... Subentenda-me: 2011

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Uma carta para alguém

Alguém, por favor me impeça. Não deixe mais eu dizer sim sem pensar. Não me deixe mais planificar uma vida que eu não quero pra mim. Não me deixe insistir no que eu sei que não quero. Não me deixe contentar com o que eu já sei como termina. Não me deixe achar que dessa vez vai terminar diferente. Me coloque em um carro e me mande pra longe se preciso, mas não me deixe de novo com aquela sensação de não saber como fazer, de não saber como sair, de não saber como dizer que não quero mais. Corra, conserte as minhas insanidades, peça desculpas por mim, diga que eu não fiz por mal. Diga que eu não sei viver no mesmo banco, na mesma sacada. Diga que eu fui feita pra sair por aí, pra gostar do improvável, do incerto, do insulto, do atrevimento. Viaje não muito longe pra dizer que eu me encantei, pra dizer que eu gostei do cheiro, da inteligência, da sagacidade, do jeito que ele trata a mãe dele, do bom humor, da humildade, do abraço, mas isso não foi o bastante. Minta pra me fazer acreditar que nem tudo está perdido, porque se eu achar que está eu enlouqueço. Me faça tomar um porre, depois me coloque pra dormir e não me lembre de nada do que fiz. Abrace, perdoe, sinta minhas dores junto comigo e não permita que eu me faça mal, que eu faça mal a alguém. Console ele quando eu não puder mais suportar. Console porque eu fui atrás de felicidade e queria que ele pudesse ser tão louco e capaz de me dar toda a loucura que a minha felicidade exige. Grite pra todo mundo saber, quando todo mundo me odiar, que eu não sou tão má assim. Perdoe quem me fez mal porque eu já fiz mal a muita gente e também mereço perdão. Aceite a minha indisciplina, a minha dispersão, o meu desinteresse. Ria comigo, me chame pra curtir a noite quando eu fracassar de novo. Me ensine matemática, entenda quando eu não entender. Me carregue, me balance, não me jogue fora. Veja a minha sinceridade diabólica, critique as minhas falhas, mas não me ignore. Seja meu amigo, meu advogado, meu juiz, meu pai, minha mãe, meu irmão, minha irmã, meu parente. Seja tudo pra mim. Seja um desconhecido qualquer, mas me suporte. Me aguente quando eu cair, tenha dó de mim. Sinta pena se necessário, mas me ame. Interceda pela minha inconstância. Trabalhe comigo os meus desafios, os meus medos. Seja visível ou invisível, apenas seja. Me ajude a não ficar doente, me ajude a dizer a eles, quem quer que eles sejam, que eu sei me cuidar, que eu vou conseguir. Brigue comigo, me xingue, me escute. Vá atrás de quem eu amar, peça desculpas, peça abrigo. Alguém, por favor não me deixe pegar chuva porque eu sempre gripo muito rápido. Fale sobre as minhas irritações, sobre como posso ser insuportável quando quero. Conte as minhas próprias histórias para mim, me lembre delas. Por favor continue comigo quando a gente estiver longe demais. Seja sincero, não me iluda, não me cuspa para fora de você nos meus piores momentos. Me faça pensar. Me faça ser eu quando eu me perder. Preciso de você, e preciso porque sou sozinha demais, e quando se é só demais a gente se contenta com o que não pode ser real apenas para reafirmar um controle inexistente. Seja meu controle, não seja real.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Ah, 2011...

A verdade é que a gente sempre acha que sabe, que conhece, que entende, e nunca é assim. Eu achei que sabia, que conhecia, que entendia. Bobagem. O ano começou com as minhas mais lindas e infantis perspectivas, a minha falsa maturidade e mais umas pessoas queridas. Agora o ano acaba com um choque de realidade, porque nem tudo é lindo e os meus sonhos infantis são e sempre foram pura fantasia. Não sou tão madura quanto eu achava que era, afinal, eu ainda tenho 16 e uma falta de letramento momentânea que me dá nos nervos, bem na hora que eu preciso dizer umas verdades pra quem tem toda a superficialidade do mundo disfarçada em uma cabecinha aparentemente inteligente. Pessoas queridas não foram queridas por muito tempo, só enquanto eu pude ser útil e não falar muitas besteiras. Ninguém atura ninguém que é muito diferente, ninguém culto e bastante elegante vai saber aturar uma alma do avesso feito a minha. Eu entendo. Entendo que é preciso não ser egoísta e não pensar nas suas satisfações pessoais caso você queira mudar alguém. Ninguém realmente vai querer o bem de uma pessoa se essa intenção for pra sua própria conveniência, seja porque não aguenta mais a risada extravagante, ou a voz com um tom irritante. Uma pessoa quer o bem da outra quando pensa no que a melhora pode beneficiar na vida de quem se pretende mudar. O ano tá acabando e eu consegui cair na real nos 45 do segundo tempo. Cair na real pra perceber que sinceridade não é sinônimo de honestidade, e que ser honesto é muito mais nobre do que nomear assim o comportamento impensado de sair por ai falando o que quer. Honestidade é algo necessário, sinceridade é algo a ser encaixado, poucos sabem disso. Não sou honesta quando tento expor tudo o que não me agrada, o que sei e o que é certo na minha ótica, o nome disso é prepotência. Os honestos não mentem. Não mentir também não significa ter que falar a verdade o tempo todo, ocultar é preciso e importante caso você não queira machucar alguém com seus espinhos venenosos. Meus defeitos são insuportáveis, eu sei. Sempre grito e perco o controle, mas me recuso a falar verdades que machucam e justificar como sendo um simples descontrole de sinceridade. Eu realmente caí na real, caí o suficiente pra não pedir que fique quem já está querendo ir. Eu aceito a realidade de que eu sou tão só quanto eu não gostaria de ser. Sempre aceitei tudo e tão passivamente. Aceitei as denominações dadas por quem não sabe o que eu realmente sou, aceitei brincadeiras de mau gosto que me fizeram testar a paciência. Aceitei mas desisti no tempo certo, deixei que fosse embora quem já estava, na verdade, pedindo pra sair. Eu preciso do que me faz bem, do que me quer bem. Aprendi agora, acordei. Eu quero a minha amiga de Floripa sempre me alertando, me fazendo pensar, morrendo de preocupação quando eu desequilibro, e sendo mais presente longe do que gente que tá perto e finge se importar. Eu quero o meu amigo paraense que mora em Goiânia me aproximando de Deus, me mudando pra melhor. Eu quero a minha sobrinha falando: "BO DIA, BO DIA". Eu quero a minha mãe sentindo raiva de todo mundo que me faz chorar sem ser julgada por tomar as minhas dores só porque é minha mãe. Eu quero até o meu pai sempre carne de pescoço porque ele pode, é meu pai. Eu quero ficar em casa estudando e provando pra mim que eu consigo ser capaz de fazer bem mais do que me julgavam. Eu quero de novo olhar a minha prova de química e pensar: "ah, o doce sabor da vingança", porque eu sabia tudo. Eu quero dizer que o que não me faz bem não me faz falta e não sentir falta mesmo. Eu quero isso. Eu quero não precisar, não me magoar, não ter que gritar pro mundo os meus motivos porque eu passei grande parte do tempo aceitando os motivos dos outros e agora não é hora de tentar convencer ninguém dos meus. Eu sei deles, basta. E que venha mais um ano de falsas maturidades, fantasias e pessoas queridas. Eu aprendo e sempre acabo tirando a nota que preciso pra passar de ano.

domingo, 13 de novembro de 2011

Os filmes e seus efeitos sobre mim

Semana passada eu assisti "Titanic" e enfim pude perceber que não basta ser um ícone, um clássico, pois se você não tiver idade suficiente pra entender e interpretar, nada fará sentido. Quando eu era criança ficava encantada com a história, e ao ver a chamada pro filme durante os comerciais eu sempre ficava eufórica, gritava: "Mãe, mãe, 'Titanic', mãe!". Nunca entendi porque as pessoas choravam, nunca entendi a emoção, nunca entendi o poder que a música da Celine Dion tinha sobre os reles mortais, mas eu adorava. Eu cresci sabendo da história, sabendo que o navio afundava, sabendo que o Jack morria. Até semana passada eu nunca tinha chorado com "Titanic", nunca tinha sequer me emocionado. Então eu entendi. Cresci e entendi. Acima de tudo, e de qualquer análise mais profunda sobre o filme, o principal motivo que me fez ficar chorando quietinha, comendo cup noodles e molhando o travesseiro com lágrimas e caldo de macarrão instantâneo enquanto os créditos do filme rolavam, foi o simples fato de que eu nunca tinha prestado tanta atenção no esforço e no amor de alguém pra salvar a vida de outra pessoa. A gente vê por ai muitos outros filmes aonde os mocinhos viram o mundo de cabo a rabo pela sua mocinha, mas o Jack, não, o Jack fez mais, o Jack foi mais. Tudo ficção, tudo. Mas uma linda ficção. A Rosie disse que ele tinha sido tudo, que ela o tinha amado mais do que qualquer outra coisa, e nem sequer tinha uma fotografia, ele só existia em sua memória. E eu chorei, sim, eu chorei. Chorei com os olhos enrugados de Rosie, chorei vendo ela cumprir a promessa que fez pro Jack de nunca desistir da vida. Chorei vendo ela morrer dormindo. Sim, a Rosie não desistiu, a Rosie viveu. O diferencial de tudo, de todos os outros filmes que eu já vi ou que eu me lembro agora, é que o Jack lutou até o fim pela vida de alguém que não conhecia quase nada. Jack morreu deixando com a Rosie alguns dias de felicidade e uma oportunidade pra continuar vivendo dentro dela. O que mais me surpreende é que as minhas lágrimas não escorrem por causa do destino que os impediu de viver um grande amor, eu choro, na verdade, porque o Jack foi nobre e corajoso, porque a Rosie foi forte e apaixonada. Choro porque ele morreu mas envelheceu com ela durante todos os anos que ela teve que ser obrigada a viver sem ele, porque ele não existia mas estava presente. O fato de ela seguir uma vida inteira não diminuiu em nada a fidelidade que ela dedicou a ele, à promessa, ao amor. E agora, depois de ficar boba chorando tudo de novo, não pelo filme mas pelas minhas circunstâncias, sinto que todo o meu romantismo está vivo mesmo eu não esperando que alguém lute pela minha vida, ou alguém que seja capaz de não ser egoísta com um sentimento. Eu continuo chorando por todas as impossibilidades, as inverdades, e por tudo que eu queria que fosse real, que fosse bonito. Eu não perdi nada, eu conquistei muito mais. Conquistei a maturidade necessária pra entender "Titanic", conquistei a maturidade necessária pra entender que não errei em nenhum segundo da minha vida que foi desperdiçado com sentimento. Eu senti, eu chorei, eu achei que devia. Não salvei a vida de ninguém, ninguém nem chegou perto de salvar a minha. Ninguém foi leal, ninguém foi verdadeiro, ninguém. Mas eu conquistei. Eu conquistei alguns meses, algumas ligações. Eu conquistei decepções que guardei até o momento em que eu estivesse realmente preparada pra encará-las de frente e dizer obrigada. Eu conquistei os meus choros sinceros vindos de filmes românticos dramáticos e filmes de cachorros amigos que te esperam na porta de uma estação de trem mesmo sabendo que você não vai voltar. Eu choro, eu posso. Eu posso dizer que eu sinto falta, que dói. Mas eu senti, eu senti como o Jack. Por mais que existam controvérsias, eu senti. Eu senti, eu chorei, eu chorei por alguém, eu chorei por um filme, eu chorei sentada no pátio da casa da minha avó, encolhida, sendo iluminada pelo poste da rua. Eu me recuso a esquecer tudo aquilo que esteve na minha vida. Eu aceito todas as lágrimas, todos os filmes, todos os meus amores, todos os meus encantos. Eu aceito tudo. Eu aceito o Adam Sandler triste voltando pra normalville. Eu aceito meu coração, meus cup noodles, meus travesseiros melecados. Eu aceito tudo, aceito sempre, mas não me contento. Eu quero ver o Adam Sandler com a jornalista sacana que mentiu pra ele em "A herança de Mr. Deeds", fazer o que? Eu quero ver. Eu quero a realidade da vida que não é nada romântica como em "Titanic" e a realidade de que as pessoas que não são fiéis como o Hachi. Eu quero a realidade infame de que cachorros são melhores do que pessoas porque as pessoas não são como o Jack. Eu troco toda utopia dos filmes românticos pela vida real, mesmo que esses filmes me façam escrever um texto honrando o quanto seria maravilhoso se a vida fosse exatamente como eles fazem parecer ser.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

