quinta-feira, 12 de abril de 2012
O banco em frente à loja 23
Eu sempre assisti nos filmes essas pessoas que cruzam uma a vida da outra de repente, sem querer. Se olham, se gostam, e num feixe de inspiração, de vontade de ter alguém, ficam perto, só perto. Fomos nós. Eu te vi do meu lado, num relance. Era você ainda de cachos, de barba e de sorriso bonito. Na lanchonete, beijou minha mão. Te tive perto, só perto. Gostei de ver de novo a minha sacada como palco de algo que finalmente poderia acontecer. Vi a minha árvore de natal muito mais colorida - se é que era possível. Deitei na rede. Três horas. Quatro horas. Você. Você que me deixou saber das suas histórias de infância, você que deu nome pra minha vaquinha de pelúcia - Lulubelle, igual a vaca da capa do disco do Pink Floyd. Eu nem sei se faz sentido, mas aqui, de novo, batendo a minha cachola e me perguntando sobre quem realmente valeu a pena, só consigo pensar em você. No seu jeitinho e no seu rosto lindo enquanto eu te olhava quando estava com a cabeça encostada na mesa. Pensar nas nossas piadas sérias, que a gente ria, ria e ria. A gente foi. Eu sempre costumo pensar nos meus erros, e talvez eu tenha errado, não lembro. Mas de puro, puro mesmo, só você. Você que me disse verdades inconvenientes sobre o que eu ainda queria sonhar, você que me acordou. Eu que te vasculhei, que legendei qualquer das tuas possíveis dores ainda existentes. E nós fomos crianças descobrindo um brinquedo novo: a nossa suposta compatibilidade. E fomos. Compatíveis no signo, compatíveis no dia do seu aniversário, que, mesmo semelhantes a outro dia, conseguiu colorir de novo número 12. Fomos compatíveis nos nossos medos e nas crueldades que nos vitimaram. Eu acho que te amei. É uma grande revelação, sim. Te amei baixinho. Te amei enquanto te observava na fila, te amei enquanto pegava na minha mão e me olhava, sem fazer nada, nada além de me encantar significativamente. Te amei todas as vezes que me ligou sem avisar, te amei sem dizer que te amei. E hoje eu lembrei. Lembrei do que fomos e do que não fomos. O que fomos foi rápido, mas lindo. O que não fomos é eterno, só eterno. E na minha breve lembrança de nossos prós, os nossos contras não foram. Não fomos contra, apenas não fomos pra sempre. Sem mágoa, sem dor, sem rompimento, sem adeus. Deixamos de frequentar um ao outro, sem querer. Sabe o banco em frente à loja 23? Não está mais lá. Lagrimei. Será que se você passar por perto vai reparar? Não sei. Mas sei que ele não está. Não está do mesmo jeito que nós não estamos. Não estou com você pra saber se ela te faz bem. Você não está comigo pra saber se ele gosta das mesmas coisas que eu. Nós não estamos. E no momento em que eu vi a ausência do banco - do nosso banco - eu senti um sopro de tristeza e uma brisa constante de alegria. Não estamos mas fomos. E se fomos, amor, o que seremos não importa. Ainda guardo o bilhete e o seu medo de altura. Guardo a sua doçura, e fiz questão de carregar comigo no bolso da bolsa. Tudo o de bom que você deixou é meu. Espero que você ainda exista, daquele jeito. Do jeito que ainda consegue me fazer lembrar e me acolher no alívio de pensar: "Pelo menos alguém fez sentido. Me fez sentir..."
segunda-feira, 2 de abril de 2012
Recaída
Eu conto pra qualquer pessoa, tento ao máximo detalhar perfeitamente pra tentar explicar o porque de tanto amor, de tanto tempo perdido, e de tanta frustração. Ninguém entende. "Você não viveu. Foi lindo, mas você não sabe o gosto que teria". Compreensível e completamente são. Todos têm razão. É difícil admitir quando até mesmo quem te deu toda uma coleção de sentimentos estimáveis desconhece esse feito. Decepcionante, triste, doloroso. Todos os sinônimos que remetem uma dor de amor no fundo do peito. É sim muito diferente de estar vivendo um relacionamento sério, com cinemas, pipocas e beijinhos na fila da lanchonete. É diferente de passar a tarde vestidos de qualquer jeito, sentados de qualquer jeito no sofá como é comum para vários casais. Por isso é algo totalmente injustificável. Ele não deve saber que eu ainda sofro. Saberia se ainda frequentasse as minhas rede sociais, mas acho muito difícil. Eu não gosto de lembrar dele sempre. Eu sinto muito pelas próximas gerações que vão passar por isso com maior frequência. Você vai tentar contar, vai se ajoelhar na frente de qualquer pessoa para que sintam o mínimo da piedade que você mesmo não é capaz de sentir por você mesmo. O pior é que quando me deparo chorando por ele e manchando de maquiagem borrada a minha almofada nova, sinto muito mais razões pra escrever sobre o que me dói do que quando eu realmente decido escrever a respeito. Ele me dói, talvez eu não saiba dizer e nem apontar as partes do meu corpo e os meus órgãos que se contraem toda vez que penso porque eu sinto vergonha, me perco nos motivos de todo mundo pra eu não ter que me sentir tão mal por alguém que não existiu de fato. Quando eu choro fico louca, tenho vontade de escrever um livro tão triste e dramático pra ele sentir o mínimo de remorso e culpa. Mas daí eu lembro que isso também é acompanhado pela pena e eu me recuso a fazer alguém sentir esse sentimento degradante. É