... Subentenda-me: abril 2017

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Mais que discreto

Mais um dia aqui e eu sentindo uma coisa como se fosse ele. Como se o universo já tivesse definido muito antes de se cogitar que ele fosse quem cruzaria meu caminho e tomaria de mim um fôlego diferente de tudo.

Foi como se no dia daquela ligação eu já o conhecesse. E de lá pra cá só tenho acumulado a certeza de que nele repousa a tranquilidade que tanto me faltou desde que me conscientizei de mim mesma.

Disfarço a platonicidade com o fone, e nele Caetano confirma: talvez haja entre nós o mais total interdito, pois você é bonito o bastante, complexo o bastante...

Me retraio na minha discrição. Mas por dentro só consigo pensar e pensar...

Que ele me faz respirar fundo todos os dias pela manhã. Que meu dia só começa quando ouço os passos dele, e quando identifico que é ele pelo jeito de abrir a porta, já que, a essa altura, é fácil diferenciar da entrada de qualquer outra pessoa.

Penso que quando eu vejo ele passar meus pulmões enchem de ar mas meu cérebro fica sem nenhum oxigênio pra raciocinar sobre o que ele representa.

Entre meus afazeres e obrigações, quando ele está perto só consigo olhar estagnada e admirar as coisas inteligentes que saem da boca dele, sem que ele perceba. E então eu me derreto, quieta no meu canto, suspirante.

Até que, de repente, ele interrompe a minha divagação e me chama. Vou até ele, mas enquanto ele termina de conversar com alguém eu espero ao lado, e esse intervalo até ele lembrar de ter me chamado vira outro delírio em plena luz do dia.

Fico parada pensando, pretensiosamente, que vai ser ele a me acompanhar numa caminhada regada por um sereno gostoso de sentir.

Imagino embasbacada, enquanto aguardo o próximo comando, que será ele a me olhar nos olhos e entender meus anseios, minhas fugas de mim mesma.

Devaneio dentro de instantes que coincidências não existem. Penso que há muito o que ser e ainda não sabemos. Indiscutivelmente é um encontro. Ainda que efêmero, ainda que futuramente perdido ou abarrotado por acontecimentos imprevisíveis de nossas vidas que nada se sabem. Algo está sendo tatuado no meu coração diariamente. Eu ainda não sei o que é, mas é arte, é música, são livros, tardes bonitas, cheiros bons de sentir, uma roda de amigos fiéis, um cafuné na cabeça, um passeio regado por risadas e vontade de não ir embora.

Até que concluo, enquanto ele me olha já desocupado e curioso com a minha inexpressão e paralisia, que não pode ser engano, talvez seja amor antes de ser. Amor pela delicadeza da troca de olhares e do tom de voz. Amor pelo jeito de usar as mãos, pelo modo como mastiga e pelo sorriso que deixa o canto dos olhos delicadamente engelhados. Amor pelo sonho bom de acordar na mesma cama e sentir a veracidade no olhar de quem te enxerga a alma despida, nua. Sou eu. Sou eu quem vai dizer "tu és tudo que eu sempre sonhei" sem que ele saia correndo, com medo. Sou eu quem vai achar linda alguma parte do corpo dele que até então ninguém havia reparado, e ele vai rir porque vai ser um lugar muito improvável pra se ver beleza. Até que...

Eu volto pra realidade com o estalar dos dedos dele e em seguida ouço ele, enfim, dizer o que queria quando me chamou: "Carol, podes guardar esses documentos pra mim?"

E eu, depois de voltar pro planeta Terra, sorrio desajeitadamente, e busco na mesa dele a minha tarefa. Desconcertada, tímida, boba.

Viro de costas e dentro da minha própria cabeça só consigo pensar: é, talvez não seja tão discreto assim, Caetano. 

terça-feira, 4 de abril de 2017

Qualquer loucura saudosa de um trem

Recentemente, em virtude do agradável gosto musical da minha vizinhança, lembrei de uma música da qual há muito tempo havia apagado completamente das minhas recordações. É uma música do Jorge Aragão, se chama Loucuras de uma paixão. Distraidamente ouvi e automaticamente comecei a cantar. Foi instantânea a lembrança da letra e da sensação que a música transmitia pra mim. 

Durante muito tempo esqueci, mas lembrei que era uma das músicas preferidas da minha infância. Me transportei. Baixei a música no meu celular e desde então tenho ouvido pelo menos uma vez por dia. Gosto do conforto que me dá sempre que eu ouço. 

E quero escrever sobre essa e as outras músicas que marcaram a minha primeira idade. Primeiro pelo sentimento bom de nostalgia e segundo por admirar a minha interpretação das letras na época, que, mesmo com minha imaturidade, já era coerente com o que escolhi acreditar por uma vida inteira. Inclusive, talvez essas músicas tenham sido responsáveis pra formação de uma série de sentimentos bons que guardo comigo até hoje. Talvez tenham contribuído, inconscientemente, pra me fazer sem quem sou. 

