... Subentenda-me: 2016

domingo, 23 de outubro de 2016

Sobre ele não mais aqui. Graças à Deus

Era bom e era tormento. Era bom e era dor. Agora, depois de tanta vida, ao lembrar não sei o que sentir, não sei definir bem o que foi, não sei lembrar sem me sentir desconfortável. É como disse Martha Medeiros. Eu estava lá, mas algo dentro de mim gritava e dizia que tudo bem eu permanecer, mas eu sabia que eu devia seguir o caminho contrário. Aquela voz me atormentou durante toda essa trajetória. Às vezes rouca, coitada. Sufocada pela minha falsa impressão de felicidade. Às vezes estridente, quando a dor parecia que a qualquer momento iria quebrar minhas costelas. 

Lembro de uma entre tantas viagens que fizemos, e não sei ao certo o motivo, não lembro, mas essa voz gritava tão enlouquecidamente que ficar sozinha com ele me fazia sentir desespero. Não, esse não é o meu lugar. Não, eu não te amo. Eu estou me destruindo ao compartilhar essa vida com você. Estamos sozinhos nesse quarto, mas não quero transar. Não quero teu toque. Ele me fere. Ele me feria.

Nessa mesma viagem nós caminhamos a praia inteira, e quando eu voltei pra sentar, chorei. Sem mais nem menos, chorei. 

O meu coração amava aquilo, mas nunca nada doeu tanto. Era um amor cheio de espinhos. Engolir doía, olhar pro olhar confuso e perdido dele, doía. Me doía sentir que eu estava sendo injusta ou insensível com quem me amava absurdamente. Agora dói ter achado isso. Que me amava. Agora dói não ter ido embora antes. Dói ter ficado cega, dói não ter sentido o cheiro da imundice em que ele inundava todo o meu amor tão limpo e puro. 

Aquela voz tentava me avisar, todo mundo ao meu redor tentava. Eu era um robô. Eu tentava a todo custo fazê-lo permanecer mesmo sentindo a dor de saber que eu poderia estar renunciando uma vida verdadeiramente feliz. 

Hoje ainda dói, mas eu sinto, pouco a pouco, a beleza dos dias tomando conta de mim outra vez. Sinto pelo meu novo comportamento, pelo aumento do limite da minha tolerância com as diferenças de todo mundo. Ele me exasperava a ponto de me fazer perder a paciência com o resto do mundo, porque perder a paciência com ele eu não podia, ele era o amor da minha vida e eu precisava dele pra ser feliz. 

Ele não me fazia feliz. Ele nunca teve essa habilidade. Só quem tem sou eu, e estou voltando a ver isso, a sentir isso. Estou, aos poucos, mergulhando na beleza que a vida tem a me oferecer. Mergulhando na beleza do universo dos outros. De gente nova que surge e me encanta, que me faz lembrar que todo mundo tem um mundo lindo e inexplorado pronto pra me receber, me acolher. Se assim eu preferir. E prefiro. Prefiro isso a me sentir sufocada dentro de mim mesma, dentro daquele carro, daquele quarto e daquela vida. 

Estou feliz por tanto ter aprendido, e me sinto profundamente agradecida por não ter perdido o melhor de mim. Sim, eu dei a ele o melhor de mim, e diferente do que cheguei a pensar, ele não esgotou esse meu melhor. Eu não dei tudo a ele. Essa fonte se renova, eu me renovo, eu me reabasteço. Com ele eu deixei uma amostra do que ele nunca vai ter por completo porque é meu. E o que é meu, a partir de agora, só será compartilhado com quem também souber me dar seu melhor, sem mentiras, sem ilusões. Essa pessoa existe. E eu continuo seguindo, porque sei o que sou e consigo ver em mim toda a verdade que sempre mencionei e priorizei. Sou de verdade, e não adianta inúmeras mentiras ainda surgirem, continuarei sendo verdade porque é nisso que acredito e que acreditarei até o último dos meus dias.

