... Subentenda-me: agosto 2011

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Mais lamentos

E mais uma vez se repete a sensação de vazio aqui dentro. Só que dessa vez é bem diferente das outras. É um vazio de algo que nunca foi preenchido. É o vazio do vazio. Ele era legal. Se não o mais legal. Se não o que eu mais quis, desejei, que sabe até, o que eu mais amei. Mas ele foi embora. Na verdade, ele nunca veio. É complicado tentar explicar pros amigos porque dói se nem eu mesma sei de onde sai todo esse aperto, todo esse buraco. Se eu soubesse eu tapava, enrolava em um paninho, fazia um curativo pra parar de doer. Ontem a noite eu fiquei sentada, apoiada na janela. E me peguei fazendo isso igualmente das outras vezes. Quando eu pegava um paninho pra assoar o nariz, abraçava minhas pernas, e chorava, bem baixinho, porque me ouvir chorar é humilhante demais. Fiz algumas analogias sobre como eu me senti ontem a noite. Primeiro, quando eu era pequena e via essas tragédias, terremotos, eu pensava que, se acontecesse aqui, eu me esconderia num lugarzinho só meu até passar. E foi o que aconteceu, me escondi em mim ontem a noite. Como de costume, só que com uma pitada de sofrimento a mais, uma pitada de "eu já sabia que ia terminar assim, seco, vazio, do nada". Do nada, bem do jeitinho que começou. E então, depois disse a um amigo que era como um filme bom, desses de romance, que tem uma história bonita, acolhedora, mas que termina assim, sem nexo, a mocinha morre no final, e aí você fica com aquela sensação horrível de depressão pós-filme. Tem um filme assim, caso pareça meio absurdo a mocinha morrer após uma história de amor. É com o Leonardo Di Caprio até. E ela era assim feito eu, meio louca também. Só que ela era agressiva e ciumenta, acho que eu não chego a tanto. E nem chegaria a me matar fazendo um aborto caseiro. Enfim. Só sei que ele era demais. Sei que eu sonhei a minha vida do lado dele. Ele me fazia rir, sabe? Ele me deixava ser eu, como eu nunca consegui antes. É meio difícil de acreditar que eu nunca vou conseguir ver aquele rosto. Meu amigo disse ontem que sempre achou que chorar era algo desnecessário. Na hora eu chorei, foi inevitável. Eu sabia o que eu queria, sabia que ia dar aquela opção a ele, e também sabia que ele ia aceitar porque ele sempre foi maduro e racional, e iria contra todos os princípios dele continuar com uma coisa que nós dois sabemos que não ia dar certo. Ah, mas eu queria tanto que tivesse dado certo. O que torna o momento mais complexo ainda é saber que eu tive tanta gente aqui comigo, preenchendo a minha vida de carinhos reais, beijos reais, sonhos que tinham tudo pra também se tornarem reais, e essa gente se foi, partiu, sumiu da minha vida levando todos os beijos, carinhos e sonhos, mas nunca havia doído tanto quanto agora. Acho que corresponde também àquela quebra de expectativas. No fundo eu realmente sabia que ele ia concordar que não tinha mais nenhum cabimento continuar a me fazer esperar noites torturantes só pra saber se ele estava bem, só que o que eu queria mesmo era que ele dissesse: "não, fica, não põe uma distância maior ainda entre a gente". Eu amei ele. É, eu amei desde quando ele disse "buu" pela primeira vez. Mas o meu amigo também disse que vai ser normal me isolar um pouco mais por um tempo, e que depois, quando eu tiver realmente preparada, e absorvido toda a experiência boa que isso me trouxe, vou enfim poder seguir em frente, achar alguém legal e mais real também. Esse meu amigo sabe das coisas óbvias, não é? Ah, o que eu podia esperar dele? "Chora Carol, chora muito, até desidratar"? Não! Só que é complicado falar pra ele que eu acho que nunca mais vou querer ninguém, ele vai dizer que eu sou louca. A gente passa a noite se questionando: "Por que é tão triste? Por que dói? Eu nunca toquei, nunca senti, nunca provei. Não faz sentido". Ontem eu também fiz uma outra comparação engraçada. É como se esse moço de agora fosse Deus. Eu me sentia protegida, amparada, em paz. Como deve ser quando se está com Deus. Com a diferença que Deus ainda não desistiu de mim, eu acho. Tudo bem, eu levo em consideração que amar assim não faz sentido mesmo, que não ia dar certo mesmo e que ele é bom demais pra mim. Mas que desistiu, desistiu. E sabe de uma coisa? Acho que eu também desisto. 