É... (Tati B)

"Se existisse no mundo, com suas regras terríveis, uma brecha pra roubar no jogo, se existisse um único vão por onde se escapa do óbvio, se desse mesmo pra passar correndo atrás de Deus e pular no abismo do que queremos porque queremos. Eu escolheria você. Se me dessem um último pedido, eu escolheria você. Se a vida acabasse hoje ou daqui mil anos, eu escolheria você. Eu só não consigo, vejam como essa vida é mesmo uma coisa de deixar qualquer um louco, eu só não consigo escolher você da maneira mais fácil e particular, que é tendo você. Que é sendo você. Mas se eu virar, se eu virasse, esse pó de serra, se eu virasse argila, se eu pudesse ser esculpida por você, o que você faria de mim? Eu queria, eu queria triturar o que sou pra ficar quieta e olhar você. Eu queria calar ou matar essa coisa toda que sou e diz disso sem parar, pra só te ver ou ser pra você. Mas se você soubesse como foi duro resgatar tudo e colar ao meu modo, nesses mil anos, pra agora, assim, sem eu nem saber, me assoprar por você. Entende? Porque eu te juro, de todas as coisas do mundo, eu só queria olhar pra você. Ainda que andar cega me deixe daquele jeito e ainda que você jamais vá guiar alguém na escuridão. Seu medo de andar no escuro ou ser necessário. E então vem a merda toda. Eu preciso correr pra ficar em pé, e então corro, e corro, e de pé estou. E de pé, agora, olhando tudo. Também não era isso." - Tati Bernardi

Compartilhando

Ana Bolena e meu momento nerd do final de semana - Tati Bernardi

Ontem cheguei ao último capítulo da segunda temporada de The Tudors. Meu vício nessas séries “históricas” começou com Roma, que assisti (as únicas duas temporadas) em menos de uma semana. As primeiras duas temporadas do Henri VIII bonito de doer a alma eu matei em menos de cinco dias (sim, eu fico sem dormir, por exemplo, não é muito normal, mas é assim que sei gostar de qualquer que seja a coisa, até que a temporada acaba e (ufa!) tudo fica bem de novo). Depois de fazer o rei terminar seu casamento com a espanhola Catarina, brigando assim com o imperador Carlos V e com seu próprio povo, Ana Bolena seguiu conseguindo muitas coisas com sua beleza e inteligência. O rei brigou com o papa mudando pra sempre a história da Igreja Católica, brigou com a França, renegou a própria filha e, por fim, começou até mesmo a mandar matar todos (até os amigos mais queridos) que não considerassem Ana a rainha da Inglaterra. Pouco tempo depois de casados, quando Ana já não era mais novidade, não embuchava de jeito nenhum de um menino macho herdeiro e andava chata e deprimida porque não se sentia mais amada, Henrique já não aguentava mais ver a beldade caminhando pelo palácio e decidiu mandar decapitá-la com a desculpa de que ela, uma bruxa promíscua, precisava morrer para que ele “renascesse” e pudesse reaver, para si e para o mundo à sua volta, a paz e a pureza. Na manhã de 19 de maio de 1536 (juro que não olhei no Google, eu decorei mesmo, tô falando, não é normal, eu vicio mesmo nas coisas) Ana teve seu pescoço cortado em praça pública. Antes (e essa parte é verdade porque agora sim pesquisei na Internet) ela se ajoelhou e pediu às pessoas que, assim como ela, não deixassem nunca de amar o rei. Apesar de tudo. Tudo isso seria apenas uma história contada de milhares de maneiras diferentes (e, para mim, em um DVD que tenho que devolver até terça meia noite) não fosse a bizarrice ocorrida com a minha pessoa na noite de ontem. Conforme Ana caminhava para a morte, sem nem mesmo poder se despedir de seu amado, eu comecei a me contorcer inteira de uma dor poucas vezes experimentada na vida. Um rio de lágrimas, com direito a tremedeiras, espasmos, murros no peito, suores frios e olhadas significativas para a janela, me fez pensar seriamente em internação. Definitivamente não era normal sofrer assim por um capítulo de série inglesa que, além de ser pura encenação, era de uma temporada que já acabou faz tempo. Ana não era nenhuma santa. Fazia tudo pensando em manter-se no poder, seduziu o rei pouco se importando com a desgraça da rainha Catarina (que morreu infeliz, solitária e sem poder jamais reencontrar sua filha Mary), arrumava encrenca com parentes e amigos do rei, dava suas afiadas opiniões mesmo numa época em que mulher boa era mulher que dizia amém pra tudo (mudou muito?) e era chegada em música alta com bebidas alcoólicas… Enfim, as pessoas a odiavam porque Ana era de verdade (eu sei gente, tá meio ridículo esse texto, mas eu precisava escrever isso, desculpa). Intensa, passional, louca. Amália, da música, era uma submissa imbecil passadora de cueca de malandro brocha. Ana é que era mulher de verdade. Segundo o Google também me informa, as cartas do rei Henrique VIII para Ana Bolena chegavam a ser infantilizadas, tamanho era o seu amor. Iniciais formando coraçõezinhos e daí pra pior. Como, meu Deus, como um amor desses SIMPLESMENTE ACABA? E o pior, com que alívio Henrique fica sabendo que o pequeno pescocinho de sua amada já rolou! Ele chega até mesmo a comemorar (o Google, na forma de mestrados de estudiosos ingleses, confirma isso também) o fim desse tormento chamado gostar de alguém de verdade. Ele estava livre da bruxaria do amor! Henri era uma dessas pessoas que não sabem amar. O amor é uma doença e seu fim uma promessa de equilíbrio e bons tempos. Estamos livres da bruxaria! Pior: ele, como tantos que conhecemos pela vida (e que duramente reconhecemos o tempo todo dentro da gente) era um viciado em decepar cabeças, um incapacitado na arte de continuar sentindo. Enjoei, não quero mais, ficou chato, está atrapalhando meu trabalho, falou o que não devia, não fez o que eu esperava, foi tão intenso que acabou rápido (e não foi isso que eu fiz assistindo mais de vinte episódio em uma semana?), qual a próxima novidade da lojinha de brinquedos? Com o fim de Ana Bolena, não só Henrique estava curado de sua instabilidade emocional como não precisaria nunca mais cruzar, pelos corredores do seu castelinho, com os restos usados e desgastados da mulher que, não fazia muito tempo, tinha sido razão e inspiração para que ele revolucionasse a história da Inglaterra e do mundo. Nos próximos capítulos, o incansável Henrique VIII terá outras tantas mulheres, as quais me recusarei a assistir. Todas serão infelizes em algum momento, mas todas, em algum momento também, pensarão o estúpido e tão comum “comigo vai ser diferente”. Se ele já não estivesse enterrado há séculos, ia desejar do fundo do meu coração que alguém cortasse sua cabeça. As duas.





Te odeio, Henrique, seu safado!

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Primeiro de Novembro

Não faz muito tempo que eu voltei a ter aquela visão otimista de que nenhuma dor dura pra sempre. Talvez hoje eu tenha conquistado a capacidade de encarar tudo com uma leveza maior, sem o peso que a dor de uma decepção me causou. Consegui perceber que a minha decepção me trouxe coisas boas, e essas coisas boas me trouxeram outras melhores ainda. Às vezes a gente se entristece achando que por ter vivido alguns tempos ruins estamos destinados a viver apenas as tristezas. Eu nunca havia parado pra pensar no quanto as minhas tristezas me trouxeram felicidades inesperadas. Eu agradeço, e mesmo tendo andado tão cética e desiludida com as pessoas e a vida, consigo reconhecer o quanto Deus olha pra mim. Eu lhe devo desculpas por ser tão distante, tão acomodada e cabeça dura, sempre com o meu jeito teimoso de encarar as minhas dúvidas. Acho que sempre quando a gente está meio perdido, meio tonto, meio caído e tentando se levantar, Deus manda alguém pra te dar a mão. Tudo se faz de forma extremamente esclarecedora, já que quando você cai e se machuca, se pergunta porque Deus não o segurou. A resposta vem. Hoje, depois de refletir bastante a resposta veio como um anjo caído. Anjos se acumulam, então, quanto mais você cair, mais anjos você tem e mais perto de Deus você está, justamente por estar perto de quem ele mandou pra cuidar de você. Aprendi a reconhecer meus anjos, e eu gostaria muito de agradecer os risos que têm me causado, as conversas, as reflexões. Larguei no meio do caminho os meus ressentimentos, não vale mais a pena carregá-los. Deixei as mágoas, a raiva, a perda de tempo que é sustentar em mim todos esses sentimentos. Estou amando essa época de renovações, de conclusões, e quem sabe até de decisões. Estou amando meus anjos. Estou suportando meus erros, corrigindo-os. Esqueci os erros dos outros, e justifico cada um porque cada um tem a sua razão particular, e cada um é o que é. Estou apagando todos os meus rabiscos e passando a limpo, de caneta. Estou me mantendo calma e interessada em tudo aquilo que me traz paz.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

A água não tem cabelo. O amor também não.

— Eu prefiro a superfície.
— Por quê?
— Porque se você mergulhar muito fundo pode se afogar.
— E qual o problema em mergulhar e se afogar?
— Se afogar não é o problema. O problema é não voltar. Ou, se voltar, ficar com medo de mergulhar de novo.
— Acho que você já mergulhou.
— Sim, muitas vezes.
— Se afogou?
— Quase sempre. E você, já se afogou e voltou?
— Sim.
— Sente medo de mergulhar de novo?
— Não. Gosto de estar no fundo do mar.
— Por que não sente medo?
— Porque na superfície você só vê o que todo mundo vê. Se afogar é consequência de não saber nadar. É só aprender a nadar.
— E você sabe nadar?
— Eu tive que aprender, já me afoguei demais.

sábado, 22 de outubro de 2011

Procurando as chaves pra abrir um armário importante

Não entendo mais as minhas listas, os meus planos, as minhas vontades, as minhas antigas frequentes exatidões. Desaprendi a falar dos dias, das cores, dos ventos, das folhas, dos risos. Não sei por que ou por quem, só sei que não tenho mais. Hoje eu acordei sentido falta da sensibilidade que tranquei no armário, corri pra procurar a chave e não achei. Sentei e parei pra pensar na quantidade de tempo que tenho perdido ao tentar viver sem ela. Nenhum tempo gasto é aproveitado quando as cores são sempre tão escuras, quando os lugares bonitos já não transmitem a tranquilidade que deveriam. O levantar mecanizado por uma rotina construída através de necessidades indefinidas me incomoda. Sempre faz referência aos passos obrigatórios rumo a um lugar que nunca sei da certeza de querer permanecer. Tudo porque perdi a chave do armário, e hoje não lembro mais do motivo nem da dor, lembro apenas que fiz pra me proteger, que considerei ser sensível demais como algo prejudicial ao meu equilíbrio. Não quero que seja tarde demais pra começar a firmar o pensamento de que ser desequilibrada não dá em nada e de que está na hora de achar essas chaves. 