Obrigada, Deus, por ter me feito assim. Eu te amo tanto por me dar a chance de aprender com a minha dor e nao me deixar nunca desacreditar no amor e em gente de bom coração. Obrigada por ter me feito ser quem eu sou. 

sábado, 6 de agosto de 2016

In dubio pro amore

"In dubio pro amore" é uma adaptação do principio latino "In dubio pro reo" que quer dizer: na dúvida, a favor do réu.

Na dúvida, a favor do amor.

Minha grande amiga tem essa frase tatuada no pescoço. Essa é a tatuagem mais sensata dela, na minha opinião. Se eu pudesse também tatuaria, mesmo que timidamente, escondida em alguma parte do corpo (quem sabe um dia?).

Essa frase está no "status" do meu WhatsApp e os leigos traduzem como se eu estivesse em dúvida se estou amando. Às vezes digo o real significado. Às vezes não. Nem todos possuem a profundidade necessária pra entender, infelizmente.

Na dúvida eu realmente sempre serei a favor do amor. E que isso não se limite apenas ao setor sentimental (apesar de ser o que mais me exige dedicação nesse sentido).

Na dúvida, ser a favor do amor. Na dúvida de quê? Na dúvida entre situações, entre sentimentos. Sempre escolher o que tira de mim amor de verdade. Sempre defender aquilo que mais me transmite as características do que é o amor.

A dúvida remete a um conflito de intenções, meu ou de outras pessoas. Sendo assim, primeiro passo: ouvir/entender ambos os interesses divergentes. Segundo passo: reconhecer a verdade. Verdade é a principal característica do amor. Eu escolho o que/quem simplesmente fala com o coração, consequentemente o que/quem é verdadeiro, e me posiciono. É preciso ter sensibilidade para tanto.

Escolho o lado da verdade, o lado que transmite paz, segurança. Escolho o lado despretensioso, o lado que não espera nada além do que é bonito e faz bem, e que não tem a intenção de fazer diferente disso. Escolho o companheirismo, a sinceridade, a leveza. Pra mim tudo isso é amor. O amor tem tudo isso.

O amor também confunde. Certo.

Às vezes se camufla ou se esconde. Mas se for amor, uma hora a máscara cai e ele se revela. Nesses casos é preciso reconhecê-lo, e parar tudo o que está em andamento pra alcançá-lo. Nesses casos, se for por amor qualquer abandono é justificável.

Na dúvida ser a favor do amor simplesmente quer dizer que essa minha filosofia de vida me proíbe de perder tempo com o vazio, com o que não preenche. E isso também se estende para as minhas preferências de ocasiões.

Entre dois convites eu sempre vou escolher o que representar melhor alguma daquelas características do amor escritas acima.

Entre um lugar com gente vazia e um lugar com gente de verdade, eu escolho... 

Entre uma noite regada a álcool e pegação e uma noite deitada no chão de um pátio olhando a lua e conversando com amigos, eu escolho...

Escolho sempre o que acrescenta, o que é capaz de provocar em mim uma sensação de fazer sentido em meio a todos, ao mundo, às coisas. Eu sinto que faço sentido quando escolho o amor.

Não nasci pra ignorar a alma, não nasci pra não pensar no que realmente importa durante uma noite de farra qualquer. Eu penso. E penso porque eu sempre escolheria o amor se pudesse, se ele estivesse disponível. Penso porque todas as partes de mim sorriem superficialmente, e gritam e gargalham, e às vezes até constrangem, mas eu sei o que há de verdadeiro lá no fundo. Sei reconhecer o que falta.

Se ninguém sabe e ninguém vê o que está em mim, mesmo tendo espaço pra isso, é porque não se deixa escolher o amor. E nesses casos, se não há amor, eu escolho...

Escolho a mim mesma porque aqui há bastante amor de reserva pra quando faltar amor em quem quer que seja.

Na dúvida, fico só.

Ficar só é escolher todo o amor do mundo presente em cada um. Falo isso pra minha amiga da tatuagem. Ela iniciou a doutrina do "In dubio pro amore" mas essa parte ainda não entendeu.
 

