... Subentenda-me: maio 2016

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Virgindades

Ela, em casa, meio que tentando vomitar por causa do nojo de tudo, do nada, do sem graça. Ela meio que tentando adivinhar se alguém sente um tanto dessa repugnância pelo mundo, e se amaria esse alguém tanto quanto imagina. Se amasse, esse alguém além do nojo também sentiria o mesmo amor e o mesmo doce que ela sentia por algum pouco que restava.

Ela estava meio que nem aí. Não se conformava mais, não se importava mais, deixava tudo no tanto faz. Andava esperando um encontro inusitado, entusiasmado, despretensioso e eterno enquanto dure. Podia ser na fila do supermercado, na parada do ônibus, ou talvez quando ela fosse pular de paraquedas e caísse alguém do céu ao mesmo tempo e ficasse na queda livre junto dela até cair no chão e nascerem asas pra continuar voando. Doidíssima. 

Ela sentia pela vida gosto de beijo com boca gelada. Como quando se sente a boca gelada por causa da água, por causa do suco ou pelo gelo puro derretido em alternâncias de cuspes no copo até que fosse possível aguentar o frio sem dor. Era uma vida fresquinha e molhada. Gostosa como o beijo gelado que nunca foi dado mas que ela sabia que não poderia ser nada além disso: fresquinho e molhado. 

Ela se cansou de falar de saudades, de amor, de príncipe, de sapos, de rãs, de pererecas. Ela preferiu o real. Se enganou por um tempo achando que o real era o irreal e que de diferente os dois só tinham o "ir". Um "ir" que nunca foi verbo conjugado na primeira pessoa do singular do presente do indicativo. Teve alguém que nunca veio. O paradoxo estava justamente no fato de que a ausência do "ir" é que fez tudo ser irreal. 

E se ele tivesse ido, real seria? Ela não sabia, nunca poderia saber. Precisou viver o real existente junto com um real criado por causa de um irreal insistente. Se enganando. Mulher doida. Se perguntava por que ela não era igual à todas as outras? Por que não tratava de arrumar alguém qualquer que tirasse logo a virgindade de tudo pra poder sair por aí mais segura, mais cheia de si, como todo mundo faz? Quando pensava assim achava que poderia ser fácil, mas quando não achava ninguém capaz, desistia. Ela queria achar, mas sentia ser impossível. E então ela queria tudo e também não queria nada. Oscilava. Confusa que só ela. 

Nos relances de sanidade até tinha razão quando pensava que a virgindade da alma é que dificultava tudo porque não era da mesma libido que a virgindade da carne, ou de outras virgindades quaisquer. Era uma libido meio frígida do que atiçava a libido comum. Essa virgindade da alma era mais difícil de ser rompida. E não estava errada. 

No caso dela, a alma estava absolutamente pregada, juntinha. O hímen era uma parede de concreto encapada por um cinto de castidade trancado por cadeados sem chaves. O que lhe fazia não querer dar todas as virgindades juntas de qualquer jeito era uma certeza abafada de que as virgindades da carne não importariam de nada se não encontrasse alguém que conseguisse romper o hímen dessa sua alma casta.

Por esse ângulo, tudo bem pra ela que todas as virgindades continuassem virgens já que não havia quem pudesse abrir aqueles cadeados. O engano lhe fez achar que aquele tal irreal que não veio teria todas as chaves. Esse irreal insistente é que lhe fez pensar em não querer mais saber de virgindade qualquer se aquela da alma continuasse intocada. 

Mas por sorte ela, ambígua que é, voltava pra loucura constantemente. Fazia concessões, abria exceções. Assim, até considerava perder a virgindade da boca num beijo de amor verdadeiro nunca antes experimentado. Mas tinha que ser amor verdadeiro, no mínimo. Tolice, também. Só mais uma barreira pra prolongar virgindades. Ela ainda esperava a tal queda de um alguém junto dela quando fosse pular de paraquedas. Mas ela não pulava de paraquedas e sempre teve medo de altura. Ela ainda esperava por um milagre que fizesse aparecer esse alguém poderia tirar todas as suas virgindades de uma só vez. Esse era o sonho. E o milagre não veio.

Ela sabia que era improvável porque ninguém nunca pareceu ter as chaves certas, e quem, de longe, parecia, nunca quis ir até ela lhe destrancar a alma. Depois de um tempo ela começou a pensar que fazia sentido não assumir o risco de libertar o desconhecido. Arriscado demais. Algo lhe dizia que aquela alma não era pequena, que não era por acaso toda a segurança investida na sua virgindade de alma.

Nisso ela estava certa, certíssima. Então ela seguiu. 

