... Subentenda-me: 2019

domingo, 8 de dezembro de 2019

Despertando

Parei.

Finalizei.

Ressignifiquei.

Sinto que finalmente estou me deixando modificar. Bem que alguém me disse: não vais ser quem tu és hoje!

Não vou.

E sinto a transformação acontecer em cada pêlo meu que arrepia quando eu expando a minha capacidade de compreensão.

Compreender a mim mesma. Entender que não fui feita de exageros, apesar de tanta vontade de tanta coisa.

Conhecer o equilíbrio tem sido mágico. Muita coisa tem sido mágica.

Cada encontro, cada gente que chega, cada palavra que diz o que eu precisava ouvir sem que eu esboçasse a mínima requisição de um conselho.

Eu aprendi o que é isso: sincronicidade!

Cheguei no meu momento de despertar pra tudo o que eu sou, pra tudo o que eu acredito. Momento de perceber que o caminho que me leva até o verdadeiro autorreconhecimento não é mais uma miragem. Esse caminho existe. Eu estou nele.

É uma estradinha de terra batida, com um ensaio de pôr do sol que não se põe. Fica alí no meio do céu porque a cor que faz é a minha preferida no mundo. E como é acolhedor estar nesse caminho, respirar esse ar, apreciar essa luz.

É Deus, é energia, é amor.

Amor que eu tanto quis e quero. Pra achar foi só dar ouvidos ao que eles sempre disseram: TÁ AÍ DENTRO.

É verdade. Sempre esteve.

Meu amor tem sido tão grande... É lindo me dar conta disso e... sintonizar.

Sintonizei em mim.

Tenho me esforçado pra aprender com tudo. Com a perda, com os afastamentos necessários e extremamente pontuais.

Estou aprendendo com as quedas, com os acidentes de carro, com as pessoas que talvez não gostem de mim tanto assim mas me fazem buscar pela paciência - ainda em evolução - pra lidar com elas.

É tempo de uma nova era. É sobre a carta "the garden and the gate", é sobre os recados que o universo tem me dado.

Nada mais me dói.

Juro que sinto que todos os acontecimentos se deram exatamente na hora certa, no dia certo. Afinal, era essa a mensagem que tinha que chegar, ser recebida e entendida: o melhor lugar do mundo é aqui e agora. Como essa canção que surgiu do nada na minha cabeça como um mantra ao passo que eu estava me dando conta de tudo.

O melhor lugar do mundo estava sendo o melhor lugar do mundo mesmo em meio à frustrações, desilusões e despedidas. Era aqui comigo.

É, o melhor lugar do mundo sou eu.

Um capítulo se encerrou e o início dessa nova fase de história só tem uma personagem principal.

Cedi muito espaço, por muito tempo, pra outra gente protagonizar a minha vida. E agora que tudo se clarificou me sinto exuberante tomando conta de toda a vontade, de todo o domínio, de toda a perspectiva boa de uma coisa que é só minha.

Aquele medo da solidão tem se dissipado, e a consciência da oscilação me tranquiliza porque sei que se vier, não faz mais morada.

A solidão pode existir sem que eu sinta medo porque agora sinto, enfim, a doçura da noção de que aqui dentro é confortável e prazeroso estar.

É espiritual, é astral, é vibração.

Tá na música que eu ouço, tá no vento que bate naquela nova casa que tem me acolhido e faz chegar o melhor cheiro de jasmin do mundo.

Tá naquele fim de tarde em que o céu estava laranjado, eu respirei fundo e vi que a vida vai ser linda e tem sido. E nada do que foi, foi em vão.

Aquele encontro no cinema alternativo da cidade não foi em vão. Aquela despedida cretina no meio da sala em frente a um aquário novo também não foi.

Tudo fez sen.ti.do.

As consecutivas finalizações, o amor que eu forcei por existir, a última mensagem.

Nada disso teve a capacidade de me tornar tão eu quanto a percepção de que isso não foi nada perto dessa escolha maravilhosa de me encontrar.

Meu novo rumo vem forçando a mudança de posição de móveis, de ponderações, de sorrisos.

Meu novo rumo está na paz do meu investimento pessoal nos encontros, na beleza dos dias cheios de quem aceita estar sem consumir, contribuindo para um autoconhecimento tão preciso que eu sempre quis e finalmente tenho vivido.

