... Subentenda-me: fevereiro 2025

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025

Obrigada, Carrie Bradshaw.

Quem diria que uma série de jovens adultas de trinta e poucos anos, independentes, extremamente empoderadas, donas dos seus corpos e da sua sexualidade, vivendo em Nova York nos anos 90, tentando se descobrir entre os seus desejos profissionais e amorosos mais intensos, me cativaria tanto, não é mesmo? 

Pois eu diria! Isso é totalmente a minha cara! 

Sem contar as meninices, as roupas, os sapatos, a atmosfera de "peruas convictas" que me envolve porque eu sei que uma parte de mim ama a futilidade, já que eu acredito fortemente que mereço desfrutar de todas as experiências dessa vida, incluindo as experiências materiais. 

O supérfluo, o conforto, o luxo. Tudo isso não me parece só um amontoado de partículas. O dinheiro e tudo o que pode ser comprado com ele pra prover minha satisfação pessoal também tem uma energia que, por sorte, ressoa com a minha. 

De todo modo, meu tributo à Sex And The City por óbvio não se resumiria à estética encantadora dos anos 90, dos looks e dos sapatos, apesar de que essa parte também guarda importância e impacto diante das minhas preferências e apreciações terrenas. 

Mas, para além disso, SATC me acolheu num sentimento de conforto e de compreensão de mim mesma, da juventude, da liberdade feminina e do entendimento de que a passagem do tempo, apesar de ditar regras, não impõe nada pra quem no fundo sabe que ele só serve pra estabelecer uma ordem cronológica para os acontecimentos. 

SATC me conectou com questionamentos femininos ainda muito presentes, mas, mais do que isso, me fez atentar para as sutilezas das relações e de como estar atenta à essas sutilezas é inspirador. 

Questionar tudo a minha volta, tudo o que me impacta, é importante e promove muito desenvolvimento pessoal. Eu, sem dúvidas, consigo identificar muito disso numa escritora de Nova York que vive analisando como as situações dariam um bom texto bem humorado sobre o sexo e as relações interpessoais, mas que logo supera essa premissa e se utiliza de dessas tais análises pessoais pra evoluir tanto a ponto de deixar de ser “só” uma colunista de sexo e virar uma grande escritora conceituada e respeitada.

Enfim. Eu bem que poderia ficar horas discorrendo sobre vários aspectos, sobre os personagens e as suas personalidades marcantes e bem construídas. Mas eu preciso falar sobre a Carrie! É com certeza sobre ela esse texto. 

É recorrente ler a respeito da série e ver que a opinião popular abraça muito pouco a protagonista. 

"Sempre que tiver dúvidas sobre como agir, pense em como Carrie Bradshaw agiria e faça exatamente o contrário". Essa é uma piada frequente na rede. 

Engraçada? Sim! 

Concordo? Em partes. 

Afinal, quem nunca foi Carrie Bradshaw?

Eu, sempre. 

Eu também errei, me equivoquei, fiz escolhas ruins e me precipitei muito antes de me encontrar e criar raiz no meu lugar. 

E, ainda hoje, mesmo depois de me estabilizar e não mais viver as intensas nuances da solteirice, me vejo na Carrie e no que ela tem de mais predominante: a sua verdade! 

A Carrie nunca fugiu dos erros, nunca negou as vontades. Ela se ilude, encara qualquer derrota e não teme em dar a volta por cima. A Carrie me inspira a escrever, a me cultuar, me priorizar, a pensar sobre mim, sobre o mundo a minha volta, os meus desejos secretos, os meus sonhos reprimidos. 

Pra chegar aqui eu transicionei entre tantas de mim assim como a Carrie já foi tantas dela mesma. 

Eu já fui pra alguém a Carrie complacente, se bastando em ser pro Big qualquer coisa entre a amante fiel e a amiga disponível para absolutamente todas as horas pra ganhar quase nada. Eu já relevei tanto, já suportei tanto quanto ela. Já acreditei, já me senti insuficiente, já chorei, já fiquei obcecada. Mas também já dei um basta. Bem no estilo “YOU AND I NOTHING!!!!!”.

