... Subentenda-me: maio 2026

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Inferno astral

Eu tinha acabado de me dar conta de que toda lucidez que eu achava que tinha alcançado era ilusão. Não me despi de nenhuma necessidade de representação. Nunca. Intelectualizei tudo, bem rainha de espadas. Mas a racionalidade adoece. Nunca me curei. 

Segui me explicando tim tim por tim tim. Cada passo, cada impulso, cada palavra. Lá estava eu fazendo exatamente o que eu tinha acabado de me dar conta que era problemático fazer. Lá estava eu fugindo pros mesmos lugares mesmo depois de conscientemente perceber que o tempo todo tudo sempre foi uma fuga. 

A fuga do medo, do pavor. Medo de perder, medo de não estar preparada pras surpresas desagradáveis da vida. Medo de encarar a realidade de frente e aceitar que eu não faço outra coisa senão me proteger de quem eu sou mas não tenho coragem de ser.

Me dei conta de um jeito avassalador de todo o luto que resisto loucamente de sentir, de permitir que me invada. Por quê? Porque eu me acho muito realizada pra sofrer, ao mesmo tempo que não sei me sentir digna de viver se não estiver sofrendo por algo. Porque não quero ser ingrata. Porque enquanto acho que me atendo, enquanto deixo minhas lágrimas aparecerem, é justamente quando mais resisto.

Não é nem nunca foi choro de quem tem a delicadeza sutil de se permitir não refletir nada no espelho, de quem aceita não ser nada. Não. Sempre foi choro de quem se engana, se conta histórias, cria suas narrativas confortáveis pra seguir se protegendo, se nutrindo dos mesmos sofrimentos de sempre.

Sempre chorei choros de dores sabidas, conhecidas, que me blindavam das dores imprevisíveis. Eu achei que era choro de cura, mas nunca foi. Talvez agora, finalmente, seja. 

Ou eu quero urgentemente que seja, porque eu preciso sentir que posso fazer por mim tudo. Me garantir a saúde mental, emocional, que sempre me prometi.

Eu continuo mentindo pra mim mesma mas eu sei, no fundo eu sei, que não sei nada. Que estou perdida. Perdida e sozinha sem poder chorar pelo o que realmente quero. Sem poder chorar sem outros motivos que camuflem minhas verdadeiras razões pra sofrer. 

Razões essa que sempre me acompanharam mas me acostumei a ignorá-las e a criar fantasias sobre elas. Inconscientemente me obriguei a achar que tudo sempre teria um final feliz, que desejos seriam realizados e que quando isso acontecesse não seriam revelados os pormenores que estavam ocultos por esses tais desejos. Como se eu não fosse nunca perceber que mesmo no melhor dos cenários tudo sempre seguiria me tumultuando. 

Agora eu sei de tudo mas eu não sei abandonar. Não sei deixar de ser quem eu sou porque eu sempre fui tudo isso. É que eu só sei existir se eu puder assistir a esse filme conforto. 

Temo a realidade. Temo o desconhecido. Temo tudo o que eu sempre achei que encarava com desenvoltura. 

Agora estou aqui sentindo o peso do meu corpo, com uma agulha no braço direito. Rodeada de tosse e luz branca, sentindo as lágrimas escorrerem sem eu fazer força. É um lugar seguro pra chorar pelas mentiras que sempre me contei. 

Quando o impacto atingiu meu carro por trás eu não estava presente, mas fui absolutamente puxada pra isso. Pro presente, pro concreto, pro material. É como se a vida me obrigasse a encarar o espelho, de um modo a me desfazer da minha imagem, do meu ensaio. 

Não tem ninguém aqui agora, estou estraçalhada como o meu carro, invisível como achei que já tinha me permitido ser mas na realidade nunca consegui.  

Esse texto não é um registro da minha cura se aproximando, e sim a mais pura demonstração de que estou longe dela. De que estou querendo, a todo custo, alcançar o que me dizem pra fazer. E me dizem pra abraçar o obscuro de mim, porque é quando mais me encontro. Quero fingir que estou fazendo isso, sempre em busca de mais sanidade, de mais controle, de menos culpa. 

Eu só faço o que eu acho que é certo e isso me afasta do que eu quero que seja certo e, no fim, eu não estou fazendo nada, só estou mentindo, fantasiando, alimentando as mesmas dores conhecidas pra tentar me proteger. 