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Sou só

O ano já está quase acabando, e essa constatação logo me leva à conclusão de que sou mais só do que gostaria de ser. Sou só em todos os aspectos internos que os externos me trouxeram. O que eu consigo resumir deste ano é solidão, uma solidão bem triste, que eu não queria que existisse. Tudo começou bem, algumas boas amizades, um amor e poucos problemas. Em agosto uma amiga legal saiu do meio de convívio e isso me limitou ainda mais a um único ciclo, que me causa boas dores de cabeça de vez em quando, por culpa minha talvez. Em setembro o tal do amor, que a princípio havia sido considerado o meu principal motivo pra tolerar o resto do mundo e o último fio de esperança pra me fazer acreditar que nem tudo era tão ruim quanto eu pensava, também foi embora. Hoje passei a me considerar sozinha demais não pelo amor ter ido embora, não por eu ter sido apresentada a problemas que me pressionavam mais e exigiam mais de mim, me considero só por estar sozinha agora sentada na ultima cadeira da ultima fileira, olhando o resto das pessoas estarem mais bem acompanhadas com as suas próprias solidões do que eu. Talvez isso se dê pelo meu egoísmo, que me faz desacreditar que possa existir no mundo alguém mais triste e só do que eu. Os meus amigos podem ser conferidos na metade dos dedos da minha mão direita (que é a minha mão mais bonitinha), e isso me dói um pouco quando eu procuro na lista telefônica e não encontro nenhum número que realmente me interesse ouvir a voz. Além de passar muito tempo só e me sentir assim mesmo diante de uma multidão, o difícil mesmo é perceber que por mais que eu provoque em mim um desejo de mudança, não consigo encontrar disposição pra isso. Talvez por medo de mais uma decepção em meio a tantas outras que eu me provoquei quando tentei mudar, talvez por me considerar incompatível com o resto das pessoas por causa do meu temperamento tão difícil de lidar, que acaba sempre magoando alguém e me magoando junto. Acho que eu nunca fui tão sincera quanto ao meu estado como estou sendo agora. Não sinto tanto que as minhas reações intempestivas possam ser consideradas de minha total responsabilidade, pois, inevitavelmente, quando eu tento me culpar por tudo, só consigo me ver sozinha num quarto escuro, chorando e tremendo de medo porque me deixaram trancada. Eu sei que eu não deveria ser tão piedosa com as minhas brutalidades, não mereço piedade, mas seria muito bom ter alguém no mundo que pudesse concordar que a culpa não é minha, que eu faço tudo involuntariamente. Alguém que também me apoiasse na hora de culpar quem me deixou sozinha, quem não se importou em fazer eu me tornar o que eu nunca quis ser. Eu queria alguém que me ajudasse a fazer isso só pra eu não me sentir tão injusta ao culpar todo mundo por uma culpa que eu não consigo assumir como sendo unicamente minha. E é minha. Porque tudo isso me levou a fazer o que eu não queria, e agora, mais do que nunca, eu adoraria pedir desculpas pra minha amiga que acabou de chegar por todos os meus erros e por eu ter dito mais cedo que não fazia mais questão da presença dela na minha vida. Eu realmente gostaria de dizer a ela que o meu medo de ficar mais só do que já sou faz com que eu afaste todos de mim porque percebi que dói menos quando eu tiro as pessoas da minha vida do que quando elas me tiram da vida delas. Já aconteceu, já me tiraram, me empurraram, e não foi bom, doeu. Eu sei que a minha amiga não tem razões pra olhar pra mim agora e ver que estou chorando, porém mais triste do que isso é perceber que eu não tenho ela e nem ninguém pra me abraçar agora e me fazer rir com uma piada inútil qualquer, coisa que eu prefiro muito mais ao invés de um abraço e um "vai passar". Tenho medo, tenho frio, e a minha garganta está usando uma gravata com um nó perfeito, e tudo isso me impulsiona a não conseguir imaginar alguém no mundo realmente capaz de fazer tudo isso passar. Não desejo a ninguém a sensação de não ver mais beleza nas praças, nas árvores, no céu, nas sorveterias, nos namorados e suas mãos entrelaçadas só por causa de alguém que veio e foi embora levando tudo isso meu consigo. Além de levar todas as outras pessoas boas que podiam me fazer feliz. Chorei ao pedir a Deus que trouxesse todos que eu deixei e que me deixaram. Por mais que doa eu espero passar. Por mais que o fato de que eu não tenho pra quem ligar num sábado a noite me provoque muitas lágrimas desnecessárias, espero passar pois acabei percebendo que tentar amenizar só prioriza as minhas fragilidades, os meus medos, as minhas tristezas. Eu vou sentir. Tentar apagar cada erro cometido por mim ou pelos outros apenas os tatua em mim e neles. Vou aprender que tem gente que nasce pra ser só, e que tem gente que nasce pra reclamar da solidão. Vou aprender a ser só, porque reclamar dá trabalho demais.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Da Martha

Bem, acho que agora, em meio a toda essa minha exaustão e pressa pra fazer quase nada, também vou acrescentar aqui algumas coisas que me causam relaxamento profundo. Imagens, textos de gente linda que não escreve com a cabeça e sim com a alma. Músicas, e às vezes os sentimentos que tudo isso me transmite.

Hoje vou começar com um trecho de um texto da Martha Medeiros chamado "O medo do amor"...

"(...) E ter o amor rejeitado, nem se fala, é fratura exposta, definhamos em público, encolhemos a alma, quase desejamos uma violência qualquer vinda da rua para esquecermos dessa violência vinda do tempo gasto e vivido, esse assalto em que nos roubaram tudo, o amor e o que vem com ele, confiança e estabilidade. Sem o amor, nada resta, a crença se desfaz, o romantismo perde o sentido, músicas idiotas nos fazem chorar dentro do carro. Passa a dor do amor, vem a trégua, o coração limpo de novo, os olhos novamente secos, a boca vazia. Nada de bom está acontecendo, mas também nada de ruim. Um novo amor? Nem pensar. Medo, respondemos. Que corajosos somos nós, que apesar de um medo tão justificado, amamos outra vez e todas as vezes que o amor nos chama, fingindo um pouco de resistência mas sabendo que para sempre é impossível recusá-lo."

Eu preciso explicar pra mim mesma tudo isso? Talvez seja meu subconsciente que reverencia o que faz sentido e faz sentir. "Que corajosos somos nós, que apesar de um medo tão justificado, amamos outra vez e todas as vezes que o amor nos chama, fingindo um pouco de resistência mas sabendo que para sempre é impossível recusá-lo." E que coragem. A gente diz que não, que não quer, que vai se blindar de todas essas coisas dedilhadamente impostas ao coração que nada sabe, e nada quer querer. Mas, enfim, é sempre impossível recusar a chegada do inesperado. Já no meu caso, eu não recuso não, eu espero mesmo. Obrigada Martha.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Leve, azul, rosa. Com areia nos pés.

Às vezes é inevitável, não é? Digo, essas coisas que a vida muitas vezes impõe. A forma de como passamos a enxergar o simples de maneira tão mais complexa e cheia de obrigações. A forma com que os acontecimentos nos fazem mudar de caminho só porque é mais fácil de chegar, só porque a estrada é menos esburacada. Ou talvez não. É muito constante essa fuga pra algum lugar onde tudo parece mais calmo, mais confortável. Do que se faz? Do que se compõe a complexidade de tudo que a gente cria justamente pra fugir do complexo? O amor está presente, eu sei que está e sempre esteve. Amor nas escolhas, amor nas desistências. O problema é que muitas vezes o nosso amor tão bem cuidado e querido passa ser responsável por te condenar a um cárcere privado, à tortura dos relacionamentos. O problema não é amar, não é se dedicar. Tudo se complica quando já não há o prazer em fazer tudo isso, quando tudo se torna um simples produto do costume, da presença de algo que nem sempre faz bem. Sabe, muitas vezes acho que a propaganda toda é tão superficial. O amor não é autossuficiente, o amor depende de muita coisa. A gente faz tudo com muito amor, sempre. E eu não me culpo por ter amado tanto viver uma verdade inventada, por ter me empenhado em viver uma coisa que remetia promessas lindas de alegrias. É assim mesmo. As pessoas felizes supervalorizam tanto a felicidade acreditam que esse sentimento mora e dorme juntinho com o amor por alguém. Aquele amor, sabe? Aquele que a gente ama amar de vez em quando, mas que de vez em quando também deixa a gente mal. Aquele que nos faz sonhar e deixa o coração bem quentinho, mas que também faz ele chorar, comprimido, agarrado entre as pernas, coitado. Aquele que você sente quando chega alguém, te sorri bonito, te encanta e te leva junto dele, até quando der. Ou será que é a carência que faz a gente acreditar nesse amor? Sei que é bom demais ter companhia, mas entenda, o tempo muda tanta coisa, tantos olhares, interpretações. O tempo me fez ver que quem faz a promessa de felicidade ao se ter um amor, um amor que dói, é justamente essa carência. Amor mesmo vai além do desejo de ter um par pertinho o tempo todo pra tapar uns buracos. Amor mesmo não dói assim. Acho que descobrir isso me endureceu. Eu não quero dividir nenhuma alegria, eu quero amar sozinha todas as minhas coisinhas sem precisar de alguém pra curar minhas faltas. Eu fico aqui, bem, sentindo sozinha o gostinho de querer amar alguém de verdades em precisar inventar, ou tapar meus olhos pra dor. E também sem precisar esperar ansiosamente esse alguém chegar. Minha sorte é que as decepções, as escolhas erradas, as pessoas ruins que deixaram coisas ruins, me impulsionam tanto a amar melhor, a amar os detalhes, o processo. Não sei se você entende, mas me veja, me sinta, observe como eu amo olhar as estrelas sem ninguém ao lado. Já sofri muito. Já amei demais uma invenção, amei junto, amei separado, porém sempre amei. Amor de carência, que seja. Hoje eu quero continuar amando, sem essa auto cobrança pra amar e ser amada por alguém só porque me sinto só. Quero seguir amando tudo, alguma história bonita, algum escritor que me inspira sensações coloridinhas e aconchegantes. Quero amar as folhas voando com o vento na praça. Quero amar os musicais da disney sozinha, por mim. Não quero precisar sentir só coisas boas pra me sentir feliz. Quero ficar sozinha pra amar tudo sem resposta, sem confirmação de reciprocidade, e, principalmente, sem exigir isso. Estar constantemente livre do sentimento que me obrigar a estar amando alguém me causa. Quero estar constantemente bem convivendo com o sentimento de amar a mim. Você imagina o quão ruim é viver com na presença de algo e não sentir exatamente tudo o que você precisa pra ficar tranquilo? É tão mais proveitoso estar livre pra amar o que eu quiser, seja esse algo animado ou inanimado, aeróbico ou anaeróbico, tanto faz. Eu prefiro amar uma sensação, uma viagem, um livro, um carinha legal que me faz sorrir, do que simplesmente viver presa a algo "seguro" pelo qual eu não sinto amor só porque me resgata dos meus abandonos? Quero dividir com alguém meu amor, sim, mas que seja uma troca justa. Por enquanto prefiro ele sendo só meu, sem dar nem receber. Prefiro ele comigo, se dedicando as minhas manias, as minhas risadas, aos meus passeios sozinha olhando pro céu, as minhas tardes bonitas. Eu quero o amor na liberdade que é poder conviver bem comigo, pra daí sim conviver com outra pessoa. Eu quero o amor nessa coisa de decidir que eu não preciso de alguém pra ser feliz, e que ser feliz não é sinônimo de ter alguém só porque a maioria das pessoas que se dizem felizes têm. A minha felicidade é diferente, eu faço, eu crio, eu invento ela sozinha, eu sei me virar. Quando há uma dívida, uma culpa, o amor se esvai, e quando estou só a culpa fica longe e eu não cobro nada de ninguém. Eu juro que se você pudesse me ver não me reconheceria. Eu vivi mais do que eu quis, mais da minha idade, mais da minha própria realidade. Agora eu só amo. Não que eu não queira, só não faço mais da presença de uma pessoa boa a razão pela qual eu deva sentir amor. Você vê como as coisas são, não é? Outro dia te confessei, me confessei, confessei pro mundo como é bom ter os "alguéns" que a vida nos trás. Não deixo de amá-los, apenas deixei de esperá-los. Sem pressa, talvez com alguns tropeços no meio do caminho, mas lutando pra me desfazer das ansiedades desnecessárias. Tudo mais leve, mais azul, mais rosa. Com as areias nos pés, com as dores no abdômen causadas pelo riso, não mais pelo choro. “E o resto que venha se vier", disse Caio. E eu te digo: que o resto não venha logo, só pra me deixar amar um pouco mais a felicidade de ser só.

