sexta-feira, 7 de dezembro de 2012
Descomplicando
Sempre me achei um poço de particularidades indefinidas, de gostos esquisitos, de amores incompreensíveis e de estranhamentos constantes. Mas eu decidi que não quero ser dessa gente que chora e diz que não tem ninguém, que não quer pertencer a ninguém, que desacredita na boa fé de toda a tal da humanidade. Eu quero morrer de tristeza até, quero morrer de nó no peito, na garganta, nos fios de cabelos emaranhados de loucura. Eu quero porque ser triste também tem a sua beleza, ser triste faz você ver o que é bonito com muita delicadeza. Ser triste é bom, muito bom, mas só quando você consegue, no meio de uma sensação tão incompleta de vida e satisfação, distrair pra um riso sincero, pra um olhar querido, pra uma decisão que pode proporcionar uma noite de longos compartilhamentos. Vamos lá, agora, arruma tuas coisas e vamos. Ok? Estou aqui. E saber ser triste - com moderação - se descomplica tão facilmente, tão rapidinho, que vira um fim de tarde bonito perto do rio, numa lanchonete sossegada, tocando "No Woman No Cry" no rádio. E ser triste, quando se descomplica de fato, vira felicidade. Felicidade é a rua estreitinha, são os tropeços, as gargalhadas. E então pra quê caçar a depressão ou um bar com velhos boêmios pra afogar as mágoas num copo de cachaça? Pra quê querer toda hora tentar entender a tristeza que pode viver tão bem guardada, quietinha? Pra enlouquecer todo mundo? Pra fazer pirar quem me ama? Pra fazer pirar a mim mesma? Não! Estou me descomplicando. Se eu chorar e achar que não tenho ninguém, não terei mais nada além do que sei que não tenho. E eu quero ter. Quero sim compor os meus "episódios" de muito desequilíbrio e de muita posição fetal, mas também da efemeridade com que o meu choro se torna uma "cosquinha" de aconchego, de carinho por nada e tudo ao mesmo tempo, de ternura pelos amigos e pelos passeios com o som do carro no volume máximo quando cinco ou seis formam o coral mais bonito já apreciado pela face do planeta terra. E não importa a música, e agora já nem a tristeza. ELA SE DESCOMPLICOU. Evaporou, reciclou, diferenciou, entregou tudo de si pra alegria. E vamos descomplicar a vida, as frustrações e as depressões. Se está aqui agora, vem. Se não está, que venha. Se nunca esteve, virá. E joga essa sorte pro alto, cara ou coroa, escolhe. Escolhe qualquer coisa que o que for pra ser simplesmente é. Ser triste só contribui pra uma poesia, ser feliz é que estimula o complemento da obra. Une-se a poesia à realidades, à irrealidades, às felicidades. A felicidade da nossa tristeza, a felicidade da nossa felicidade, a felicidade da ausência de qualquer tipo de sentimento. Descomplica você, é, você, essa vida de confusão, de amores idealizados e consequentemente furados, largados, cansados. Deixa de correr atrás dessa tristeza pra complicar ainda mais. Deixa de pensar na felicidade que não vem. Deixa disso tudo e faz como eu fiz, faz que dá certo. Faz que os fins de tarde vão ser laranjas e os amigos é que vão chamar pra tomar uma cachaça, não qualquer velho bêbado pra servir de companhia com a desculpa que velhos sempre sabem demais. Amigos que te criticam mas te apoiam e te pedem: "Por favor, não vai sofrer de novo, não vai chorar sozinha. Nem pensa em não me ligar." Amigos que podem não ser muitos, mas tudo. E junto disso mais um monte de coisas que a vida tem e que a tristeza não compra com o dinheiro de uma ou duas poesias fracassadas. Vamos ser tristes mas vamos ser felizes, por favor. Porque por mais que eu admire (e seja) os tristes loucos/loucos tristes que escrevem deliciosamente, nem quero pensar em morrer só e sem final feliz. Vamos descomplicar.
domingo, 2 de dezembro de 2012
O luto nos anos que seguem
A moda agora é ser sustentável, ser ecologicamente correto e etc. Além do parâmetro ambiental, que eu acho corretíssimo e necessário, por sinal, eu decidi aderir a outra sustentabilidade. O sustento emocional, o sustento pessoal, o sustento, apenas. Me manter firme, de pé, não fraquejar. Até dá vontade, quase sempre, de deitar em posição fetal. Aquilo de sempre. Mas e daí, não é? E daí que dói demais isso tudo? Se perder mesmo com um milhão de pessoas ao redor sabendo dar informação. E a vergonha de pedir? Não querer ouvir o certo que todo mundo sabe, inclusive eu. A dificuldade em lidar com a morte, as infinitas perguntas que muitos tentam mas não conseguem e nunca conseguirão responder com plena certeza. Morrer. Como conseguir preservar um equilíbrio próprio quando a vida consegue dar as respostas de tudo, menos a mais curiosa, a mais dolorosa. Se morrer dói eu não sei, mas dói ver anos enterrados em uma memória embaçada. Fechar os olhos e perceber que nenhuma lembrança vai ser real além daquilo que já foi. Perder sempre teve um significado ruim. Perder uma anotação querida que foi guardada com tanto carinho e por tanto tempo, perder um livro, perder um amor pros caminhos que às vezes são contrários. Pois é, mas nenhuma perda se compara a perda que ocorre todas as vezes que a linha tênue entre a vida e a morte se rompe. A falta dói e pra sempre vai doer, mas hoje eu sei que o amor fica. E fica a gratidão, e fica a saudade, e fica a imagem do sorriso, do "eu te amo" dito antes de entrar no carro, do cabelinho curto, dos pezinhos pequenos, das musiquinhas pra dormir. Em dias como esse, e como tantos outros também, o que resta é esperar um reencontro, pedir a proteção e o conforto pra aguentar essa ausência. 2013 será mais triste, como todos os anos serão depois desse que se passa, mas será em paz, será com a memória, será com os novos caminhos que estão sendo iniciados. Obrigada por tudo, fique com Deus, eu te amo eternamente.
Malditos
Maldita indiferença, maldito orgulho, maldito beijo bom.
Maldita cama bagunçada, maldito sono adiado, maldita cabeça que só gira.
Maldita chuva que não cai, maldita manhã ensolarada, maldito dia nublado que nunca chega.
Malditos olhos negros penetrantes, malditos óculos, maldito sorriso.
Maldito cheiro bom, maldito banco inclinado, maldita vontade de ser quem não sou.
Maldita fome, maldita ansiedade, maldita saudade.
Maldito hálito refrescante, maldita boca rosada.
Maldito ponto de ônibus, maldita praça, maldito cinema.
Malditos Muppets, maldito Bruno Mazzeo, maldito Woody.
Maldita carta, maldita almofada, malditas flores.
Maldita poesia, maldita Lucy, malditos Beatles.
Maldito cabelo, maldita mão, maldito converse.
Maldita platonicidade, maldita reciprocidade, maldita infelicidade.
Maldita lua, malditas luzes de natal, malditas ausências.
Malditas mangueiras, maldita paixão, malditos gostos compatíveis.
Maldito Caetano, maldito Chico, maldita afinidade pela Bossa, pela Tropicália, pelo Samba.
Maldita fuga, maldita ligação, maldita mentira.
Maldita amizade, maldito companheirismo, maldito atraso de amor por mim.
Maldito tapa na cara, maldita verdade, maldito conselho pra eu procurar um analista.
Maldita distância, maldita falta da casa de uma amiga pra correr, malditos colonizadores.
Maldito desvio de septo, maldita rinite, maldito nariz entupido.
Maldita valsa, maldito vapor, malditos lençóis.
Maldita falta de dedicação, maldita preguiça, maldita involução.
Maldita Clementina, maldita lembrança, maldito brilho.
Maldito choro, maldito medo, maldita obsessão.
Maldito número que eu não consigo apagar, maldita mensagem, maldito caso.
Maldita agonia, malditos amores, maldito futuro.
sexta-feira, 30 de novembro de 2012
Infernizando
Hoje a Denise me mandou uma mensagem (uns textos, na verdade, como já é de costume) dizendo que faz um ano que ela encontrou um moço na rua e disse que ia casar com ele. Moço esse que desde então é o seu namorado. Disse que há um ano atrás as coisas que aconteceriam nem passava pela sua cabeça. É, amo a Denise e amo fazer parte e saber de tudo o que aconteceu ao longo desse ano. A única coisa que eu odeio é a minha permanência. Sim, pois eu estou aqui, pensando sobre a minha vida as mesmas coisas que eu pensava na época que ela conheceu o Diego. Estou aqui com as mesmas fragilidades, os mesmos medos e as mesmas saudades (infelizmente). Saudade de você, é, de você mesmo. Agora estou chorando feito uma criancinha e de um jeito que eu não fazia faz tempo. Sim, porque, sabe, eu conheço muita gente que me agrada mas nenhuma (absolutamente NENHUMA) consegue me atingir de perto do jeito que você - seu maldito - me atingiu de longe. E sim, dói pra caramba reconhecer que, de novo, eu acabei com mais uma possibilidade de relacionamento. Me dói porque, olha, eu também quero ser feliz, juro. Eu ainda tenho os mesmos sonhos de ficar com alguém pertinho, do lado, sem precisar falar nada. Eu ainda sonho igual eu sonhava ano passado, e, é, isso também é motivo pra descontentamento, pra aflição, pra dorzinha chata, pra lágrima que cai sem pedir permissão. Eu quero que o tempo passe e leve junto tudo o que não vai mais se fazer real, que leve meus sonhos antigos e me traga sonhos novinhos em folha, cheirando a livro recém comprado. Eu quero ser feliz de verdade, e todas as vezes que a Denise diz que tem alguma coisa muito boa me esperando é difícil acreditar. Sou nova, eu sei, mas tem um monte de coisas por ai, um monte de caras fúteis que querem me transformar em alguém tão fútil quanto, capaz de sair sem pensar nas consequências, e pior: sem sentir nada. Eu não sinto, e tenho pavor disso. Pavor desse meu não sentir, dessa minha garganta seca, desse meu coração que quase não acelera. Aparece uma pessoa nova aqui, uns beijinhos, uma paixãozinha ilusória, mas não me afeta. E Deus, como eu quero ser afetada. Ser levada, ser encantada. Porque eu nunca mais consegui pensar em ninguém pra me levar em qualquer restaurantezinho com luzes bem simples espalhadas, com uma toalha de mesa quadriculada, um arranjo de centro com uma flor sozinha. Porque eu nunca mais me senti completamente tranquilizada, sem que as minhas péssimas perspectivas pro futuro me atormentassem. Esse texto não é sobre você, ou, pelo menos, eu não queria que fosse. Mas na verdade devo assumir pra mim essa fraqueza, essa eterna fraqueza. Porque eu reconheço que não sou mais nada, que nunca fui, mas que pra mim sempre vai ser. E se eu me contentar com qualquer pessoa que aparecer só pra não ficar curtindo a solidão no fim da minha vida, sentada numa cadeira de balanço e imaginando o quanto você foi feliz até ficar velhinho, vou viver com essa pessoa e acordar do lado dela, mas me perguntando todos os dias como teria sido se fosse você. E se eu encontrar alguém que supere isso que eu acho que ainda não consegui superar, vou te esquecer até nos meus piores momentos (como agora), vou te esquecer quando eu brigar com esse alguém, quando esse alguém me magoar, porque o amor que eu vou sentir por esse alguém vai conseguir superar esse amor que eu senti por você. E juro, mamãe diz todo dia que eu mereço encontrar esse alguém. Ela diz que eu sou meiga, simpática, autêntica e contagiante, ou seja, quer dizer que eu tenho um lado minimamente aceitável e casável. Ela me diz isso porque quer ter netos, e vai ter. Segundo ela, o pai vai ser o grande amor da minha vida. Não vai ser você. Mas antes desse grande amor aparecer (que por sinal está demorando um pouco, e já podia agilizar esse aparecimento) eu vou lembrar de você. Vou lembrar sim, todas as vezes que um relacionamento der errado e eu saber que nem amava essa pessoa, que nem daria certo mesmo. Vou lembrar de você e te desejar tanto bem, mas tanto que você nem imagina da minha capacidade de poder sentir isso por alguém que já nem se lembra, que já nem sente. Mas vou desejar, porque, como disse uma pessoa muito especial, a gente sabe que é amor quando consegue ignorar as coisas ruins pra lembrar das coisas boas. Não sei bem explicar essa lembrança, porque ela não se faz legível na minha memória, ela só se faz "sentível". Lembro do que eu senti, e fico feliz, e me acolhe, e eu guardo. E eu peço pra você ser feliz, e pra eu ser feliz também, aqui. Não que eu precise de alguém pra me fazer feliz, porque, sabe, eu sou, muito, bastante, mas nas minhas outras vidas, na minha vida social, na minha vida familiar, etc. Não sou feliz aqui, óh, com o coraçãozinho, porque ele sempre se depara a uma tentativa frustrada de bater depressa de novo, de dormir aconchegado no bom que é ter um sentimento, mas depois desilude e se volta pra você. É como se ele me dissesse: "Desculpa, eu sei que você não gosta, eu sei que você não quer, mas foi ele, foi ele que me fez disparar, mesmo ser ter chegado perto de mim, foi ele que me fez querer ser vomitado por você, ser entregue pra ele sem pensar duas vezes. Por favor, me arrume alguém que me faça esse bem de novo, porque senão eu sempre vou olhar pra ele, bater por ele". Se meu coração bate por você eu não sei, deixei de reparar nos batimentos dele desde quando ele bateu por alguns gatos pingados que não queriam nada além do mais do mesmo, sem graça, só com aquela ambição maldita que todo homem safado tem. Mas eu sei, eu sei que é isso. Que eu vou achar sempre a minha cidade linda só não tanto quanto eu achava quando imaginava você nela de novo. Que vou achar sempre que o responsável pela nossa singela e sutil existência criou poucos exemplares de você, e que eu não queria outro igual, eu só queria um exemplar que tenha copiado timidamente algumas unanimidades suas. E que um dia eu consiga, de novo, o que eu consegui naquela época, e que eu pare de andar por aí te vendo nas nucas, nos óculos. E que, por favor, o grande amor da minha vida, chegue logo! Eu estou começando a me sentir uma psicopata por ainda pensar em você.