Pra ser a favor do amor também é preciso ter boa interpretação. Assim como o amor às vezes se camufla de vazio, o vazio se camufla de amor pra confundir tudo, pra que o vento seja abraçado no final, brincando com aquela expectativa do encontro, do abraço de urso tão esperado.

O vazio é sacana.

É preciso aprender a não se deixar enganar (eu já aprendi?). É preciso todo o cuidado do mundo.

Apesar desse cuidado necessário, pra ser a favor do amor em meio a qualquer duvida é preciso acima de tudo, como dei a entender anteriormente, ter amor dentro de si. Se eu tenho amor em mim, o meu amor vai saber reconhecer o amor de verdade no fim das contas. Ele vai se enganar algumas vezes porque por ser puro e sincero, de vez em quando é ingênuo. Mas a verdade não se disfarça, e alguém que já morreu disse que quem é de verdade sabe quem é de mentira e isso é consenso universal (r.i.p chorão, e valeu por ilustrar meu texto).

Enfim.

Essa é mais ou menos a filosofia do "In dubio pro amore". Eu queria muito que ela fosse alcançada por todo mundo, que fosse como um vírus, tipo galinha pintadinha, adoradores do Neymar, cabelos com mechas californianas, camisas da hollyster ou memes de internet.

Porque "In dubio pro amore" é o que está faltando.




quinta-feira, 16 de junho de 2016

Não canse de jogar

Se ele pudesse, não estaria "nem aí". Mas estaria aqui. Ou eu estaria lá.
Ah, se alguém pudesse.
Daí o peito não encheria de ar como se fosse explodir porque já estava cheio de tanta coisa. De tanto amor, de tanta ausência e saudade do que não se conhece.
E a cabeça não doeria de pensar na arrumação da casa, na escolha da posição dos móveis, na cama que ela tem a sorte de esquentar. E não eu.
E juro, aquela casa vazia estaria de bom tamanho, naquela sexta à noite, nós dois no chão congelante. Qualquer lugar estaria bom. Eu não seria exigente na hora de escolher onde te dar um cheiro ou um beijo. A nossa casa sempre foi esse espaço vazio que nos separa, então pouco importaria onde.
Ou quando, ou em qual estação. Pouco importaria o ano ou a nossa aparência. Se mês que vem ou daqui a oitenta anos, eu sei: te amaria igual. 
Te sentiria igual e realizaria o sonho antigo de te dar um beijo no cangote, seja lá em que época, em que cidade ou em que mundo.
E se não for nessa vida também não me importa. Só me importa que você não esqueça: um pedaço do meu coração bate muito longe, e, eu juro, é a melhor parte dele. Vou dormir tentando acreditar que um pedaço do seu também se perdeu pelo tempo, no espaço e me encontrou.
Eu te amo. Não canse de jogar.

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Virgindades

Ela, em casa, meio que tentando vomitar por causa do nojo de tudo, do nada, do sem graça. Ela meio que tentando adivinhar se alguém sente um tanto dessa repugnância pelo mundo, e se amaria esse alguém tanto quanto imagina. Se amasse, esse alguém além do nojo também sentiria o mesmo amor e o mesmo doce que ela sentia por algum pouco que restava.

Ela estava meio que nem aí. Não se conformava mais, não se importava mais, deixava tudo no tanto faz. Andava esperando um encontro inusitado, entusiasmado, despretensioso e eterno enquanto dure. Podia ser na fila do supermercado, na parada do ônibus, ou talvez quando ela fosse pular de paraquedas e caísse alguém do céu ao mesmo tempo e ficasse na queda livre junto dela até cair no chão e nascerem asas pra continuar voando. Doidíssima. 

Ela sentia pela vida gosto de beijo com boca gelada. Como quando se sente a boca gelada por causa da água, por causa do suco ou pelo gelo puro derretido em alternâncias de cuspes no copo até que fosse possível aguentar o frio sem dor. Era uma vida fresquinha e molhada. Gostosa como o beijo gelado que nunca foi dado mas que ela sabia que não poderia ser nada além disso: fresquinho e molhado. 