domingo, 18 de setembro de 2011

Aula de Português

Textos que me fizeram pensar, sorrir, ou simplesmente viajar no meio da aula de Português:

"Arrumar o homem"

Não boto a mão no fogo pela autenticidade da estória que estou para contar. Não posso, porém, duvidar da veracidade da pessoa de quem a escutei e, por isso, tenho-a como verdadeira. Salva-me, de qualquer modo, o provérbio italiano: "Se não é verdadeira... é muito graciosa!"
Estava, pois, aquele pai carioca, engenheiro de profissão, posto em sossego, admitido que, para um engenheiro, é sossego andar mergulhado em cálculos de estrutura. Ao lado, o filho, de 7 ou 8 anos não cessava de atormentá-lo com perguntas de todo jaez, tentando conquistar um companheiro de lazer.
A ideia mais luminosa que ocorreu ao pai, depois de dez a quinze convites a ficar quieto e a deixá-lo trabalhar, foi a de pôr nas mãos do moleque um belo quebra-cabeça trazido da ultima viagem à Europa. "Vá brincando enquanto eu termino esta conta". Sentencia entre dentes, prelibando pelo menos uma hora, hora e meia de trégua. O peralta não levará menos do que isso para armar o mapa do mundo com os cinco continentes, arquipélagos, mares e oceanos, comemora o pai-engenheiro.
Quem foi que disse hora e meia? Dez minutos depois, dez minutos cravados, e o menino já o puxava triunfante: "Pai, vem ver!" No chão, completinho, o mapa do mundo.
Como fez, como não fez? Em menos de uma hora era impossível. O próprio herói deu a chave da proeza: "Pai, você não percebeu que, atrás do mundo, o quebra-cabeça tinha um homem? Era mais fácil. E quando eu arrumei o homem, o mundo ficou arrumado!"
"Mas esse garoto é um sábio!", sobressaltei, ouvindo a palavra final. Nunca ouvi uma verdade tão cristalina: "Basta arrumar o homem (tão desarrumado quase sempre) e o mundo fica arrumado!"
Arrumar o homem é a tarefa das tarefas, se é que se quer arrumar o mundo.
(Dom Lucas Moreira Neves, Jornal do Brasil, 1997)



Curriculum Vitae

Eu já dei risada até a barriga doer, já nadei até perder o fôlego, já chorei até dormir e acordei com o rosto desfigurado.
Já quis ser astronauta, violinista, mágico, caçador e trapezista.
Já confundi sentimentos, peguei atalho errado e continuo andando pelo desconhecido.
Já tentei esquecer algumas pessoas, mas descobri que essas são as mais difíceis de esquecer.
Conheci a morte de perto, e agora anseito por viver cada dia. Já fiz juras eternas, já escrevi no muro da escola, já chorei sentado no chão do banheiro, já fugi de casa para sempre, e voltei no outro instante.
Já saí para caminhar sem rumo, sem nada na cabeça, ouvindo estrelas.
Já vi pôr-do-sol cor-de-rosa e alaranjado, já me joguei na piscina sem vontade de voltar.
Já me apaixonei e achei que era para sempre, mas era um "para sempre" pela metade.
Já deitei na grama de madrugada e vi a Lua virar Sol, já chorei por ver amigos partindo, mas descobri que logo chegam novos, e a vida é mesmo um ir e vir sem razão.
Foram tantas coisas feitas, guardadas num baú chamado coração. E agora um formulário em interroga, me encosta na parede e grita: "Qual a sua experiência?"
Essa pergunta ecoa no meu cérebro: — "Experiência... Experiência" Será que ser "plantador de sonhos" é uma boa experiência?
Não! Talvez eles não saibam ainda conhecer sonhos!
(Autor desconhecido)


Sim ou não
O sim tem três letras
O não também
Talvez tem seis
Porque é a soma
do que os outros dois têm
A diferença entre eles é o til
Que o sim não tem
E o não tem sim

A gente só diz sim
ou não
E se, às vezes,
diz talvez
quer dizer
um desses dois
ou sim
ou não.

Pelo sim e pelo não
Não diga só talvez
diga não
não não é talvez
diga sim
sim não é talvez
ou não

(Alice Ruiz e Estrela Ruiz Leminski)

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Último texto.

Existe o último beijo, o último alô, o último abraço, a última despedida. Agora o que eu quero mesmo é ofertar um último texto, apenas pra finalizar tantos e tantos outros que fiz a fim de demonstrar amor, ou seja lá qual sentimento. Quero colocar a maldade de volta no envelope e devolvê-la ao remente. E gostaria muito de direcionar esse texto a você, meu querido, porém não sei se possuo tamanha capacidade para diferenciar qual de você merece mais. O você que você construiu pra mim, ou o você de verdade? Talvez os dois mereçam, não é? Tudo bem, então aí vai uma consideração para você que se construiu a fim especialmente para alguém - eu - altamente ignorável e pouco aproveitável. Para você eu não tenho ofensas ou ódio, apenas pelo fato de que também ajudei a te construir. Você se costurou, sim, mas eu te bordei paetês bonitinhos pra deixar a coisa mais alegre. E quem você era? Você era educado, gentil. Juro que nunca vi igual. Tamanha sutileza, elegância. Você conseguiu ser tudo o de mais perfeito, só não sei se a partir de uma verdade pessoal, ou se por uma necessidade em fazer com que os outros nunca saibam quem você é de verdade. Na verdade, agora acho que sei. Mas, de toda forma, você se construiu de um jeito realmente lindo, temos que concordar. Admirável a sua criatividade para criar um personagem tão real, sabia? Juro que quase acreditei que você poderia realmente existir, acredita? Se te amei? Amei, só não sei quem. Mas e você, se amou? Creio que sim, um criador sempre ama a sua criatura, não é? Você foi a sua própria criatura, obstinada a conquistar algo indefeso, algo que precisava de uma coisa tão perfeita quanto a que você se empenhou tanto em ser, em convencer. Você cuidou de você, de quem você criou. Fez com que ele pudesse ser aparentemente sincero em tudo, e olha só, você é muito bom nisso. O seu trabalho foi tão bem feito que eu até o aconselharia a não perder esse costume, mas o triste é quando quem você realmente é se mostra de verdade. Inevitável ele aparecer, ele está aí, ele é você. E agora, senhor de verdade, quem você é? Pelo visto é o contrário de tudo que criou, pois vejo uma coisa tão escura, tão triste, tão feia, que realmente custo a acreditar que possa um dia ter feito nascer alguém tão bonito. Ouço relatos de que você é do tipo que se dedica muito ao que quer até quando deixa de querer. E quando foi que você deixou de se querer? Sim, porque se precisa construir um outro muito melhor pra se dedicar ao que quer, é porque quem você é de fato não consegue sozinho, sem se inventar. Isso me faz pensar que há muito tempo você não se dedica a você, porque se talvez o fizesse não precisaria de tanto fingimento. Poderia ser o você que você é, menos falso e mais honesto. Honesto o suficiente pra não fingir dedicação nenhuma, bancando a transparência de quem é de verdade. A criação de uma criatura completamente diferente da sua verdadeira natureza não é uma forma de dedicação, é só maldade articulada. No fim, você não conseguiria ser diferente disso e mais real porque a gente só cuida da gente quando a gente sabe quem é. Você não cuida de você, você cuida de quem você quer parecer que é. Por puro prazer, quem sabe. E infelizmente da maneira mais sórdida possível. É uma válvula de escape pra escapar da pessoa nojenta que você sempre vai ser. Você se cria, não se mostra, só se cria. Você não é você. Você não existe. Ou, na verdade, quem você cria nunca vai existir. E eu compreendo a razão pela qual você insiste tanto em não se explorar, é bastante justificável, visto que você é um lixo. Um lixo não biodegradável, diga-se de passagem. E não pense que eu me importo por você não poder se reciclar, o problema é todo seu, o tormento vai ser todo seu. E você sabe disso, sabe que precisa ser quem não é pra poder agradar. Existe coisa mais deprimente? Certo que agora está feliz, as minhas cutucadas não são páreo para alguém que te convence exatamente do contrário. Alguém que acha que você é o que é, pelo menos até quando você não desistir, claro. Mas quem vai saber? E esse tempo de agora, a duração da sua felicidade, quem determina? Não sei. Que dure muito, que dure pouco, que não dure nada, que você morra. Imagina que simplório seria da minha parte dizer que no fundo você não é tão mau? Pois você é péssimo. Você é um monstro criado sei lá por quem, um monstro que cria outros monstros, e que cria outros monstros e outros monstros. Infinitamente: um monstro. Compare a minha mudança, procure nas outras páginas, analise o que eu te escrevi, leia a carta. Eu sinto dor? Não, eu sinto pena.

domingo, 11 de setembro de 2011

Reiventar-se

"Já me perdi no tempo e no silêncio que vem de ti
Já me esqueci no vento vendo o seu retrato.
É fato que eu não sei dizer ao certo se ter você por perto me faz tão bem
Mas que mal tem tentar, se depois eu tento te esquecer?

Roubaram tudo, só deixaram o desenho no papel
De você com a minha camiseta, sorrindo e olhando pro céu.
Apesar de tudo eu fiquei tão mais calmo.

Vem, me ajude a prosseguir que a vida segue
Com você aqui tudo é tão mais fácil
Então vem mesmo depois de tudo que passou
Se no final de tudo quem ficou foi eu
Mas o meu coração já se reinventou"

Composição do meu amigo Luis Henrique

sábado, 10 de setembro de 2011

O que te serviu me serve agora.

"Que se rale o coração, logo essa sensação de não estar fazendo nada que eu quero se perde dentro dos meus dias. Ou melhor, logo ela acaba. Acaba junto com esse amorzinho lindo que me jogou sem dó nem piedade nessa patifaria que é a vida de quem se deixa levar pelos outros e seu embalo egoísta. Afinal, pra quê ter replay do que não presta? Do que não vinga nem na bala?! Que pegue suas noites silenciosas depois que a música acaba, junte com a vontade de conversar com alguém que não existe e coloque no lugar de tudo de ruim que sente. Não quero mais. Nem as noites pingadas das últimas semanas e nem os dias inteiros com que eu sonhei. Nem quero que leia minhas mensagens,(...) nem quero mostrar o que eu estou aprendendo. (...) Nem quero que sinta falta, eu sei que não vai sentir, mas não quero nem que leia. Eu escrevo pra mim e no máximo pro mundo ler e me fazer criar vergonha na fuça pra nunca mais chegar perto de querer entrar naquela cretinice nojenta. E se tá difícil aí pra você com toda essa necessidade que você tem de ganhar carinho, como eu já disse, pega o que sobrou e se ocupa com isso antes que a situação piore. Pega a metade popular e conhecida da missa e fica com ela. (...) Ficar com o que você gosta e com o que gosta de você não vai ser sacrifício. Sacrifício vai ser você ter dignidade pra honrar alguma coisa, mas isso não é mais problema meu. Já que estou sendo sincera, saibam vocês que dói não querer mais. Saiba você: Dói não querer mais querer algo que um dia já se quis tanto. Além de querer pra sempre, eu queria querer pra sempre. Vocês não têm idéia de como eu posso ser forte quando decido querer alguma coisa, e agora me parece que eu vou descobrir o quão forte posso ser quando decido não querer." - D.C


É, querida, eu que sempre te julguei como a louca desvairada que não superava o primeiro amor, agora entendo cada linha que transmite toda a revolta de ter vivido e de ter querido viver tanta coisa. Entendo de toda essa cretinice suja que invade até a alma. Entendo o que falta em um coração antes tão "disputado" por nós duas e hoje refém de um sorriso desconhecido que não é nem o meu nem o seu. A verdade é que o sorriso não me importa, e provavelmente não te importa também. A verdade é que nada me importa, talvez me importe apenas dizer que, é, eu entendo da cretinice pela qual você passou. Pela qual estou passando agora. A sensação de sujeira em mim, no meu corpo, nos meus cabelos, nos meus ouvidos, é maior do que a de passar um dia inteiro de baixo do sol ou suando em um ônibus lotado. Você me entende, não é? Pois bem. Se hoje você consegue ser razoável e aceitar, essa é uma virtude que o tempo te deu de presente. Talvez um dia ele também me dê. Mas agora só consigo entender da patifaria, da falta de caráter, da baixeza imensa que, por vezes, até tenta me derrubar junto, mas me mantém muito, muito acima de tudo. Não, eu não quero que meu ódio esteja acima do "amor" de ninguém. Não quero impor isso a uma mente tão pouco provida de verdade, de coerência. Eu já disse tudo o que tinha que dizer, já me desfiz de toda a sujeira que depositaram na minha cabeça, e nada dói, nada machuca. Fico admirada com tamanha proeza vinda das minhas reações, mas ainda assim sinto uma infinita vergonha do mundo, do lugar que pode ser habitado por gente assim, gente má, egoísta, infeliz. Deus não mata, mas castiga, não é?