Nem trauma familiar, nem insegurança de menina, nem antiga falta de fé no mundo e mim, nada mais desvia desse novo olhar que FINALMENTE tem me aproximado do geladinho que sinto no coração, já tão narrado por mim durante toda uma adolescência.

Esse geladinho agora surge do meu movimento de rotação. A cada passeio que tenho de dar em volta de mim mesma.

Quando giro em torno do meu próprio eixo, o coração arde e refresca e acalma.

A solução sempre esteve por perto, mas sempre pareceu mais fácil procurar em outro lugar. Não é!

Não estava em nenhum abraço mais alto e mais forte, nem mesmo diante dos cílios mais longos do mundo.

Estava (está) no meio da minha casa-coração até então tão bagunçada e desleixada, que agora se organiza.

Estava (está) no reparar do furinho do meu sorriso, na minha pele macia, nos meus dentes certinhos, na minha capacidade linda de fazer todo mundo chorar de rir.

Tem estado nas noites simples, na conversa sincera comigo mesma. Está em tudo o que já conquistei.

A felicidade da simplicidade de olhar em volta e não sentir nenhuma falta é engrandecedora. Como ontem quando chorei de emoção por simplesmente me dar conta de que não tenho nada a reclamar, nem a pedir, nem a reivindicar.

Tudo tem dialogado com a minha gratidão. Gratidão pelo o que tenho, pelo o que terei. E não quero nada além do que mereço, como diz a Zélia Duncan numa composição cheia da alma e da luz que carrego comigo:

Eu só quero o que mereço
Nem um mar a mais, nem uma gota a menos
Nem um grão a mais, nem um deserto a menos


Eu só quero o que mereço
Nem um dia a mais, nem um segundo a menos
Nem um choro a mais, nem um sorriso a menos
Nem qualquer palavra, nem um sentimento
Nem olhar pra tás, nem arrependimento


E esperei tanto tempo por essa sensação de pertencimento próprio que agora o meu medo de me perder é bem maior do que o medo de perder qualquer outra coisa. 

Só quero continuar me vendo com a delicadeza que sempre quis. 

"Tu não te enxerga com os olhos certos", aquele moço bonito disse uma vez. Agora eu enxergo. 

Aqui dentro é lindo. É lindo com os desajustes, com os desencaixes, com as instabilidades.

É uma casinha em processo de reforma, mas já tem um jardim muito verde e cheio de flores que têm florescido com muita cor. Tem cheirinho de incenso de lavanda e alecrim. Tem cama grande e cobertor macio. Tem beijinho antes de dormir e logo ao acordar.

Aqui dentro é lindo e aconchegante.

Sim, finalmente posso dizer: eu sou meu próprio lar.


E é a partir desse olhar atento pra não ceder por dentro que eu recomeço numa composição cheia das referências que são tão minhas e eu já cheguei a achar que não as tinha...

Com o meu peito mais aberto que o mar da Bahia, eu olho em volta pras voltas que o mundo dá, sabendo sempre que a dor e a alegria estão no mesmo lugar, sem me perder porque eu já perdi demais meu tempo encarando o próprio espelho e agora eu só quero

Equilibrar...

E antes que eu esqueça:

Sinto muito
Me perdoe
Eu te amo
Sou grata

A esse novo amor: obrigada!!! Nossa história vai ser incrível e está só começando. 

sábado, 12 de outubro de 2019

Mais um mimimi sobre estar só

Eu queria ter o poder de rebobinar toda a minha vida até o momento exato que me fez cultivar essa idealização que tenho hoje sobre o amor romântico.

Queria, muito sinceramente, saber em quem botar a culpa. Se nos desenhos, nas princesas, nas novelas, na minha mãe. Eu juro que queria.

Mas mesmo fazendo esse exercício constante de tentar lembrar, a verdade mesmo é que eu sinto que isso sempre esteve aqui, essa tendência ao conto de fadas.

Lembro que eu, desde sempre, olhava pros garotinhos romanticamente, idealizava que eles se apaixonariam por mim e me escreveriam cartinhas de amor. Imaginava a gente, mais adolescente, gravando nossas iniciais dentro de um coração, em uma árvore.

Eu era apaixonada por um garoto na infância que chamava Matheus. Perto dele eu ficava abobalhada, ou então vendo ele pela janela olhando, admirando.