sábado, 17 de novembro de 2012
As minhas particularidades nunca reveladas
A sensação de não ter uma música que preencha, nenhum texto que emocione. A mordaz incomodação de me sentir sem sentimento. Ontem eu passei no vestibular e, enganada, achei que sairia essa coisa chata que eu carrego comigo, essa insatisfação, essa incongruência com as coisas que eu vejo por ai. Antes eu tinha a maior sensibilidade do mundo, os pingos de chuva no asfalto me comoviam, as janelas me atingiam. Por notar a passagem das coisas, da água no asfalto, da paisagem se modificando, da janela ali, entreaberta porque alguém abriu pra ver o movimento, pra ver o que é sempre igual mas diferente nas posições, nas presenças. Coletar esses detalhes em mim era magnífico. Imaginar milhões de possibilidades de evasão pra um único cenário indiferente, imperceptível e nunca captado por quem passa. Nunca reparado. Agora eu estou aqui tumultuada por ter, de novo, me sentido um pinto molhado e abandonado quando me trataram como se eu fosse qualquer coisa sem valor, sem educação e sem o zelo dos pais. Rezando pra que o Caio saia do aniversário do amigo dele e me dê um "boa noite" só pra eu me sentir um pouco mais acarinhada, coisa que eu sei que ele não vai fazer. Eu queria que ele fizesse porque até uma caretinha irritante vinda dele me agrada, porque em meio a toda essa gente suja, que liga só quando quer uns beijos e uns amassos, o Caio diz que sonhou comigo e depois não me conta o sonho, me fazendo morrer de duvida entre a possibilidade de ter sido um sonho lindo ou estupidamente insignificante. Porque ele, mesmo muito diferente do que já foi um dia, consegue me tranquilizar, me deixar com uma esperançazinha de que eu ainda posso gostar de alguém, conversar com alguém sobre qualquer assunto bobo. A Renata acabou de me dizer que tudo o que me acontece de ruim só acontece porque vai fazer com que fique um pouco mais trabalhoso algo me atingir depois, me deteriorar. Talvez seja isso mesmo, talvez a gente se deteriore, mas se melhore e se reconstrua, reinstaure. Porque eu detesto ter que admitir a minha fraqueza por me encontrar com gente mais fraca ainda e ficar, no fim das contas, me sentindo contaminada por um toque desprezível e puramente carnal, que não significa nada além de confirmar que essas coisas do corpo são muito fúteis em relação às coisas da alma, porque as coisas da alma são filtradas e absorvidas e utilizadas, enquanto que esses encontros patéticos servem pra dar o maior desgosto de ter atendido ou ter ligado, de ter topado, de ter entrado em um carro sem o meu cheiro, sem a minha frequência. Porque eu não vou mentir, tô de saco cheio! Cansada de me apegar às cinzas do Victor quando a porra da vida tá amarga, quando eu sinto nojo dessa minha realidade e dessas minhas atitudes superficiais. Porque o pouco que eu me lembro do que eu sentia por ele é exatamente o que não existe mais desde que eu parei de me tratar com a prioridade de antes, com o cuidado de antes, com aquela coisa que eu tinha, de só aceitar se fosse do meu jeito, com os meus requisitos, com a poesia, com a música boa e com as mãos bonitas. Deixei de lado isso tudo pra "viver", como eles dizem. Como o Neto disse que me ensinaria e não me ensinou nada além de que homens são muito mais cruéis em carne e osso do que quando estão do outro lado da tela do computador, do outro lado do país. Eu quero as minhas prioridades de novo, a minha precisão em encontrar coisas agradáveis pra ler e escutar, a minha vontade de me arrumar e sair pra qualquer lugar, pra assistir qualquer filme água com açúcar desde que seja em boa companhia. E por falar nisso, espero que o Caio não arrume algo melhor pra fazer amanhã do que assistir Atividade Paranormal comigo, por mais que eu ache que não é muito difícil ele arrumar algo melhor pra fazer. Mas se por acaso der certo, ele tá lascado, porque eu vou dizer pra ele que passa a ser responsabilidade dele me tirar daqui, de mim. Porque só pra ele eu diria "me leva pra onde tu quiser" quando perguntasse pra onde eu quero ir. E decidi, nunca mais digo isso pra qualquer um dos meus casos sem paixão, eles nunca sabem pra onde me levar.
sexta-feira, 2 de novembro de 2012
Remexendo aquele baú cheio de ácaros
Ontem eu pensei em ti, coisa que eu não fazia faz tempo. Fiquei me perguntando se ela faz bom proveito de te ter bem perto. Se ela te acorda com beijinhos no pescoço, como eu quis fazer naquela época. Hoje não me dói mais o fato de tu ter preferido uma felicidade real a uma coisa inventada, impossível. Talvez me orgulhe essa decisão, talvez me represente. Percebo que eu faria o mesmo, por mais que te amasse, que tenha sonhado durante muito tempo te ter do meu lado, na minha frente, na minha vida. Encontrei uns registros que eu tinha organizado pouco antes da gente deixar de se saber completamente. Achei meio exagerado, mas isso não me fez ignorar o que senti quando dissemos tudo aquilo. Hoje somos diferentes, eu sou diferente, e tu também, de um jeito que eu nunca vou saber. Faz mais de um ano que não faço ideia de como tu estás, se ainda desenha, canta ou escreve. Se ainda consegue surpreender as pessoas como me surpreendia, com coisas únicas que só poderiam sair da tua cabeça. A ultima notícia que tive foi sobre a morte do teu gato. Fiquei triste, mas pelo menos foi ele ao invés de ti. Gatos se afeiçoam demais aos seus donos, ele ia sofrer com a tua morte, do jeito que eu sofri. Atualmente não me lembro mais da dor, do choro, de nada. Lembro que eu pensava como seria a minha vida sem a tua "presença", e era desesperador. Não foi. Mas sem dúvida tu marcou em mim muita coisa nova, muita coisa que eu não era. Hoje me sinto como aquele rapaz que chega tarde, que faz o jantar, que limpa a casa, que se preocupa com o futuro (ou não), que faz alguma coisa, todos os dias, e ainda assim se sente meio incompleto, confuso, virado do avesso. Essa é a minha interpretação do que tu era. Não sei se tem fundamento, mas é. E agora me sinto um pouco tu. Amor é uma coisa muito subjetiva mesmo. Eu te amei. Sei lá, ainda te amo. Todas as vezes que eu for te procurar dentro de mim vou lembrar que te amo. Te procuro em mim quando a minha realidade dói, quando um namoro acaba, quando eu sinto medo, insegurança, aflição. Porque era muito melhor sentir tudo isso por ti, que não ia chegar, que não me faria sofrer nada além do fato de não chegar, de não ser meu. Parece até meio contraditório pra quem lê - mesmo sabendo que ninguém vem por aqui além de mim - ver a minha declaração para outras pessoas lindas que fazem parte da minha vida de um jeito muito mais intenso do que tu fizeste e mesmo assim ainda escrever sobre ti, e escrevo. Escrevo porque não posso te escrever, porque acho que perdi a tua carta junto com o endereço, e mesmo se ainda a tivesse, jamais te demonstraria a minha fraqueza quando tu és o assunto. Obrigada por não lembrar mais de mim, por ignorar que eu fiz parte da tua vida por um curto espaço de tempo já que agora vive mais feliz, mais realizado e melhor acompanhado. Porque, sabe, pensando bem, mesmo se tudo tivesse dado certo, eu seria uma péssima companhia. Eu gosto de roer as unhas quando estou nervosa e isso é muito feio, gosto de falar alto, rir alto, e implorar atenção. Tu odiaria. Não sou intelectual e tanto faz pra mim tudo o que tu sabe, toda essa amplitude de conhecimentos que te pertencem e eu não almejo porque sempre amei muito mais as tuas originalidades, as tuas músicas, os teus sorrisos e os teus sabonetes fabricados aqui (ainda não consegui me livrar da mania de ir sentir o cheiro do phebo odor de rosas todas as vezes que eu vou ao supermercado por mais que eu saiba que é bem provável ter sido mais uma das tuas estratégias infalíveis pra conseguir fazer com que eu ficasse muito mais boba apaixonada do que eu já era). Enfim, é isso. Na essência, eu sou a mesma. A mesma moleca que tu nunca conheceu, a mesma pessoa que sente saudades do que nunca viu. Colecionei amores depois que tu foste embora, amores lindos, que estão crescendo aqui cada vez mais e que eu posso viver, do jeito que tu vive o teu. Obrigada por ter aperfeiçoado minimamente o meu gosto musical, entre outros. Obrigada pela gravação de uma conversa nossa no meu celular, que me faz muito bem todas as vezes que eu ouço porque me lembra que tu não foste um erro e sim uma singularidade abstrata que só aparece uma vez na vida de uma pessoa, e às vezes nem aparece. Então agora, oficialmente, fique com o adeus que eu nunca te dei, e com os desejos de felicidade que eu nunca pude te mandar porque estava ocupada demais te odiando...