Sobre essa musica do Jorge Aragão, especificamente (sem deixar de considerar a importância, ainda que menor, de sentir profundamente aquela do "aí foi que o barraco desabou, nessa que meu barco se perdeu"), eu só posso dizer que pode ter sido também por causa dela a minha precoce valorização do amor e quem sabe até da ilusão de que ele nasce, simplesmente, assim do nada. Com toda a doçura e delicadeza do mundo. 

"Sem lhe conhecer 
Senti uma vontade louca de querer você 
Nem sempre se entende as loucuras de uma paixão 
Tem jeito não Olha pra mim 
Faz tempo que meu coração não bate assim 
Não faz assim, me diz seu nome 
Não me negue a vontade de sonhar 
De sonhar os meus sonhos com você 
Despertando pro seu adormecer 
Seria bom demais
Que bem me faz, você"

E que lindo eu achava (e continuo achando) essa parte de "sonhar os meus sonhos com você". O coração batendo, aquele amor. Não consigo deixar de acreditar e de achar lindo esse encantamento. Puro, sincero, e aparentemente não efêmero. Contos de fada, amor à primeira vista, coisas que hoje, apesar de pra mim representarem certa improbabilidade, continuam sendo doces e significantes. Mesmo tendo perdido em parte aquela ingenuidade infantil, a crença no amor e no bem que alguém pode fazer persiste. 

Depois dessa, outras três músicas me lembram e me fazem sentir o gosto bom daquela vida sem grandes problemas. Saudosa maloca, Trem das onze e Qualquer coisa. As quatro músicas estavam presentes em um CD da minha minha mãe que reunia os "sons do barzinho". Até hoje me lembro da capa do CD, que eu também amava ficar admirando. 

Acho que Saudosa maloca foi a música responsável por me fazer entender que Deus não nos dá um problema maior do que podemos suportar. Claro que quando criança o meu entendimento era mais restrito, porém nunca esqueci da frase "Deus dá o frio conforme o cobertor". E hoje, sempre quando algo está ruim, lembro dessa frase e entendo o significado, com a clareza e lucidez que só a vida adulta permite, mas sem desacreditar, nem por um segundo, na veracidade dela.

Além disso, remetendo àquela época, eu gostava de imaginar a história e muito me sensibilizava​. Sabe quando a gente assiste um filme várias vezes e mesmo sabendo dos acontecimentos sempre fica torcendo pra ser diferente e dar certo? Saudosa maloca era assim pra mim. Eu lamentava a demolição, torcia pra não acontecer ou simplesmente só ficava imaginando caso não tivesse acontecido. Até hoje tenho formado na minha cabeça os rostos dos personagens: "eu", Mato Grosso e Joca. 

Já Trem das onze, sempre teve o posto indelegável de "minha música". Mamãe sempre diz isso, e é. Ela não dorme enquanto eu não chego, e eu não perderia esse trem porque também tenho minha casa (e minha mãe) pra olhar. 

Qualquer coisa representa pra mim a música mais querida e gostosa de ouvir. Eu amava o jogo com as palavras e a sonoridade delas. Costumava pensar que, em mim, qualquer coisa doida, dentro, mexia. E isso, até hoje. Eu cantava e ainda canto alto: "SOU O SEU BEZERRO GRITANDO MAMÃE". Amor define. Mesmo já tendo lido algo sobre a real interpretação da letra, ainda mantenho em mim o sentimento infantil por ela.

Se eu tivesse que dizer o que entendo da música hoje, eu diria que pra mim se trata de alguém que está sentindo algo e não sabe definir, e aquilo mexe porque não encontra aval ou reciprocidade. E tudo bem, a gente berra pelo erro do outro, mas ainda assim, por causa da "qualquer coisa" que a gente sente, sabe lá o motivo, ainda queremos que ele nos apanhe e torcemos para que ele ganhe. O amor tem dessas coisas, né? Gosto de imaginar nesse sentido. E é muito aconchegante.

Essas quatro músicas me fazem, agora, pensar no quanto amo esses fatos da minha vida e no quanto gosto de valorizá-los. Uma paixão louca pode ser qualquer coisa que mexe doida dentro da gente. Não aceitamos perder o trem por amor a quem nos espera. E Deus não nos permitiria sentir nenhuma dor senão fosse pela razão de nos tornar mais fortes. Sem contar que a gente sempre pode reconstruir nossa maloca. E no final tudo faz sentido, uma coisa puxa a outra. É muito bom perceber a boniteza dos pedacinhos que nos compõem. Nada é tão pequeno, tudo junto faz a gente ser quem a gente é. 

Obrigada, mamãe, pelos "sons do barzinho".