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Cuspida

Aquele momento que você começa a perceber que a vida nada mais é do que um presente ruim que você ganhou e não veio com a nota de troca. Tensão tensão tensão. Choros, medos, ataques histéricos de raiva do mundo, dos cabelos lisos, dos olhos azuis, dos sorrisos aparentemente sinceros. Eu tenho que conviver com a tensão que eu gero no resto das pessoas quando eu chego perto. Ih, se protege, ela ta chegando. O que é aquilo? Uma pedra na mão? É. Exatamente! Ninguém entende, né? Ninguém entende do meu prazer em errar, em ser estúpida, em brigar, em gritar. Ninguém consegue entender. Eu tenho que aceitar todo mundo sendo normal enquanto eu odeio a normalidade. EU TENHO, lógico. Joga nas minhas costas largas as suas frustrações, pode jogar. Joga aqui que eu aguento. Não é assim? Eu sei que eu não tenho razão, eu sei que eu sou uma infeliz desprovida de argumentos que já está em posição de defesa desde a hora que acorda de manhã. Alerta pra todos os lados. Ops, isso aqui é uma ironia? Se for, corre! Aliás, odeio esses "ias". Ironia, grosseria, antipatia. São os mais usados pelas pessoas na hora de me definir. Irônica, grosseira, antipática. Por que eu tenho que ser "ável" todo o tempo? Adorável, sociável, amável? Eu não quero, me deixa! Todo mundo critica, todo mundo pega no pé. Pô Carol, vacilou. E você não vacila nunca? Muito prazer mundo cheio de pessoas perfeitas onde eu sempre sou considerada a mais descontrolada. Você é muito gentil, sabia? Sim, eu simplesmente amo as pessoas que você coloca pra conviver comigo. Eu amo o moralismo delas, e também amo o fato de elas serem boazinhas o tempo todo. Eu amo elas nunca errarem, nossa, como eu amo a perfeição de todo mundo. Eu amo todos os avisos de que eu estou sendo injusta, eu amo mais ainda todas as expressões de desaprovação para com os meus comentários infelizes. Não, eu não faço sem querer não. Eu faço tudo intencionalmente. Todas as minhas atitudes são friamente calculadas pra que eu realize o meu objetivo de maltratar todos vocês. Juro. Eu durmo e acordo pensando no jeito de como eu vou ser cruel, todos os dias. Sim, porque a verdade é que eu não posso ficar chateada nunca, não é mesmo? Eu sou a experiência divina mandada ao mundo pra testar a paciência das pessoas e o quanto elas conseguem ser certinhas o tempo todo, educadas o tempo todo. É verdade. Eu nasci pra errar, eu nasci pra errar os erros que ninguém mais erra. Porque o mundo não poderia ser tão mau quanto eu, não é verdade? Se fosse assim, imagine só o caos que estaríamos vivendo!

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Uma em ponto

É tarde, passa da meia-noite e sabe aquele zumbido que fica no ouvido quando o silêncio é absoluto? Pois é. O tamanho do quarto não faz jus ao tamanho da alma, ao tamanho do querer, ao tamanho de tudo que não é meu e deveria ser. O zumbido agonia e não tem culpa por simplesmente surgir já que o barulho não existe e o silêncio é inevitável. Escrever não ajuda, mas alivia. Alivia o que mesmo? A pausa nos sentidos inerte graças ao silêncio ou à ausência? A ausência não é mais um problema, o problema é não haver problema, quando fica tanto faz. É como quando alguém decide ir embora por conta própria e você se machuca, mas o orgulho faz pensar que já que você não faz falta pra esse alguém, esse alguém também não deve fazer falta pra você. E faz? E todas as decisões feitas baseadas em um futuro instável, inseguro, valeram a pena? O zumbido continua e ausência até invoca um amor próprio tímido, acompanhado de um amor pela vida, pelas oportunidades perdidas, por aquele do passado que queria dar o mundo mas foi recursado. E nem existe arrependimento, era mundo demais pra mim. Ou será eu que era demais pra aquele mundo? Quanta prepotência! Mas justa, era um mundo pequeno, ainda. E nada facilita mesmo. Tem gente que não nasce pra viver pedante diante da vida, diante das pessoas, diante de uma verdade que não condiz com a realidade. Eu estava pedindo demais antes desse zumbido todo. Sei que às dez pra uma da manhã esse zzzzzzzzz se ameniza junto com a falta, e o sono chega, e a casa, já vazia de verdades imaginadas e querências de amor fajuto, só espera por mim. Nesse quarto pequeno, com cama pequena e já grande demais pra acomodar todas as perturbações e oscilações de humor que trago junto às roupas que me aqueceram ou fizeram sentir calor durante o dia e, há uma hora dessas, se perdem junto das roupas dos outros dias num leve tirar e num brevissímo se jogar na cama vazia. Sim, é preciso colocar toda essa roupa pra lavar. 

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

De mim para mim.

Há quanto tempo você está se dedicando, menina? Você não percebe a mania que tem de se envolver em eternidades momentâneas? Não dura, nada dura pra você. Esse amor, como todos os outros, não vai durar. Você relutou choros e gritos e murmúrios graças às improbabilidades, agora você está ai, completamente seca. Você sabe que dói, mas você se anestesia nem sei com o que. Você entrou em uma cápsula de proteção blindada, ninguém entra e ninguém sai. O que você acha disso, menina? O que você acha também de andar iludindo corações que amam, igualmente como o seu amou? Eles não são todos iguais, meu bem. Eles são todos lindos. Uns mais possíveis, outros não. Uns são mais desejáveis, já outros, considerados por você como meramente aproveitáveis. E o que você acha disso? Algum deles te estragou, não foi? Eu lembro de você tão doce, tão esculpida para amar. Agora você está ai, completamente seca. Não te dói além da dor que ele deixou a dor também de não conseguir amar além, mesmo tentando? Eu percebo seu esforço por algo real, mesmo que cansada dos irreais. Aceite meu conselho, acredite nas minhas crenças, eu sei que esse algo real existe. Ele chega em nova forma pra você todos os dias, no mesmo fluxo de rapidez com que você sempre olha olhos desconhecidos. Na realidade, esse fluxo de rapidez já pode ser considerado algo real, algo real diário, que dura milésimos de segundos. E nós podemos treinar essa sua habilidade, meu amor, o que você acha? Treinar até o momento em que você finalmente se desprender de tanta secura. Você sabe que pode. Você lembra que me disse que gosta dos risos bons que alguns te causam? E com ele você já não se preocupa, você me disse. Você me disse que ele, além de ter vários outros imprevistos, também é cheio das indecisões. Eu entendo tanto o seu desejo de certeza, sempre te entendi tanto, menina. Sempre tão convicta e necessitada de segurança. Eu sei que te fizeram acreditar que você não tem mais que esperar mais nada de ninguém, e dou razão, aceito, concordo, só não apoio. Não apoio porque eu te via linda demais esperançosa. Teu brilho nos olhos era gerado daquela certeza de que algo bom sempre te esperava a cada esquina. E aquele seu otimismo incomparável de: "Se não foi nessa esquina, vai ser na outra". Não se perca das suas próximas esquinas. Ou, aliás, se perca sim. Sempre existirão esquinas, em todos os lugares, só não se distraia, só não ande olhando pro chão. Eu sempre te admirei tanto, e sempre gostei tanto dos seus pensamentos maduros e tão pouco egoístas. Eu sempre estive aqui, sempre, desde que você nasceu, nós sabemos. Nós fomos deixando de ser crianças, só nos separamos pra que eu sempre pudesse vir te dizer o quanto te gosto e o quanto te quero menos desacreditada nas coisas. Aceito seu egoísmo agora, aceito. Aceito que você tenha que acordar dos sonhos malucos, colher os frutos podres que você plantou e não regou. Eu aceito que você pense em si, esse trabalho não podia ficar todo pra mim. E da mesma forma, aqui, te encontro você. Pensando em si pra não me deixar trabalhando sozinha, sim, porque eu só existo pra pensar em você e nas suas fragilidades, e nos seus medos, e nas suas agonias, justamente pra que a gente chegue até aqui. Até quando você tenta ser egoísta você pensa em alguém. Por mais que esse alguém seja eu, você. Seus amores tem sido frustrados, até hoje não deram muito certo, ainda. De certa forma são meus amores também, mas nós duas sabemos que você sempre foi a parte sensível de nós. Agora você está ai, seca. Tentando imitar quem? Tentando ser quem? Eu que sempre fui o equilíbrio entre a realidade e todos os seus devaneios? Eu te quero protegida por você e por mim, como tenho feito, como temos feito. Vamos dar um jeito. Só não corra mais dos seus desejos tão bonitos. Não é porque você conheceu o amor uma vez e está querendo fugir dele agora que vai ter que fugir sempre. Existem tantos tipos de amor que nós ainda não conhecemos. Você é responsável por essa parte, pelo amor. Não nos tire a chance de amar de novo. Nem foi tão séria assim a sua decepção. Ela só é canalha, infeliz, maldita, mas séria? Quem disse? Seu destino te apresentou o errado certo. Foi assim. Dê-se a chance de conhecer os certos errados que têm por ai. Certo sempre foi chato demais pra você, não foi? O errado sempre tem que estar no meio por uma questão de turbulência necessária. Gente como você que só sabe viver nos extremos, nas intensidades. Eu te admiro por isso. Tão cheia de energia, e de sorrisos, e de abraços, e de beijos. Existe alguém no mundo que pode te odiar tanto? Quem tem feito isso é você. Não se odeie. Você está se sentindo como uma moça muito só, que lê um livro lindo, chora de deleite profundo, se vê rompendo linhas tênues entre tudo o que você queria viver e não pode. O livro é lindo, eu sei. O príncipe é lindo, tudo o que você sempre sonhou. Então você quase acredita que há um envolvimento entre vocês. Você aqui, lendo, e ele lá, vivendo. Ele tem princesas na história, ele corre até elas e ama, isso dói em você. Mas você sente que se pudesse entrar na história estaria agarrada na cintura dele cavalgando junto no cavalo branco, não é? Você não pode, meu bem. E mesmo com a quase certeza de que ele te amaria se você fizesse parte da literatura dele, o amor entre vocês é completamente impossível. Vamos aceitar isso? Vamos viver no mundo real agora, vamos? Existem tantas sensibilidades perdidas e tão pouco exploradas por aí. Deixa que uma hora você dobra na esquina certa. Mas não perde isso, meu bem. Deixa o tempo passar e curar teus joelhos machucados até a hora em que você puder correr de novo e sem muito medo de cair. O problema não está em machucar os joelhos, o problema está em machucar em cima dos machucados, pois vai ser sempre mais difícil de cicatrizar. Eu te amo, menina. Você é linda, e a gente vai sair dessa.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Mais lamentos

