E foi como acordar de um sonho bom e muito conturbado, rápido, intenso. Depois desse sonho eu tenho flashs, memórias curtas do que eu, na minha mais absoluta inconsciência, vivi. Vivi contigo.
Milésimos de segundos de nós dois emergem nessas súbitas lembranças. Às vezes enquanto ando ao lado do canal a caminho do trabalho, às vezes enquanto tiro a poeira do meu criado mudo.
E como num filme me vem uma sequência de cenas curtas: primeiro eu te olhando, muito bêbada, quando dirigias meu carro a caminho da tua casa, depois o barulho artificial da chuva que colocavas pra tocar enquanto eu, sem roupa, te abraçava por trás e cheirava tua nuca, e em seguida o refrigerante de laranja se afogando no Campari cheio de gelo, fazendo uma mistura de cores que, pelos teus dizeres, era uma obra de arte.
Isso tudo num segundo, numa fração de segundos, durante algum movimento aleatório que faço, sem ter nem pra quê, sem sequer ter ouvido um nome igual o teu que me fizesse lembrar.
Eu gosto disso mesmo, de detalhes.
Me pergunto agora qual a necessidade de viver uma grande história de amor se o que vai me encantar, no fim das contas, é insignificante aos olhos de quem, não tendo sentido, tenta entender.
Entender o que pra mim representa lembrar da gente cantando Linger, de manhã cedo, na tua sala, depois de eu fugir do mundo pra ficar contigo.
Talvez, em grande plano, seja uma memória compreensivelmente marcante. Mas apesar de tudo isso ser bonito, mais bonito pra mim ainda é fechar os olhos e lembrar dos teus dedos dedilhando o violão. Precisamente lembro de cada movimento porque naquela hora escolhi guardar isso, esse detalhe de ti.
Entre outras coisas, lembro da primeira coisa que falou quando me viu no claro: "que linda tu és, que aura linda tu tens, que energia boa".
Por ter falado isso em voz alta é que eu registro agora, quase aniversariando a tua aparição, que aquele beijo na porta do banheiro foi muito bom, que sentar no teu colo na varanda foi muito bom, que te sentir dentro de mim foi muito bom.
Só por ter me visto de verdade eu te dedico minhas memórias. Por ter me visto muito profundamente e verdadeiramente, apesar do pesar que foi a tua partida.
Já não me incomoda mais a possibilidade de maldade. Não me incomoda a tua escolha acertada, o desvio de caminho mais óbvio que poderias fazer. Nem me dói.
Só me modificou.
Aquele meu choro sentido e quase infinito me modificou. Naquele dia em que achei que eu fosse inundar.
Depois disso, nem sei. Nem sei se mudei, mas busquei. Isso sim. A mim.
Busco, incessantemente, encontrar em mim aquilo que me falavas pra ter, a tal da confiança pra eu entender que sou "foda pra caralho".
É o que tenho feito. Faço isso muito mais do que lembrar desse tal sonho que vivemos tão rapidamente.
Lembro de ti nos relances, e agora, porque decidi te agrupar aqui.
De mim tenho lembrado e buscado de todo modo me encontrar. Me encontro nas oscilações entre a certeza e a incerteza de quem eu sou. Me encontro na não rara constância da minha crença, cada vez mais forte, de que de posso ser tudo.
Porque, afinal, eu não sou inócua. Eu não passo desapercebido. Eu não sou irrelevante.
Sim, disso eu sei. Agora eu sei.
E tu? Tu foste o impulso pra eu me dar conta dessa minha grandeza que sempre esteve aqui. Não pela tua ida, mas pelo o que deixou.
Tu me deixou comigo!
Te recordo, agora, em agradecimento.
Porque, afinal, eu não sou inócua. Eu não passo desapercebido. Eu não sou irrelevante.
Sim, disso eu sei. Agora eu sei.
E tu? Tu foste o impulso pra eu me dar conta dessa minha grandeza que sempre esteve aqui. Não pela tua ida, mas pelo o que deixou.
Tu me deixou comigo!
Te recordo, agora, em agradecimento.
Obrigada pela tua passagem corrida. Por ter esbarrado em mim e me sacudido pra realidade de que sou eu quem eu preciso ter.
Hoje estou cada vez mais perto disso.