Ele era lindo. Os olhos, o sorriso, os dentes amarelos e tortos, o boné pra trás. Eu lembro das mãos dele, e dos pés. Eu sempre fui completamente fascinada nos detalhes dos meus amores, desde menina.

Ele não gostava de mim, óbvio. Nem me convidou pro aniversário dele.

No dia que ele entregou os convites todo mundo estava brincando, não me lembro o nome da brincadeira, mas era alguma coisa que precisava ficar parado enquanto a outra pessoa ia contando os passos até pisar no pé da outra. Enfim. Ele deu o convide pra todo mundo da rodinha menos pra mim. Eu nunca entendi o porquê.

Hoje eu poderia discorrer sobre isso, analisar que talvez isso poderia até ser a confissão de um possível sentimento por mim. Mas não, eu quero falar da dor que foi isso, não ser convidada, me sentir rejeitada, excluída, preterida.

Foi a primeira vez que me senti assim, e de lá pra cá juro que toda vez que acontece algo parecido eu não sinto muito diferente do que sentiu aquela garota de nove ou dez anos.

Com a mesma intensidade da infância, com a mesma confusão de quem não entende o que sente, de quem tá perdido. É arrebatador, é dolorido.

A minha dor dói no peito e no corpo todo. Eu estremeço, eu suo frio.

Queria saber o que me fez sentir aquilo com nove anos pra desconstruir e não me sentir tão assim ainda hoje. 

Que a dor no peito e no corpo é efeito colateral do amor forte e intenso que eu sempre senti e da rejeição que me calejou, lá atrás. Além dessa, em algumas outras vezes. 

Tenho 24 anos, poucos amigos, alguns amores, e me sinto a maior parte do tempo sozinha, incompreendida e desencaixada das coisas, dos lugares, das pessoas.

Mas de todas as minhas peculiaridades, essa minha questão com o amor sempre foi a mais marcante.

Talvez seja pela relação dos meus pais, talvez seja mesmo pelas novelas e princesas, ou, na realidade e acima de tudo, pode ser que seja pra eu resgatar alguma coisa das vidas passadas.

Não é assim? A gente planta e colhe?

Capaz que em outra vida eu tenha sido perversa e feito alguém sofrer muito, daí nessa eu vim pra aprender a lição, como uma refém do amor da pior forma possível.

Da pior forma porque eu acho que sim, dá pra ser refém do amor e das relações sem sofrer, dá pra entender e sentir claramente, dá pra não idealizar tanto, dá pra só viver a marolinha de um sentimento bom quando ele surge e deixar ir acontecendo.

Mas eu não, eu vim mesmo com todo o tumulto, com toda carência, o medo, a insegurança. Tudo me atinge como um tsunami.

Tô escrevendo isso agora depois de chorar muito porque me dei conta que o meu novo romance é só mais um. E eu, por consequência, sou só mais uma na vida dele também.

A verdade é que infelizmente - ou felizmente -  ninguém consegue me tirar da cabeça que em algum momento vai chegar alguém disposto, realmente disposto a me acompanhar, a me mostrar pro mundo, a me levar pra um "brejasco" sábado a tarde mesmo que a gente só esteja se conhecendo porque viu que minha semana foi difícil e isso poderia me animar.

Eu não consigo deixar de pensar que a pessoa, A PESSOA CERTA, ao menos me convidaria, ou me diria "poxa, pior que é tudo pago e não tem mais vaga, senão te levaria comigo só pra tu não ficar aí tristinha". Ou, nem fosse tanto, podia só dizer pra eu não ficar bad vibes, que não podia me dar atenção agora porque já tinha marcado compromisso mas depois a gente ia sair pra fazer algo bem legal.

É simples, e o simples sempre foi tão complicado de acontecer comigo.

Eu sou só mais uma pro meu novo romance e ele é só mais um pra mim. Me dou conta disso agora mas já venho lamentando há semanas da falta de intensidade, de paixão.

Primeiro pensei: que bom que tá indo de vagar, eu precisava de algo leve, equilibrado, que me desse paz.

Agora, infelizmente, penso que esse algo leve não é suficiente, que eu quero amor, que eu quero dormir junto, almoçar, jantar, cinema, teatro, sexo, demonstrações de afeto.