exatamente por isso que travo quando tento me livrar de toda a dor que ainda me faz tentar escrever sobre isso, eu sinto que se ele pudesse ler, em qualquer lugar ou hora, ele sentiria a maior pena do mundo de mim. Eu que amei tanto um cara absurdamente legal e perfeito ao ser encaixado em todos os meus critérios e exigências, vou me contentar com a pena dele? Já não me basta ter visto, ou lido, ele rir de mim e se fazendo de ofendido por eu ter mandado uma carta mal criada ao saber que ele havia dito que tinha medo que eu assustasse o seu novo amor? É, basta. Basta mas ainda assim eu choro, e não por ter perdido ele, que eu nunca tive, pra uma pessoa provavelmente mais legal, bonita, e inteligente, eu choro porque eu amei tanto aquela minha verdade mentirosa que morro de saudade toda vez que lembro do quanto eu conseguia me desligar do mundo quando ele me ligava enquanto dirigia. Eu não consigo sentir tristeza por ele estar com alguém melhor do que eu agora, não consigo me massacrar imaginando todos os beijos que ele dá nela, todos os beijos que nunca foram meus. Fico triste, às vezes, quando penso que ela pode fazer carinho no gato dele, e, mais do que isso, sentir os mesmos carinhos que ele faz no gato. Eu queria ter feito carinho no gato, eu queria ter sido o gato pra sentir os carinhos que ele faz no gato. Então, é, eu lembro toda vez que vejo o clipe da música que ele me mandou, onde um casal brincava do jeito que a gente brincaria nos mesmo lugares que ele foi e disse que queria que eu tivesse ido junto. Eu jurava ser verdade, ele mandou uma mensagem de madrugada dizendo que estava explicando o motivo pra ter pensado em mim tão tarde. O motivo era um sabonete. Será que ele ainda usa o sabonete? Acontece que eu não tenho muitos motivos mesmo pra ter gostado tanto. Pessoas normais vivem uma mesma realidade, simultaneamente. A gente não vivia, a gente planejava um futuro e tudo parecia fazer tanto sentido. A gente se completava nas nossas irrealidades, uma pena foi ele ter decidido ser real tão rápido, e não ter me dado o aviso prévio de que eu também precisava começar a pensar nisso. Ele foi viver a vida real e eu fiquei. Será que ele amou tanto quanto dizia amar? Queria que amasse a nossa irrealidade, que considerasse o fato de que ele me deu motivos pra continuar amando, pois eu considero o fato de que ele não tem culpa por eu ainda estar vivendo o irreal que ele deixou. Não aprendo nenhuma lição com isso, apenas que tudo é tão imprevisível, tudo muda, e esse foi o nosso erro, a gente previu demais o que não tinha a menor chance de acontecer. O meu erro foi que eu adoro astrologia e previsões são sempre muito peculiares pra minha forma de ver o mundo, as coisas. Ele não era assim. Eu sinto falta das conversas, de me sentir do lado dele no carro. Ele não sente falta, ele tem quem vá do lado agora, tem quem esquente seu pé de noite, e aposto que ele força ela a lavar a louça, ou talvez não, já que ele deve estar tão fascinado que nunca permitiria que ela visse uma casa tão bagunçada. Depende da intimidade deles, e eu não consigo imaginar essa intimidade, eu não conseguiria imaginar nem daqui há um milhão de anos. Imagino que eles se gostam e que ela deve divertir ele muito bem. Uma vez ele disse que estava gostando de uns filmes franceses, se não me engano, por causa de uma amiga da faculdade. Com certeza era ela. Consigo imaginar aquele moço que eu amei por ser tão diferente das pessoas comuns e pouco originais que estou acostumada a lidar gostando tanto de uma moça linda, culta, e que gosta de filmes antigos e realmente bons? Na verdade até consigo porque eu duvido que ele se preste a ficar junto de alguém que não tem a alma parecida com a dele. Eu não sei se eu ainda amo, talvez eu ame porque gosto de ouvir algumas das gravações que eu fazia no meu celular, da gente conversando qualquer bobagem. Talvez eu ame porque eu choro de saudades e não de raiva por ele ter sido tão cruel comigo e ido embora sem me falar nada. Eu amo ele porque ele ainda é a única coisa que eu penso quando me decepciono com um romance recente. Penso que com ele seria diferente, porque por mais que ele tenha sido mau e egoísta, eu me nego a acreditar que comigo na sua frente ele conseguiria ser um canalha. E ele conseguiria, mas eu amo tanto que eu sei que por trás daquela capa existe alguém que se sente um pouco triste por ter magoado quem sempre esteve presente e não foi embora nem quando ele realmente merecia. Eu amo e não sei até quando. Talvez eu ame até ver de perto, pra provar que ele não é essa minha fantasia. Talvez eu ame pra sempre, porque eu não quero ver de perto e desfazer essa tal fantasia. Talvez eu deixe de amar quando o meu novo lance resolver assumir que gosta de mim de verdade. Talvez eu tenha mesmo que viver amando ele sem ele saber, só pra não sentir pena de mim. Eu não sei direito se posso chamar de amor, mas sei que eu amo porque eu não penso em destruir a vida dele por ter motivos suficientes pra considerar que ele destruiu com uma parte da minha. É um sábio pensamento, e a gente só aprende quando ama de verdade.
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