sábado, 27 de agosto de 2011

Agorafobia

Eu tenho estado com medo dos dias. Eu tenho entrado, diariamente, na monotonia que a realidade me oferece. Sinto medo da rua, sinto medo dos enfeites nas pessoas, das maquiagens, das máscaras. Não gosto de barulho, a multidão me assusta, as boas intenções me parecem falsidades e um costume forçado pra ser bonzinho sempre, conquistar pessoas sempre. Eu não convenço ninguém, eu não me convenço. Convencer dessa coisa que as pessoas tentam sempre quando gritam e esperneiam indiretamente pedindo o mínimo da atenção do mundo, dessa ligeira e indispensável alegria que todo mundo tem de gritar  o quanto é feliz, traduzindo em: "Tá vendo, mundo cruel, você ainda não me derrubou". Adianta? Não sei. Só sei que o meu estômago revira, e a vontade de sair correndo pra um outro mundinho onde eu não precise ser hipócrita com as minhas próprias emoções vem dilacerando. Eu não sirvo pra ensaiar boas atitudes e boas preocupações com quem não se preocupa. Eu não sirvo pra subir escadas perto de quem parece ser bom demais, sempre fico com medo de cair. Eu não sirvo pra ser sempre a madura dos conselhos bons, a moleca que faz o meu todo mundo rir. Quase sempre eu só sirvo pra isso, e não quero servir. Eu também sou garotinha que chora, que chora e não sabe porquê. Que escreve pra jogar fora isso tudo que me entope e eu não posso vomitar pra todo mundo ver. Dessa vez não falta ninguém, dessa vez eu posso escolher entre todas as minhas possibilidades de ser feliz apenas a necessidade de ficar só. Não tenho precisado de sorrisos, nem dos meus. Não tenho precisado de galanteios fajutos pra me sentir mais qualquer coisa. Só quero ficar aqui, agora, vendo um filminho bom.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Mulher de quarenta.

Eu me comporto feito gente grande, eu tenho vontade de ser gente grande. Ser mulher. Não uma mulher de vinte, de trinta. Quero ser mulher de quarenta que já viveu e já foi feliz às pencas. Quero ser mulher de quarenta em alma, espírito, leveza. Nunca em rugas. Quero ser mulher de quarenta segura. Quero ser mulher de quarenta que encontra amores, que conta amores, que vive amores. Mulher de quarenta que vive nas águas da vida que viveu e sente falta, nas águas da vida que ainda vai viver e sentir falta. Quero ser mulher de quarenta com toda a graciosidade do quatro unido ao zero. Quatro sempre foi um número jovem, sempre remete a um leve teste de alcoolismo que na juventude impera. O zero é redondo, como os tantos ciclos da vida de uma mulher de quarenta. Quero ser mulher de quarenta que não explica porque já sabe demais. Quero ser mulher de quarenta pra ter vivido muito, mas não ser um meio século. Ser mulher de quarenta quando penso na velhice que já me abraça tão jovem, e na juventude que me abraçará quando eu tiver quarenta.

sábado, 13 de agosto de 2011

De onde vem a calma?

