Sinto que parei no tempo. Olho pra trás e não me vejo muito diferente daquela menina que antes escrevia a espera de apreciar, com o passar dos anos, as mudanças registradas nesse endereço eletrônico que ninguém conhece.
De certa forma sempre me orgulhei por fazer com que o essencial permanecesse intacto, mas hoje me preocupa não mais saber lidar com o que sobra disso. Eu sou, agora com 22, um acúmulo de tralhas que eu nem ao menos consigo diferenciar. Hoje não consigo categorizar o que é mais novo ou mais velho em mim.
De certa forma sempre me orgulhei por fazer com que o essencial permanecesse intacto, mas hoje me preocupa não mais saber lidar com o que sobra disso. Eu sou, agora com 22, um acúmulo de tralhas que eu nem ao menos consigo diferenciar. Hoje não consigo categorizar o que é mais novo ou mais velho em mim.
Eu sou um novelo de lã todo embaraçado, desfiado, emaranhado. Quem é o gato que brinca comigo e me destroça? A vida...
Eu continuo dormindo tardes inteiras na esperança de abafar um pouco da dor que é estar acordada e não saber o que fazer ou por onde começar.
Eu realmente não sei o que fazer
Eu realmente não sei por onde começar
Muito do que eu era se perdeu nesse caminho pra vida adulta. Se escondeu. O desabrochar não aconteceu ainda. Eu ainda sou muda.
Penso em detalhar tanta coisa, e não consigo. É assim todas as vezes que tento colocar em prática algo que faz sentido na minha cabeça. Nada faz sentido fora dela.
Mas a verdade é que eu me encontro no momento de olhar pra trás, de lamentar o que não foi vivido, o que eu não tive coragem de fazer, de dizer, de viver. O que eu deixei de me acrescentar por medo, os mesmos medos de sempre. Eu sou a mesma pessoa de sempre porque eu convivo com os mesmos medos de sempre e não consigo me desfazer deles.
O medo de desagradar, de ser insuficiente, de ser pouca coisa. Esse medo de ser pouca coisa é o que de fato me faz ser pouca coisa. Eu me limito nas tentativas, nas ousadias. Limito a minha voz grave pro mundo, me recolho. Tenho medo da autoridade, da minha e da de outros. Isso me fez encolher. E eu nem sei exatamente o que me fez ser assim.
Tá me doendo encolher. Tá me doendo porque também tem tanta coisa aqui dentro. Tanto o que explorar, tanto o que sentir, tanto o que desconstruir. Mas não consigo sair do lugar.
Eu vivo das minhas idealizações. Eu sou exatamente aquela criança suspensa na janela, segurando na grade e o observando o parquinho enquanto todos brincavam. Eu sou exatamente aquela que não foi boa o suficiente pra que ele viesse de longe me ver. Eu não quero mais ser.
É cômodo até, é seguro, é distante da dor real. Mas é uma dor que me cutuca as costelas e assim vem pra minha realidade. É a dor que nasce da minha covardia e me empurra de dentro pra fora como quem diz: "Vai, Amélie, seus ossos não são de vidro!!!!".
Em meio a toda proteção e projeção que me foram dispostas eu penso que se numa realidade onde mais desleixo fosse empregado à minha criação, talvez hoje eu fosse mais forte, mais dura, mais mulher.
Contudo, pelo contrário, os anos me trazem, cada vez mais, a vontade de me recolher no colo da minha mãe. Porque eu sei que a cada ano que passa é um ano a menos dentro desse colo e eu nunca vou estar preparada pra não poder recorrer a ele. Hoje eu só quero morar nesse colo. Todos os dias eu só penso em ficar lá pra sempre porque a velhice chega, porque o tempo passa, porque ele pode não estar.
Dói pensar num futuro sem ele, sem ela. Essa já não mais seria minha dor inventada, minha dor de covardia, minha dor que ataca e me soca as costelas. Seria a dor real que eu não estou pronta pra sentir. Sentir na pele, de fora pra dentro, essa dentre tantas dores que vida há de me impor. Mesmo sem eu querer, mesmo sem o preparo.
A dor do fracasso, a dor de ter escolhido o caminho errado, a dor de não me encontrar um dia. A dor de não ter um amor, a dor de não ter um trabalho que me faça feliz, a dor de sentir que não há em quem confiar. A dor de não ter filhos, a dor de não ter um lar.
São essas, entre outras, as dores que me atormentam.
A dor do futuro, por si só, me inibe mas mesmo assim eu vivo lá, morrendo. E o que eu faço pra doer menos?
Tento me apegar ao meu passado confortável. Ao que eu consigo lembrar de ter sido bom viver. E desse jeito eu paraliso.
Paraliso porque vivo pensando no futuro sem fazer nada a respeito, mirando um passado batido que parece já não contribuir pra mudança que eu preciso fazer em mim.
Paraliso porque vivo pensando no futuro sem fazer nada a respeito, mirando um passado batido que parece já não contribuir pra mudança que eu preciso fazer em mim.
Eu ainda guardo alguns vidros de perfume, alguns bilhetes, alguns detalhes. E não tem um amor do passado (antigo ou recente) que eu não relembre romanticamente, como se na esperança de revivê-los.
E lamento muito. Porém, apesar disso, ainda me derramo um balde de esperança quando penso que a preocupação com essa realidade estagnada de alguma forma me impulsiona. Mesmo que, a olho nu, nenhuma alteração eu perceba.
Sempre quis que fosse leve, tudo. Sempre olhei com amor pras coisas porque queria amor de volta. Então só espero que a vida me retribua em algum momento o meu amor. Que ele esteja bem guardado. E que tanta dor aqui dentro me mude. E que eu consiga, qualquer dia desses, escrever um texto sobre o que, em meio a tanta bagunça, ainda me faz feliz. E que eu encontre alguns novos motivos pra me sentir assim.