Ela se cansou de falar de saudades, de amor, de príncipe, de sapos, de rãs, de pererecas. Ela preferiu o real. Se enganou por um tempo achando que o real era o irreal e que de diferente os dois só tinham o "ir". Um "ir" que nunca foi verbo conjugado na primeira pessoa do singular do presente do indicativo. Teve alguém que nunca veio. O paradoxo estava justamente no fato de que a ausência do "ir" é que fez tudo ser irreal. 

E se ele tivesse ido, real seria? Ela não sabia, nunca poderia saber. Precisou viver o real existente junto com um real criado por causa de um irreal insistente. Se enganando. Mulher doida. Se perguntava por que ela não era igual à todas as outras? Por que não tratava de arrumar alguém qualquer que tirasse logo a virgindade de tudo pra poder sair por aí mais segura, mais cheia de si, como todo mundo faz? Quando pensava assim achava que poderia ser fácil, mas quando não achava ninguém capaz, desistia. Ela queria achar, mas sentia ser impossível. E então ela queria tudo e também não queria nada. Oscilava. Confusa que só ela. 

Nos relances de sanidade até tinha razão quando pensava que a virgindade da alma é que dificultava tudo porque não era da mesma libido que a virgindade da carne, ou de outras virgindades quaisquer. Era uma libido meio frígida do que atiçava a libido comum. Essa virgindade da alma era mais difícil de ser rompida. E não estava errada. 

No caso dela, a alma estava absolutamente pregada, juntinha. O hímen era uma parede de concreto encapada por um cinto de castidade trancado por cadeados sem chaves. O que lhe fazia não querer dar todas as virgindades juntas de qualquer jeito era uma certeza abafada de que as virgindades da carne não importariam de nada se não encontrasse alguém que conseguisse romper o hímen dessa sua alma casta.

Por esse ângulo, tudo bem pra ela que todas as virgindades continuassem virgens já que não havia quem pudesse abrir aqueles cadeados. O engano lhe fez achar que aquele tal irreal que não veio teria todas as chaves. Esse irreal insistente é que lhe fez pensar em não querer mais saber de virgindade qualquer se aquela da alma continuasse intocada. 

Mas por sorte ela, ambígua que é, voltava pra loucura constantemente. Fazia concessões, abria exceções. Assim, até considerava perder a virgindade da boca num beijo de amor verdadeiro nunca antes experimentado. Mas tinha que ser amor verdadeiro, no mínimo. Tolice, também. Só mais uma barreira pra prolongar virgindades. Ela ainda esperava a tal queda de um alguém junto dela quando fosse pular de paraquedas. Mas ela não pulava de paraquedas e sempre teve medo de altura. Ela ainda esperava por um milagre que fizesse aparecer esse alguém poderia tirar todas as suas virgindades de uma só vez. Esse era o sonho. E o milagre não veio.

Ela sabia que era improvável porque ninguém nunca pareceu ter as chaves certas, e quem, de longe, parecia, nunca quis ir até ela lhe destrancar a alma. Depois de um tempo ela começou a pensar que fazia sentido não assumir o risco de libertar o desconhecido. Arriscado demais. Algo lhe dizia que aquela alma não era pequena, que não era por acaso toda a segurança investida na sua virgindade de alma.

Nisso ela estava certa, certíssima. Então ela seguiu. 

Continuou oscilando e entre seus lapsos de razão e irracionalidades, e por conta disso foi permitindo os rompimentos de alguns hímens. Teve que abrir mão do sonho de ter todas as virgindades rompidas de uma só vez. A vida não espera os milagres acontecerem, o tempo simplesmente impera. E entre a razão e a loucura, descartou as exigências porque senão viveria. E viveu. 

