seco, amanhã o ímpeto de casar
que em seguida irá cessar, só tenho ouvidos para tiros de festim


MEDEIROS, Martha.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Causa Mortis

Nossa Senhora dos corações afoitos, comprimidos, repartidos, corrompidos, exauridos, demitidos, desvalidos. Salve da correria, da pílula, do es quar te jo, da forca, da miséria e da porta da igreja. Responsáveis terrestres, transplantes, corações serenos. Padronizados. 
Livre-nos, livre-os. Agonizar de infarto. 
Fora colesterol e lesão arterial.
Causa mortis:
desamores, ilusões...
interseções, predileções.


segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Dina e as primeiras lições de amor.

Quando eu tinha uns seis anos de idade minha mãe contratou uma "babá" completamente diferente de todas as outras. 

A Dina tinha vinte anos quando começou a trabalhar lá em casa, e lá continuou os quatro anos seguintes. 

Eu tenho inúmeras razões pra dizer o quanto a Dina foi inesquecível - e é, porque até hoje mantemos contato. Ela tinha uma paciência de cão comigo, pra pentear o meu cabelo, pra limpar a minha bagunça, pra deixar eu ficar brincando até bem mais tarde lá no prédio em que eu morava. Ela acobertava as minhas perversidades de moleca endiabrada.

Resumindo, a Dina era o cara. 

Lembro que no primeiro dia dela, eu, de tão péssima, amassei toda a roupa que ela tinha acabado de passar e depois me joguei de cima de eu não me lembro onde quando vi que ela tava chegando pra brigar comigo. A parte ruim foi que tinha um copo bem na minha área reservada estrategicamente pra pouso. Copo de vidro - ou vrido, pros mais íntimos. Fiz um belo de um corte na perna, e chorei feito uma condenada. Também, pudera. 

Coitada da Dina, não sabia o que fazer, corria sérios riscos de ser demitida, mas com todo o cuidado do mundo me deu um banho digno de uma profissional do banho, porque só sendo profissional mesmo pra conseguir me acalmar e me convencer de que eu não podia ir pro hospital com cheiro de moleca suada. 

Enfim, a Dina foi responsabilizada sim, mas por sorte a mamãe deixou ela lá, quase que adivinhando o tanto que ela ia ser essencial na minha vida. É, eu amo a Dina, demais. 

Então, todo esse falatório serviu pra expressar todo o meu amor pela minha quase Nanny McPhee, mas também pra eu contar um dos grandes mistérios da minha infância que foi revelado a não muito tempo atrás.

Pois bem, vamos a ele. 

Contextualizando. Naquela época um certo rapaz, muito bonito e forte, que sempre jogava bola no campinho que tinha em frente a janela da cozinha de casa. Era o nosso vizinho do andar de baixo. Eu sempre via a Dina espiando ele pela janela, toda as tardes que ele ia exibir aquele corpinho sarado lá pelo condomínio. E isso acontecia frequentemente.

Na minha meninice eu já sabia que a Dina gostava dele. Eu chegava até a cantarolar aquelas musiquinhas canalhas que as crianças cantarolavam pra constranger os romances alheios.

"Dina e fulano debaixo de uma árvore se beijando, lalari lalará."

Mas era bem mais grave do que isso. A Dina amava aquele homem, e disso eu sei porque depois de eu ter crescido ela me confessou. 

Ah, se eu já entendesse da vida como entendo hoje, era pra eu ter sacado tudo quando, em uma daquelas tardes de futebol, ela se apoiou na parede, encostou a cabeça no braço e chorou. CHOROU. Chorou como eu nunca tinha visto alguém chorar na vida. E eu, meio desesperada, meio confusa, meio achando que ela tinha feito dodói, perguntei o que tinha acontecido. É, o amor tinha acontecido. E o pior, o amor proibido.

Ela me disse: "Um dia tu vais saber, Carol. Quando tu crescer tu vais entender o que é amar alguém e vai sofrer feito uma condenada, e chorar do jeito que eu tô chorando.". É claro que eu não lembro as palavras, mas sei que foi tudo isso aí que ela quis dizer. 

Ela era uma humilde secretária do lar e ele um bonitão classe média. É, a diferença de classe social contava, e muito. 