Talvez agora eu, pelo menos, esteja sendo honesta sobre saber que tudo isso que eu faço é quase o mesmo do que escrever uma novela pra eu mesma encenar. O cenário onde sou a atriz, a diretora, e a plateia. Não quero mais. Estou, mais do que nunca, exausta. 

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Cabelo branco

Estávamos, minhas amigas e eu, rindo e contando sobre a nossa juventude. Compartilhando os relatos açucarados, os amores, as fugas e as memórias. Em dado momento, eu, sempre enérgica, performática, levantei e me utilizei dos meus habituais gestos e trejeitos afoitos pra argumentar com certa valentia que não importa a minha idade, ainda que eu tenha oitenta anos vou continuar me sentindo jovem. 

Relatei às amigas a conversa sobre esse mesmo assunto que eu tive com meu marido outro dia quando estávamos no trânsito. Deixei mais do que registrado, tanto pra ele quanto pra elas, que meu objetivo de vida é ser velha e feliz. Esse é o plano.

Manifestei que meu desejo é poder acompanhar o tempo passar de um jeito suave, sem lutar contra mas sem me submeter à deterioração. Quero seguir conformada, sentir a emoção de envelhecer sem sucumbir à idade, às convenções que eventualmente ainda existam e queiram me anular enquanto pessoa velha que serei. 

É certo que só não envelhece quem morre, então afirmei veementemente que estou preparada. Eu não quero morrer cedo, e pretendo seguir assim, viva e jovem, com toda a idade que me vier. 

Acontece que a vida é engraçada e surpreendentemente irônica. No meio desse papo calcinha, uma breve ida ao banheiro me suspendeu bruscamente da fantasia da juventude permanente que eu estava esbravejando como sendo meu destino. 

Eis que não passaram nem dez minutos de toda essa conversa fiada e uma rápida olhada no espelho enquanto eu lavava as mãos me apresentou ao mais emblemático representante da passagem do tempo: um cabelo branco. Sim, meu primeiro cabelo branco. 

Inacreditável. 

Fiquei atônita. Ri sem parar diante de tamanha piada que a vida estava me contando. Meu coração até acelerou. Ao meu lado, minha amiga testemunhou essa gracinha de Deus. Ela também não estava acreditando naquele timing perfeito. Choramos de rir. 

Adorei vivenciar essa surpresa engraçada. Gosto que a existência de vez em quando nos sujeita à esses eventos sincronizados. Foi hilário. 

Mas, apesar disso, depois do pico de serotonina, é claro que minha cabeça que insiste em pensar demais começou a cutucar meu coração com vara curtíssima. Passei a sentir uma angústia, uma agoniazinha. 

Lembrei de quando encontrei meu primeiro pelo pubiano, as angústias foram parecidas. Visualizar registros da passagem tempo em tempo real angustia mesmo. 

E não é que eu tenha sofrido pelo meu primeiro cabelo branco, mas devo admitir que me vi, inevitavelmente, diante de uma marcante melancolia por ter que lidar com mais uma despedida. 

Antes, quando a angústia era por conta do pelo pubiano, era a despedida da menina que se tornava mulher. Agora, seguirei mulher, mas me despeço das minhas cores. A maturidade descolore algumas coisas mesmo, por mais que a gente não queira. A natureza é infalível.  

Esse cabelo branco danado trouxe consigo uma carga que eu estava evitando, desviando ao máximo. É claro que tenho sentido o tempo passar, mas tento não aprofundar meus pensamentos nas dinâmicas do tempo justamente pra conseguir lidar com mais leveza.  

Mas o bendito cabelo branco me fez atentar pra alguns detalhes do cotidiano que, apesar de imperceptíveis, estão lá, fortemente presentes. Eu os ignoro, mas estão lá. 

Logo lembrei da realidade mais gritante que me escancara o passar do tempo: não tenho mais uma bebê em casa. 

Quando isso aconteceu? 

Não que eu não tenha percebido, mas opto por ir seguindo o fluxo das transformações pra não sofrer. 

Acompanhar uma criança crescer é mágico e único, mas também contraditório. 

Outro dia mesmo quando cheguei em casa ela estava olhando pela janela com cara de sono, tinha acabado de acordar. 

Ela, hipnotizada olhando pra longe, pensando pensamentozinhos distantes. Eu, dentro do carro, hipnotizada olhando pra ela. 

Não demorou muito e ela acordou do transe, e eu também. Lamentei tanto não ter pegado o celular pra registrar pra sempre aqueles olhares, aquela expressão, aqueles cachos. Aqueles segundos me escaparam tão rápido. Eu queria morar dentro daqueles segundos. 