Perdeu as virgindades da carne, uma a uma. Sentiu felicidades ao desbravar a vida. Como quando descobriu que ela realmente tem gosto de beijo gelado e que nunca se enganou sobre ser gostoso, fresquinho e molhado. A vida tem gosto disso mesmo, ela acertou. Também descobriu que tem gosto de espera, quando o beijo não vem ou quando não é tão gelado assim. Mas nem ligou, se contentou com a felicidade de ter acertado de primeira que a vida por vezes tem um gosto muito bom, mesmo que não seja o mesmo gosto sempre, mesmo que chegue até a ter um gosto insosso. 

Até isso ela gostou de descobrir. Seguiu assim por anos, encontrou muitos pelo caminho. Nas filas de supermercado, nas paradas de ônibus, e em cantos até mais inusitados. Sentiu alegrias, muitas. E depois de muito ter andado, rompido vários hímens, continuava de alma trancada. Ainda pensava tolamente naquele único alguém que parecia ter as chaves.

Aquele irreal insistente permanecia lhe fazendo criar ilusões sobre como teria sido se ele tivesse vindo lhe abrir as portas da alma. Imaginava o dia, a hora, o que sentiria. A curiosidade de saber o que tinha dentro era tamanha. Alimentava esse devaneio só pra experimentar, mesmo que em fantasia, o que seria viver sem essas amarras. Por anos foi assim, e se satisfez, se conformou com a idealização do que seria ter aquela alma liberta por aquele quem ela imaginava que seria o único de alma compatível para possuir as chaves. 

Mas pela sorte de ter tido preservada a sua loucura, a mesma loucura que lhe fez abrir as pernas pra perda de todas as virgindades físicas, houve um desequilíbrio intenso que desestabilizou o conformismo e lhe provocou uma vontade descontrolada de quebrar aqueles cadeados, quebrar aquela parede de concreto que a impedia de furar o hímen ultima virgindade que lhe restava. 

A loucura a fez sã pra ser sua. Não se requer ninguém pra romper hímen nenhum, pensava ela. Muito menos aquele. Aquele não. Não o da alma dela! Passar uma vida inteira sem acessá-la por ter atribuído a alguém essa responsabilidade era inadmissível, era pecado. 

Nada seria possível sem a maluquice que lhe deu coragem pra viver uma vida de hímens rompidos sem ter suprida a idealização romântica de que tudo deveria ser atravessado por um só alguém. Ela era mais que todos! Ela sentiu todos os gostos da vida porque não quis paralisar. Sentiu até os mais amargos. 

Ela se entregou tanto que cansou de ver a alma dela trancada. Desistiu de não conhecer aquele tamanho, aquela grandeza que sabia que tinha por trás de tanta embalagem. Pensava enlouquecida: a proteção não é em vão, ela é gigantesca, essa alma é gigantesca, tenho certeza! E tinha tanta certeza que tinha razão.

Subverteu a única castidade que lhe restava. A mais importante, a maior. E foi. Mais uma vez, doida, ela foi. Fez força imensa, lutou com braveza, gritou e chorou quando se viu sem ferramentas pra quebrar aquele muro, aquele hímen ridículo e inútil. Respirou fraca e depois forte. Fraca e forte, fraca e forte. 

Até que se acalmou, se aproximou, tocou nos cadeados e viu que estavam abertos. Nunca estiveram trancados ou se abriram como mágica? Ela não sabia, e pouco importava. Era milagre. Pra ela era milagre. Ela esmagou o hímen todo, arrancou todo o obstáculo, toda a castidade, toda a barreira que lhe impediu de sentir o prazer maior de se ver gozando sozinha da sua alma inteira. 

Claríssima, iluminada, brilhante, translúcida, enorme. 

Não era matéria, não era onda. Era tudo junto. Era cheiro, era som, era um dia perfeito, um encontro perfeito com ela mesma, era o sumo dela mesma. A casca, o gomo, o caldo, o caroço. Ela sentiu então um prazer absoluto, ininterruptível. Era eterno enquanto durava, e durava pra sempre. Eterníssimo. Ela se deleitou, se deu pra si. E deu muito, deu sempre, pra sempre. 