sábado, 20 de outubro de 2012
Catarse
Vamos viver. Vamos, vamos! Vamos fugir e voltar às onze, sem que ninguém saiba onde nós estávamos. Vamos inclinar os bancos do carro para trás, visto que é bastante útil na falta de uma cama. Vamos não nos importar com a falta de amor ou com o relacionamento meio morno. Vamos fugir, baby. Estacionar em qualquer canto, beijar do jeito que a gente gosta. Sentir os nossos cheiros se misturarem, oscilar sorrisos e respirações ofegantes. Vamos aproveitar. Ela é uma só. Ela vai chegar no fim, e quando chegar nós não queremos o embalo da cadeira de balanço sendo motivado por um arrependimento qualquer. Vamos dizer sim! Dizer sim pro: "Posso te pegar às oito?", dizer sim pro: "Sábado a noite, tudo bem pra você?". Vamos brindar à vida, meu bem. Vamos não saber pra onde ir. Vamos, apenas. Vamos nos beijar no intervalo do sinal fechado. Vamos, sem nos preocupar. Vamos cantar bem alto. "I drove for miles and miles, and wound up at your door". Vamos não nos amar. O amor piora as coisas, ele atrapalha e faz a gente perder tempo. Vamos nos encontrar quando der vontade, sem dificultar. Vamos rir da nossa insanidade e morrer de culpa depois, porque pode ser que essa insanidade machuque alguém. Mas vamos. Vamos transformar em arte final os nossos rascunhos de tempos atrás. O rascunho das escadas, da saída de um show. Vamos ser amigos, amantes. Vamos continuar sendo polos opostos atraídos ocasionalmente, propositalmente, intencionalmente, deliciosamente. Vamos esquecer os casacos, as pulseiras e os nossos problemas. Vamos ser a matemática, a física e as línguas. Vamos dizer que não podemos demorar muito e mesmo assim ficar até além do horário definido. Vamos nos encontrar em público e nos comportar como se nada acontecesse, como se fossemos colegas que não se veem quase nunca. Vamos nos ver sempre. Vamos lembrar das pedrinhas jogadas na janela, das ligações inesperadas, e dos toques inigualáveis. Vamos nos livrar das alianças, pelo menos enquanto estivermos juntos. Ela é uma só. Ela não pode esperar. Vamos, que o mundo fica bem mais divertido.
segunda-feira, 3 de setembro de 2012
Registro
Um dia eu vou te falar, meu bem. Vou te falar o quanto a tua presença me corrói. O quanto te ver me causa um rebuliço inexplicável. Vou te dizer o motivo e perguntar o porquê. Por que te olhar me dá uma explosão interna de um tamanho que vai daqui até a cidadezinha mais insignificante do mundo? Um dia eu vou te dizer que a tua vozinha serena é tudo que eu sempre quis sussurrando aqui ó, no meu ouvido. Sabe lá o que me dá, sabe lá o que Deus te deu pra conseguir invadir assim o meu coraçãozinho tão inexplorado. E já faz tempo demais, moço. Há muito tempo (mais precisamente no momento em que entraste por aquela porta, com uma camisa azul, se não me engano) eu te vejo assim parado, com as mãos no bolso olhando o mundo com esse teu olhar ai, querendo te pegar no colo e descobrir o teu cheiro. Eu já consigo não tremer quando estou bem pertinho de ti, já consigo te olhar nos olhos por mais tempo e já superei até meu medo de dizer bom dia. Só não posso ainda te falar do meu apresso, da minha vontade reprimida de dizer que, por algum motivo, me encantei. Um dia eu vou te contar que quando falaste comigo pra saber do livro que eu tava segurando, um terremoto se fez dentro de mim. Erupções vulcânicas e todas as catástrofes naturais em um só corpo, por tua causa. Um dia eu vou dizer que, por mais que eu não seja nada, nada do que eu imagino que tu queira colocar no meio dessa tua quietude, eu te amo. Te amo platonicamente e não me envergonho. Só queria te ver sorrindo de novo, só queria não ser tão indiferente pra ti. Eu queria saber dos teus amigos, dos teus amores, dos teus costumes, da tua música, da tua família, das tuas saudades, dos teus versos, dos teus óculos, do teu cabelo, do teu sorriso tão tão lindo. Eu só queria você, um pouco mais do que já tenho. Muito mais do que já tenho. Um dia eu vou dizer, sei lá que dia. Digo agora, tudo isso, só pra registrar a intensão. E se, por acaso, antes desse dia chegar eu sucumbir por dentro, me desintegrar por causa dessa loucura que é te querer, pode vir aqui, e ler. Mesmo num universo paralelo, longe do cosmo, da via láctea, do sistema solar, ou escondida num buraco negro bem distante da nossa galáxia, meu sonho sempre vai ser você.
sábado, 18 de agosto de 2012
sábado, 11 de agosto de 2012
Eu só preciso me perder mais, de vez em quando
Fiquei sentada vendo a minha rota se afastar e não me desesperei. Pensei: "Que bom. Que me leve pra bem longe daqui". E levou. Ri do meu descompasso, da minha distração. No caminho já diferente do destino inicial, encostei a cabeça na janela, - com o tremor do ônibus fazendo minha cabeçabater no vidro deixando meu drama menos dramático - e me veio o antigo costume de pensar pra onde eu realmente queria estar indo. Diferente das outras vezes, eu não sabia. Eu só queria continuar ali imaginando os exageros com que eu iria repassar a história sobre o que aconteceu quando subi no onibus errado. Algo como: "E veio um assaltante, apontou a arma pra minha cabeça, levou todo o meu dinheiro e o meu cordão paz e amor". Ou: "E então apareceu um moço muito mal encarado e sentou do meu lado, querendo me alisar. Saí correndo, desci num bairro estranho, e lá tentaram me sequestrar pra fazer um tráfico com os meus órgãos. Nem sei como consegui escapar". Sim, eu fiquei pensando nisso, e dei risada sozinha outra vez. Eu sei me divertir comigo mesma. Como ninguém me daria ouvidos, fui pensar em outra coisa. Pensei em descer em qualquer lugar pra ver se algum lugar se encaixava em mim. Até me enchi de coragem pra puxar a cordinha, porém eu ficaria muito assustada caso as minhas mentiras imaginadas virassem realidade. Vai saber, né? Então decidi controlar a minha vontade permanente de me encaixar, de me encontrar. Continuei. Eu não queria achar o caminho de volta pra casa, mas precisava. Pensei: "Uma hora ele vai voltar pra onde veio, e eu vou descer bem onde eu subi". Até que lá pelas tantas chega o fim da linha. O fim da minha linha já chegou faz tanto tempo, só naquele momento que pôde, finalmente, se fazer literal. Tive que voltar. Voltar pra esse não sei o que. Que nasce não sei onde, vem não sei como e dói não sei porquê. Cheguei nem sei como no lugar que minha distração tentou me desviar. Depois de imaginar outras inúmeras utopias no ônibus certo, e de estar atrasada umas duas horas, subi aquelas escadas, conhecidas por terem como ofício principal me lembrar um dia ruim. Fui atrás do compromisso talvez já adiado. Cadê? Não estava. Ao descer pelas mesmas escadas, senti a tristeza do mundo sobre as minhas costas, e o barulho da sandália nos degraus de mármore se assemelhava a bombas atômicas explodindo dentro da minha cabeça. Sentei. Chorei. Chorei porque pensei na agonia de não caber em nada e de nada caber em mim. Chorei por me demorar sempre, por nunca estar ao mesmo tempo que alguém. A essa altura a ausência do meu celular se deu como empecilho. Eu queria a minha mãe. Não pude fazer nada. Não tinha ninguém, e o meu pânico de desconhecidos jamais me permitiria pedir um celular emprestado. Fui atrás de outro ônibus. E, ora vejam só, mais um ônibus errado. Antes de ficar distante outra vez, saí. Eu nunca fiquei tão sem saber pra onde ir, mas fui. Pouco importava o norte, pouco importava o sul. Por mais que tenha havido um instante de extrema bravura, logo recordei do meu medo de tudo, do meu medo de estar em meio a tudo. Um... dois... três... quatro... cinco. Cinco quarteirões até eu decidir se ia pra casa ou continuava andando reto - visto que ir pra minha casa necessitava que eu dobrasse a esquerda. Continuei reto e cantarolei baixinho: "Quando eu te vi fechar a porta, eu pensei em me atirar pela janela do oitavo andar..." E de repente me dei conta, sem querer, que estava na rua de um grande amigo meu. Ao me aproximar o avistei, sentado na calçada, junto com a família que eu adoro. Abracei. Liguei pra mãe, pra avisar que eu estava bem. Ela sabia. Eu fiquei. Deitei no ombro do meu amigo. O ombro me coube. E agora, já em casa, refleti sobre o dia turbulento e cheguei à conclusão: às vezes a gente complica o nosso encontro com o lugar que nos pertence, quando, no fundo, sabemos exatamente onde ele fica, só precisamos nos perder um pouco pra chegar lá.
quarta-feira, 8 de agosto de 2012
Que seja...
Juro que já consigo lidar com a minha indisciplina, com as minhas indecisões. Já consigo acompanhar uma rotina incansável e me sentir satisfeita no fim do dia. Satisfeita, mas não feliz. É que bate, às vezes, aquela dorzinha de costume. Aquela coisinha me lembrando da falta de ser feliz. Então eu penso, repenso, tripenso em você, que tão recentemente tem me cativado e me feito sentir "cosquinha" no coração quando pede pra eu não ir embora. Eu queria que você pudesse saber que eu estou me apaixonando, que eu estou gostando de ver você fazendo questão de mim. Eu quero alguém pra ficar direito, pra guardar uma flor bonita dentro de um livro e achar ela com as marcas do tempo anos depois. Alguém que esteja comigo ao guardar e ao achar a flor. Alguém que ache isso bonito. E eu sei, você acharia bonito. Você é bonito. É correto, é honesto, é sensível e ninguém vê. Eu vejo. Eu vejo a sua vontade de ter alguém, igual eu. E eu queria te falar que estou aqui, que a gente podia unir essas nossas coincidências. Não posso. Não sei porque desde sempre, por algum motivo, ficar perto de você me causa um certo rebuliço. Porque você sorri tão lindo? Porque você tem que gostar do meu papo e aparecer quando eu peço pra aparecer? Porque desde já me dá um medo enorme de te perder? De te perder pra alguém, pra vida, pro trabalho, pro acaso. Medo de não poder mais rir das nossas piadas e das nossas conversas que duram pra sempre. Medo de você não ser meu, mesmo sabendo que é tão difícil. Eu quero é te olhar direito e dizer que eu sempre quis você. Alguém como você. Eu quero fazer parte da família que você planeja. Eu quero ser nora da sua mãe, porque eu adoro ela. Eu quero que você seja o genro da minha, porque ela torce pra você gostar de mim desse jeito que eu estou gostando de você. Que você esteja aqui. Que eu não me engane. Que a gente possa ser tudo isso que a gente quer de alguém. Que você venha sempre correndo quando eu disser que vou dormir tarde. Que você continue na minha madrugada. Que a gente continue. Que a gente se encontre. Que a gente se beije. Que a gente fique junto e sinta tudo o que a gente diz gostar de sentir. Que seja você. Que seja.
segunda-feira, 16 de julho de 2012
Mais um fato vergonhoso
Já faz muito tempo e eu ainda não te esqueci. Sim, é uma burrice, eu concordo. Talvez seja porque eu pude ser eu, uma vez. Pude falar tudo o que eu falaria sendo exatamente quem eu nasci pra ser, pude querer exatamente tudo o que eu sempre quis, e sonhar igualmente tudo o que eu sempre sonhei, mesmo sabendo dessa coisa de nunca ser verdade. Eu ainda lembro do teu jeito e, mesmo sendo uma grande estupidez, isso acontece ainda com certa frequência. Já desisti de tentar me proibir, de tentar dizer não às saudades que insistem em se fazer permanentes, seja lá por qual motivo. E hoje, excepcionalmente, eu precisava falar dessas saudades, fora as tantas outras que guardo. Dizer que esquecer, de fato, só vou quando eu encontrar qualquer coisa capaz de fadigar as minhas vísceras, instigar meu nervosismo inquietante, e conseguir me tirar o sono. Eu preciso do mínimo daquela insegurança, daquela certeza enganada pra ser feliz de novo. Eu fui feliz em um tempo tão ínfimo, e fui feliz tão sozinha. Eu queria mesmo é continuar sendo feliz daquele jeito, sozinha ou não, praticando da ingenuidade que rodeava a minha alegria ou não, mas ser feliz, apenas. Eu até tentei otimizar as minhas novas escolhas como sendo melhores do que qualquer erro. Mas é que aquilo não foi erro, nem acerto. Só não foi. E nunca vai ser. Só precisei dizer, hoje, que não esqueço. Nos lugares por onde passo, na praça mais bonita da cidade, nas besteiras e nos encantos que me acostumei a te ver e me esqueci de desapegar, ainda lembro. Você nunca vai saber que é você. Que é você que vez ou outra me faz olhar pro nada mesmo quando estou no meio de tudo. Que é você que ainda aparece nos meus sonhos. Quanta besteira sonhar com você. Quanta besteira te ver jogado num sofá, enquanto eu, sentada em uma mesa com a perna suspensa pela cadeira, fico te ouvindo falar de coisas que talvez nem me interessem pelo que são e sim pelo fato de ser você falando a respeito. Só te ver falando. Te ver cantando, tocando violão. Bobagem. Mas eu lembro. É vergonhoso demais, mas eu lembro. Lembro sem querer lembrar. E, às vezes, como eu queria poder delirar durante um milésimo de segundo que você também lembra de mim. Não posso, nunca vou poder.