Enfim, a história deles não deu certo, como tantas outras que não dão. Nada como crescer, não é mesmo? Crescer pra entender das coisas da vida, crescer pra entender o que é chorar quase que desesperadamente por alguém que não se pode ter. 

Eis, então, a revelação do tal mistério, eis a minha realidade vivendo o mistério do porquê chorar por um amor, do porquê doer tanto quanto doeu na Dina e em todas as pessoas do mundo. 

A Dina casou, é feliz com dois filhinhos lindos e fim de todo o sofrimento. Fim mesmo? Sabe lá. 

Da ultima vez que eu perguntei pelo fulano do futebol ela me explicou melhor, relembrou da história toda, lamentou, e etc. E, de quebra, lançou mais uma profecia, mais um dos mistérios da humanidade que agora eu podia entender logo de cara: me disse que todo mundo tem um ponto fraco!

Um só. Os que têm vários não se pode confiar - ainda mais atualmente com a evolução dos relacionamentos e da fluidez com que se ama todo dia uma nova pessoa. E é. Eu tenho o meu ponto fraco, a minha melhor amiga tem o dela, a minha mãe, a minha avó, a Dina. Esses pontos fracos são os tais rapazes do futebol, do computador, daquele bolero com as amigas, da rua de trás. Eles que apareceram e marcaram, e ficaram mesmo tendo ido embora. 

A gente casa, tem filho, arruma um bom emprego, é feliz pra caramba, reúne a família nos almoços de domingo, mas não, a gente nunca vai esquecer dos nossos pontos fracos. 

Talvez doa pra sempre, talvez doa pra sempre enquanto durar a dor. Talvez a gente lembre deles quando ouvir uma música de tempos antigos, ou assista um filme que lembra toda a história. Talvez a gente os esqueça quase que o tempo todo, talvez a gente acorde na madrugada meio ofegante por ter sonhado e lembrado deles. 

Talvez, talvez, talvez. 

A verdade é que a gente sempre consegue seguir em frente e cantar com gosto aquela parte da música Olhos nos olhos: "E tantas águas rolaram, quantos homens me amaram bem mais e melhor que você...". Sim, nós conseguimos.

Nós vamos sair de noite pra encontrar os nossos novos namorados, vamos gargalhar e beijar e levitar. Vamos dizer que amamos alguém de novo, e de fato vamos amar. Amar com toda a vontade e a sinceridade que o amor exige. 

Mas, infelizmente, nada no mundo, nem o suborno mais bem feito e irrecusável, vai ser capaz de eliminar completamente os nossos pontos fracos. Nem comer e não engordar, nem malhar um mês e já ficar gostosa. Nada, nada mesmo vai fazer com que a gente esqueça. 

Afinal, todo mundo precisa de um primeiro grande amor antes do segundo, do terceiro, do quarto... 

Não é? 

A gente sabe que sim. 

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Veja a sorte que eu tenho tido.

Não te quero correndo e me puxando pelo braço pra dizer o que tem que ser dito, te quero me olhando no olho e não dizendo mais nada. Te quero dormindo de bruços, te quero me pegando pela cintura e me roubando um beijo. Te quero com os olhos castanhos de costume e a barba mal feita. Te quero numa esquina que seja nossa, num banco que seja nosso, numa chuva que seja nossa. Não te quero com buquê, nem presentes. Te quero abrindo a porta pra eu entrar, te quero me fazendo cócegas, me obrigando a dizer que te amo enquanto eu tranco a boca e viro a cara dos seus apertos. Te quero só, te quero na cozinha fritando salsicha pra gente comer no jantar. Te quero o mais simples possível. Te quero num quarto branco com janela de madeira e uma cortina com flores amarelas. Te quero me abraçando por trás enquanto a gente pega vento. Te quero mordendo a minha orelha e bagunçando o meu cabelo. Te quero dançando na sala, cantando comigo. Eu quero te ver chegar, eu quero te buscar. Te quero o mais louco do mundo porque a sua loucura parece com a minha. E quero brigar com você, surrar você até eu não aguentar mais e me apoiar chorando no seu ombro. Quero fugir com você, quero colocar a cabeça pra fora da janela do carro e gritar bem alto qualquer coisa que só nós dois saibamos pra você rir e me puxar pra dentro. Te quero comigo cantando alto aquela nossa música do The Smiths. Te quero de tarde, de manhã, de madrugada. Te quero um monte mas não te quero nada. Não te quero mais como te quis e te querendo agora te quero menos. Te quero como sempre quis mas sempre quis e não soube te querer. Te quero hoje e amanhã quem sabe. Não te quero. Te querendo...

