... Subentenda-me: março 2012

sábado, 17 de março de 2012

Querências

Quero ouvir música boa, quero admirar as obras de artistas plásticos revolucionários, com muito mais delicadeza do que simplesmente ficar impressionada ao ler a respeito em uma revista de arquitetura na sala de espera de uma clínica médica. Quero mais dessas chuvas de meio-dia que molham os meus cadernos e deixam eles com aquelas ondulações feias mas presentes nos livros de ensino médio de todo mundo que se protegia colocando eles na cabeça. Quero conhecer gente nova e desapegar, sim, desapegar. Desapegar de palavras tristes vindas de uma discussão feia, dolorida e desnecessária. Desapegar de uma só companhia, de uma só rotina, e do meu péssimo hábito de fazer rascunhos e não passar a limpo. Quero aprender a viver bem com o meu desalinho, com a minha inconstância insistente e desprovida de argumentos bons. Quero não ter argumentos bons e não falar sobre eles, não quero mais tentar explicar o que nem eu entendo. Quero saber escrever uma redação em cinquenta minutos e saber diferenciar toda a distância percorrida da ultima parte do trajeto. Quero o mesmo frio na costela que me deu no dia que o Ben Stiller planejava assaltar um banco. Quero o ponto do ônibus mais bonito, como poucas vezes foi. Quero aprender a dirigir e poder dizer que vou comprar alguma coisa mas só pra parar o carro no estacionamento, ligar o som e chorar os meus choros acumulados escondido do resto do mundo pela película escurecida. Quero ler pra sempre os poemas de Camões e achar lindo aquele questionamento antecessor do barroco que já se perguntava timidamente: "Pra onde a gente vai?". Quero não saber pra onde eu vou, quero não insistir em prever. Quero continuar respirando fundo e sentindo meus olhos encherem de lágrimas sem derramá-las. Quero ser um carbono quiral porque só hidrogênio cansa, e cansa demais. Quero ter tempo pra querer, porque ultimamente só o tempo me tem e não quer. Eu quero.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Que dure durante. Durando...

Dia amarelo, cinza, cor de quase choro. Eu de pijama e um coque no cabelo, sutil ao ponto de me afundar nos meus travesseiros e achar tudo muito bonitinho. O coque, o pijama, a cor do dia que espera a chuva. Ela veio logo mas levou o sinal da tevê, levantei pra passear pela casa, esperar "Friends" voltar pra minha tarde melancólica. O meu corredor é pequeno mas por algum motivo, naquele momento, me parece um labirinto levemente amável e comprido. Eu nunca havia reparado no quadro que eu mesma escolhi para aquela parede de tijolinhos irritantes. Lembro muito bem do dia, da hora, da loja, e do que pensei quando apontei para a pintura com moldura de alto relevo atraente. A vista parece ser de um quintal, uma janela que dava de frente para os fundos de casas antigas. Lembro da sensação de pensar em alguém ao ver o quadro, as casas, as montanhas escondidas quase no fim do desenho estreito. Era bom. Eu esqueci de notar meu quadro em contraste com os tijolinhos, e quando notei senti uma calma tão forte quanto a água que caía lá fora. Os tijolinhos, o quadro, a chuva, eu, meu coque de cabelo, o pijama e a cor de vento frio, cor de laranja triste dentro da minha casa. Ando, ando, ando, paro, sento, penso. Eu que sempre gostei tanto de tudo, de alguém, do mundo, esqueci de reparar. Reparar em tudo que eu gostei dentro de um impacto inicial. Era só inicial. Por que bonito no início, só no início? Eu embrulhei meu encantamento em um papel de presente e coloquei no cantinho de mim, esqueci de abrir. Eu quis muito, muito, lembrar de tudo que eu deixei no meu cantinho. Lembrei aos poucos do mais simples que me trouxe paz no início, desembrulhei só o que dava pra alcançar. Lembrei que quando nos mudamos, há uns três anos atrás, eu adorava ver o cajueiro do terreno em frente à minha janela. A vovó adorava apontar os Cajus maduros, os passarinhos comendo. Eu esqueci, eu lembrei, eu parei em frente à janela, com os tijolinhos, o pijama, o coque, e tudo, e tudo. Meu cajueiro não saiu do lugar. Que chova, então. Que chova agora na minha tarde de cor branda, que chova no cajueiro em frente a minha janela, que o meu quadro continue lembrando todo o bonito que eu sinto no início de tudo, que eu quero sentir sempre. Já não me deixo mais cegar pela beleza inicial, o durante é eterno e generoso. Que dure meu cajueiro, meu quadro, a cor da minha tarde, a limpeza da chuva, o meu coque, o meu pijama. Que dure.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Detalhes

Caixinha de chiclete, bilhete de cinema, roupas do antigo namorado. Detalhes. A roupa quando era dele não tinha tanto valor, passou a ter depois que foi sua. O bilhete do cinema serviu pra vocês sentarem naquela poltrona, rirem, trocarem carinhos, beijos. Você guardou. A caixinha do chiclete que ele comprou, te deu e você colocou no bolso sem a pretensão de criar um relicário com os detalhes de vocês. O extrato que o correio te deu depois de você enviar a carta, um pedacinho do cartão do dia dos namorados que você guardou depois de, impreterivelmente, ter rasgado o resto dele com ciúmes de outra, loguinho após vocês terminarem. Você guardou um pouco do perfume que usava quando estava com ele e de vez em quando vai lá se transportar para aquela realidade boa que não volta nunca mais. Ele deixou a cara do dia nublado, triste e desfocado, muito mais atraente. Vocês estavam juntos, sentados na calçada, enquanto esperavam a chuva passar pra ele poder ir embora. A chuva passou e ele não foi. Você guardou em um arquivo especial aquela conversa que te fez chorar. O nome do arquivo é o nome dele. Você guarda todo o palpável em uma caixa grande, ali na sua prateleira mais alta. As cartas que fez e nunca mandou, o seu nome com o sobrenome dele em um pedacinho de papel, escritos bem no auge do seu devaneio amoroso. Você lembra dele com carinho quando usa a mesma roupa que usou quando estavam juntos. Você olha pela janela do carro e sorri lembrando de coisas que só ele dizia. Você não apagou as mensagens de bom dia no celular, você não vai apagar nem quando a memória estiver cheia. Literalmente, nem quando a memória estiver cheia. Aos poucos constrói um museu do que é você, do que foram vocês, todos, juntos. Cada um com a sua importância única, seja na caixa da prateleira, no arquivo, na blusa que era dele e você achou outro dia sem querer. Você guarda em você. A saudade, os detalhes que são muito mais do que a descrição contada para as suas amigas. Elas não vão saber. Assistir uma aula, ouvir o professor falar sobre algo que vocês sabiam tão bem nas suas conversas, nas suas conclusões sobre a vida, só de vocês. Mas então o tempo passa, logo você percebe que foi feita pra acumular as caixas, eles, você. Você foi feita pra sentir saudades dos detalhes deles e dos próximos detalhes... Cadê?