sexta-feira, 13 de julho de 2012
Sonho sonhado pra ele
Era uma casa grande, bonita. Lembro de me sentir bem porque era a casa de alguém que eu amo muito em segredo. Então eu subia as escadas com a intenção de observá-lo dormindo. Ao chegar no andar de cima me deparava com várias portas fechadas, e ficava nervosa porque eu não fazia ideia de qual seria a do quarto dele. Eu fui brechando uma por uma, com todo o cuidado do mundo. Quando cheguei na ultima percebi que estava apenas encostada. Empurrei. Ao entrar não vi cama, apenas um armário. Fiquei olhando para os detalhes, porque se fosse dele eu saberia, exatamente como eu sei tudo sobre ele, sem ele saber. Toquei nas roupas, nos livros e em uns cds que eu vi jogados pelo chão. Sim, só podia ser o quarto dele, era tudo o que ele gostava. Andei mais um pouco e encontrei a cama que eu tanto procurava. Vi alguém dormindo. Não, alguém não, "alguéns". De repente, que susto! John Lennon e Yoko Ono? Sim, os dois. Deitados e pelados - nem me surpreendi com a presença deles porque se tratando dele, John e Yoko só estavam me fazendo o favor de deixar tudo mais particular, mais a cara dele. Logo o astro do Rock falou comigo, e falou como se soubesse quem eu estava procurando. Eu não lembro o que ele disse, mas apontou pra algum lugar e eu sai de pressa. Eu não queria que o meu amor soubesse que eu estava ali, o plano era ver ele dormindo, só. Ele nunca poderia saber. Então desci, encontrei a família reunida numa cozinha. John e Yoko já estavam lá - ainda pelados. A mãe dele - ou quem imagino que ela seja - olhou pra mim como se me conhecesse e perguntou se eu o tinha visto. Eu disse que não, meio sem graça. E saí. Quando voltei em frente a escada vi que alguém estava descendo. Outro susto. Não era ele. E então esse tal alguém me cumprimentou, e foi em direção a cozinha. Eu só conseguia pensar no quanto precisava sair de lá. Corri até a porta, me sentindo como uma criança que faz travessura e só quer sair ilesa, sem levar nenhum esporro. Mas quem me daria esse tal esporro? Ele, claro. Que parece não gostar do apreço oculto e ao mesmo tempo expressivo em cada olhar que dirijo a ele. Diria pra eu sair de lá e que ele não gosta de mim e nunca vai gostar. Pensei tudo isso no sonho. Pois é, depois que consegui sair da casa eu me vi correndo e chorando numa calçada com árvores plantadas a cada dois metros de distância uma da outra. E enquanto eu corria ecoava na minha cabeça: "Ele não gosta de mim e nunca vai gostar. Ele não gosta de mim e nunca vai gostar". Depois encontrei a casa da minha avó. Eu tinha que passar por muitos obstáculos pra chegar onde eu queria. E, ainda chorando, encontrei um quarto vazio e me tranquei lá dentro. As paredes eram de chuvisco de tv. Eis então o momento mais real do meu sonho: eu deitei numa cama, olhei para a porta também de chuvisco e pedia para ele aparecer. Como se nada mais fosse realmente verdade, como se eu soubesse que tudo até então era coisa da minha cabeça e por ser coisa da minha cabeça eu podia imaginar o que quisesse. Pedia pra ele aparecer, pedia pedia pedia e nada. Então fechei os olhos, no sonho, já cansada de não conseguir vê-lo, e quando abri já era a porta do meu quarto real e a minha mãe gritando que já era hora de acordar. Que frustração. Mais um sonho sonhado pra ele em que ele faz questão de não aparecer.
Lápis cor de insatisfação
Passar os dias tentando encontrar um lugar confortável na casa, na cidade, na minha cabeça. É complicado. Nada mais me suporta, nem a pia da cozinha, nem a área de lavar. O meu quarto já não é mais o melhor lugar do mundo e a sala já não me faz ficar tranquila como antes, como quando eu passava noites deitada no sofá pensando que nenhum lugar no mundo além dali poderia me deixar verdadeiramente feliz. Agora eu não enxergo, não vejo, não me encaixo na minha própria caixa. Antes era um conjunto, agora eu gosto muito mais das coisas individualmente. Gosto do sofá, não gosto da sala. Gosto da tv, não gosto do quarto. Gosto da marchinha de carnaval lá fora, não gosto da rua. Gosto de escrever, não gosto de terminar. São tantas ideias guardadas no meu rascunho. Era muito mais simples gostar de tudo junto...
Em um dia qualquer de Fevereiro
quarta-feira, 4 de julho de 2012
Gildinha
Entre os encantos do mês, entre as maravilhas que pairam sobre o seis antes tão esperado e cobiçado, esse ano surpreendeu. A fantasia dos estalinhos e das músicas alegres, que geralmente falam sobre pular fogueirinhas, não aconteceu. Mais do que qualquer dor de amor adolescente ou de dedos mindinhos surrados pelos cantos de móveis dispensáveis, esse ano o Junho doeu. Doeu a perda. E não foi qualquer perda. Ela se foi. Ela que há 17 anos me fazia feliz sempre ao chegar cantando uma música de autoria própria e de letra sem nenhum significado aparente. "Ticabocobocobocoboco". Ela que tinha os cabelos mais lindos e lisos e curtos e quase ruivos. Ela que adorava dizer: "Ana Carolina, pára de roer unha" ou "Ana Carolina, não anda descalça". A única que fazia valer meu nome composto. Ela que sempre foi um anjo com aquelas mãos delicadas que jamais revelariam a sua verdadeira idade. Ela: esotérica demais, tagarela demais, cartomante demais e ela demais. Ela só sendo ela, com aqueles passos inquietos que oscilavam entre a cozinha e a sala quase que a tarde toda. Ela, minha avó. Eu perdi, nós perdemos. Foi embora, não volta mais. Minha primeira perda pra morte. Ah, é, dói. Dói a saudade. Dói querer ter dito e não poder mais dizer o quanto eu amo, o quanto eu sempre amei aquele jeitinho afoito e apressado. E eu até achei que eu soubesse o que é de fato sentir saudade de alguém. Eu não sabia, agora eu sei. Sei que é muito mais que uma nostalgia. É querer alcançar o inalcançável, é a agonia de nunca mais poder ver, ouvir, ou falar com quem se ama. Tá doendo te perder, Gildinha. Vai doer até o fim da vida. Vai doer até quando Deus decidir me fazer te ver de novo. Até quando eu puder me abaixar pra te abraçar forte, como nunca fiz e me arrependo. Vai doer ver teus óculos quando eu não aguentar mais de saudade. E já dói, constantemente, quando olho pro teu anel na minha mão. Ele ficava tão mais bonito no teu dedinho. A senhora era bem mais do que uma avó com todos os cuidados típicos, era a nossa mãe. Mãe da minha mãe, além de nora. Mãe dos meus irmãos e da mãe deles. Mãe dos teus sobrinhos, das tuas amigas. MÃE do meu pai. E que falta uma mãe faz, hein? É ruim demais pensar que o Círio não vai contar com a tua presença. Com a sua roupa de cama nova, seu sapato novo, seu conjunto novo, tudo novo. É ruim demais, Vó. Outro dia, um pouco antes da senhora dizer tchau pra todo mundo, eu te vi entrando no carro e dizendo que eu era o amor da tua vida. Ai, que sorte eu tive. Deus, a maior sorte do mundo. Ser o amor da tua vida, dividir com teus outros amores um lugar dentro do teu sentimento tão bonito. Se não for pedir muito, que Deus te dê meu recado: eu te amo! E é o amor mais lindo do mundo. O amor que veio da felicidade que a senhora tanto quis pra mim. Que veio do carinho, do cuidado e de tudo que a senhora sempre foi. Obrigada e... até um dia.
sábado, 2 de junho de 2012
Graça
Eu fico só mesmo acompanhada, eu fico em casa mesmo quando estou na rua, eu fico em mim mesmo quando estou em tudo. E nada faz sentido porque eu fico recolhida no fundo do meu eu não reconhecendo o exterior presente e tão menos relevante do que o interior extremamente atribulado e remexido e confuso e perdido que às vezes também desconheço. O objetivo não chega, a vontade de andar um pouco pra ganhar o muito também não vem. Bati na porta da graça e ela me fez esperar com a vida sentada na calçada. Triste, indecisa, e absurdamente amedrontada por causa de tudo, por causa das decisões e das confusões impensadas em que me coloco sempre que sinto o horror de permanecer sem um carinho no cabelo. E quando finalmente saio da minha solidão comedida me sinto mais solitária, mais vazia de mim e dos meus gostos tão bonitos e tão líricos. Quero uma ideia compatível, um lugar que fale mais que beijos, declarações e esforços desnecessários. Quero não precisar falar. Olhar, apenas. Olhar um encanto que nunca antes me pertenceu, olhar o vento - sim, olhar. Quero a paciência, a tolerância, a calma que eu tanto procuro em mim e nunca acho. Quero um verbo, e não precisa ser amor. Pode ser andar, pode ser flutuar, pode ser nadar, só precisa de um você. Eu não acho. Não acho nada além do que eu não procuro. Eu quero uma conversa breve, as minhas mãos suadas e trêmulas. Eu quero também não precisar fantasiar a respeito de qualquer sonho infantil alimentado há tanto tempo. Pode ser o violão que eu nunca aprendi a tocar - nem segurar. Pode ser o livro do Fernando Pessoa que eu ainda não parei pra SENTIR. Podem ser as minhas teses infundadas baseadas no nada que paira sobre mim, na minha mania de apresentar opinião pra tudo, de apresentar definições pra palavras que nunca ouvi falar, só pra eu achar que sei um pouco mais do que eu nunca vou saber. Pode ser a minha cama, um chocolate, o frio que nunca faz e alguém bonito pra pensar, que também pense em mim de vez em quando. É porque a lucidez não vem, a organização não chega e a estratégia está atrasada pra me ajudar a bolar uma saída de mestre, um golpe mortal que acabe com o que eu não conheço, com o que me persegue como um gatinho de rua que simpatizou comigo, que eu trouxe pra casa e não quero. Não quero cuidar do meu não sei o quê. Não quero comprar comida, não quero levar ao veterinário. Quero só ficar em paz com as minhas coisinhas. Quero o meu coque no cabelo, quero o blusão que ele me deu e quero ficar deitada no chão gelado pensando em porque diabos nunca é do meu jeito. E falta a conversa construtiva, falta o real interesse em saber da vida, das histórias, dos amigos, da família. Faltam os livros bons, faltam os filmes geniais, falta, mais do que qualquer coisa, o meu coração bater mais forte, a minha voz mudar de tom e eu sentir a minha barriga comprimida como quando se espreme roupa pra estender do varal. Falta aquele sorriso, aquele. O jeito meigo que me dá vontade de pegar no colo e ir pra longe de todo mundo que eu julgo imbecil por simplesmente gritar demais, e se expor demais em meio a tanta gente que talvez não seja de verdade, que talvez não se lembre, não ligue e não sinta falta. Eu quero é poder ter pra quem contar da ternura que eu sinto toda manhã, quando ando até o ponto de ônibus, ao ver os velhinhos correndo pela praça, alguém que entenda verdadeiramente essa ternura, ou pelo menos se fascine levemente. Alguém que ouça eu dizer porque amo tanto a tal praça, os brinquedos, os banquinhos, e até o chafariz sem água que serve de quarto de hotel cinco estrelas aos moradores de rua. Eu quero alguém que saiba cantar comigo, baixinho: "A gente corre pra se esconder, e se amar, se amar até o fim...". Alguém que saiba o significado, alguém que corra pra se esconder comigo. Alguém. Sei lá. Parece é que ele - o amor - pegou carona de jegue, só pra ir lento pra longe de mim e me fazer ir atrás dele porque talvez dê pra alcançar. E nem dá. Sei lá pra onde esse jegue foi. Ah, na verdade isso tudo só quer dizer que eu amo demais o que talvez dê pra alcançar, mas nunca alcanço porque me falta coragem, porque me falta a cara de pau pra falar das minhas irrealidades, das minhas paixões sem sentido. Eu esqueci das regras que eu mesma me impus, esqueci de me dedicar ao que interessa, esqueci que eu não tenho a menor afinidade em lidar com decisões vindas do meu lado racional e que o que é melhor pra mim nunca viria dele. Agora já não passa nada de bom na tv, faz horas que comecei a escrever e acaba que eu estou como o meu computador: viciado na fonte. Estou viciada em não saber de mim, em idealizar, em continuar sendo essa inconstância fajuta de quem não quer ser gente grande porque dá muito medo. Medo de não ter, de não conhecer, de não viver. Medo de a graça nunca abrir a porta e deixar minha vida entrar.