Quero alguém que me mostre pro mundo! É isso!

E então eu choro porque me lembro dele. De novo ele, mais uma vez ele. Há quatro meses: ele.

Lembro dele que foi o ultimo a fazer eu me sentir como aquela garotinha que não foi convidada pro aniversário do menino que era apaixonada.

Aquele sentimento ainda tá aqui, a verdade é essa. Me questiono todos os dias como ainda posso sentir tanto por alguém que ficou tão pouco?

Eu sei o porquê. É porque com ele eu experimentei, por um brevíssimo espaço de tempo, tudo o que eu sempre quis sentir. Todos que me apresentam a essa sensação, essa euforia, me marcam demais. 

E com ele foi assim, um turbilhão, um sentimento louco, intenso.

Era ele me buscando pra almoçar no dia dos namorados. Era ele me levando pra jantar no dia dos namorados. Era ele parado dentro do carro abaixando o vidro lentamente enquanto segurava uma rosa, antes de eu entrar.

Era ele preparando um almoço pra mim no meio da semana, era ele me levando pra ponto turístico da cidade e perguntando como estava a minha mãe.

Era ele e o tamanho dele e o cheiro dele e o beijo dele.

É de tudo isso que eu não esqueço, que tá aqui dentro guardado.

São lembranças que querem ser multiplicadas e não podem mais.

É essa idealização que eu queria sim, e sei que não pode, que tá na minha cabeça.

Mas hoje, véspera de círio, eu queria tanto um amor assim, real.

Porque eu sinto tanto que existe, em algum lugar, alguém disposto a isso, como eu. E cadê?

Tá doendo hoje ser só, mais uma vez. Tá doendo essa paixão que não existe mais, tá doendo ter que lembrar dele e desses momentos pra aquecer meu coração.

Eu quero paixão, eu quero a ansiedade pra ver alguém. O frio na barriga, o coração acelerado, os movimentos imprecisos.

Dá até pra dizer que aceito pagar o preço depois, me sentir com nove anos de novo. Hoje eu dava tudo pra viver isso.

É que eu quero repousar e morrer de rir, e ficar quieta, e sentir mais um monte de coisa que eu nunca senti.

Choro por isso. Choro porque queria, sempre quis, sempre pedi pra alguém estar do meu lado pedindo que Deus me abençoe quando a santa passa, como eu também faria por ele.

Nunca tive.

Não sei, talvez seja isso de carma, de resgate. Talvez eu não mereça, nessa vida. Talvez a evolução more no sofrimento pelo não ter, e, quem sabe, o aprendizado da minha vida seja a aceitação da solidão.

Aceitar que nessa vida o amor, a parceria, o companheirismo, a amizade, a segurança estejam ausentes, e daí eu entenda que a única forma de ter isso seja sentir isso e entregar isso pra mim mesma. Blablablá. Eu já sei.

Mas nunca vou deixar de dizer o quanto eu queria um amor pra minha vida toda.

E no fim, a única coisa que eu sei é que talvez ele nunca chegue.

Ou talvez chegue amanhã...

Eu não quero deixar de acreditar. 


quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Catalogando as minhas dores

Tá doendo tudo.

Minha cabeça é um quarto todo bagunçado. Tudo o que tá aqui é meu, já veio comigo ou ganhei de alguém. Tudo isso me compõe e eu sinto que sei que tudo tem um lugar, mas não tenho forças pra levantar e arrumar, afinal, como eu disse, tá doendo tudo. 

A morte do papai é, sem dúvidas, a maior das minhas dores. Ele é o responsável por grande parte do que eu me tornei. Minha parte boa e ruim.

Entender isso, deixar minhas mágoas de lado, ressignificar toda essa dor e culpa em um encontro comigo mesma, no meu despertar espiritual e pessoal, realmente não tem sido tarefa fácil. 

De certa forma já consegui aceitar que a existência dele na minha vida, ou a minha existência derivada da vida dele, seja como for, representa o que eu essencialmente sou, serei, ou pretendo ser.

A única certeza que consigo ter é que todas as respostas pras minhas perguntas mais básicas estão intimamente relacionadas com a minha relação com ele. 

O jeito dele, a dureza dele, a bondade e a maldade dele, tudo isso é que vai me fazer aprender o que preciso aprender pra fazer o que tenho que fazer. 