Hoje eu continuo sendo a Carrie. A Carrie do pós Big. A Carrie que teve que jogar as cinzas dele de uma ponte em Paris ao som de Hello it’s me. 

Hoje eu sou a Carrie reinventada, madura, ainda fiel e leal aos meus poucos e bons. Sou a Carrie que nunca desistiu de amar e sempre deu um jeito de se encontrar e reencontrar, de se consolidar no que em algum momento já foi questionado ou motivo de descrença sobre quem ela seria, sobre o que ela conquistaria. 

Hoje eu sou a Carrie sólida, apreciada, autoapreciada. Sou a Carrie do novo testamento, a Carrie de Just like that, a Carrie que lamenta não ter mais a Samanta e o Big, que morre de saudades infinitas, mas não admite parar de viver por conta da ausência deles. A Carrie das rugas, mas ainda assim a Carrie da beleza e da elegância. 

E sim, a Carrie fez mais isso por mim: refinou meus gostos, me fez treinar o meu olhar pra me ver com a beleza que é minha em conjunto com a beleza do que pode ser meu parcelado no cartão de crédito pra me deixar ainda mais bela. 

A Carrie, pra mim, é o equilíbrio perfeito entre o fútil e o útil, entre os rompantes de jovem adulta inconsequente, insegura e apaixonada e a serenidade que a experiência pode trazer pra lidar com as situações mais inesperadas e dolorosas. Ela é de um amadurecimento bonito, de amizades consistentes, de disposição para estar presente nas celebrações felizes e nos velórios. 

A Carrie me encanta e me inspira quando reflito sobre a complexidade do que é ser mulher, viver essa vida adulta que às vezes é extremamente certa e inabalável mas pode, do nada, te transtornar. Essa vida de infinitas subidas e descidas que fazem enlouquecer quem não está preparado pra flutuar com as imprevisibilidades de tudo, mas igualmente bonita e cheia de motivos pra gargalhar, de lugares pra conhecer, de pessoas pra admirar e de séries dos anos 90 pra assistir. 

Eu sigo me encantando com a profundidade das relações reais e fictícias, e aprendo tanto. 

Com SATC aprendi a amar a personagem principal que, por mais controversa que seja (ou a que mais é taxada de chata, trouxa e sem amor próprio), me ensinou que tanto faz o que pensam, desde que a gente esteja de fato seguindo o nosso coração. 

Que a maturidade vem com o tempo, que os equívocos são necessários e que ressignificar e restaurar relações demonstra a nossa fé nas pessoas, no amor que nos une a elas e, por fim, na capacidade de mudar, de ceder e aprender a amar do jeito certo, a si e aos outros. 

Que mulheres verdadeiramente fortes não se deixam de lado, mesmo depois de algumas perdas que podem parecer irreparáveis.

E ainda pra acrescentar mais sobre tantos ganhos, aprendi com SATC que pra ser uma mulher verdadeiramente forte é imprescindível estar rodeada de outras mulheres verdadeiramente fortes.

O feminismo de SATC me traz a certeza de que eu preciso das minhas mulheres fortes junto de mim e de que juntas somos mais fortes ainda, apesar de muita coisa. 

Apesar das diferenças, das discordâncias, eu, assim como a Carrie, também sou o que sou por conta de quem nunca me abandonou. Também sou o que sou por ter escolhido ser quem também não abandona. E não julga, e está disposta, e ajuda desde a escolha de um sapato até a desconstrução daquele pensamento intrusivo, da síndrome de impostora que vez ou outra acomete as minhas mulheres. 

Então, Carrie Bradshaw, obrigada. 

Obrigada por me provocar de novo a vontade de escrever, por me fazer querer sempre me acolher e amadurecer, por me tranquilizar que tudo vai dar certo mesmo depois da gente se decepcionar aqui e alí, e me mostrar que as nossas amigas são a família que a gente escolhe pra compartilhar a vida e as nossas vulnerabilidades. Obrigada pelas risadas infinitas, pelas vergonhas alheias insuperáveis, pelo Big, pelo Aidan, pelos looks e sapatos. 

Toda uma geração agora é compreendida por mim. Exceto pela parte da Carrie ser considerada a pior personagem pra maioria.

Isso não! Isso é, sem dúvidas, uma grande babaquice!