quinta-feira, 31 de maio de 2012
Boa noite, boa noite
Nunca mais apareça, nunca mais me faça esquecer essa impossibilidade de ter você. Não cante pra mim, não aumente o volume do som. Nunca mais, nunca. Não me sorria bonito, não deite a cabeça no meu ombro e finja que está dormindo. Não me faça sentir seu hálito bom. Não insista pra me ver só de tempos em tempos. Não me deixe mais ficar sujeita a tudo que sabe que posso sentir por você. Não me dê de presente um mês lembrando da gente. Não ria comigo, não me acompanhe mais. Fico feliz por todos esses anos, fico feliz por ter tido você por perto, mas hoje eu decido: te quero longe. Te quero longe da minha janela e das pedras que um dia você jogou nela. Te quero longe do meu corredor, dos meus degraus. Te quero longe da minha mesa, da minha sacada. Te quero longe do banco em baixo do meu bloco. E não me lembre mais com o seu sorriso todas as vezes que eu o provoquei. Esqueça meu número quando não estiver feliz. Esqueça as ruas, as canções. Esqueça de prometer que vai ficar quando não houver a intenção. Suma. Suma da minha valsa e da minha música preferida. Suma da minha cabeça agora, e principalmente quando eu passar pela tua janela. Suma do carro preto que eu insisto em checar se está na garagem. E se eu estiver louca, não me atenda. Se eu te quiser, recuse. Se eu te abraçar, me empurre. Se ler, sinta-se culpado. Cresci te sabendo, te vendo, te admirando, te ouvindo. Cresci te amando e você não sabe. Nem eu sabia. Não me chame porque eu vou, e você sabe. Me deixe arrumar alguém, sinta ciúme. É tanto pra amar, tanto pra aprender e você não vai estar aqui pra me ensinar.
quinta-feira, 10 de maio de 2012
De dentro pra fora...
É o que acontece com a doçura de todo mundo que não consegue ser um pouquinho amargo de vez em quando.
A minha bailarina deitada olhando uma flor que de perto me lembra um lobo.
Quando a gente quer ser só um pouco do que a gente vê. Quando a gente quis ser.
Gostei do jardim.
Gostei do sorriso, do bico, do cabelo, do cheiro e do "pááála calol".
Só gostei. Demais.
O príncipe.
A razão de uma vida que eu amo chamar de mãe.
Não sei qual o nome da planta, mas vi ela muito bonita e só, pendurada na parede de mosqueiro. Pendurada e só, como eu.
A amiga mais bonita.
Chuva no cajueiro. Era pra ele e ele choveu, choveu.
Nunca
Do meu professor de português que tem a alma colorida das mesmas cores que a minha...
Parece não mais cabermos
Na poesia do mesmo verso
No calor do meus afeto
No afago do mesmo gesto.
A vida muda cores
Também as casas
As ruas, as paisagens,
Os cachorros cheiram postes outros.
Parece não mais cabermos
No tremor do mesmo beijo
Parece não mais cabermos
Na perdição do mesmo cheiro.
As palavras, outro tempero
Os olhos novos rostos farejam
A cabeça deita sonhos outros
No mesmo travesseiro.
Parece não mais cabermos
Na traição do mesmo desejo
Na solidão do mesmo conselho
Na mesma carícia da nuca
Parece não mais cabermos...
Parece não mais cabermos
Na poesia do mesmo verso
No calor do meus afeto
No afago do mesmo gesto.
A vida muda cores
Também as casas
As ruas, as paisagens,
Os cachorros cheiram postes outros.
Parece não mais cabermos
No tremor do mesmo beijo
Parece não mais cabermos
Na perdição do mesmo cheiro.
As palavras, outro tempero
Os olhos novos rostos farejam
A cabeça deita sonhos outros
No mesmo travesseiro.
Parece não mais cabermos
Na traição do mesmo desejo
Na solidão do mesmo conselho
Na mesma carícia da nuca
Parece não mais cabermos...
segunda-feira, 7 de maio de 2012
"Cem" sentido
Eu ainda tento me perguntar porque saber tanto do que eu não entendo e nem nunca vou entender me parece tão atraente. Uma vez na vida - ou mais - a gente vai se perguntar o "por quê" de tudo e não vai achar resposta. Os "por quês" dependem de muita coisa, dependem de você com vontade de encontrar o que explique, ou de alguém que saiba explicar pra lhe dizer. Mas quando não houver explicação, o que se faz? A gente espera. Não que essa espera traga a resposta certa, talvez traga apenas a solução pra deixarmos de nos perguntar "por quê". Ouvi sobre um moço que fez da própria perda um instrumento pra lhe fazer amenizar a dor. Poucos sabem, poucos tem essa habilidade, e eu vi nisso uma beleza infinita. Essa mania errada que a gente tem de querer sempre fazer sentido, também absorvi que é impossível, ou que, de repente, impossível do jeito que a gente faz. Buscar fazer sentido unindo fatos, coerências. Ninguém nunca me disse que o sentido pra tudo era coerente, e se não fazer sentido for o sentido certo? Também ouvi sobre uma moça que passou a vida tentando encontrar o equilíbrio, fez o que quis, foi pra onde quis, largou o mundo todo bem planejado pra viver sem roteiro atrás de um sentido pra vida, apenas. No final ela descobriu que pra ter o equilíbrio que ela julgava como o sentido certo ela precisava desequilibrar. É sempre uma contradição. Hoje em dia as pessoas têm medo de usar palavras clichês pra tentar explicar alguma coisa justamente por querer não parecer clichê. Vejo sempre gente recuando quando ouve sobre o amor, felicidade, tristeza, ódio. As pessoas passam por palavras muito mais complexas pra desviar de um clichê tão bonito porque ficou feio falar o básico. Talvez esteja certo, talvez não. O moço que soube amenizar a perda com a própria perda conta que escreveu sobre ela em um papel e guardou, anos depois encontrou e isso se transformou em algo tão lindo e delicado que ninguém jamais ousaria acusar aquilo como fruto de tanta tristeza. Eu, particularmente, percebi ontem, em uma cena que durou alguns segundos, como tudo se faz justamente misturando os tais clichês que alguns tentam evitar. Pensei, há um tempo atrás, em nunca mais falar sobre o amor, ou a felicidade, e até mesmo a tristeza, pra tentar evitar o que tudo isso causa, o que não faz sentido nenhum, mas parece que faz quando a gente só quer fugir do que dói. Mas do que vale não falar se eu ainda sinto? Conheci alguém que não quer me deixar sentir tristeza junto com felicidade porque diz que a gente só tem que ser feliz e pronto, deixar pra lá o que faz mal. Ele tem até razão, mas não sabe como é bom misturar os dois, ou até sabe mas preferiu esquecer. Na madrugada brincamos um pouco mais com as palavras e eu disse pra ele escolher ser uma só, mesmo que clichê. E depois de surpresa, riso, suavidade, leveza, ele escolheu sonho. Sonho como a sua palavra, e não porque sonha demais, ao contrário, ele até se considera - ou eu o considero - colaborador pro inverso disso. Mas ele escolheu o sonho me dando um motivo simples, que parece tão irrelevante vindo de quem não se admira, mas que fez todo o sentido quando ele começou a recitar aquelas coisas óbvias, como todo o resto. Deu como exemplo quando alguém diz que não aguenta ver certas coisas por ser fratura exposta, duro, feio, bruto. Outro alguém, em resposta, diz que não há motivo já que o mundo é assim, fratura exposta, duro, feio, bruto. Ele disse que queria ser sonho porque o sonho faz ninguém precisar aguentar a realidade do mundo, porque ninguém tem que aceitar ver o que dói só porque o mundo é assim, doído. Disse que queria ser sonho porque ele mesmo prefere a realidade, mas que adoraria que todo mundo trocasse o convencional de ver o que fere para ver o que gostaria de ver, de viver. Viver o sonho. Se o mundo é tão duro e feio e tudo, ele disse que queria ver o mundo diferente do que os conformados insistem tanto. Eu disse que ele não colabora porque prefere ver filmes sobre o holocausto ao invés das animações da disney e ele confirmou. Ele disse: aí é que tá, a gente acostumou, por isso eu seria sonho, pra desacostumar essas nossas mentes acomodadas em ver uma realidade imprópria e diferente do que a gente realmente quer chamar de realidade. Pra mim pareceu simples o que ele disse. Ele justificou muito bem, achei lindo. Achei lindo porque quando tudo não faz sentido nenhum de repente o sentido vem numa conversa de madrugada ao telefone. Nós somos péssimos em compreender nós mesmos. De certo não é totalmente insignificantemente optar pelo que faz sentido e ir atrás disso buscando as realidades de tudo, e as palavras certas pra tudo, sejam elas difíceis ou não. Mas às vezes o que é habitual e comum a gente pula porque acha mesmo que o que faz sentido de fato tem que ter, obrigatoriamente, um embasamento científico e difícil, uma palavra rebuscada que ninguém entende. Na mesma conversa da madrugada a gente falou do amor e eu disse que adoraria definir o que eu penso sobre isso, mas que não faria sentido porque eu não sei se sei o que é amor, apesar de falar tanto sobre ele. Agora, parando pra pensar, talvez eu saiba, já que o amor não faz sentido mesmo. Por que tentei achar um sentido? Eu disse a ele que a minha célebre contribuição poderia se dar apenas na incerteza de afirmar que o amor é algo tão contraditório por ser simples e complicado ao mesmo tempo que fica difícil resumir em palavras o que ele é. Talvez eu defendesse uma tese na universidade bolinha baseada nessa minha incerteza, afirmando que o amor é justamente a dúvida em saber se está amando, visto que todo o amor é tudo e nada. Coloquei pra ele o seguinte exemplo: você ama alguém, você tem certeza disso porque sente coisas que não consegue explicar com precisão mas teima em chamar de felicidade, alegria, ou outra palavra qualquer. No amor você também sofre e pode sentir tristezas que vão até o fim da alma, sem deixar de ser amor. Percebe como é confuso? No caso, amar vai ser sentir uma mesma alegria ou o sofrimento? Achar que sofrer pode ser sinônimo de amor sempre pode ser bem arriscado, mas é uma possibilidade. Essa imprecisão pode endoidecer gente sã. E também tem que o próximo amor pode ser tão diferente que você não sabe se pode chamar de amor justamente porque não é igual ao que sentiu anteriormente, talvez seja até melhor, mas vai hesitar em denominar porque não vai conseguir comparar ao que um dia você disse que era amor. Entende? A verdade é que a gente não sabe, não sabe mesmo. O amor é difícil, tão difícil quanto a gente que tenta explicar ele. Talvez o amor seja falar de jujubas e de morangos, porque isso me trouxe uma felicidade imensa e um riso bom. Talvez o amor seja você ouvir alguém dizer que admira a sua força por resistir ao que machucou tanto. Talvez o amor seja eu dizer que tenho vontade de pegar ele no colo porque o comparo com uma criança indefesa que precisa dos meus cuidados pra não ficar triste de novo. Talvez o que faz sentido seja sem sentido, ou "cem" sentido, arrumando assim um sentido no meio de tudo isso que eu disse e não fez nenhum, mas deixou outras 99 possibilidades de se fazer. No fim, a conversa não chegou em canto nenhum, mas foi boa. E eu acho que foi boa exatamente porque a gente não tem medo de falar clichês.