Ela sendo dela, nunca mais precisou de mais ninguém. Encontrou o paraquedas e pulou, sem medo de nada! Aquela alma era uma imensidão pura, instigante e atraente. Ela se jogou sem pensar duas vezes. Nunca caiu. Lhe brotaram asas instantâneas pra voar nessa alma toda. E desde então ela só voa. Só, voa. 

Enfim desvirginada de alma, enfim livre e enfim dela.  

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Presa

Hoje eu vi num filme algo que me despertou certa inquietação. Dizeres a respeito do fato de que qualquer lugar do qual você não se afaste vem a ser a sua prisão.

Uma cena de três segundos em que um professor conversa com um ex aluno sobre os rumos que sua vida iria tomar depois da aposentadoria.

Talvez eu não devesse refletir sobre isso e, Deus, como eu queria não refletir sobre isso. Sim, porque ao refletir sobre isso significa que eu me reconheço nessa premissa e automaticamente, portanto, significa que me sinto presa.

É, é bem difícil admitir que me sinto presa. Logo eu que sempre disse que se fosse pra ser um animal eu seria uma borboleta, que se fosse pra ser um objeto inanimado eu seria um balão soltinho pelo céu. É, e eu sempre fiz essa ressalva: soltinho pelo céu.

Agora, aqui, sentada em uma cadeira na cozinha da minha casa, estou contemplando o vazio de perceber que, sim, talvez eu viva em uma prisão só porque assimilei que realmente qualquer lugar do qual você nunca sai é a sua própria prisão. 

Curioso que ainda esses dias voltando pra casa eu pensava a respeito de sentir que não sou de nenhum lugar, que nada me aconchega ou me faz sentir em casa. 

Vi nisso um problema inicialmente, agora estou achando que sinto isso devido ao fato de que não sou de lugar nenhum mesmo. E tenho feito errado ao procurar insistentemente um lugar pra pertencer, um abraço pra me confortar ou simplesmente um cantinho seguro pra onde eu possa voltar sempre que tiver medo.

Materialmente, hoje, tenho tudo isso. O que me inquieta é o fato de não sentir que tudo é meu aqui dentro de mim. Não tem lugar, não tem abraço e não tem cantinho que me faça sentir estável, permanente, enraizada.

Talvez eu não tenha nascido pra isso, talvez isso justifique a minha constante falta de interesse em me aprofundar em qualquer assunto e gostar de saber tudo um pouco (ainda que eu seja consciente de que isso me faz não saber de nada).

Eu provavelmente não nasci pra ser especialista em alguma coisa, eu provavelmente não administro muito bem a minha vida quando escolho por não me concentrar em nada exclusivamente. E eu reconheço, sem dúvidas, que em algo a gente tem que se segurar. Mas o que eu faço se sinto que não nasci com essa aptidão? Ou será coisa da idade?

Não sei, o fato é que só existe uma coisa nesse mundo todo que me faz sentir em casa. E vou manter denominando como uma coisa porque, de certa forma, não é concretamente uma pessoa. Ou até é.

Talvez uma voz, talvez um espírito, talvez uma ilusão, e muito certamente uma ideia.

Essa coisa me possui há alguns anos. Essa coisa é a minha prisão. O paradoxo é que essa prisão me faz sentir livre e pertencente, e talvez isso se dê pelo fato de que nunca saí mas também nunca cheguei onde essa coisa está. É como um limbo, um meio termo. E isso tudo é realmente um problema muito grande.

É um problema porque eu deveria apenas admitir que viver aprisionada simplesmente não é bom, e me sentir presa e livre ao mesmo tempo pode tornar tudo meio abusivo, quem sabe. Algo próximo a uma síndrome de Estocolmo.

Mas essa coisa se mantém e é como o mais próximo de onde eu nunca me afastei (ainda que seja muito, muito longe). Eu não deveria afirmar que é como se fosse meu "lugar", ou a única coisa capaz de fazer com que eu me sinta verdadeiramente em paz, ou em casa. Eu nunca vou saber definir exatamente porque essa coisa transcende qualquer explicação. Essa coisa não pertence a uma categoria. Não é lugar, abraço ou cantinho. E mesmo não sendo propriamente um lugar, é minha prisão. É algo de onde nunca saí, e não saí porque quis, porque me acolhe e me dá sentido.