Posso explicar a paz que você me transmite? Não, eu não posso. Nem eu sei de onde surge esse acolhimento bom todas as vezes que eu penso que você existe. Quando eu te vi pela primeira vez, fiquei imóvel. Até hoje fico, e fico sem saber de onde é que vem essa tranquilidade e esse sereno que eu vejo no seu jeito de sorrir, de andar, de mexer no cabelo. Eu sempre tive tudo o que eu quis. Mesmo demorando o tempo necessário pra isso, eu sempre tive. Agora eu acho que não vai ser assim. Nunca vou ter você, nunca vou poder falar o quanto me encanta a sua expressão de fascínio por qualquer coisa realmente fascinante. Eu nunca vou poder dizer o quanto você fica lindo quando sorri, quando fica sério, quando fica olhando pro nada. Eu estudei tanto o seu jeito, e me sinto tão idiota por dizer isso, por assumir pra mim mesma o quanto esse jeito me encanta e sempre me encantou. Eu sempre adorei a improbabilidade de trocar alguma palavra com você. Sim, é, porque na realidade eu sinto medo. A sua voz é bonita e me intimida, os seus olhos são bonitos e me hipnotizam de longe. Você nem imagina que eu estou aqui, você nem imagina como eu me sinto quando olho pra você e te vejo me olhando também. É que existem pessoas que, quando são bonitas de verdade, me despertam uma curiosidade enorme e um desejo também muito grande de tê-las pra mim. E não falo de uma beleza física, é a beleza de como alguém me faz sentir sempre quando é muito cheia de alma, cheia de amor, tem cara de amor e é amor. Hoje eu sonhei com você, há tempos isso não acontece. Você sorria para mim, só sorria. E eu te queria muito, e queria correr dali e te puxar pelo pulso, pra te ter comigo e só meu por uma mínima fração de segundos, como tantas vezes desejei. Você ria, e quando você ri eu me sinto tão calma e tão tranquila quanto esse seu sorriso que nunca vai ser meu. Eu adoro desenhar pessoas na minha cabeça só pra ter uma companhia boa enquanto eu durmo, mas você é tão perfeito que o rabisco de um fio do seu cabelo já me basta. Eu nunca pude dizer que é loucura, mesmo sendo, o quanto eu gosto de te ver, e de notar o seu empenho, o seu jeito poético e altamente misterioso. Cada paixão é diferente, e nossa, eu sou apaixonada por você. É a primeira vez que eu escrevo sobre isso, é a primeira vez que eu assumo e detalho tão bem o que eu sinto pra mim mesma. Como diz a Martha Medeiros: "A gente se apaixona pelo jeito da pessoa. Não é porque ele cita Camões, não é porque ela tem olhos azuis." Você não tem olhos azuis, mas, querido, os teus olhos são lindos e eu já me apaixonei por eles, pelo seu jeito e pelo fato de você citar Camões. E que se dane gostar assim de quem nunca vai ser meu. E que se dane me afundar em beijos tão pouco providos de sentimentos. Eu não ligo. Eu gosto mesmo é de tudo que não existe, de tudo que eu crio pra me acalmar, de todos os calmantes vivos que eu me injeto pra me sentir menos doente e menos sem pessoas perfeitas. Eu crio pessoas perfeitas, eu já criei você, eu já criei muitos outros. "De onde vem o jeito, tão sem defeito, que esse rapaz consegue fingir?" Los Hermanos, conhece? A música chama "De onde vem a calma", e, meu bem, eu te digo: a calma está vindo todinha de você.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

O cobrador

Eu estava no ponto de ônibus, e ao lado havia um moço que, até então, estava pouco notável para mim. Ele usava um terno, parecia ser normal, não muito velho e nem muito novo. Ele fez sinal para o mesmo ônibus que eu. O ônibus parou mais perto de mim do que dele, então subi. Quando entrei no ônibus pude perceber que o moço não era um moço tão normal assim. Ele devia ter alguma doença, não sei exatamente. Seus movimentos eram limitados, e ele possuía uma feição um tanto quanto estranha. Fiquei perplexa por alguns segundos, e até me sentindo mal por ter subido antes dele, mas nada que me fosse causar uma enorme culpa de imediato, já que eu realmente não havia percebido as suas reais condições. Passei pelo cobrador, que, aparentemente, seria mais um dos que me ignoram até o fim da viagem sempre que pego um ônibus. Paguei minha passagem, fui em direção ao banco. O senhor da parada de ônibus sentou no assento preferencial para deficientes físicos. Logo me foi da memória a minha displicência em relação àquele feito. Sentei perto da janela, como sempre faço. Segurei minha bolsa, arrumei meus cadernos, tentei me sentir confortável mesmo sentindo tanto calor e estando com muita pressa pra chegar em casa e cuidar de todos os meus compromissos atrasados. De repente meus pensamentos tolos, cansados e fúteis, sofrem uma singela ruptura causada pela voz do cobrador em alto tom direcionada ao motorista:

- "Pois é, minha mãe sempre dizia que educação a gente recebe quando ainda é criança."