terça-feira, 1 de maio de 2012
N
Depois de tantos anos sem saber, sem perceber o quanto gosto, o quanto sempre gostei. E talvez essa sensação de agora seja tão efêmera quanto as outras que me invadiram nos últimos tempos. Eu não me importo. Eu não me importo com as minhas possibilidades de ser feliz, eu quero só continuar vivendo bem com elas. Como vivi quando você veio me fazer rir, como vivo sempre porque você sempre vem. E dai que eu sempre soube o que era levitar, mas eu nunca estive tão perto disso, só com você, que me obriga a ficar nas pontas dos pés, seja pra um abraço ou qualquer outra coisa. Eu não sei do que se faz, eu não sei de onde vem, mas desde sempre a melhor coisa do mundo sempre foi ficar apoiada no seu ombro, abraçar forte. Sempre quando falo de alguém, escrevo pra alguém que eu queria que fosse meu, me sinto tão desprovida de motivos pra gostar, pra sentir qualquer tipo de querer. E agora, por mais que eu pareça estar sem motivos, você foi o único que sempre deu todos os motivos do mundo e eu nunca os percebi. Você é o único que merece as minhas palavras, as minhas raivas, as minhas saudades. Porque você some, você tem vida, você é adulto, mas é meu. Eu sei que você é meu. Eu não sei qual é o tipo de amor que eu sinto, mas quando eu disse que te amava não estava mentindo. E quando eu pergunto porque gosto tanto de você, eu realmente adoraria ouvir uma resposta, embora nós dois saibamos da retórica. E eu lembro de tudo, guardo com carinho um episódio que talvez você não lembre, quando fomos à locadora e enquanto esperávamos nossos amigos tocava "fixação", e eu gostei tanto de estar no banco do carona e você no do motorista, ouvindo. Não me lembro dos detalhes, mas lembro de me sentir bem, de gostar da sua companhia mais do que qualquer uma outra, de ficar sem falar nada, ou de ficar falando tudo sem querer dizer nada. Eu nunca assumi o meu ciúme, eu nunca disse o quanto eu não queria ter que dividir a sua existência. Eu não estava mentindo quando disse o quanto ela foi boba por ter escolhido ele e não você, por ter enxergado apenas a superficialidade em alguém, e por não ter visto o quanto você vai tão além de tudo que é superficial. E certa vez você me chamou pra conversar, sentamos e você falou sobre tudo, sobre o que você pensava, o que queria, e você lagrimou. Não foi a única vez que a gente se procurou pra falar sobre tudo. Outro dia reclamei por você só vir me procurar quando está sem sono e você me disse que pelo menos sempre procura. Talvez eu tenha achado uma resposta grosseira a princípio, mas sou feliz porque você vem me procurar, me chamar pra ficar no sereno. Se fosse qualquer outra pessoa no mundo que viesse periodicamente atrás da minha presença eu não aceitaria, mas é você. Eu aceito sempre, eu te aceito sempre. E eu gosto tanto, e se eu pudesse teria ficado deitada no seu ombro até pegar no sono. Eu entrei em casa e fui pensar no que você estava se perguntando, e se estava se perguntando o que eu estava me perguntando. E eu estava me perguntando sobre você, e me pergunto sempre. Não tenho ninguém no mundo pra gostar tanto assim, ninguém que me faça rir, que me conte fofocas, que diga que não está passando nada de bom na tv. Não tenho ninguém que me ensine matemática tão bem. E eu sinto um orgulho por ter você por perto, por você ser exatamente quem você é. Eu te amo e realmente não te quero longe. Eu te amo porque só você sabe ser você e ter o que você tem pra deixar qualquer pessoa no mundo realmente feliz. Eu fico feliz quando você está feliz, e por algum motivo e desenvolvi a habilidade de reconhecer a sua felicidade. Você disse que eu não casaria com você porque eu preferiria um fortinho qualquer, eu disse que não. Eu sinto tanto que sei reconhecer as tuas qualidades como as melhores do mundo, que vejo você como o melhor do mundo. É triste que a gente seja só essa coisa que não se sabe, mas é bom que a gente se sente, que a gente se conhece, que a gente se entende. Peço desculpas pelas vezes em que fui tão intolerante e me achei a dona da razão. Agradeço por ter sentado comigo pra conversar e ter me feito entender um tanto sobre a vida, por ter me feito entender um tanto sobre você. Eu te amo por ser a única certeza que eu quero deixar presente na minha vida, a única improbabilidade, a única confusão, a única companhia. Eu vou esperar os meus 18, as suas mensagens, os seus sorrisos. Eu vou continuar sendo feliz tendo você, tendo a alegria de saber que por mais que a gente se encha de dúvidas e de medos e de qualquer outra coisa, a gente sempre se tem. Vou te deixar guardado no bloco C, e te deixar comigo até o fim da vida.
quinta-feira, 12 de abril de 2012
O banco em frente à loja 23
Eu sempre assisti nos filmes essas pessoas que cruzam uma a vida da outra de repente, sem querer. Se olham, se gostam, e num feixe de inspiração, de vontade de ter alguém, ficam perto, só perto. Fomos nós. Eu te vi do meu lado, num relance. Era você ainda de cachos, de barba e de sorriso bonito. Na lanchonete, beijou minha mão. Te tive perto, só perto. Gostei de ver de novo a minha sacada como palco de algo que finalmente poderia acontecer. Vi a minha árvore de natal muito mais colorida - se é que era possível. Deitei na rede. Três horas. Quatro horas. Você. Você que me deixou saber das suas histórias de infância, você que deu nome pra minha vaquinha de pelúcia - Lulubelle, igual a vaca da capa do disco do Pink Floyd. Eu nem sei se faz sentido, mas aqui, de novo, batendo a minha cachola e me perguntando sobre quem realmente valeu a pena, só consigo pensar em você. No seu jeitinho e no seu rosto lindo enquanto eu te olhava quando estava com a cabeça encostada na mesa. Pensar nas nossas piadas sérias, que a gente ria, ria e ria. A gente foi. Eu sempre costumo pensar nos meus erros, e talvez eu tenha errado, não lembro. Mas de puro, puro mesmo, só você. Você que me disse verdades inconvenientes sobre o que eu ainda queria sonhar, você que me acordou. Eu que te vasculhei, que legendei qualquer das tuas possíveis dores ainda existentes. E nós fomos crianças descobrindo um brinquedo novo: a nossa suposta compatibilidade. E fomos. Compatíveis no signo, compatíveis no dia do seu aniversário, que, mesmo semelhantes a outro dia, conseguiu colorir de novo número 12. Fomos compatíveis nos nossos medos e nas crueldades que nos vitimaram. Eu acho que te amei. É uma grande revelação, sim. Te amei baixinho. Te amei enquanto te observava na fila, te amei enquanto pegava na minha mão e me olhava, sem fazer nada, nada além de me encantar significativamente. Te amei todas as vezes que me ligou sem avisar, te amei sem dizer que te amei. E hoje eu lembrei. Lembrei do que fomos e do que não fomos. O que fomos foi rápido, mas lindo. O que não fomos é eterno, só eterno. E na minha breve lembrança de nossos prós, os nossos contras não foram. Não fomos contra, apenas não fomos pra sempre. Sem mágoa, sem dor, sem rompimento, sem adeus. Deixamos de frequentar um ao outro, sem querer. Sabe o banco em frente à loja 23? Não está mais lá. Lagrimei. Será que se você passar por perto vai reparar? Não sei. Mas sei que ele não está. Não está do mesmo jeito que nós não estamos. Não estou com você pra saber se ela te faz bem. Você não está comigo pra saber se ele gosta das mesmas coisas que eu. Nós não estamos. E no momento em que eu vi a ausência do banco - do nosso banco - eu senti um sopro de tristeza e uma brisa constante de alegria. Não estamos mas fomos. E se fomos, amor, o que seremos não importa. Ainda guardo o bilhete e o seu medo de altura. Guardo a sua doçura, e fiz questão de carregar comigo no bolso da bolsa. Tudo o de bom que você deixou é meu. Espero que você ainda exista, daquele jeito. Do jeito que ainda consegue me fazer lembrar e me acolher no alívio de pensar: "Pelo menos alguém fez sentido. Me fez sentir..."
