Lembro daquele final de tarde chuvoso. Ele sentado no sofá, atravessado. Eu jogada no tapete. Era tudo meio preto e branco. Não acendemos as luzes quando ficou escuro. E choramos. Não sei o motivo, mas a gente chorava e se perguntava do que ia ser feita nossa vida quando tudo acabasse. A gente já sabia que o nosso tempo estava acabando. E não sei porque essa é uma das lembranças mais acolhedoras do que foi aquela vida. Duas pessoas, duas pessoas verdadeiramente boas mas incompatíveis, que tentaram. E ali, nós dois, desarmados. Era poético, dolorido e gracioso ao mesmo tempo. Era um grito e um suspiro. Entre lágrimas a gente ria. Esse peito aberto, essa curvatura, esse "baixar a guarda" é o que mais me remete ao amor que eu acho bonito. A tortura, o turbilhão, o medo, a tentativa, tudo isso se resume, no final, à entender as coisas como são e aceitá-las. Às vezes dá certo, às vezes não. Mas é amor. Nesse momento me forço a acreditar que até a ilusão é amor. As idealizações, os projetos, a planificação de uma vida que poderia ser muito coerente e feliz. Tudo isso é amor. E essas lembranças sépias e escuras continuam surgindo, me acolhendo. E eu me embrulhando nelas, acumulando frustrações regadas de sentimentos bons que eu nem ouso tentar me explicar o porquê de existirem. O sentimento pelo outro nasce, brota, floresce. Às vezes num terreno inóspito, irregular e improvável. E daí que, novamente, me pergunto o que será. E me rendo. Como me rendi naquele dia deitada no tapete felpudo enquanto observava as lágrimas daquele que logo mais seria só mais um. Nada é igual, de semelhante só a minha aceitação. A aceitação do não ser. Ele não era. Ele, agora, não é. E não será. Mas, ao mesmo tempo, é bonito. É doce sentir que algumas negativas são apaixonantes. E no fundo eu gosto. Porque, pra mim, isso tudo que não pode ser tem um tom meio triste de filme antigo. Ou igual à luz daquele clipe que esse de agora me mostrou, cuja música eu estou ouvindo nesse momento enquanto escrevo e respiro fundo e tristemente por ter a certeza de que ele nada quis me dizer com ela, mesmo eu querendo que algo significasse. Eu e essa minha necessidade de atribuir significados às coisas, quando na verdade elas apenas são. E esse texto é sobre isso. Sobre as coisas como são. Pálidas, pré-determinadas, frustradas, findas. Até se tornarem algo diferente disso. Quem determina essa transição das coisas não serem nada até se tornarem alguma coisa? Não sei. Às vezes os personagens, às vezes a vida se encarrega de encaixar tudo sozinha. Mas independente disso, penso que, de todo modo, eu conduzo boa parte de tudo, e pode até ser que algo não tenha um significado agora, mas isso não me impede de dar um sentido. Por eu ser assim, pra eu enxergar mais beleza nos "nãos" que a vida me dá. Por eu ser romântica e levemente poética pra transformar alguns instantes nos quais o encantamento está presente de forma tão sutil nos meus momentos preferidos e tendenciosamente selecionados pra fazer morada numa caixinha de doçuras que guardo comigo. Aquela tarde foi bonita, meio parisiense, meio aquele filme do Godard em que cabeças se explodem no final. E agora, também torno especial aquela imagem de um homem falando sobre Deus e guardo comigo porque eu sei, igualmente, da minha capacidade de me desarmar das minhas ilusões, partindo pra aceitação das improbabilidades ou impossibilidades que me são impostas. Esse não de agora eu já tenho, mas a lembrança dele, do jeito mais inspirador e apaixonante, eu guardo comigo. Desarmei, assim, da ilusão dessa ilusão atual que, apesar de diferente, se aproxima daquela outra ilusão que buscava estratégias e convencimentos e esperanças na possibilidade de um dia funcionar. Não vai. Não foi. E eu aceito. E acho lindo, mesmo assim.