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Se eu quebrar a cara culpem a euforia. Não, não. Culpem a felicidade. Ah, quer saber? Tanto faz.

Sabe aquele quadrinho do Calvin gritando que a felicidade não é suficiente e ele precisa de euforia? Me sinto assim. Morro de culpa, de medo e de receio por saber que talvez a euforia não dure tanto tempo quanto a felicidade, e me sinto terrível por estar, mais uma vez, jogando toda a felicidade que eu poderia sentir no lixo. Mas sabe, acho que amor, amor mesmo, aquele que tira o fôlego, o que eu consequentemente sempre quis pra mim, deve unir essas duas coisas. Felicidade e euforia. Talvez a felicidade seja o lado mais ameno, tranquilo e seguro que alguém um dia pode me oferecer. Mas sim, eu quero o meu coração batendo forte, eu quero realmente dar valor na chuva e em alguém junto comigo enquanto ela cai, não só no cenário, não só na aventura. Me dói saber que eu não consigo me livrar dessas minhas exigências petulantes, e reconhecer que se eu permanecer assim corro sérios riscos de terminar a vida sozinha numa casa cheia de gatos e cheiro de mofo. Porém não me permito. Não me permito mais não viver tudo o que o meu sentimento precisa, não me permito não sentir os meus olhos enxerem de lágrimas e a minha boca seca junto com um nó de pescador entalado na garganta. Não me permito mais. Eu quero pra mim a euforia de fugir e voltar depois das três da madrugada. Eu quero não sentir culpa, eu quero viver. Pela primeira vez na vida eu sinto essa necessidade, viver. Viver um romance louco, mais complicado do que todos que eu já tive. Mentir pra Deus e o mundo sem nenhum peso na consciência. O amor que eu quero não é comum, não é mais tão delicado e meigo, é intenso. Eu me cansei, desculpa, me cansei de agarrar e morder travesseiros chorando compulsivamente. Eu quero o amor mas esse amor pungente, que me revira a cabeça e que me faz perder o prumo. É dessa felicidade que eu falo, é dessa euforia. Quero atravessar a rua correndo só pra dar um abraço - o abraço mais esperado de toda a minha vida. Quero sentar numa praia e jogar conversa fora enquanto o resto do mundo acha que eu estou em casa vendo tv. Quero cantar uma música bem alto, junto com ele - sim, pode ser aquela que a gente cantou junto aquele dia. PLEASE PLEASE PLEASE, LET ME, LET ME, LET ME. Me deixa, deixa com que eu me permita. Porque, pensa comigo, do que adianta? Ein? Do que adianta eu viver o amor mais lindo e cor de rosa se ele não me trouxer tudo o que me faz sentir viva? Antes eu pensei em falar sobre algo muito mais profundo e sério, e monótono e deprimente, mas não sou assim. Não sou assim o tempo todo, não estou assim agora. Posso até chorar depois, mas o que eu quero nesse momento é sentir toda aquela adrenalina - aquela, lembra? - e ser feliz, e rir olhando pro teto, e me achar uma louca, e achar ele um louco. Durante tanto tempo pensei nos outros e na dor que é pra mim fazer alguém sofrer. Já abri mão dos meus desejos, das minhas vontades só pra fazer alguém ficar bem, permanecer bem. Agora não acho justo toda a felicidade que eu posso proporcionar estar banhada de uma mentira, de uma realidade que não condiz, de um sentimento que não é sincero. Eu não faço mais, eu não minto mais, não omito mais. E se eu cair do cavalo é o que me resta, sofrer sozinha, agarrar o travesseiro sozinha, dar soquinhos na parede sozinha, ouvir músicas estupidamente tristes sozinha. Entende? Não me engano mais, não digo que vou tentar me acostumar, me adaptar. Tenho aversão ao costume, ao cômodo, ao sustentável. Eu nunca fui simples nas minhas escolhas, e a de agora é incompreensível e tende a um futuro desgosto. Mas um certo alguém, que um dia já foi importante, me disse: "O que seria da vida sem alguns arrependimentos, não é?"