segunda-feira, 2 de abril de 2012
Recaída
Eu conto pra qualquer pessoa, tento ao máximo detalhar perfeitamente pra tentar explicar o porque de tanto amor, de tanto tempo perdido, e de tanta frustração. Ninguém entende. "Você não viveu. Foi lindo, mas você não sabe o gosto que teria". Compreensível e completamente são. Todos têm razão. É difícil admitir quando até mesmo quem te deu toda uma coleção de sentimentos estimáveis desconhece esse feito. Decepcionante, triste, doloroso. Todos os sinônimos que remetem uma dor de amor no fundo do peito. É sim muito diferente de estar vivendo um relacionamento sério, com cinemas, pipocas e beijinhos na fila da lanchonete. É diferente de passar a tarde vestidos de qualquer jeito, sentados de qualquer jeito no sofá como é comum para vários casais. Por isso é algo totalmente injustificável. Ele não deve saber que eu ainda sofro. Saberia se ainda frequentasse as minhas rede sociais, mas acho muito difícil. Eu não gosto de lembrar dele sempre. Eu sinto muito pelas próximas gerações que vão passar por isso com maior frequência. Você vai tentar contar, vai se ajoelhar na frente de qualquer pessoa para que sintam o mínimo da piedade que você mesmo não é capaz de sentir por você mesmo. O pior é que quando me deparo chorando por ele e manchando de maquiagem borrada a minha almofada nova, sinto muito mais razões pra escrever sobre o que me dói do que quando eu realmente decido escrever a respeito. Ele me dói, talvez eu não saiba dizer e nem apontar as partes do meu corpo e os meus órgãos que se contraem toda vez que penso porque eu sinto vergonha, me perco nos motivos de todo mundo pra eu não ter que me sentir tão mal por alguém que não existiu de fato. Quando eu choro fico louca, tenho vontade de escrever um livro tão triste e dramático pra ele sentir o mínimo de remorso e culpa. Mas daí eu lembro que isso também é acompanhado pela pena e eu me recuso a fazer alguém sentir esse sentimento degradante. É exatamente por isso que travo quando tento me livrar de toda a dor que ainda me faz tentar escrever sobre isso, eu sinto que se ele pudesse ler, em qualquer lugar ou hora, ele sentiria a maior pena do mundo de mim. Eu que amei tanto um cara absurdamente legal e perfeito ao ser encaixado em todos os meus critérios e exigências, vou me contentar com a pena dele? Já não me basta ter visto, ou lido, ele rir de mim e se fazendo de ofendido por eu ter mandado uma carta mal criada ao saber que ele havia dito que tinha medo que eu assustasse o seu novo amor? É, basta. Basta mas ainda assim eu choro, e não por ter perdido ele, que eu nunca tive, pra uma pessoa provavelmente mais legal, bonita, e inteligente, eu choro porque eu amei tanto aquela minha verdade mentirosa que morro de saudade toda vez que lembro do quanto eu conseguia me desligar do mundo quando ele me ligava enquanto dirigia. Eu não consigo sentir tristeza por ele estar com alguém melhor do que eu agora, não consigo me massacrar imaginando todos os beijos que ele dá nela, todos os beijos que nunca foram meus. Fico triste, às vezes, quando penso que ela pode fazer carinho no gato dele, e, mais do que isso, sentir os mesmos carinhos que ele faz no gato. Eu queria ter feito carinho no gato, eu queria ter sido o gato pra sentir os carinhos que ele faz no gato. Então, é, eu lembro toda vez que vejo o clipe da música que ele me mandou, onde um casal brincava do jeito que a gente brincaria nos mesmo lugares que ele foi e disse que queria que eu tivesse ido junto. Eu jurava ser verdade, ele mandou uma mensagem de madrugada dizendo que estava explicando o motivo pra ter pensado em mim tão tarde. O motivo era um sabonete. Será que ele ainda usa o sabonete? Acontece que eu não tenho muitos motivos mesmo pra ter gostado tanto. Pessoas normais vivem uma mesma realidade, simultaneamente. A gente não vivia, a gente planejava um futuro e tudo parecia fazer tanto sentido. A gente se completava nas nossas irrealidades, uma pena foi ele ter decidido ser real tão rápido, e não ter me dado o aviso prévio de que eu também precisava começar a pensar nisso. Ele foi viver a vida real e eu fiquei. Será que ele amou tanto quanto dizia amar? Queria que amasse a nossa irrealidade, que considerasse o fato de que ele me deu motivos pra continuar amando, pois eu considero o fato de que ele não tem culpa por eu ainda estar vivendo o irreal que ele deixou. Não aprendo nenhuma lição com isso, apenas que tudo é tão imprevisível, tudo muda, e esse foi o nosso erro, a gente previu demais o que não tinha a menor chance de acontecer. O meu erro foi que eu adoro astrologia e previsões são sempre muito peculiares pra minha forma de ver o mundo, as coisas. Ele não era assim. Eu sinto falta das conversas, de me sentir do lado dele no carro. Ele não sente falta, ele tem quem vá do lado agora, tem quem esquente seu pé de noite, e aposto que ele força ela a lavar a louça, ou talvez não, já que ele deve estar tão fascinado que nunca permitiria que ela visse uma casa tão bagunçada. Depende da intimidade deles, e eu não consigo imaginar essa intimidade, eu não conseguiria imaginar nem daqui há um milhão de anos. Imagino que eles se gostam e que ela deve divertir ele muito bem. Uma vez ele disse que estava gostando de uns filmes franceses, se não me engano, por causa de uma amiga da faculdade. Com certeza era ela. Consigo imaginar aquele moço que eu amei por ser tão diferente das pessoas comuns e pouco originais que estou acostumada a lidar gostando tanto de uma moça linda, culta, e que gosta de filmes antigos e realmente bons? Na verdade até consigo porque eu duvido que ele se preste a ficar junto de alguém que não tem a alma parecida com a dele. Eu não sei se eu ainda amo, talvez eu ame porque gosto de ouvir algumas das gravações que eu fazia no meu celular, da gente conversando qualquer bobagem. Talvez eu ame porque eu choro de saudades e não de raiva por ele ter sido tão cruel comigo e ido embora sem me falar nada. Eu amo ele porque ele ainda é a única coisa que eu penso quando me decepciono com um romance recente. Penso que com ele seria diferente, porque por mais que ele tenha sido mau e egoísta, eu me nego a acreditar que comigo na sua frente ele conseguiria ser um canalha. E ele conseguiria, mas eu amo tanto que eu sei que por trás daquela capa existe alguém que se sente um pouco triste por ter magoado quem sempre esteve presente e não foi embora nem quando ele realmente merecia. Eu amo e não sei até quando. Talvez eu ame até ver de perto, pra provar que ele não é essa minha fantasia. Talvez eu ame pra sempre, porque eu não quero ver de perto e desfazer essa tal fantasia. Talvez eu deixe de amar quando o meu novo lance resolver assumir que gosta de mim de verdade. Talvez eu tenha mesmo que viver amando ele sem ele saber, só pra não sentir pena de mim. Eu não sei direito se posso chamar de amor, mas sei que eu amo porque eu não penso em destruir a vida dele por ter motivos suficientes pra considerar que ele destruiu com uma parte da minha. É um sábio pensamento, e a gente só aprende quando ama de verdade.
sábado, 17 de março de 2012
Querências
Quero ouvir música boa, quero admirar as obras de artistas plásticos revolucionários, com muito mais delicadeza do que simplesmente ficar impressionada ao ler a respeito em uma revista de arquitetura na sala de espera de uma clínica médica. Quero mais dessas chuvas de meio-dia que molham os meus cadernos e deixam eles com aquelas ondulações feias mas presentes nos livros de ensino médio de todo mundo que se protegia colocando eles na cabeça. Quero conhecer gente nova e desapegar, sim, desapegar. Desapegar de palavras tristes vindas de uma discussão feia, dolorida e desnecessária. Desapegar de uma só companhia, de uma só rotina, e do meu péssimo hábito de fazer rascunhos e não passar a limpo. Quero aprender a viver bem com o meu desalinho, com a minha inconstância insistente e desprovida de argumentos bons. Quero não ter argumentos bons e não falar sobre eles, não quero mais tentar explicar o que nem eu entendo. Quero saber escrever uma redação em cinquenta minutos e saber diferenciar toda a distância percorrida da ultima parte do trajeto. Quero o mesmo frio na costela que me deu no dia que o Ben Stiller planejava assaltar um banco. Quero o ponto do ônibus mais bonito, como poucas vezes foi. Quero aprender a dirigir e poder dizer que vou comprar alguma coisa mas só pra parar o carro no estacionamento, ligar o som e chorar os meus choros acumulados escondido do resto do mundo pela película escurecida. Quero ler pra sempre os poemas de Camões e achar lindo aquele questionamento antecessor do barroco que já se perguntava timidamente: "Pra onde a gente vai?". Quero não saber pra onde eu vou, quero não insistir em prever. Quero continuar respirando fundo e sentindo meus olhos encherem de lágrimas sem derramá-las. Quero ser um carbono quiral porque só hidrogênio cansa, e cansa demais. Quero ter tempo pra querer, porque ultimamente só o tempo me tem e não quer. Eu quero.
segunda-feira, 12 de março de 2012
Que dure durante. Durando...
Dia amarelo, cinza, cor de quase choro. Eu de pijama e um coque no cabelo, sutil ao ponto de me afundar nos meus travesseiros e achar tudo muito bonitinho. O coque, o pijama, a cor do dia que espera a chuva. Ela veio logo mas levou o sinal da tevê, levantei pra passear pela casa, esperar "Friends" voltar pra minha tarde melancólica. O meu corredor é pequeno mas por algum motivo, naquele momento, me parece um labirinto levemente amável e comprido. Eu nunca havia reparado no quadro que eu mesma escolhi para aquela parede de tijolinhos irritantes. Lembro muito bem do dia, da hora, da loja, e do que pensei quando apontei para a pintura com moldura de alto relevo atraente. A vista parece ser de um quintal, uma janela que dava de frente para os fundos de casas antigas. Lembro da sensação de pensar em alguém ao ver o quadro, as casas, as montanhas escondidas quase no fim do desenho estreito. Era bom. Eu esqueci de notar meu quadro em contraste com os tijolinhos, e quando notei senti uma calma tão forte quanto a água que caía lá fora. Os tijolinhos, o quadro, a chuva, eu, meu coque de cabelo, o pijama e a cor de vento frio, cor de laranja triste dentro da minha casa. Ando, ando, ando, paro, sento, penso. Eu que sempre gostei tanto de tudo, de alguém, do mundo, esqueci de reparar. Reparar em tudo que eu gostei dentro de um impacto inicial. Era só inicial. Por que bonito no início, só no início? Eu embrulhei meu encantamento em um papel de presente e coloquei no cantinho de mim, esqueci de abrir. Eu quis muito, muito, lembrar de tudo que eu deixei no meu cantinho. Lembrei aos poucos do mais simples que me trouxe paz no início, desembrulhei só o que dava pra alcançar. Lembrei que quando nos mudamos, há uns três anos atrás, eu adorava ver o cajueiro do terreno em frente à minha janela. A vovó adorava apontar os Cajus maduros, os passarinhos comendo. Eu esqueci, eu lembrei, eu parei em frente à janela, com os tijolinhos, o pijama, o coque, e tudo, e tudo. Meu cajueiro não saiu do lugar. Que chova, então. Que chova agora na minha tarde de cor branda, que chova no cajueiro em frente a minha janela, que o meu quadro continue lembrando todo o bonito que eu sinto no início de tudo, que eu quero sentir sempre. Já não me deixo mais cegar pela beleza inicial, o durante é eterno e generoso. Que dure meu cajueiro, meu quadro, a cor da minha tarde, a limpeza da chuva, o meu coque, o meu pijama. Que dure.
sexta-feira, 2 de março de 2012
Detalhes
Caixinha de chiclete, bilhete de cinema, roupas do antigo namorado. Detalhes. A roupa quando era dele não tinha tanto valor, passou a ter depois que foi sua. O bilhete do cinema serviu pra vocês sentarem naquela poltrona, rirem, trocarem carinhos, beijos. Você guardou. A caixinha do chiclete que ele comprou, te deu e você colocou no bolso sem a pretensão de criar um relicário com os detalhes de vocês. O extrato que o correio te deu depois de você enviar a carta, um pedacinho do cartão do dia dos namorados que você guardou depois de, impreterivelmente, ter rasgado o resto dele com ciúmes de outra, loguinho após vocês terminarem. Você guardou um pouco do perfume que usava quando estava com ele e de vez em quando vai lá se transportar para aquela realidade boa que não volta nunca mais. Ele deixou a cara do dia nublado, triste e desfocado, muito mais atraente. Vocês estavam juntos, sentados na calçada, enquanto esperavam a chuva passar pra ele poder ir embora. A chuva passou e ele não foi. Você guardou em um arquivo especial aquela conversa que te fez chorar. O nome do arquivo é o nome dele. Você guarda todo o palpável em uma caixa grande, ali na sua prateleira mais alta. As cartas que fez e nunca mandou, o seu nome com o sobrenome dele em um pedacinho de papel, escritos bem no auge do seu devaneio amoroso. Você lembra dele com carinho quando usa a mesma roupa que usou quando estavam juntos. Você olha pela janela do carro e sorri lembrando de coisas que só ele dizia. Você não apagou as mensagens de bom dia no celular, você não vai apagar nem quando a memória estiver cheia. Literalmente, nem quando a memória estiver cheia. Aos poucos constrói um museu do que é você, do que foram vocês, todos, juntos. Cada um com a sua importância única, seja na caixa da prateleira, no arquivo, na blusa que era dele e você achou outro dia sem querer. Você guarda em você. A saudade, os detalhes que são muito mais do que a descrição contada para as suas amigas. Elas não vão saber. Assistir uma aula, ouvir o professor falar sobre algo que vocês sabiam tão bem nas suas conversas, nas suas conclusões sobre a vida, só de vocês. Mas então o tempo passa, logo você percebe que foi feita pra acumular as caixas, eles, você. Você foi feita pra sentir saudades dos detalhes deles e dos próximos detalhes... Cadê?
terça-feira, 21 de fevereiro de 2012
Borrão
Eu queria sentir qualquer coisinha, sabe? Qualquer raivinha que fosse. Qualquer. Não sinto. Até me esforço bastante, principalmente quando tenho que, inevitavelmente, falar das coisas que eu sei, que eu aprendi, que eu vivi. É preciso falar, de vez em quando, o que foi aquilo só pra não esquecer. E é, talvez eu não esqueça mesmo. Mas agora é tudo tão teórico, me afastei tanto da verdade, do que foi, do que eu queria que tivesse sido. Agora eu vejo tudo sem uma base experimental, base essa que nem mesmo existiu além de simplesmente ter feito parte das minhas expectativas. Pois é. É preciso definir tanta coisa agora, tanta. Mas e aí? Eu esqueço? Não, eu não esqueço. Não esqueço e também não sinto. Do que adianta lembrar e não sentir? Não sentir saudade, não sentir vontade de saber do gosto, do cheiro, do sorriso de perto. Simplesmente lembrar? Assim, vagamente. Com um rosto distorcido pelo tempo, pelas feiuras que nunca foram minhas. Embaçar uma alma, uma pele branca vestida de preto. Sei lá. No momento eu me sinto verdadeiramente motivada a escrever a respeito mais como um esclarecimento pessoal. O que eu senti? O que eu vou sentir daqui pra frente, por qualquer outra pessoa? A gente sempre acaba se tornando a precaução do erro que pretendemos não mais cometer? Pensei muito, percebi que preciso, antes de tudo, saber medir a proporção certa pra colocar a minha intensidade nos potinhos que me aparecerem considerando o tamanho deles. Uma vez era muita intensidade pra um potinho muito pequeno. Depois foi um potinho muito grande pra pouca intensidade. E agora? Tenho que escolher bem meus potinhos, é o que me resta. Não sei como vai ser, não sei como foi, como teria sido. Amor? Quanta imprecisão. Nunca senti. Era um querer mimado, insatisfeito, necessário. E agora o que eu quero? Nada. O borrão do meu sonho já é mais do que suficiente pra eu entender tudo e tudo e tudo.
sábado, 11 de fevereiro de 2012
O querer implícito na subconsciência dos meus versinhos ínfimos
Escolher um presente bonito,
Ler meu livro do Chico.
