Eu tinha acabado de me dar conta de que toda lucidez que eu achava que tinha alcançado era ilusão. Não me despi de nenhuma necessidade de representação. Nunca. Intelectualizei tudo, bem rainha de espadas. Mas a racionalidade adoece. Nunca me curei.
Segui me explicando tim tim por tim tim. Cada passo, cada impulso, cada palavra. Lá estava eu fazendo exatamente o que eu tinha acabado de me dar conta que era problemático fazer. Lá estava eu fugindo pros mesmos lugares mesmo depois de conscientemente perceber que o tempo todo tudo sempre foi uma fuga.
A fuga do medo, do pavor. Medo de perder, medo de não estar preparada pras surpresas desagradáveis da vida. Medo de encarar a realidade de frente e aceitar que eu não faço outra coisa senão me proteger de quem eu sou mas não tenho coragem de ser.
Me dei conta de um jeito avassalador de todo o luto que resisto loucamente de sentir, de permitir que me invada. Por quê? Porque eu me acho muito realizada pra sofrer, ao mesmo tempo que não sei me sentir digna de viver se não estiver sofrendo por algo. Porque não quero ser ingrata. Porque enquanto acho que me atendo, enquanto deixo minhas lágrimas aparecerem, é justamente quando mais resisto.
Não é nem nunca foi choro de quem tem a delicadeza sutil de se permitir não refletir nada no espelho, de quem aceita não ser nada. Não. Sempre foi choro de quem se engana, se conta histórias, cria suas narrativas confortáveis pra seguir se protegendo, se nutrindo dos mesmos sofrimentos de sempre.
Sempre chorei choros de dores sabidas, conhecidas, que me blindavam das dores imprevisíveis. Eu achei que era choro de cura, mas nunca foi. Talvez agora, finalmente, seja.
Ou eu quero urgentemente que seja, porque eu preciso sentir que posso fazer por mim tudo. Me garantir a saúde mental, emocional, que sempre me prometi.
Eu continuo mentindo pra mim mesma mas eu sei, no fundo eu sei, que não sei nada. Que estou perdida. Perdida e sozinha sem poder chorar pelo o que realmente quero. Sem poder chorar sem outros motivos que camuflem minhas verdadeiras razões pra sofrer.
Razões essa que sempre me acompanharam mas me acostumei a ignorá-las e a criar fantasias sobre elas. Inconscientemente me obriguei a achar que tudo sempre teria um final feliz, que desejos seriam realizados e que quando isso acontecesse não seriam revelados os pormenores que estavam ocultos por esses tais desejos. Como se eu não fosse nunca perceber que mesmo no melhor dos cenários tudo sempre seguiria me tumultuando.
Agora eu sei de tudo mas eu não sei abandonar. Não sei deixar de ser quem eu sou porque eu sempre fui tudo isso. É que eu só sei existir se eu puder assistir a esse filme conforto.
Temo a realidade. Temo o desconhecido. Temo tudo o que eu sempre achei que encarava com desenvoltura.
Agora estou aqui sentindo o peso do meu corpo, com uma agulha no braço direito. Rodeada de tosse e luz branca, sentindo as lágrimas escorrerem sem eu fazer força. É um lugar seguro pra chorar pelas mentiras que sempre me contei.
Quando o impacto atingiu meu carro por trás eu não estava presente, mas fui absolutamente puxada pra isso. Pro presente, pro concreto, pro material. É como se a vida me obrigasse a encarar o espelho, de um modo a me desfazer da minha imagem, do meu ensaio.
Não tem ninguém aqui agora, estou estraçalhada como o meu carro, invisível como achei que já tinha me permitido ser mas na realidade nunca consegui.
Esse texto não é um registro da minha cura se aproximando, e sim a mais pura demonstração de que estou longe dela. De que estou querendo, a todo custo, alcançar o que me dizem pra fazer. E me dizem pra abraçar o obscuro de mim, porque é quando mais me encontro. Quero fingir que estou fazendo isso, sempre em busca de mais sanidade, de mais controle, de menos culpa.
Eu só faço o que eu acho que é certo e isso me afasta do que eu quero que seja certo e, no fim, eu não estou fazendo nada, só estou mentindo, fantasiando, alimentando as mesmas dores conhecidas pra tentar me proteger.
Talvez agora eu, pelo menos, esteja sendo honesta sobre saber que tudo isso que eu faço é quase o mesmo do que escrever uma novela pra eu mesma encenar. O cenário onde sou a atriz, a diretora, e a plateia. Não quero mais. Estou, mais do que nunca, exausta.