Como eu vou aprender não sei. Acho que, na verdade, os dias, desde aquele 22 de julho, ainda que aparentemente vazios, monótonos e tristes, têm sido, no fundo, o maior aprendizado. 

Enfim.

Eu tenho uma tendência à melancolia, sempre tive. Mas, apesar disso, sempre priorizei ficar feliz. Na realidade, ficar feliz de fato sempre foi a maior das minhas ambições. Não apenas externamente, porque isso sempre fui. Aqui dentro é que eu queria mesmo que fosse permanente a alegria que eu tento fazer parecer lá fora.

No entanto, agora eu estou tão, tão triste que parece que não vai passar nunca. Apesar das minhas piadas diárias, da minha veia cômica que salta o tempo todo, aqui dentro tá tudo muito frio, escuro e desconfortável. 

É normal, eu espero. Espero sozinha conseguir desembaraçar esses nós. Mas ser só também é uma das dores que carrego comigo. Ser só e lamentar isso também é um nó. Me sinto só e verdadeiramente impotente. Sinto que sozinha é muito mais difícil lidar com tudo. 

É muito mais difícil lidar com a solidão da minha mãe, com a realidade de que, sem o papai, o futuro apavora ainda mais pela possibilidade de que um dia ela também pode não estar.

E, além de tudo, ela depende de mim, só de mim, da minha presença, da minha companhia. Isso é um peso que sozinha é difícil carregar. 

Me encontro numa realidade em que além de triste e solitária ainda tenho que dar conta da tristeza e da solidão de outra pessoa. 

Sei que minha solidão é uma dor a mais, além de todas essas dores, mas eu sei também que tenho que passar por isso, que aguento passar por isso. Sozinha.

E eu aguento... aguento, mas eu não quero!

Eu choro copiosamente porque não quero. Choro porque eu quero ajuda, porque eu insisto em acreditar que alguém pode me ajudar. Alguém que não esteja chorando e consiga enxugar as minhas lágrimas pra que eu, mais forte, possa enxugar as lágrimas dela.

Não tenho. 

Sei que é cruel comigo e seria cruel com qualquer pessoa do mundo querer alguém só pra cuidar dos meus machucados, mas eu queria! 

Eu sei que me sustentar só com a minha relação comigo mesma é o que mais tenho que cultivar agora, eu tenho consciência de tudo, tudo, tudo.

Mas era pra ser mais fácil.

Era mas não é. E apesar de muito contrariada, aceito a realidade que não tem nada do que eu queria que tivesse. Aceito a solidão, a dependência dela, e a morte do papai. Aceito sentir isso, chorar por isso, fincar raiz na minha cama, me dar conta de que sou fraca, e sofrer o que for preciso. 

Aceito o aperto no peito, a tontura, o tremor. Aceito que eu sou um cachorrinho perdido no escuro, tentando me proteger da chuva. Aceito o vazio. Aceito também a tristeza do sentimento de que estou presa nisso, de que nada pode me libertar tão cedo. 

Aceito a raiva, o desespero e a revolta.

Mas, acima de tudo, aceito o que vai vir depois. Depois, quando tudo parar de doer. Porque uma hora pára. Né? 

Eu acho que sim...













segunda-feira, 27 de maio de 2019

Pra quem foi mas me deixou comigo

Sobre ti eu lembro de me sentir em casa, de querer em uma tarde que o tempo não passasse mais, de gostar de ouvir a tua voz. Lembro de me sentir livre e mulher. Lembro também de acordar de tudo isso.

E foi como acordar de um sonho bom e muito conturbado, rápido, intenso. Depois desse sonho eu tenho flashs, memórias curtas do que eu, na minha mais absoluta inconsciência, vivi. Vivi contigo.

Milésimos de segundos de nós dois emergem nessas súbitas lembranças. Às vezes enquanto ando ao lado do canal a caminho do trabalho, às vezes enquanto tiro a poeira do meu criado mudo.

E como num filme me vem uma sequência de cenas curtas: primeiro eu te olhando, muito bêbada, quando dirigias meu carro a caminho da tua casa, depois o barulho artificial da chuva que colocavas pra tocar enquanto eu, sem roupa, te abraçava por trás e cheirava tua nuca, e em seguida o refrigerante de laranja se afogando no Campari cheio de gelo, fazendo uma mistura de cores que, pelos teus dizeres, era uma obra de arte.