É complexo até pra eu entender.

Não sei com que objetivo comecei a escrever. Não sei pra que serve esse texto com mais um montão de insatisfações e confusões e inconclusões. Eu só sei que hoje eu queria essa minha coisa. E, novamente, mesmo sendo um problema ter essa coisa como prisão, hoje eu reconheço que queria me sentir efetivamente presa. Sentir essa prisão como um lugar de fato, entrar nessa casa, me permitir sentir em casa, porque, apesar de tudo, é essa prisão que me torna... eu.

De toda forma é mental, inexecutável. Essa casa flutua pelo tempo e pelo espaço, não me encontra, não me acolhe, não me ama.

E eu sigo aqui, perdida, sem lar. Nem um pouco soltinha pelo céu. Nem um pouco acorrentada pelo chão.

Essa melancolia vai passar. Não sou assim o tempo todo. É só pra minha coisa saber que me faz uma falta absurda e que às vezes eu até gosto de ser presa a ela. Por mais doentio que isso possa parecer.

domingo, 17 de abril de 2016

Sobre ela que sou eu

Ela

Que não sabe mais tanto do que nunca soube e sempre quis saber. Agora ela já não sabe mais se quer. E continua não sabendo nada, a bichinha...

A louca que ri tanto até doer a barriga... tanto como se não soubesse que por dentro chora e chora e chora

Ela

Que não sabe porque chora... e nem do que teme

Que frequentemente tem vontade de passar um dia inteiro encolhidinha mas essa cama é ruim demais.

Ela que tá ficando tão bonitinha...

Que escuta algumas vezes durante a semana "só tu pra me fazer rir"... É, só ela...

Sente como se andasse em círculos. Sente como se nunca fosse suficiente. Sente que é tão estranha e torta.

Ela que não faz sentido. E quando pensa em algo bom subverte pra rolar várias imagens de blogs de decoração.

Nem ela sabe pra que...

E agora ela tá acordada às uma e dez da manhã. Coisa que há tempos não fazia.

E de novo pensando no passado e no presente porque, ai, o futuro dá muito medo.

Tem prato pra lavar, e coisa pra aprender. Mas fica onde é mais seguro. Onde ninguém machuca ou acha, no fundinho dela mesma. 

Tem que ir? Tem! Mas ela não sabe quando. 