Imediatamente associei ao ocorrido de poucos minutos antes, quando eu subi na frente do moço deficiente, sem haver uma intenção da minha parte. Não que eu tenha uma real mania de perseguição, mas fazia todo o sentido aquele comentário ter sido feito pra me atingir. Então me veio um sentimento absurdo de culpa, de constrangimento. Sim, pois qualquer um que tivesse prestado atenção na minha atitude, certamente consideraria a indireta do cobrador como sendo direcionada à mim. Fiquei vermelha, pálida, azul. Não de vergonha, mas sim de uma intolerância à aceitar que, graças à minha distração, consegui ser taxada como egoísta, mal educada. Defeitos que eu, durante toda a minha vida, procurei afastar de mim. A vontade era de pedir desculpas, discursar e dizer que não, eu não havia tido a intenção de ser tão mesquinha e não prestar atenção nas necessidades dos outros. Eu quis levantar e dizer pro cobrador:

- "Ei seu moço, o senhor está falando comigo? É isso mesmo? Olhe, a minha mãe me educou perfeitamente bem. Eu sei dizer obrigada, eu sei pedir licença, eu sei deixar um deficiente passar. O senhor não acha um tanto quanto rude da sua parte esse constrangimento que acabou de me fazer passar? Eu não tive culpa, se lhe interessa saber... Eu não vi como ele era, e tá certo que mesmo que ele não tivesse limitações e ainda assim fosse um pouco mais velho eu devesse dar passagem a ele, mas que culpa eu tenho, seu moço? O senhor não viu que o ônibus estava mais perto de mim? O senhor parou pra se perguntar se eu olhei e vi que ele precisava de uma ajuda? Peço grandes desculpas, moço, por ser distraída, por não ter havido uma cortesia da minha parte. Mas me diz, que culpa eu tenho?"

Certamente o cobrador não se daria ao trabalho de me responder, de me criticar diretamente, de aceitar o fato de que tinha me julgado mal. Sim, ele tinha me julgado muito mal. Eu engoli a seco as minhas vontades. Fiquei quieta, sentada, torcendo pra chegar em casa e poder descer logo daquele cemitério de conclusões precipitadas. Quando cheguei, guardei as coisas, os cadernos, tirei o uniforme, e tudo aquilo ainda permanecia em contraste junto das outras emoções que carrego. Deitei, parei pra pensar. Cheguei a conclusão de que, é, somos assim mesmo. 

A nossa mania de politicamente correto não nos permite analisar nada, entender nada de imediato. Atos propositais são tão comuns e estão tão enraizados nessa crença que alguns têm de sempre querer se dar bem e passar por cima das pessoas, que quando não há o propósito é proposital do mesmo jeito. Eu não paro pra pensar, eu acharia feio se não tivesse acontecido comigo. Só assim a gente percebe o quanto é cruel de vez em quando. 

Certo que existem outras crueldades, outras situações complicadas, outras deselegâncias, mas é como dizem: "Pimenta nos olhos dos outros não arde". Eu acho válida a reação do cobrador. Agora acho. Mesmo tendo me feito sentir a erva daninha do jardim, ele tem razão. Por um lado é bom perceber que tem gente que ainda se esforça em ver a cortesia, a bondade. É, é muito bom. Mesmo tendo sido uma acusação inválida, teve fundamento. Mas o bom mesmo é saber reconhecer os dois lados, procurar entender pra poder julgar, e procurar entender pra aceitar o julgamento. Da minha parte só houve o entendimento pra aceitar o julgamento. Da parte do cobrador não houve entendimento nenhum por eu não ter tido tempo de me explicar e explicar que eu não tive a intenção. 

Agora, levando em consideração o ocorrido como uma lição pra vida da gente, é assim mesmo. Quando não achamos apropriada uma atitude, poucas vezes vamos até ela pra tentar entender se foi intencional. Julgamos, condenamos, crucificamos na nossa praça pública pessoal toda e qualquer situação que foge dos padrões éticos pra uma vida em sociedade. Mesmo que um pensamento, uma discordância, uma conclusão, estejam certos, poucas vezes paramos pra pensar se são justos. Não que o cobrador tivesse a obrigação em saber a minha intenção, mas que a maioria das atitudes, das decisões, dos julgamentos diários, pudessem ser melhor analisados. É todo mundo com todo mundo, e nem todo mundo presta atenção. Estar do lado do certo, nem sempre é estar do lado do justo. E ainda que seja uma obviedade, passa a ter mais valor quando é com a gente. Vou levar pra vida.