A minha letra torta escrevendo carta para quem se importa.
O meu solitário na mão esquerda, e na direita...
Ver o sorriso de canto, o cabelo pra trás,
Beijo na testa, saber como se faz...
As geometrias planas, as espaciais,
As mãos dadas, os casais.
Casamento de quintal.
Te dizer: "Que isso, amor, não faz mal".
Deitar em colos, falar aos tolos,
Gritar pro mundo os seus enrolos.
O melhor do melhor,
O pior do seu pior.
As escadas eternas,
As carências maternas.
As roupas no varal,
Aprender a história geral.
Conhecer os rios, os frios.
Ignorar os extravios.
A vida da vida da vida.
Da passada, da presente, da bebida.
Falar do meu estranho apreço,
Abraçar o cheiro do moço que eu não conheço.
Escrever na capa do livro,
Encontrar o meu conciso.
E só querer que o amor acabe
Se depois, por um milagre,
Ele volte a se deitar.
Ler meu livro do Chico.
A minha letra torta escrevendo carta para quem se importa.
O meu solitário na mão esquerda, e na direita...
Ver o sorriso de canto, o cabelo pra trás,
Beijo na testa, saber como se faz...
As geometrias planas, as espaciais,
As mãos dadas, os casais.
Casamento de quintal.
Te dizer: "Que isso, amor, não faz mal".
Deitar em colos, falar aos tolos,
Gritar pro mundo os seus enrolos.
O melhor do melhor,
O pior do seu pior.
As escadas eternas,
As carências maternas.
As roupas no varal,
Aprender a história geral.
Conhecer os rios, os frios.
Ignorar os extravios.
A vida da vida da vida.
Da passada, da presente, da bebida.
Falar do meu estranho apreço,
Abraçar o cheiro do moço que eu não conheço.
Escrever na capa do livro,
Encontrar o meu conciso.
E só querer que o amor acabe
Se depois, por um milagre,
Ele volte a se deitar.
domingo, 5 de fevereiro de 2012
Os primeiros sinais de desistência
Eu tenho medo é de não ser feliz, de colocar toda a minha intensidade, toda a minha paixão em algo que não me complete, que não me faça deitar com tranquilidade e pensar que fiz o melhor de mim durante o dia porque era o que eu realmente queria fazer ou nasci pra fazer. Nasci pra fazer o quê? Nasci pra sentar em uma mesa e ler relatórios, processos e tentar resolver os problemas de Deus e o mundo esquecendo dos meus? Sim, porque eu não me sinto capaz de solucionar tudo enquanto eu continuo essa confusão, essa indecisão, frustração. Não me enxergo, não me acho, não me sinto em nada do que todo mundo tem me imposto. Tenho medo é de ter que trabalhar no que eu não gosto, viver uma realidade incômoda só pra conseguir suprir todos os meus luxos, os vestidos, os sapatos e os quadros caríssimos que eu quero pendurar na minha sala. Se for pra comprar com dinheiro triste toda a alegria que eu julgo necessária pra pendurar nas minhas paredes, guardar nos meus armários, eu recuso. Recuso cada acréscimo de conhecimento inútil, cada fórmula que sirva de portal pra um lugar que eu não sei se quero pertencer. Eu não sei ser eficiente pro que não vai me fazer feliz. Eu não sei se quero ver a minha vitória estampada na cara de todo mundo que me quer bem como sendo apenas a alegria pra quem eu amo e não a minha. É pra me querer bem, e se não for assim, e se eu não estiver? Eu sentiria vergonha de me sujeitar a outros muitos dias de realidades fartas de ciclos intermináveis, de rotinas exaustivas e sem nada lucrativo no fim do dia. O meu contracheque? É lucro? Pra mim é só dinheiro, dinheiro a gente consegue em qualquer esquina topando qualquer coisa. É, eu não julgo. Te faz feliz? Faça! Sinta orgulho de tudo que é seu se for fruto do que te faz sentir o mínimo de satisfação, o mínimo de conforto por você ser quem você quer ser. Eu não sei o que eu quero, eu sei o que eu sou. Sim, sem definição, só sou. Posso ser descanso para pés ou mesinha de canto que sirva pra colocar aquele único vaso que dá um colorido na sala. Posso ser qualquer coisa desde que me faça sentir útil pra mim. Depois, pro mundo, fica mais fácil. Mas e agora? É, que seja. Que sejam os meus medos em não ser nada, que seja a minha luta diária contra tudo o que não vai me deixar livre e se comporta como todo o necessário. Continuar a alimentar o sonho de todo mundo menos o meu. Se não for por uma satisfação pessoal que seja pela satisfação de quem me ama. Se for, se for. O que vai ser? O que não vai ser? Só vou descobrir no meio do caminho mesmo.
sábado, 28 de janeiro de 2012
Sendo eu
E dai que toda noite é assim? Eu me deito, viro pro lado, penso no quanto seria bom ter alguém pra pensar direito, mas dai penso em você, meio torto, meio inacabado. Sou eu. Eu crio expectativas pra todo mundo que eu julgo capaz de me arrancar um fiozinho de felicidade. Te juguei capaz, muito capaz. Sim, porque não é todo dia que a gente encontra uma companhia boa, alguém que consegue te tirar uma risada a toa. Você não tem culpa não, eu que peço pra todo mundo trazer flores, sempre, só esqueço de falar alto. É muito difícil ser de tudo, me cansa. Não sei mais olhar pra ninguém com paciência e te olhei. O mundo, os amigos, as histórias, eu até quis. Dá saudade, às vezes. Daqui a alguns meses não vou mais me sentir a vontade pra ligar, pra perguntar como é que tá e dizer que pra mim continua muito sem graça. Daqui a alguns meses o mundo vai mudar e a gente mais ainda. Você vai conhecer alguém, gostar de alguém, eu talvez goste, talvez não. É sempre assim, é só me deparar com alguns momentos bonitos e algumas demonstrações de carinho que vou logo escolhendo a cor do buquê. Sou eu. Eu que vou sentir saudades de tudo como sempre faço, porque tudo que dá saudade vai ficando longe, ou já está, ou sempre esteve. Um dia eu vou sentir saudade de perto, assim, bem do lado. Ele na cozinha, eu no quarto. Não vai ser você. Não vai ser porque éramos amigos com benefícios e eu quis ser bem mais, de um jeito estranho. Eu afasto, eu recuo. Acho que não sei mais lidar com toda a bagagem de quem pode fazer bem mas também pode fazer mal. É, a luminária daquele cinema vai parecer pra sempre uma pipoca. Que bom que eu te pedi pra não ir embora, talvez você fique. Mas daqui, ó, já estou tirando. Sim, como eu disse, sou muito perigosa gostando de alguém. E se ficar: que bom, a gente se vê depois que isso tudo passar. Agora eu vou deixar os dias tomarem conta do pouco que a gente foi, ou não foi. Sim, assim, dramática. Que bom que sabe de mim, que bom que consegui deixar saber. Se eu estiver errada, e se eu consegui, de novo, entender errado, vou deixar anotada a desculpa de que eu não sei me dividir, me dedicar à duas coisas ao mesmo tempo. Talvez eu saiba, mas não na mesma intensidade, e você, ah, você precisaria de toda intensidade do mundo. Mas agora, como sempre: tudo bem então, até logo, beijo.
domingo, 22 de janeiro de 2012
Chorar
Vontade de chorar por tudo. Por tudo o que deu certo, por tudo o que não deu. Vontade de chorar um choro bom, um choro ruim, qualquer choro, só chorar. Não sei porque me agrada tanto, não sei porque me conforta. Chorar porque eu superei aquele exercício de matemática e também porque já consigo entender perfeitamente a segunda lei da termodinâmica. Chorar de saudade do meu primeiro namorado e da gravação que ainda está no meu celular. Chorar de raiva porque foi o meu único relacionamento de verdade, e infelizmente, o que menos me causou danos. Sim, porque é chato ver que o que mais te machucou não foi de verdade, nem chegou perto de ser. Posso chorar por tudo que me fizer sentir qualquer coisa, posso chorar pelo que não é meu, chegou bem perto de ser e eu quis muito que fosse. Chorar porque eu amo, amo muito. Amo a minha mãe, amo os meus amigos de perto e de longe, amo a minha sobrinha de dois anos que chora sempre que eu digo que vou embora. Chorar porque é bom amar e saber que tem amor que não importa a circunstância, sempre vai ser amor. Vai ser amor aqui ou na América do Norte. Vai ser amor em Nova Jersey, Florianópolis. Sim, vai ser amor. Ainda assim, com todo o amor do mundo, quero chorar. Quero chorar de medo, medo de não conseguir, medo de não aguentar, medo de falar com a atendente do call center da tv a cabo. Só chorar. Chorar porque nenhum lugar da casa me conforta, nem em cima da pia da cozinha, nem na área de lavar. Chorar cantando Pato Fu. "Vai vai vai vai vai tempo amigo, seja legal. Conto contigo pela madrugada, só me derrube no final". Chorar pelo filme que eu vi hoje de manhã, pelo filme que eu vi hoje de tarde, pelo sonho que eu tive ontem a noite. Chorar de felicidade, de insatisfação, de saudade, de receio. Chorar por todos os físicos, matemáticos e químicos do passado, que fizeram questão de me dar três motivos muito bons pra fazer isso. Chorar pela incerteza de tudo, pela vontade de tudo. Chorar pelo orgulho que eu quero dar, pelo orgulho que eu quero sentir. Chorar, só chorar. É de graça, não paga imposto e se for feito com descrição, ninguém vai julgar, ninguém vai incomodar. Dá mesmo vontade de chorar por tudo, por não poder dizer pro mundo não encher o saco, porque o mundo é chato demais e cheio de gente má, hipócrita e moralista. É, chorar porque eu não aguento ver que muita gente consegue ser feliz ou pelo menos achar que é, mesmo sabendo que muita gente também sofre a custa de toda essa felicidade. Chorar pelo egoísmo de todo mundo que só repara no seu amor, na sua vida, no seu dinheiro, no seu carro. Então, só chorar. Eu não posso dizer nem 30% do que eu penso porque não é socialmente aceito pensar tantas coisas tristes sobre tudo e todo mundo, acreditando que, sim, é a realidade. Pois é, chorar. Chorar porque tem gente que não merece crueldade sendo justificada como sinceridade. Chorar por todo mundo que faz alguém se sentir menor só pra camuflar a pequeneza de si mesmo. Se esconder nas maldades, futilidades. Chorar por todo mundo que fica com a consciência tranquila mesmo sabendo que está fazendo tudo errado. Chorar pela falta da minha única amiga que não mora perto, pela vontade de ter um amor de verdade que nunca chega, só ameaça. Chorar. Chorar pelo ultimo capítulo da novela mais linda que eu vi na vida. Chorar de saudade daquele cheirinho que não é mais meu. Chorar pelos tantos outros motivos que eu esqueci porque estou chorando agora.
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