domingo, 10 de janeiro de 2016

Sobre gente e satisfação

Mais uma madrugada. Antes fosse só a insônia. Antes fosse só o meu medo noturno. Mas são dores. Dores de quem se perde na vastidão de significados embutidos no simples fato de ser gente.
Gente.
Gente que nasce, cresce e morre. Gente que às vezes morre de fome. Gente que às vezes morre de tristeza. Gente que raramente sabe o que é ser plenamente feliz.
Gente que acorda cedo e faz café. Ou gente que dorme até mais tarde e fica de bobeira.
Mas no fundo, no fundo mesmo, tem gente que sabe o que fazer? Eu quero saber!
Saber ser gente de verdade. Não que quem não saiba não seja gente. Porque, apesar dos pesares, a gente sempre tenta.
A gente tenta saber o que faz, ou, pelo menos, seguir os padrões. Na maioria das vezes é só esse o objetivo, não é? Estar inserido em algum contexto que seja.
"Bom dia, seu Zé. Já chegaram as correspondências?"
"Ah, claro, mais conta pra pagar."
"E o preço da gasolina subiu, né?"
"Pois é."
E não é quase sempre assim? Isso sem falar de gente que nem esse luxo pode se dar. Isso sem falar das pobres almas que voltaram pra alguma dívida de outras épocas quitar.
E não, não é pra rimar!
Porque a gente não rima. A gente é fora do tom. A gente é daquele tipo que tem surpresa atrás de surpresa. Decepção atrás de decepção.
Que sorte de quem consegue ser num mundo em que só existir já é tão difícil.
Que sorte de quem consegue amar, num mundo em que a tela do celular quando quebra dói mais do que um coração quando parte.
Ah, eu queria muito poder ser. Queria poder saber o que eu vim fazer. Queria encontrar alguém, sentar frente a frente e dizer: pronto, me tira todas as dúvidas do mundo.
Por que pra uns é tão fácil, enquanto que pra outros tudo gira feito um carrossel?
Por que a gente vive? Por que a gente come? Por que a gente dorme? Ah, e tenta me explicar sem falar de biologia.
Tenta me explicar a nossa essência, a nossa aura, os nossos chakras.
Tenta me falar do oculto, do místico, do invisível aos olhos.
Eu gosto é disso.
Em que parte do mundo vive a pessoa que tem todas as respostas pras minhas dúvidas que se perdem nas paredes do meu quarto em mais uma noite de sono perdida?
Sou eu? Essa pessoa sou eu? Não quero que seja. Porque se não sei hoje, e se me perco hoje, pra descobrir essas respostas terei que correr muito pelo desconhecido. E isso assusta.
Tá vendo? Assusta ser gente.
Assusta não saber direito o que a gente tem que fazer.
Dá aflição, nervoso, taquicardia.
A gente arruma dores que saem da nossa cabeça por conta do medo absurdo de ter que ser de carne e osso.
Dói a cutícula. Dói o fio de cabelo.
E o tempo passa, os dias correm. Resta saber se me contento com a ignorância ou vivo contemplando a falsa ilusão de ser sábia apenas por conta do que li no meu feed de notícias.
Resta saber o que eu escolho.
Em busca do quê mesmo? De quem? De quando? De onde?
Amor?
Não. O amor eu sei que existe, esse eu quase posso ver.
Procuro aquela que se esconde em meio a tantos enganos. Aquela que todo mundo quer mas não sabe definir quem é. Acho que a tal da satisfação.
Não é alegria. Não é felicidade. Não é entusiasmo.
Satisfação. O meu sinônimo pra completude dessa falta insistente. Ou, em outras palavras, a palavra que daria o sentido que eu quero nos meus dias, na minha vida inteira. E na vida de muita gente. 
Onde vende? Quanto é? Declara no imposto de renda?
Ah...
Ser gente.
Gente que lida com gente, que estuda gente, que dorme do lado de gente, que trabalha com gente. Compartilha, confraterniza, abraça e beija. Mas que de gente não sabe nada.
E qual é o problema dessa gente?
Na minha opinião, o nosso grande mal é que o que move a gente até pra fazer bem pra mais gente é... Tam tam tam... A gente. Não gente, a gente
Me incluo, até. Apesar disso, penso: o que falta mesmo é cada gente se olhar por dentro, se ver, se notar, se reparar, se ligar, se localizar, se conformar. Pra depois abrir os olhos e ver que quem está na frente também tem por dentro o mundo que a gente viu enquanto estava de olhos fechados. 
E será que a gente consegue isso ou só sabe ver espelhos?
Complexos, defeituosos, únicos e faltantes.
Quem sabe assim seria mais fácil reconhecer que a gente não é o que parece ser (mais do que fotos nossas fotos bonitas no instagram).
Porque se olhar por dentro é uma grande contribuição, mas haja desconforto. 
Quero acreditar que quem se repara e vive melhor. Mas ela, a satisfação, tenho minhas dúvidas se chega até pra aquele que mais se tem. 
Alcançar a satisfação seria a solução pra todos os nossos problemas.
Tem quem não tenha? Eu duvido! 
Ela não existe. Existe só o desejo de tê-la. 
Acho que às vezes, se dermos sorte, encontramos alguma alegria pelo meio do caminho. 
No entanto, não sei. 
Satisfeitos? Completamente satisfeitos sempre? Acho que não, hein?
Algo me diz que essa versão da gente não tem esse software instalado. Se tivesse, isso tudo aqui seria outra coisa.