... Subentenda-me: outubro 2013

domingo, 20 de outubro de 2013

Depois de sete dias.

Eu concordo que a gente tem que viver cada momentinho inconsequente, sair por ai encostando em qualquer vaga disponível pra esquecer do mundo do lado de fora. Concordo que a gente tem é que mandar todas as proibições pro espaço mesmo, não se importar com as exigências que as nossas outras escolhas nos impuseram porque, que se dane, o que vale é ali e agora. Mas eu discordo. Discordo porque acho que não dá (não mesmo) pra ignorar e ser indiferente quando não estamos mais na zona da vontade de permanência sem maiores envolvimentos, quando já não estamos ali pelos mesmos motivos que nos fizeram ir inicialmente. Mudamos. Mudamos os nossos interesses e as nossas disposições. Sem perceber, mudamos. E o mais vulnerável sempre foge. Em qualquer situação sempre há quem seja mais frágil e não suporte e não aceite (ou não possa) se dispor a viver como dá depois de ter ultrapassado o limite entre a indiferença e a mínima afetuosidade. E que eu me afetei com um certo afeto imprevisível é fato. Mas eu também sei girar, girar, girar, sentar no sofá, respirar fundo, fechar os olhos, sentir todo o meu corpo entrar em confronto armado contra a minha tontura e esperar passar. Passa. Depois de sete dias eu me refaço, tal como Cubas. E esqueço.


"Com efeito, ao cabo de sete dias, estava farto da solidão; a dor aplacara; o espírito já se não contentava com o uso da espingarda e dos livros, nem com a vista do arvoredo e do céu. Reagia a mocidade, era preciso viver." - Memórias Póstumas de Brás Cubas

domingo, 13 de outubro de 2013

Cansada

Hoje eu queria dizer que cansei. Cansei do desamor e da minha desorganização. Cansei de não descansar, de não fazer a cabeça parar de pensar, de se perder, de querer. Querer um amor, um gole, um porre pra esquecer. Cansei de sonhar voltar e ver uns certos olhos com aquelas certas cores olhando pra tudo em volta, afoito. Cansei da esperança de sair e encontrar, e não encarar e abaixar a cabeça pro mundo porque ver de perto o que fica longe dói mais do que nunca ver qualquer coisa que eu tenha querido ao meu lado. Cansei de escrever pra que alguém entenda se ninguém me lê. Se eu, ao ler depois de muitas translações, não lembro do que eu entendia. E não lembro mesmo. Não lembro do impossível que eu tanto admirava e respirava e gostava de viver, não lembro do sépia que eu me convencia como sendo meu tom preferido. Não lembro dos dias que eu descrevi, das ilusões que eu inventei. Cansei de me esforçar pra lembrar lembranças apagadas pelo tempo, pelas outras lembranças, pelas outros dias e outros sonhos e outros tons e outras possibilidades. Cansei de morar com as minhas insatisfações insistentes porque sei agora que elas se mudam aos poucos, levando caixas de pertences com fotografias e músicas e cheiros e gostos sem que eu perceba. Cansei de me negar a existência das substituições. Cansei e dizer algo insubstituível, inesquecível, irresistível. Cansei de mentir. Cansei de me impedir de olhar pro novo se é o velho que faz meu coração bater mais forte.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Azeda, mas feliz.

Estou sem um propósito, agora, sentada no chão gelado e pensando sobre o que, de fato, me corrói por inteiro e merece ser descrito por mim em algumas muitas linhas. Pois então, analisando bem, não estou corroendo nada, pra ser sincera estou corroída. Cética, descrente, ausente de mim, meio morta, meio torta, meio... jogada no chão pensando no que eu ando fazendo da vida e no que a vida anda fazendo de mim. Ah, como eu odeio as minhas lamentações, como eu odeio o meu mimimi. Mas se tem uma coisa que eu posso dizer é que eu virei isso tudo: um mimimi, um não me toque, um "não fale comigo enquanto eu estou olhando pro nada", um monte de desaforos, uma tristeza hipócrita, um alguém que finge sentir cócegas o tempo todo pra dispensar as perguntas. Mas, em meio a tudo isso, dá vontade de ser tanta coisa, só pra esquecer, ignorar, viver bem com as cócegas que me faço até acreditar que estou rindo porque o mundo não é tão preto e branco quanto parece. Pela primeira vez - pra minha felicidade e total admiração pela minha mais pura independência sentimental - não é pela falta de alguém. Quanto a isso digo apenas que reconheço o valor de sair a noite, ser um pouco feliz, dar algumas risadas, sentir um outro cheiro, ouvir certas músicas e beijar certas bocas. Mas sinto que ainda não estou preparada para o desprendimento e dedicação, o momento é outro, os desejos são outros, e as erupções também. Acho que finalmente eu me encontro em uma estabilidade antes tão almejada, e o fato de eu ser um mimimi, estar corroída e lamentar alguns arrependimentos só ajuda nessa tal estabilidade, o que é muito contraditório quando comparado a outros momentos da minha vida, mas aproveito o avesso de toda uma inquietação anterior pra me sentir mais segura em dizer que não preciso de mais nada que antes eu julgava precisar pra me sentir mais feliz.