... Subentenda-me: outubro 2011

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

A água não tem cabelo. O amor também não.

— Eu prefiro a superfície.
— Por quê?
— Porque se você mergulhar muito fundo pode se afogar.
— E qual o problema em mergulhar e se afogar?
— Se afogar não é o problema. O problema é não voltar. Ou, se voltar, ficar com medo de mergulhar de novo.
— Acho que você já mergulhou.
— Sim, muitas vezes.
— Se afogou?
— Quase sempre. E você, já se afogou e voltou?
— Sim.
— Sente medo de mergulhar de novo?
— Não. Gosto de estar no fundo do mar.
— Por que não sente medo?
— Porque na superfície você só vê o que todo mundo vê. Se afogar é consequência de não saber nadar. É só aprender a nadar.
— E você sabe nadar?
— Eu tive que aprender, já me afoguei demais.

sábado, 22 de outubro de 2011

Procurando as chaves pra abrir um armário importante

Não entendo mais as minhas listas, os meus planos, as minhas vontades, as minhas antigas frequentes exatidões. Desaprendi a falar dos dias, das cores, dos ventos, das folhas, dos risos. Não sei por que ou por quem, só sei que não tenho mais. Hoje eu acordei sentido falta da sensibilidade que tranquei no armário, corri pra procurar a chave e não achei. Sentei e parei pra pensar na quantidade de tempo que tenho perdido ao tentar viver sem ela. Nenhum tempo gasto é aproveitado quando as cores são sempre tão escuras, quando os lugares bonitos já não transmitem a tranquilidade que deveriam. O levantar mecanizado por uma rotina construída através de necessidades indefinidas me incomoda. Sempre faz referência aos passos obrigatórios rumo a um lugar que nunca sei da certeza de querer permanecer. Tudo porque perdi a chave do armário, e hoje não lembro mais do motivo nem da dor, lembro apenas que fiz pra me proteger, que considerei ser sensível demais como algo prejudicial ao meu equilíbrio. Não quero que seja tarde demais pra começar a firmar o pensamento de que ser desequilibrada não dá em nada e de que está na hora de achar essas chaves. 