Isso tudo num segundo, numa fração de segundos, durante algum movimento aleatório que faço, sem ter nem pra quê, sem sequer ter ouvido um nome igual o teu que me fizesse lembrar.

Eu gosto disso mesmo, de detalhes.

Me pergunto agora qual a necessidade de viver uma grande história de amor se o que vai me encantar, no fim das contas, é insignificante aos olhos de quem, não tendo sentido, tenta entender.

Entender o que pra mim representa lembrar da gente cantando Linger, de manhã cedo, na tua sala, depois de eu fugir do mundo pra ficar contigo.

Talvez, em grande plano, seja uma memória compreensivelmente marcante. Mas apesar de tudo isso ser bonito, mais bonito pra mim ainda é fechar os olhos e lembrar dos teus dedos dedilhando o violão. Precisamente lembro de cada movimento porque naquela hora escolhi guardar isso, esse detalhe de ti.

Entre outras coisas, lembro da primeira coisa que falou quando me viu no claro: "que linda tu és, que aura linda tu tens, que energia boa".

Por ter falado isso em voz alta é que eu registro agora, quase aniversariando a tua aparição, que aquele beijo na porta do banheiro foi muito bom, que sentar no teu colo na varanda foi muito bom, que te sentir dentro de mim foi muito bom.

Só por ter me visto de verdade eu te dedico minhas memórias. Por ter me visto muito profundamente e verdadeiramente, apesar do pesar que foi a tua partida.

Já não me incomoda mais a possibilidade de maldade. Não me incomoda a tua escolha acertada, o desvio de caminho mais óbvio que poderias fazer. Nem me dói.

Só me modificou.

Aquele meu choro sentido e quase infinito me modificou. Naquele dia em que achei que eu fosse inundar.

Depois disso, nem sei. Nem sei se mudei, mas busquei. Isso sim. A mim.

Busco, incessantemente, encontrar em mim aquilo que me falavas pra ter, a tal da confiança pra eu entender que sou "foda pra caralho".

É o que tenho feito. Faço isso muito mais do que lembrar desse tal sonho que vivemos tão rapidamente.

Lembro de ti nos relances, e agora, porque decidi te agrupar aqui. 

De mim tenho lembrado e buscado de todo modo me encontrar. Me encontro nas oscilações entre a certeza e a incerteza de quem eu sou. Me encontro na não rara constância da minha crença, cada vez mais forte, de que de posso ser tudo.

Porque, afinal, eu não sou inócua. Eu não passo desapercebido. Eu não sou irrelevante.
Sim, disso eu sei. Agora eu sei.

E tu? Tu foste o impulso pra eu me dar conta dessa minha grandeza que sempre esteve aqui. Não pela tua ida, mas pelo o que deixou.

Tu me deixou comigo!

Te recordo, agora, em agradecimento. 

Obrigada pela tua passagem corrida. Por ter esbarrado em mim e me sacudido pra realidade de que sou eu quem eu preciso ter. 

Hoje estou cada vez mais perto disso.


quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Ele foi a minha Marie Kondo