E mais uma vez se repete a sensação de vazio aqui dentro. Só que dessa vez é bem diferente das outras. É um vazio de algo que nunca foi preenchido. É o vazio do vazio. Ele era legal. Se não o mais legal. Se não o que eu mais quis, desejei, que sabe até, o que eu mais amei. Mas ele foi embora. Na verdade, ele nunca veio. É complicado tentar explicar pros amigos porque dói se nem eu mesma sei de onde sai todo esse aperto, todo esse buraco. Se eu soubesse eu tapava, enrolava em um paninho, fazia um curativo pra parar de doer. Ontem a noite eu fiquei sentada, apoiada na janela. E me peguei fazendo isso igualmente das outras vezes. Quando eu pegava um paninho pra assoar o nariz, abraçava minhas pernas, e chorava, bem baixinho, porque me ouvir chorar é humilhante demais. Fiz algumas analogias sobre como eu me senti ontem a noite. Primeiro, quando eu era pequena e via essas tragédias, terremotos, eu pensava que, se acontecesse aqui, eu me esconderia num lugarzinho só meu até passar. E foi o que aconteceu, me escondi em mim ontem a noite. Como de costume, só que com uma pitada de sofrimento a mais, uma pitada de "eu já sabia que ia terminar assim, seco, vazio, do nada". Do nada, bem do jeitinho que começou. E então, depois disse a um amigo que era como um filme bom, desses de romance, que tem uma história bonita, acolhedora, mas que termina assim, sem nexo, a mocinha morre no final, e aí você fica com aquela sensação horrível de depressão pós-filme. Tem um filme assim, caso pareça meio absurdo a mocinha morrer após uma história de amor. É com o Leonardo Di Caprio até. E ela era assim feito eu, meio louca também. Só que ela era agressiva e ciumenta, acho que eu não chego a tanto. E nem chegaria a me matar fazendo um aborto caseiro. Enfim. Só sei que ele era demais. Sei que eu sonhei a minha vida do lado dele. Ele me fazia rir, sabe? Ele me deixava ser eu, como eu nunca consegui antes. É meio difícil de acreditar que eu nunca vou conseguir ver aquele rosto. Meu amigo disse ontem que sempre achou que chorar era algo desnecessário. Na hora eu chorei, foi inevitável. Eu sabia o que eu queria, sabia que ia dar aquela opção a ele, e também sabia que ele ia aceitar porque ele sempre foi maduro e racional, e iria contra todos os princípios dele continuar com uma coisa que nós dois sabemos que não ia dar certo. Ah, mas eu queria tanto que tivesse dado certo. O que torna o momento mais complexo ainda é saber que eu tive tanta gente aqui comigo, preenchendo a minha vida de carinhos reais, beijos reais, sonhos que tinham tudo pra também se tornarem reais, e essa gente se foi, partiu, sumiu da minha vida levando todos os beijos, carinhos e sonhos, mas nunca havia doído tanto quanto agora. Acho que corresponde também àquela quebra de expectativas. No fundo eu realmente sabia que ele ia concordar que não tinha mais nenhum cabimento continuar a me fazer esperar noites torturantes só pra saber se ele estava bem, só que o que eu queria mesmo era que ele dissesse: "não, fica, não põe uma distância maior ainda entre a gente". Eu amei ele. É, eu amei desde quando ele disse "buu" pela primeira vez. Mas o meu amigo também disse que vai ser normal me isolar um pouco mais por um tempo, e que depois, quando eu tiver realmente preparada, e absorvido toda a experiência boa que isso me trouxe, vou enfim poder seguir em frente, achar alguém legal e mais real também. Esse meu amigo sabe das coisas óbvias, não é? Ah, o que eu podia esperar dele? "Chora Carol, chora muito, até desidratar"? Não! Só que é complicado falar pra ele que eu acho que nunca mais vou querer ninguém, ele vai dizer que eu sou louca. A gente passa a noite se questionando: "Por que é tão triste? Por que dói? Eu nunca toquei, nunca senti, nunca provei. Não faz sentido". Ontem eu também fiz uma outra comparação engraçada. É como se esse moço de agora fosse Deus. Eu me sentia protegida, amparada, em paz. Como deve ser quando se está com Deus. Com a diferença que Deus ainda não desistiu de mim, eu acho. Tudo bem, eu levo em consideração que amar assim não faz sentido mesmo, que não ia dar certo mesmo e que ele é bom demais pra mim. Mas que desistiu, desistiu. E sabe de uma coisa? Acho que eu também desisto. 

sábado, 27 de agosto de 2011

Agorafobia

Eu tenho estado com medo dos dias. Eu tenho entrado, diariamente, na monotonia que a realidade me oferece. Sinto medo da rua, sinto medo dos enfeites nas pessoas, das maquiagens, das máscaras. Não gosto de barulho, a multidão me assusta, as boas intenções me parecem falsidades e um costume forçado pra ser bonzinho sempre, conquistar pessoas sempre. Eu não convenço ninguém, eu não me convenço. Convencer dessa coisa que as pessoas tentam sempre quando gritam e esperneiam indiretamente pedindo o mínimo da atenção do mundo, dessa ligeira e indispensável alegria que todo mundo tem de gritar  o quanto é feliz, traduzindo em: "Tá vendo, mundo cruel, você ainda não me derrubou". Adianta? Não sei. Só sei que o meu estômago revira, e a vontade de sair correndo pra um outro mundinho onde eu não precise ser hipócrita com as minhas próprias emoções vem dilacerando. Eu não sirvo pra ensaiar boas atitudes e boas preocupações com quem não se preocupa. Eu não sirvo pra subir escadas perto de quem parece ser bom demais, sempre fico com medo de cair. Eu não sirvo pra ser sempre a madura dos conselhos bons, a moleca que faz o meu todo mundo rir. Quase sempre eu só sirvo pra isso, e não quero servir. Eu também sou garotinha que chora, que chora e não sabe porquê. Que escreve pra jogar fora isso tudo que me entope e eu não posso vomitar pra todo mundo ver. Dessa vez não falta ninguém, dessa vez eu posso escolher entre todas as minhas possibilidades de ser feliz apenas a necessidade de ficar só. Não tenho precisado de sorrisos, nem dos meus. Não tenho precisado de galanteios fajutos pra me sentir mais qualquer coisa. Só quero ficar aqui, agora, vendo um filminho bom.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Mulher de quarenta.

Eu me comporto feito gente grande, eu tenho vontade de ser gente grande. Ser mulher. Não uma mulher de vinte, de trinta. Quero ser mulher de quarenta que já viveu e já foi feliz às pencas. Quero ser mulher de quarenta em alma, espírito, leveza. Nunca em rugas. Quero ser mulher de quarenta segura. Quero ser mulher de quarenta que encontra amores, que conta amores, que vive amores. Mulher de quarenta que vive nas águas da vida que viveu e sente falta, nas águas da vida que ainda vai viver e sentir falta. Quero ser mulher de quarenta com toda a graciosidade do quatro unido ao zero. Quatro sempre foi um número jovem, sempre remete a um leve teste de alcoolismo que na juventude impera. O zero é redondo, como os tantos ciclos da vida de uma mulher de quarenta. Quero ser mulher de quarenta que não explica porque já sabe demais. Quero ser mulher de quarenta pra ter vivido muito, mas não ser um meio século. Ser mulher de quarenta quando penso na velhice que já me abraça tão jovem, e na juventude que me abraçará quando eu tiver quarenta.

sábado, 13 de agosto de 2011

De onde vem a calma?

Posso explicar a paz que você me transmite? Não, eu não posso. Nem eu sei de onde surge esse acolhimento bom todas as vezes que eu penso que você existe. Quando eu te vi pela primeira vez, fiquei imóvel. Até hoje fico, e fico sem saber de onde é que vem essa tranquilidade e esse sereno que eu vejo no seu jeito de sorrir, de andar, de mexer no cabelo. Eu sempre tive tudo o que eu quis. Mesmo demorando o tempo necessário pra isso, eu sempre tive. Agora eu acho que não vai ser assim. Nunca vou ter você, nunca vou poder falar o quanto me encanta a sua expressão de fascínio por qualquer coisa realmente fascinante. Eu nunca vou poder dizer o quanto você fica lindo quando sorri, quando fica sério, quando fica olhando pro nada. Eu estudei tanto o seu jeito, e me sinto tão idiota por dizer isso, por assumir pra mim mesma o quanto esse jeito me encanta e sempre me encantou. Eu sempre adorei a improbabilidade de trocar alguma palavra com você. Sim, é, porque na realidade eu sinto medo. A sua voz é bonita e me intimida, os seus olhos são bonitos e me hipnotizam de longe. Você nem imagina que eu estou aqui, você nem imagina como eu me sinto quando olho pra você e te vejo me olhando também. É que existem pessoas que, quando são bonitas de verdade, me despertam uma curiosidade enorme e um desejo também muito grande de tê-las pra mim. E não falo de uma beleza física, é a beleza de como alguém me faz sentir sempre quando é muito cheia de alma, cheia de amor, tem cara de amor e é amor. Hoje eu sonhei com você, há tempos isso não acontece. Você sorria para mim, só sorria. E eu te queria muito, e queria correr dali e te puxar pelo pulso, pra te ter comigo e só meu por uma mínima fração de segundos, como tantas vezes desejei. Você ria, e quando você ri eu me sinto tão calma e tão tranquila quanto esse seu sorriso que nunca vai ser meu. Eu adoro desenhar pessoas na minha cabeça só pra ter uma companhia boa enquanto eu durmo, mas você é tão perfeito que o rabisco de um fio do seu cabelo já me basta. Eu nunca pude dizer que é loucura, mesmo sendo, o quanto eu gosto de te ver, e de notar o seu empenho, o seu jeito poético e altamente misterioso. Cada paixão é diferente, e nossa, eu sou apaixonada por você. É a primeira vez que eu escrevo sobre isso, é a primeira vez que eu assumo e detalho tão bem o que eu sinto pra mim mesma. Como diz a Martha Medeiros: "A gente se apaixona pelo jeito da pessoa. Não é porque ele cita Camões, não é porque ela tem olhos azuis." Você não tem olhos azuis, mas, querido, os teus olhos são lindos e eu já me apaixonei por eles, pelo seu jeito e pelo fato de você citar Camões. E que se dane gostar assim de quem nunca vai ser meu. E que se dane me afundar em beijos tão pouco providos de sentimentos. Eu não ligo. Eu gosto mesmo é de tudo que não existe, de tudo que eu crio pra me acalmar, de todos os calmantes vivos que eu me injeto pra me sentir menos doente e menos sem pessoas perfeitas. Eu crio pessoas perfeitas, eu já criei você, eu já criei muitos outros. "De onde vem o jeito, tão sem defeito, que esse rapaz consegue fingir?" Los Hermanos, conhece? A música chama "De onde vem a calma", e, meu bem, eu te digo: a calma está vindo todinha de você.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

O cobrador

Eu estava no ponto de ônibus, e ao lado havia um moço que, até então, estava pouco notável para mim. Ele usava um terno, parecia ser normal, não muito velho e nem muito novo. Ele fez sinal para o mesmo ônibus que eu. O ônibus parou mais perto de mim do que dele, então subi. Quando entrei no ônibus pude perceber que o moço não era um moço tão normal assim. Ele devia ter alguma doença, não sei exatamente. Seus movimentos eram limitados, e ele possuía uma feição um tanto quanto estranha. Fiquei perplexa por alguns segundos, e até me sentindo mal por ter subido antes dele, mas nada que me fosse causar uma enorme culpa de imediato, já que eu realmente não havia percebido as suas reais condições. Passei pelo cobrador, que, aparentemente, seria mais um dos que me ignoram até o fim da viagem sempre que pego um ônibus. Paguei minha passagem, fui em direção ao banco. O senhor da parada de ônibus sentou no assento preferencial para deficientes físicos. Logo me foi da memória a minha displicência em relação àquele feito. Sentei perto da janela, como sempre faço. Segurei minha bolsa, arrumei meus cadernos, tentei me sentir confortável mesmo sentindo tanto calor e estando com muita pressa pra chegar em casa e cuidar de todos os meus compromissos atrasados. De repente meus pensamentos tolos, cansados e fúteis, sofrem uma singela ruptura causada pela voz do cobrador em alto tom direcionada ao motorista:

- "Pois é, minha mãe sempre dizia que educação a gente recebe quando ainda é criança."