Continuou oscilando e entre seus lapsos de razão e irracionalidades, e por conta disso foi permitindo os rompimentos de alguns hímens. Teve que abrir mão do sonho de ter todas as virgindades rompidas de uma só vez. A vida não espera os milagres acontecerem, o tempo simplesmente impera. E entre a razão e a loucura, descartou as exigências porque senão viveria. E viveu. 

Perdeu as virgindades da carne, uma a uma. Sentiu felicidades ao desbravar a vida. Como quando descobriu que ela realmente tem gosto de beijo gelado e que nunca se enganou sobre ser gostoso, fresquinho e molhado. A vida tem gosto disso mesmo, ela acertou. Também descobriu que tem gosto de espera, quando o beijo não vem ou quando não é tão gelado assim. Mas nem ligou, se contentou com a felicidade de ter acertado de primeira que a vida por vezes tem um gosto muito bom, mesmo que não seja o mesmo gosto sempre, mesmo que chegue até a ter um gosto insosso. 

Até isso ela gostou de descobrir. Seguiu assim por anos, encontrou muitos pelo caminho. Nas filas de supermercado, nas paradas de ônibus, e em cantos até mais inusitados. Sentiu alegrias, muitas. E depois de muito ter andado, rompido vários hímens, continuava de alma trancada. Ainda pensava tolamente naquele único alguém que parecia ter as chaves.

Aquele irreal insistente permanecia lhe fazendo criar ilusões sobre como teria sido se ele tivesse vindo lhe abrir as portas da alma. Imaginava o dia, a hora, o que sentiria. A curiosidade de saber o que tinha dentro era tamanha. Alimentava esse devaneio só pra experimentar, mesmo que em fantasia, o que seria viver sem essas amarras. Por anos foi assim, e se satisfez, se conformou com a idealização do que seria ter aquela alma liberta por aquele quem ela imaginava que seria o único de alma compatível para possuir as chaves. 

Mas pela sorte de ter tido preservada a sua loucura, a mesma loucura que lhe fez abrir as pernas pra perda de todas as virgindades físicas, houve um desequilíbrio intenso que desestabilizou o conformismo e lhe provocou uma vontade descontrolada de quebrar aqueles cadeados, quebrar aquela parede de concreto que a impedia de furar o hímen ultima virgindade que lhe restava. 

A loucura a fez sã pra ser sua. Não se requer ninguém pra romper hímen nenhum, pensava ela. Muito menos aquele. Aquele não. Não o da alma dela! Passar uma vida inteira sem acessá-la por ter atribuído a alguém essa responsabilidade era inadmissível, era pecado. 

Nada seria possível sem a maluquice que lhe deu coragem pra viver uma vida de hímens rompidos sem ter suprida a idealização romântica de que tudo deveria ser atravessado por um só alguém. Ela era mais que todos! Ela sentiu todos os gostos da vida porque não quis paralisar. Sentiu até os mais amargos. 

Ela se entregou tanto que cansou de ver a alma dela trancada. Desistiu de não conhecer aquele tamanho, aquela grandeza que sabia que tinha por trás de tanta embalagem. Pensava enlouquecida: a proteção não é em vão, ela é gigantesca, essa alma é gigantesca, tenho certeza! E tinha tanta certeza que tinha razão.

Subverteu a única castidade que lhe restava. A mais importante, a maior. E foi. Mais uma vez, doida, ela foi. Fez força imensa, lutou com braveza, gritou e chorou quando se viu sem ferramentas pra quebrar aquele muro, aquele hímen ridículo e inútil. Respirou fraca e depois forte. Fraca e forte, fraca e forte. 

Até que se acalmou, se aproximou, tocou nos cadeados e viu que estavam abertos. Nunca estiveram trancados ou se abriram como mágica? Ela não sabia, e pouco importava. Era milagre. Pra ela era milagre. Ela esmagou o hímen todo, arrancou todo o obstáculo, toda a castidade, toda a barreira que lhe impediu de sentir o prazer maior de se ver gozando sozinha da sua alma inteira. 

Claríssima, iluminada, brilhante, translúcida, enorme. 

Não era matéria, não era onda. Era tudo junto. Era cheiro, era som, era um dia perfeito, um encontro perfeito com ela mesma, era o sumo dela mesma. A casca, o gomo, o caldo, o caroço. Ela sentiu então um prazer absoluto, ininterruptível. Era eterno enquanto durava, e durava pra sempre. Eterníssimo. Ela se deleitou, se deu pra si. E deu muito, deu sempre, pra sempre. 

Ela sendo dela, nunca mais precisou de mais ninguém. Encontrou o paraquedas e pulou, sem medo de nada! Aquela alma era uma imensidão pura, instigante e atraente. Ela se jogou sem pensar duas vezes. Nunca caiu. Lhe brotaram asas instantâneas pra voar nessa alma toda. E desde então ela só voa. Só, voa. 

Enfim desvirginada de alma, enfim livre e enfim dela.