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Sou só

O ano já está quase acabando, e essa constatação logo me leva à conclusão de que sou mais só do que gostaria de ser. Sou só em todos os aspectos internos que os externos me trouxeram. O que eu consigo resumir deste ano é solidão, uma solidão bem triste, que eu não queria que existisse. Tudo começou bem, algumas boas amizades, um amor e poucos problemas. Em agosto uma amiga legal saiu do meio de convívio e isso me limitou ainda mais a um único ciclo, que me causa boas dores de cabeça de vez em quando, por culpa minha talvez. Em setembro o tal do amor, que a princípio havia sido considerado o meu principal motivo pra tolerar o resto do mundo e o último fio de esperança pra me fazer acreditar que nem tudo era tão ruim quanto eu pensava, também foi embora. Hoje passei a me considerar sozinha demais não pelo amor ter ido embora, não por eu ter sido apresentada a problemas que me pressionavam mais e exigiam mais de mim, me considero só por estar sozinha agora sentada na ultima cadeira da ultima fileira, olhando o resto das pessoas estarem mais bem acompanhadas com as suas próprias solidões do que eu. Talvez isso se dê pelo meu egoísmo, que me faz desacreditar que possa existir no mundo alguém mais triste e só do que eu. Os meus amigos podem ser conferidos na metade dos dedos da minha mão direita (que é a minha mão mais bonitinha), e isso me dói um pouco quando eu procuro na lista telefônica e não encontro nenhum número que realmente me interesse ouvir a voz. Além de passar muito tempo só e me sentir assim mesmo diante de uma multidão, o difícil mesmo é perceber que por mais que eu provoque em mim um desejo de mudança, não consigo encontrar disposição pra isso. Talvez por medo de mais uma decepção em meio a tantas outras que eu me provoquei quando tentei mudar, talvez por me considerar incompatível com o resto das pessoas por causa do meu temperamento tão difícil de lidar, que acaba sempre magoando alguém e me magoando junto. Acho que eu nunca fui tão sincera quanto ao meu estado como estou sendo agora. Não sinto tanto que as minhas reações intempestivas possam ser consideradas de minha total responsabilidade, pois, inevitavelmente, quando eu tento me culpar por tudo, só consigo me ver sozinha num quarto escuro, chorando e tremendo de medo porque me deixaram trancada. Eu sei que eu não deveria ser tão piedosa com as minhas brutalidades, não mereço piedade, mas seria muito bom ter alguém no mundo que pudesse concordar que a culpa não é minha, que eu faço tudo involuntariamente. Alguém que também me apoiasse na hora de culpar quem me deixou sozinha, quem não se importou em fazer eu me tornar o que eu nunca quis ser. Eu queria alguém que me ajudasse a fazer isso só pra eu não me sentir tão injusta ao culpar todo mundo por uma culpa que eu não consigo assumir como sendo unicamente minha. E é minha. Porque tudo isso me levou a fazer o que eu não queria, e agora, mais do que nunca, eu adoraria pedir desculpas pra minha amiga que acabou de chegar por todos os meus erros e por eu ter dito mais cedo que não fazia mais questão da presença dela na minha vida. Eu realmente gostaria de dizer a ela que o meu medo de ficar mais só do que já sou faz com que eu afaste todos de mim porque percebi que dói menos quando eu tiro as pessoas da minha vida do que quando elas me tiram da vida delas. Já aconteceu, já me tiraram, me empurraram, e não foi bom, doeu. Eu sei que a minha amiga não tem razões pra olhar pra mim agora e ver que estou chorando, porém mais triste do que isso é perceber que eu não tenho ela e nem ninguém pra me abraçar agora e me fazer rir com uma piada inútil qualquer, coisa que eu prefiro muito mais ao invés de um abraço e um "vai passar". Tenho medo, tenho frio, e a minha garganta está usando uma gravata com um nó perfeito, e tudo isso me impulsiona a não conseguir imaginar alguém no mundo realmente capaz de fazer tudo isso passar. Não desejo a ninguém a sensação de não ver mais beleza nas praças, nas árvores, no céu, nas sorveterias, nos namorados e suas mãos entrelaçadas só por causa de alguém que veio e foi embora levando tudo isso meu consigo. Além de levar todas as outras pessoas boas que podiam me fazer feliz. Chorei ao pedir a Deus que trouxesse todos que eu deixei e que me deixaram. Por mais que doa eu espero passar. Por mais que o fato de que eu não tenho pra quem ligar num sábado a noite me provoque muitas lágrimas desnecessárias, espero passar pois acabei percebendo que tentar amenizar só prioriza as minhas fragilidades, os meus medos, as minhas tristezas. Eu vou sentir. Tentar apagar cada erro cometido por mim ou pelos outros apenas os tatua em mim e neles. Vou aprender que tem gente que nasce pra ser só, e que tem gente que nasce pra reclamar da solidão. Vou aprender a ser só, porque reclamar dá trabalho demais.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Da Martha

Bem, acho que agora, em meio a toda essa minha exaustão e pressa pra fazer quase nada, também vou acrescentar aqui algumas coisas que me causam relaxamento profundo. Imagens, textos de gente linda que não escreve com a cabeça e sim com a alma. Músicas, e às vezes os sentimentos que tudo isso me transmite.

Hoje vou começar com um trecho de um texto da Martha Medeiros chamado "O medo do amor"...

"(...) E ter o amor rejeitado, nem se fala, é fratura exposta, definhamos em público, encolhemos a alma, quase desejamos uma violência qualquer vinda da rua para esquecermos dessa violência vinda do tempo gasto e vivido, esse assalto em que nos roubaram tudo, o amor e o que vem com ele, confiança e estabilidade. Sem o amor, nada resta, a crença se desfaz, o romantismo perde o sentido, músicas idiotas nos fazem chorar dentro do carro. Passa a dor do amor, vem a trégua, o coração limpo de novo, os olhos novamente secos, a boca vazia. Nada de bom está acontecendo, mas também nada de ruim. Um novo amor? Nem pensar. Medo, respondemos. Que corajosos somos nós, que apesar de um medo tão justificado, amamos outra vez e todas as vezes que o amor nos chama, fingindo um pouco de resistência mas sabendo que para sempre é impossível recusá-lo."

Eu preciso explicar pra mim mesma tudo isso? Talvez seja meu subconsciente que reverencia o que faz sentido e faz sentir. "Que corajosos somos nós, que apesar de um medo tão justificado, amamos outra vez e todas as vezes que o amor nos chama, fingindo um pouco de resistência mas sabendo que para sempre é impossível recusá-lo." E que coragem. A gente diz que não, que não quer, que vai se blindar de todas essas coisas dedilhadamente impostas ao coração que nada sabe, e nada quer querer. Mas, enfim, é sempre impossível recusar a chegada do inesperado. Já no meu caso, eu não recuso não, eu espero mesmo. Obrigada Martha.