Imediatamente associei ao ocorrido de poucos minutos antes, quando eu subi na frente do moço deficiente, sem haver uma intenção da minha parte. Não que eu tenha uma real mania de perseguição, mas fazia todo o sentido aquele comentário ter sido feito pra me atingir. Então me veio um sentimento absurdo de culpa, de constrangimento. Sim, pois qualquer um que tivesse prestado atenção na minha atitude, certamente consideraria a indireta do cobrador como sendo direcionada à mim. Fiquei vermelha, pálida, azul. Não de vergonha, mas sim de uma intolerância à aceitar que, graças à minha distração, consegui ser taxada como egoísta, mal educada. Defeitos que eu, durante toda a minha vida, procurei afastar de mim. A vontade era de pedir desculpas, discursar e dizer que não, eu não havia tido a intenção de ser tão mesquinha e não prestar atenção nas necessidades dos outros. Eu quis levantar e dizer pro cobrador:

- "Ei seu moço, o senhor está falando comigo? É isso mesmo? Olhe, a minha mãe me educou perfeitamente bem. Eu sei dizer obrigada, eu sei pedir licença, eu sei deixar um deficiente passar. O senhor não acha um tanto quanto rude da sua parte esse constrangimento que acabou de me fazer passar? Eu não tive culpa, se lhe interessa saber... Eu não vi como ele era, e tá certo que mesmo que ele não tivesse limitações e ainda assim fosse um pouco mais velho eu devesse dar passagem a ele, mas que culpa eu tenho, seu moço? O senhor não viu que o ônibus estava mais perto de mim? O senhor parou pra se perguntar se eu olhei e vi que ele precisava de uma ajuda? Peço grandes desculpas, moço, por ser distraída, por não ter havido uma cortesia da minha parte. Mas me diz, que culpa eu tenho?"

Certamente o cobrador não se daria ao trabalho de me responder, de me criticar diretamente, de aceitar o fato de que tinha me julgado mal. Sim, ele tinha me julgado muito mal. Eu engoli a seco as minhas vontades. Fiquei quieta, sentada, torcendo pra chegar em casa e poder descer logo daquele cemitério de conclusões precipitadas. Quando cheguei, guardei as coisas, os cadernos, tirei o uniforme, e tudo aquilo ainda permanecia em contraste junto das outras emoções que carrego. Deitei, parei pra pensar. Cheguei a conclusão de que, é, somos assim mesmo. 

A nossa mania de politicamente correto não nos permite analisar nada, entender nada de imediato. Atos propositais são tão comuns e estão tão enraizados nessa crença que alguns têm de sempre querer se dar bem e passar por cima das pessoas, que quando não há o propósito é proposital do mesmo jeito. Eu não paro pra pensar, eu acharia feio se não tivesse acontecido comigo. Só assim a gente percebe o quanto é cruel de vez em quando. 

Certo que existem outras crueldades, outras situações complicadas, outras deselegâncias, mas é como dizem: "Pimenta nos olhos dos outros não arde". Eu acho válida a reação do cobrador. Agora acho. Mesmo tendo me feito sentir a erva daninha do jardim, ele tem razão. Por um lado é bom perceber que tem gente que ainda se esforça em ver a cortesia, a bondade. É, é muito bom. Mesmo tendo sido uma acusação inválida, teve fundamento. Mas o bom mesmo é saber reconhecer os dois lados, procurar entender pra poder julgar, e procurar entender pra aceitar o julgamento. Da minha parte só houve o entendimento pra aceitar o julgamento. Da parte do cobrador não houve entendimento nenhum por eu não ter tido tempo de me explicar e explicar que eu não tive a intenção. 

Agora, levando em consideração o ocorrido como uma lição pra vida da gente, é assim mesmo. Quando não achamos apropriada uma atitude, poucas vezes vamos até ela pra tentar entender se foi intencional. Julgamos, condenamos, crucificamos na nossa praça pública pessoal toda e qualquer situação que foge dos padrões éticos pra uma vida em sociedade. Mesmo que um pensamento, uma discordância, uma conclusão, estejam certos, poucas vezes paramos pra pensar se são justos. Não que o cobrador tivesse a obrigação em saber a minha intenção, mas que a maioria das atitudes, das decisões, dos julgamentos diários, pudessem ser melhor analisados. É todo mundo com todo mundo, e nem todo mundo presta atenção. Estar do lado do certo, nem sempre é estar do lado do justo. E ainda que seja uma obviedade, passa a ter mais valor quando é com a gente. Vou levar pra vida. 

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Jesus é um x-men

Ele: Tu gostas de ufologia?
Eu: Ah sim, o fulano* sempre falava sobre isso comigo, nos tempos que ele era um amigo mais ativo.
Ele: Pois é, eu e ele. A gente sempre curtiu bastante. Sou louco por isso.
Eu: Deixa de loucura, menino! Devias ter medo.
Ele: Pior que eu tenho, mas a curiosidade fala mais alto.
Eu: Achei que tu não tivesse medo.
Ele: Tenho medo de tudo o que é vivo e real. Ainda mais quando não temos conhecimento da coisa.
Eu: E não seria essa a graça? Não ter o conhecimento da coisa...
Ele: Na verdade não. Às vezes eu acho que o Deus de vocês vinha em um ovni.
Eu: Como?
Ele: É, existem imagens em quadros e em paredes de igrejas medievais que eles retratam uma espécie de ovni ao lado do "Deus" de vocês.
Eu: Vida inteligente fora da terra é um tanto quanto irreal. Ainda mais agora que estás chamando Deus de E.T
Ele: O cara anda na água, ressuscita, faz um aleijado andar, e eu que viajo? Então estamos no mesmo nível.
Eu: Quando eu penso em Deus, não penso nisso.
Ele: Pois deveria pensar.
Eu: Acontece que tu estás levando tudo muito ao pé da letra.
Ele: Não és católica?
Eu: Sim.
Ele: Se vocês podem inventar a teoria de vocês, eu posso inventar a minha, não posso? Não tenho culpa se Jesus é um x-men.


E então eu lembro porque gostei tanto do meu primeiro amor...

domingo, 10 de julho de 2011

Não é meu, mas sinto como se fosse.

Querido pedacinho de dor,

Tanto que tenho pensado em você, me rasgo por dentro por duvidar que você não mereça, que você não é quem eu quero que seja, que eu não sou quem você quer que eu seja. Eu tenho tanto medo, eu vivo falando isso e você já não aguenta ouvir. Então agora veja. Eu me encolho no escuro do quarto e fico sozinha, sozinha com a nossa ilusão sobre nós. Ou será que sou apenas eu? Sou a única que enxerga retratos além dos fatos, reflexos além dos ecos? É que eu não sei o porquê de ter prestado atenção em todas as suas teorias malucas sobre a vida e o amor. Eu realmente não sei. Ficava remoendo o movimento da sua boca enquanto todas as palavras vinham feito granizo. Era bonito, bonito e cortante. Talvez por isso não consigo deixar de lado. O sensível me atrai, ainda que seja dolorido. Mas eu, aqui, continuo borbulhante e corrente, continuo riacho, cachoeira, continuo véu de noiva, continuo barulho de porta batida com força. Eu, aqui, continuo zíper quebrado, tampa perdida, cabelo cortado. CD arranhado. E você é isto agora, chuva congelada. Mas ambos seguimos nesse tango bonito de quem sabe lidar com os outros. Ambos aprendemos a esperar e é isso, inevitável e natural, o que nos mata aos poucos. Eu gosto tanto de você, mas nunca sei onde esse gostar pode me levar. Nunca sei onde você pode me levar. Eu não sei nada sobre você. Não sei nada sobre suas teorias amáveis sobre amantes. Eu não sei quem posso ser depois do seu toque permanente. Depois da sua dança, depois do seu estilo que me deixa preocupada com minha própria loucura, seu estilo que me faz pensar que todos somos loucos. Seu estilo que me faz pensar sobre pontos finais, partidas e pessoas passageiras. E eu nunca soube nada sobre o preço da gasolina. Não sei ir embora, mas também não sei ficar aqui. Estranhamente.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Doce Novembro

Doce Novembro não é nem de longe o meu filme preferido, ou um dos que me façam ter uma análise profunda sobre o amor ou o comportamento das pessoas, ou talvez sim, não importa. Bem, eu tenho a humilde impressão de que essas ficções são criadas com o objetivo de nos fazer acreditar que tem gente que sofre mais do que a gente, e que tem gente que consegue fazer uma burrice maior do que qualquer pessoa viva em sã consciência é capaz de fazer, ou não. Enfim, o filme não é fofo, o filme não me fez chorar, o filme não me cativou. Olha que eu sou muito frouxa em relação a esses romances. Eu não tinha nenhuma expectativa em relação ao filme, porque infelizmente eu passei a não criar mais expectativas em relação a nada. A princípio, o filme me puxou e me fez ver àquela coisa fofinha que os filmes assim tem para transmitir. O romance, a casualidade. Certo, então eu me deparo com uma louca que faz de tudo pra agarrar o moço por um mês. Ela só quer um mês. Quem sou eu pra questionar o estilo de vida da personagem? Ela tinha como ambição um homem diferente por mês com o intuito de ajudá-lo. E então capturou um rapaz aparentemente fatigado pelas exigências do trabalho, e logo propôs que ele ficasse por um mês morando na casa dela pra ele se salvar de todo o tumulto da vida dele, coisa que nem ele mesmo era capaz de reconhecer. Estava cômodo pra ele viver daquele jeito, louco por trabalho. Ele recusou até o fim, e ela, como uma boa representante do gênero feminino, não desistiu do moço e só se cansou quando ele enfim aceitou. Pois bem, sabe o que ela fez? Ela ficou com ele, apresentou um mundo novo e libertador, fez ele enxergar a felicidade na simplicidade, o que eu acho de extrema sensibilidade e realmente muito bonitinho. Só que como previsto, ela fez ele se apaixonar por ela. A partir daí ela poderia muito bem ensinar todas as coisas necessárias pra ele ver a vida de um jeito mais humano, e depois cair fora, deixar que ele se virasse e colocasse em prática com outra pessoa os ensinamentos dela. Perfeito, olhe só a pretensão da moça, tudo articuladamente bem pensado, até que tcham tcham tcham, ela se apaixona por ele também. Óh, nossa, muito imprevisível. Essa vida danada sempre nos pregando peças né? Além de um milhão conflitos de pessoais, a moça tinha os seus segredos, que envolviam problemas estrondosos que ela fez questão de não compartilhar com o jovem rapaz. Enfim, acaba que ela tinha câncer. Resumindo tudo, eles não ficaram juntos, ela sumiu, e fez ele aceitar o fato de que ela tinha mesmo que ir embora pra não acabar com a lembrança boa que ele tinha dela, que se ele sustentasse toda a coisa boa que aconteceu entre eles dentro dele, ela conseguiria ter força pra ultrapassar qualquer obstáculo. Ok, minha conclusão sobre tudo isso é que nós mulheres somos, muitas vezes, tão impassíveis quanto os homens. Tá, eu sei, tudo sempre tem uma razão específica pra acontecer, e certamente ela estava regada de emoção na hora de decidir escolher o que fazer e que rumo tomar depois da confusão toda da história dela. Realmente, o filme é banhado de irrealidades, e então vem o paradoxo total: São irrealidades muito reais. Não que seja comum você encontrar alguém na prova teórica de trânsito, escolher essa pessoa pra ser seu tudo por um mês, esconder uma vida dela e depois sair e jogar tudo pro alto acreditando nas suas próprias impossibilidades e não se importando com a pessoa que fez ficar completamente apaixonada por você, mas em menores proporções, é exatamente assim que ocorre. Ninguém está fora da possibilidade de passar por qualquer situação desse tipo. Sim, a pessoa vai ter milhares de razões para não contar, para não dividir, mesmo isso sendo completamente desleal, acontece. Sim, não é impossível e tão pouco raro aparecer alguém a fim de sair daquela rotina monótona querendo uma companhia agradável. Não quero criticar a moça, e apesar de ter sido um tanto quanto egoísta da parte dela, é aceitável que ela não queira deteriorar tudo de bom que ela viveu com o moço. Mas também é o que me enche de questionamentos a respeito do que nós realmente queremos. Sim, homens e mulheres, o que nós queremos? São dos mais variados desejos que se remetem por aí, muitos querendo fidelidade, companhia pra solidão, diversão momentânea, mas o que realmente acontece é que é necessário um ser parte de um par. Sim, por mais que seja passageiro e superficial. E longe de qualquer tipo de preconceito, não é necessariamente um par aceitável pela sociedade, apenas um par. Por um momento, por algum tempo, ou por uma vida. Eu não tiro o direito de ninguém na hora de querer ser feliz, independente da forma que essa pessoa enxerga a felicidade, só acho injusto quando essa felicidade acaba sendo cruel com outra felicidade também. Eu queria sim um pouco mais de piedade pelas almas boas que se entregam inteiramente e acreditam em promessas, em sonhos e planos. Por isso eu acho que mesmo com toda a babaquice do filme, todo mundo tinha que agir como a moça. Sim, é, porque parando pra pensar, ela não fez promessas, ela apenas estabeleceu um tempo a fim de que o moço se recuperasse e se tornasse uma pessoa melhor. E tenho certeza de que me mesmo com todo o egoísmo praticado por ela, foi o que aconteceu. É, ela sabia que haveria a possibilidade de fazer ele se apaixonar e de se apaixonar também, mas ninguém consegue medir ou sequer prever as consequências disso. Ele sofreu por ter se envolvido, mas ele não sofreu por qualquer deslealdade da parte dela, mesmo tendo havido, apenas pelo fato de que ela não prometeu nada. Pelo menos imagino que isso não passe na cabeça dele, ou talvez passe, quem vai saber? Enfim, a vida, as pessoas, as mentes, os planos, as particularidades, são exatamente assim, particulares, pessoais, individuais. E mesmo envolvida num contexto, numa história, numa relação com um ou mais membros, nunca vai dar pra ignorar as necessidades, as opiniões dentro de cada um. Que é o que nos leva a errar com o outro, a magoar sem querer, a tomar decisões invasivas no sentido de não considerar a importância do sentimento alheio. Diante disto e da minha crítica sobre o filme, eu acho que as pessoas são tão irreais quanto os personagens da ficção, porque, por mais que gire em torno de uma verdade totalmente inventada, a inspiração sempre somos nós.

