... Subentenda-me: junho 2012

sábado, 2 de junho de 2012

Graça

Eu fico só mesmo acompanhada, eu fico em casa mesmo quando estou na rua, eu fico em mim mesmo quando estou em tudo. E nada faz sentido porque eu fico recolhida no fundo do meu eu não reconhecendo o exterior presente e tão menos relevante do que o interior extremamente atribulado e remexido e confuso e perdido que às vezes também desconheço. O objetivo não chega, a vontade de andar um pouco pra ganhar o muito também não vem. Bati na porta da graça e ela me fez esperar com a vida sentada na calçada. Triste, indecisa, e absurdamente amedrontada por causa de tudo, por causa das decisões e das confusões impensadas em que me coloco sempre que sinto o horror de permanecer sem um carinho no cabelo. E quando finalmente saio da minha solidão comedida me sinto mais solitária, mais vazia de mim e dos meus gostos tão bonitos e tão líricos. Quero uma ideia compatível, um lugar que fale mais que beijos, declarações e esforços desnecessários. Quero não precisar falar. Olhar, apenas. Olhar um encanto que nunca antes me pertenceu, olhar o vento - sim, olhar. Quero a paciência, a tolerância, a calma que eu tanto procuro em mim e nunca acho. Quero um verbo, e não precisa ser amor. Pode ser andar, pode ser flutuar, pode ser nadar, só precisa de um você. Eu não acho. Não acho nada além do que eu não procuro. Eu quero uma conversa breve, as minhas mãos suadas e trêmulas. Eu quero também não precisar fantasiar a respeito de qualquer sonho infantil alimentado há tanto tempo. Pode ser o violão que eu nunca aprendi a tocar - nem segurar. Pode ser o livro do Fernando Pessoa que eu ainda não parei pra SENTIR. Podem ser as minhas teses infundadas baseadas no nada que paira sobre mim, na minha mania de apresentar opinião pra tudo, de apresentar definições pra palavras que nunca ouvi falar, só pra eu achar que sei um pouco mais do que eu nunca vou saber. Pode ser a minha cama, um chocolate, o frio que nunca faz e alguém bonito pra pensar, que também pense em mim de vez em quando. É porque a lucidez não vem, a organização não chega e a estratégia está atrasada pra me ajudar a bolar uma saída de mestre, um golpe mortal que acabe com o que eu não conheço, com o que me persegue como um gatinho de rua que simpatizou comigo, que eu trouxe pra casa e não quero. Não quero cuidar do meu não sei o quê. Não quero comprar comida, não quero levar ao veterinário. Quero só ficar em paz com as minhas coisinhas. Quero o meu coque no cabelo, quero o blusão que ele me deu e quero ficar deitada no chão gelado pensando em porque diabos nunca é do meu jeito. E falta a conversa construtiva, falta o real interesse em saber da vida, das histórias, dos amigos, da família. Faltam os livros bons, faltam os filmes geniais, falta, mais do que qualquer coisa, o meu coração bater mais forte, a minha voz mudar de tom e eu sentir a minha barriga comprimida como quando se espreme roupa pra estender do varal. Falta aquele sorriso, aquele. O jeito meigo que me dá vontade de pegar no colo e ir pra longe de todo mundo que eu julgo imbecil por simplesmente gritar demais, e se expor demais em meio a tanta gente que talvez não seja de verdade, que talvez não se lembre, não ligue e não sinta falta. Eu quero é poder ter pra quem contar da ternura que eu sinto toda manhã, quando ando até o ponto de ônibus, ao ver os velhinhos correndo pela praça, alguém que entenda verdadeiramente essa ternura, ou pelo menos se fascine levemente. Alguém que ouça eu dizer porque amo tanto a tal praça, os brinquedos, os banquinhos, e até o chafariz sem água que serve de quarto de hotel cinco estrelas aos moradores de rua. Eu quero alguém que saiba cantar comigo, baixinho: "A gente corre pra se esconder, e se amar, se amar até o fim...". Alguém que saiba o significado, alguém que corra pra se esconder comigo. Alguém. Sei lá. Parece é que ele - o amor - pegou carona de jegue, só pra ir lento pra longe de mim e me fazer ir atrás dele porque talvez dê pra alcançar. E nem dá. Sei lá pra onde esse jegue foi. Ah, na verdade isso tudo só quer dizer que eu amo demais o que talvez dê pra alcançar, mas nunca alcanço porque me falta coragem, porque me falta a cara de pau pra falar das minhas irrealidades, das minhas paixões sem sentido. Eu esqueci das regras que eu mesma me impus, esqueci de me dedicar ao que interessa, esqueci que eu não tenho a menor afinidade em lidar com decisões vindas do meu lado racional e que o que é melhor pra mim nunca viria dele. Agora já não passa nada de bom na tv, faz horas que comecei a escrever e acaba que eu estou como o meu computador: viciado na fonte. Estou viciada em não saber de mim, em idealizar, em continuar sendo essa inconstância fajuta de quem não quer ser gente grande porque dá muito medo. Medo de não ter, de não conhecer, de não viver. Medo de a graça nunca abrir a porta e deixar minha vida entrar.