E de repente me invade um medo tão grande de perder da memória. Essa é uma das maiores angústias da maternidade. A contradição de que em muitos momentos a gente quer que o tempo passe, mas enquanto está passando queremos que seja eterno. 

Eu quero eternizar muitos momentos e não posso. Ela está mudando o tempo todo e nunca mais eu vou poder experimentar de novo tantos inícios. 

Daqui a pouco tempo ela vai tomar banho sozinha e não vai precisar mais de mim pra não deixar o shampoo cair nos olhinhos, pra cantar juntas a música do ratinho tomando banho e pra dançar Livre estou como as próprias Elsa e Anna. Queria poder guardar tudo isso pra reviver sempre que me desse saudade. Não posso. 

Até outro dia ela falava igual ao cebolinha e agora pronuncia o R perfeitamente, enrola a língua toda orgulhosa. Eu vou sentir tantas saudades daquela cebolinha. 

Finjo que não vejo pra não doer tanto, como doeu agora que esse cabelo branco me lembrou dessa realidade efêmera, que ao mesmo tempo que é linda, é breve. Esse tal cabelo branco que me lembrou que daqui a duas semanas ela faz quatro e em mais alguns dias faço trinta e um. 

Trinta e um e um cabelo branco (até onde se sabe). 

Sei que meu discurso em prol do prolongamento da minha juventude não foi da boca pra fora. De fato não tenho medo de envelhecer, mas isso não significa que o passar do tempo não possa me doer. Essa é a grande reflexão que o cabelo branco me provocou.

Me dói a filha que cresce rápido demais, e me dói também outro fato que o cabelo branco me lembrou: em breve eu nunca mais vou ter trinta e poucos anos. Eu, que já nem tenho mais vinte e poucos anos mas sinto como se tivesse quinze.

O tempo passou e algumas chances também. E não há nada que se possa fazer pra voltar no tempo e encaixar nada em tempo nenhum. O que passou, passou pra sempre. 

Eu não renego nada que me ocorreu. Eu amo tudo e viveria tudo de novo, com os exatos mesmos personagens. Gosto do que me tornei e me tornei o que sou a partir de tudo o que passou por mim. Mas, mesmo assim, não posso negar que dentre as coisas que me escapam e sempre me escaparam, algumas teriam se encaixado muito bem nos meus vinte e poucos anos. 

Ainda que fosse pra dar errado como deu todo o resto. Eu ia adorar ter vivido um erro bem específico. Um erro que eu gostaria que tivesse sido um grande erro pra que, quem sabe, eu nem precisasse reescrever minha história. 

Um erro que me permitisse estar aqui, exatamente aqui, lamentando o crescimento da mesma filha, rindo com as mesmas amigas, no trânsito com o mesmo marido, sentindo outra falta qualquer no mundo físico dos meus vinte e poucos anos. 

É doído que eu pense nisso agora por conta desse cabelo branco, mas é irremediável e humano também. A fantasia tem dessa mania de criar cenários, e esse seria o melhor dos mundos: um erro de fato vivido e finalizado. Como todos os meus outros erros. Um erro inofensivo.  

Lamento que algumas coisas sempre vão me acompanhar. É a vida. Assim incontornável, incontrolável, não editável. 

O meu cabelo branco de agora e os que ainda virão vão me lembrar que eu nunca mais vou ser quem fui, que eu nunca mais vou ter a possibilidade de realizar sonho nenhum na janela da minha juventude. Nem que eu permaneça jovem, o tempo passou e nada vai resgatar esse tempo, a não ser minhas memórias. E, para os primeiros anos da minha filha, nem a memória conforta. Eu sempre vou querer reviver.

Sinto e lamento as impossibilidades em torno do tempo.

Lamento o tempo tirando de mim a infância da minha filha, tirando a minha juventude que nunca mais vai poder conhecer um mundo diferente do meu. Lamento profundamente apesar de amar a vida, amar a oportunidade de estar viva pra achar meu primeiro cabelo branco. 

Mesmo assim, ainda que o coração tenha ficado pequeno, sigo defendendo que minha velhice será jovem. Eu sei que o tempo passou e vai continuar passando, por isso aceito a filha que cresce, aceito os desejos que ficaram pra trás. Mas difícil, difícil mesmo vai ser aceitar que, infelizmente, eu sou alérgica a tinta pra cabelo. 

Can I handle the seasons of my life?