terça-feira, 5 de julho de 2011

É tudo meu.

"Essa chuva e esse frio parecem que empurram a gente mais pra dentro da gente mesmo". Baseada nisso eu escrevo, e digo que depois da chuva, do frio, e do acolhimento todo de mim em mim, eu quero mais é ser feliz. E depois de tudo, de observar a chuva caindo, de sentar na beira da praia pedindo uma luz interna maior do que esses problemas pequenos, eu realmente me sinto grande. Me sinto grande perto dos meus desaforos desprovidos de argumentos convincentes diante da vida e de tudo que me atrasa, que me retém. A verdade é que nada e tudo me faz falta, a verdade é que eu estou aqui, acolhida em mim, rebuscada nas minhas vontades e nos meus desejos que não enxergam pressa, não enxergam ansiosidades. Os problemas que me atingiram e me diminuíram agora são tão fúteis perto da grandiosidade que é a minha vida, e os meus caminhos e as minhas escolhas. Você pára e vê tudo tão grande, que de repente percebe que você é tão grande quanto, só que num tamanho reduzido pra não tomar o espaço dos outros seres grandes que existem. E a vida tem dessas coisas, dessas pessoas que te desarmam e que aparecem em um fluxo de magnitude que te encanta, mas vão embora junto com uma porção mínima de caráter que te decepciona. Mas é isso, você não se iguala, eu não me igualo. Eu sou grande. Grande de alma, de sonhos, de coração, de tudo isso que tanta gente desacreditou em mim. E eu não perdi, depois de tudo, o encantamento que eu sentia por tudo que está longe, por tudo que não é meu. Sou movida a amar tudo que eu sei que tenho mas ainda não chegou. Amei tanto, chorei tanto, me limpei de tudo. Se algum fraco viveu e sentiu parecido, provavelmente desistiria de gostar tanto assim do que não o pertence. Eu não desisto do que eu quero e sei que tenho sem me pertencer. É tudo meu. Esse infinito de coisas que eu ainda não senti o gosto mas sinto o cheiro de longe, essas pessoas com a boca vermelha e pele branquinha que eu quero beijar e sequestrar numa dessas ruas movimentadas que cruzam o meu destino. Eu quero tudo só pra mim. Esse cheiro bom de coisa minha que não chega, esses olhos puxados pelos sorrisos que eu vou provocar. É tudo meu. E eu quero mais é me invadir em mim com esses meus desejos serenos que me satisfazem. Ajoelho-me na praia agradecendo a Deus, e dói pela aspereza da areia, mas supre a minha necessidade de estar perto do que me completa. Isso tudo que eu sinto tanto e tenho tão pouco. Esses risos frouxos, essas gentes felizes que possuem alma maior do que o corpo, como eu. É só o que me pertence. E que venham mais amores frustrados, decepções fatigadas pela desonestidade. Eu não ligo. O amor traz junto isso tudo e ainda assim é amor, sempre vai ser amor. Amor com as lágrimas, amor com os sorrisos, as mentiras, as pequenezas. Sempre é amor. E eu gosto do amor, eu não ligo se dói, se não chega, se nunca vai chegar. Enquanto for amor, só amor, eu tenho. É tudo meu. Junto com essa carga explosiva de pessoas radioativas que me provocam das melhores até as piores mutações. Eu quero sempre esse jeito torto de amar errado que nunca deixa de ser amor. Eu quero sempre essa gente malvada que me engana e que me absorve em uma água cheia de temperos gostosos pra fazer um caldo de mim e da minha vida sedenta de decepções que me ensinam a ser alguém melhor. E que venham as lágrimas, os choros, os estômagos comprimidos, as orações na beira da praia, a chuva que me limpa das frustrações malditas que eu carrego comigo. Que venham mais pessoas distantes pra me fazer ter mais vontade de dar uma mordida no pescoço e arrancar suspiros de quem faz tudo errado. Eu quero sempre tudo isso, eu quero sempre coisa ruim que faz ficar tudo bonito num dia chuvoso e nublado. É tudo meu.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Brinquedo

Eu quis simplicidade, sereno, tranquilidade, e você sempre foi tão diferente disso. Sempre foi a dificuldade, a distância, o tumulto, e eu gostava. Eu gostava de encontrar em você uma luz tão grande que me imobilizava, que eu amava. Eu adorava encontrar um sorriso gostoso, ou um "psiu psiu psiu, te amo". Era bom, eu queria de novo. Como quando a gente vai no parque de diversões, entra no brinquedo mais desafiador, que mais te causa medo, e no final acaba saindo de lá em êxtase, depois de ter se exaltado, sido feliz por alguns minutos. Quando acaba você quer ir de novo, e de novo, e de novo, mas no fundo você sabe que corre muitos riscos. Você pode cair, você pode ficar enjoado, ou simplesmente se cansar de dar as voltas buscando sempre a mesma sensação que sentiu da primeira vez, sensação essa que com o tempo vai se perdendo, mas você sabe que nunca vai esquecer como foi quando conheceu aquele brinquedo, desafiou aquele medo e foi feliz. É exatamente assim que eu me sinto. Eu busco loucamente encontrar aquela sensação do começo, aquele riso, aquele amor que eu sentia que existia. E depois de ter insistido tanto em repetir você, mesmo com todos os efeitos colaterais que me causa, só pra tentar ser feliz outra vez, eu não acho, eu desisto. E eu sinto saudade, e eu sinto vontade, e é como uma droga, vicia, mas não posso. Te quero longe de fato, não quero lembrar de tudo que me fez bem senão vem a recaída, e eu volto com a vontade de querer de novo e ir atrás, e tentar te ter pra mim. E nunca vai ser assim. Acho que tá na hora de experimentar outros brinquedos. É, algum vai ter que me causar interesse, vai ter que me intrigar, e eu vou brincar, e eu vou saber que vou correr os mesmos riscos, mas mesmo assim torcer pra ser mais ameno, mais calmo, menos conturbador e mais suportável pra mim, sem perder o tal êxtase necessário. Você também vai arrumar outros brinquedos, muitos, e espero que também sejam menos isso tudo que eu sou. Eu acho que hoje comecei a ter coragem pra me despedir do meu brinquedo preferido, que eu trocava todas as fichas só pra andar nele, só pra sentir dor de cabeça, enjoo, riscos, diversão e felicidade com ele. Ele já foi, você já foi. Mas eu nunca vou esquecer que foi meu brinquedo preferido, e que um dia, quem sabe, quando der, eu possa enfim estar mais preparada pra brincar sem enjoar, sem correr tantos riscos e ficar tão insegura com medo de cair.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Meninas e Meninos

Depois de vários questionamentos e de racionalizar muito bem as minhas ideias pra tentar entender quais seriam os requisitos principais para um menino "apaixonante", eu refleti entre várias coisas, e acabei por entender que eles também tem os seus próprios graus de perfeição.

Imaginei um rosto, um rosto meio termo, entre o bonito e o mal arrumado. Um ajeitadinho. Depois de inseridas as qualidades necessárias se tornaria alguém inominável, sendo apenas um menino de peculiaridades estonteantes demais para ser comparado a qualquer superficialidade do seu exterior. Feito isto, o primeiro passo pro menino apaixonante de nível um, seria injetar nele uma receita:


  • Adicione uma pitada de carisma.
  • Uma colher de sopa do sorriso mais bonito.
  • 5 ml de modéstia.
  • Uma xícara de chá de humildade.
  • Dois litros e meio de inteligência.
  • Ah, e a quantidade de humor que preferir.
  • Sem esquecer do sal, à gosto... (doce demais às vezes enjoa).


E então, ele seria alguém notável e apreciável, no ponto certo pro primeiro nível de "apaixonância".

O segundo passo seria um toque especial de personalidade. Afinal, é preciso muito mais atitude para firmar todas essas coisas boas em um menino qualquer. E sem isso logo se tornaria normal, sem nenhum esforço. Ele precisaria saber das coisas, ele precisaria dar bons conselhos. Ele não deveria ser sujeito a nada, nem a você (a menina que está em busca desse tal menino apaixonante). Ele precisaria encontrar uma menina com quem se identificasse. Ele seria de acordo com essa menina. A menina teria uma coisa predominante, seria especial pra ele de alguma forma, pois pra ser apaixonante de fato ele precisaria de um estímulo. A menina não tinha de ser melhor do que nenhuma outra, e nem tentar aparentar ser. Apenas deveria ter uma coisa única, que nem ela e nem ele saberiam, mas que o havia chamado a atenção de algum jeito.

Logo, próxima fase. O menino apaixonante não precisaria ser o mais amável de todos, ele não precisaria ser o mais louco apaixonado, e muito menos gritar o quanto gosta dessa menina de especialidade oculta aos quatro ventos. Ele não precisaria e nem deveria chorar ao tentar expressar o quanto a estima (isso seria loucura, mas acontece). Ele não precisaria recitar as suas juras de amor mais profundas (ou as copiadas). Ele só precisaria oferecer tudo o que ele sente de bom, apenas isso, sem alarmes maiores. Poderia ser de forma sutil, com um olhar, com um sorriso, ou com um toque, quem sabe.

Pra se ter um menino extremamente apaixonante não seria necessário tantas exigências. Ou talvez seria, mas aí perderia a graça da melhor parte de todas as fases: o mistério. Aquela ânsia em saber o que ele quer e o que ele sente. Mas que ele não tome isso como uma regra. Não precisa deixar a menina apaixonada tão maluca assim.

Por fim é válido dizer apenas que, ao cabo dessa descrição de meninos apaixonantes, na realidade eles não precisam ser "potencialmente apaixonantes", "apaixonantes", "super apaixonantes", "extremamente apaixonantes", "brutalmente apaixonantes" ou "divinamente apaixonantes". Meninos apaixonantes são mais fáceis de se encontrar do que os meninos apaixonados. O que faz um menino ser apaixonante é uma menina apaixonada, e essa, por consequência, se tornará apaixonante aos olhos daquele menino, que logo mais estará perdidamente apaixonado.