Agora que choveu lembrei da tarde que ele me disse que gostava do barulho da chuva. E que louco pensar nele depois de tanto tempo, depois de tanta vida. Talvez não seja tanto assim, mas foi tanto, tão rápido. Hoje ele se cuida, como sempre. E eu me cuido antes de ser cuidada. Gente saudável se cuida. E eu não posso deixar de considerar que eu me cuido, de maneira determinante, desde quando ele silenciou depois do meu grito de socorro. Eu não queria ele, eu queria paz. Eu queria um organizador e eu só conseguia atribuir essa função a ele. Porque eu só cheguei naquele ponto por lembrar que ele tentou, me desafiou. Ele disse que ia me fazer ser foda com tudo o que eu era e ainda não sabia. Eu acreditei e foi nesse momento que a isca foi lançada e eu fisguei. Eu fisguei porque ai meu deus como eu precisava de uma Marie Kondo pra organizar os meus fiozinhos embaraçados. Eu achava que ele era a minha Marie Kondo. Mas que bobagem, né? A Marie Kondo não organiza nada pra ninguém, ela ensina a gente a se organizar e a saber o lugar de cada coisa, se fora ou dentro da nossa vida. Ali eu não aprendi nada, ali eu só quis que fosse ele a solucionar tudo, ali ele não era minha Marie Kondo. Hoje talvez seja. Hoje porque ele foi embora, mas alguma coisa ficou. Um lamento que primeiro foi raiva, depois rancor, depois frustração, depois ego machucado, depois aceitação. Até que agora não é mais um lamento, e sim um sentimento que me remete à mudança no meu jeito de me tratar. Não nego que agora, além da maravilhosa conclusão que cheguei depois de meses, também me sinto saudosa de uma coisa que é só reflexo de uma expectativa corrompida, de algo que eu criei e me apeguei pra me sentir mais mulher, mais livre, mais única. Eu me senti única! Alguém, pela primeira vez, fez eu me sentir única! Se isso não ia me impactar? Como? Impossível! Mexeu, bagunçou, metralhou na quinquilharia que carrego comigo. O caso é que a dor que tá doendo agora é uma dor que eu nunca senti quando ele foi embora. Tá doendo a dor da percepção de que ele estava mais certo do que eu. De que ter acreditado naquele maniqueísmo não me levou a canto nenhum. Ele não foi o vilão, eu não fui a mocinha. A gente não tinha nem tempo suficiente pra ter sido qualquer coisa. Só sei que ele passou por mim como um furacão, pra desconstruir tudo e me fazer reerguer sozinha. Não durou nem dois minutos e já estava tudo abaixo. Ele disse que não padeceria, então eu padeci. E agora tô aqui, vasculhando minha tralha, me conhecendo e sentindo forte o que eu nunca senti por quem me tirou do eixo. Por que agora? Eu não sei. Pode ser pelo alguém novo que apareceu querendo segurar a minha mão, pode ser pela descoberta do óbvio, pode ser só pela chuva que tá chovendo agora e por todas as chuvas que ainda vão chover até eu esquecer que ele gostava do barulho. Pode ser por constatar que talvez ele nem gostasse tanto assim da chuva e eu ocupei espaço guardando essa referência inútil de alguém que eu nunca conheci de verdade. Pode ser muita coisa. Ele marcou, sim. Eu choro por isso. Choro porque eu confundi, porque eu deixei ele entrar na minha vida atuando simultaneamente em dois papéis. O de meu salvador e o de moço bonito que podia também ficar com o meu coração. Mas eu sei que foi a fusão dessas duas funções que causou o alvoroço que eu invoco como tendo sido meu ponto de partida. E foi aquele silêncio também. Eu choro um choro de "ufa, tô bem". Então agora acho que posso de fato dar esse lugar de Marie Kondo pra ele. Ele me ensinou, sem saber, e eu estou me organizando e tenho visto isso nas minhas atitudes, na minha decisão de ser leve e ir vivendo sem o peso de uma expectativa, tirando das coisas uma idealização que já não me serve. Tenho acreditado em mim cada vez mais, tenho me juntado com gente inspiradora, tenho tido papo cabeça que transcende a minha própria existência. É um choro de descoberta e entusiasmo. Não vou mentir que também é de saudade daquela sensação boa, não dele. Fico feliz, no fim das contas, de ter transformado aquilo nisso. Aquela confusão de sentimentos, aquele apelo, na minha emancipação, na minha arrumação. Na segurança que eu precisava pra dirigir a minha vida, pra me achar linda, e, sem a ajuda de ninguém, me sentir foda pra conquistar o que eu quiser. E é maravilhoso me dar conta de que eu não me importo mais com o que foi, com a verdade, com a mentira ou com a provável ocultação de coisas fundamentais. Tanto faz, um legado ficou. E hoje é dia de lavar a alma com esse choro, com essa dor inusitada. Os dias futuros continuam sendo de aprendizado e mais organização. Junto com a terapia, com os novos amigos e os novos objetivos. Eu já aprendi a reconhecer o que me traz felicidade, e que isso tem que ficar! Me traz felicidade dar conta de mim. A tristeza de não me saber e de não me sentir suficiente ou capaz me faz mal, e isso, assim como tudo que não reflete a minha alegria, tem que sair da minha casa. E "a verdadeira vida começa após colocar a casa em ordem". Então, mãos à obra porque nenhuma Marie Kondo aparece na nossa vida por acaso.