... Subentenda-me: março 2026

quinta-feira, 26 de março de 2026

Não sei quantas almas tenho


Não sei quantas almas tenho.

Cada momento mudei.

Continuamente me estranho.

Nunca me vi nem achei.

De tanto ser, só tenho alma. 

Quem tem alma não tem calma. 

Quem vê é só o que vê, 

Quem sente não é quem é

Atento ao que sou e vejo,

Torno-me eles e não eu. 

Cada meu sonho ou desejo 

É do que nasce e não meu. 

Sou minha própria paisagem, 

Assisto à minha passagem,

Diverso, móbil e só, 

Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo 

Como páginas, meu ser 

O que segue não prevendo,

O que passou a esquecer.

Noto à margem do que li

O que julguei que senti.

Releio e digo: «Fui eu?»

Deus sabe, porque o escreveu.


Fernando Pessoa


quarta-feira, 25 de março de 2026

Uma deusa, uma louca ou uma feiticeira?

Hoje eu quero que seja sobre a falta, a falta de sentido e o fato de que posso viver bem nas minhas faltas. Eu preciso provar isso pra mim. Que problema tem nisso? Talvez todos. Mas isso não é pra fazer sentido, e mesmo assim fará. Não como a reatividade pra eu desconstruir a expectativa de alguém só pra não entregar a esse alguém certo protagonismo, mas sim pra ser genuína diante das minhas inspirações. Inspirações e (in)compreensões. Isso tudo de que tento me alimentar o tempo todo. A loucura não passou, está no seu apogeu. Pois lá vamos nós. É pra isso que eu estou aqui, pra enlouquecer e não ter medo de enlouquecer. Pra tentar repetir até conviver bem com as verdades que não me assumo. Quem que eu estou enganando? É claro que eu ainda sirvo a uma perfeição de mim. E isso vem não de uma, mas de todas as fontes que me referenciam o que é belo e o que eu gostaria de ser. Ontem uma frase me pegou. Era sobre esse limbo, esse lugar sombrio. "Se permita ser uma incógnita". Fiquei reflexiva. Bem, não importa quantos cenários eu imagine, estou só. Aqui estou só. E gosto. Construir isso, habitar esse lugar solitário, ainda que por vezes acompanhada de delírios, é sustentar meu vazio? Ou é mais uma ferragem da sapata que estrutura uma nova versão ideal a partir do olhar de outros? Que outros? São sempre os mesmos com alguns agregados, não são? E sabendo de tudo isso, eu estou me pressionando a seguir cartilhas sobre as quais eu conheço pouquíssimo mas me julgo secretamente superior à maioria das pessoas pelo pouco que sei? Tenho me notado mais arrogante mesmo. Sem filtro pra desaforos. Que se exploda essa porra de mundo porque sei de onde vim e pra onde vou. Eu digo. Depois eu mesma acho graça da minha petulância. Como se eu realmente soubesse, como se eu não fosse indefesa, como se eu não morresse de medo das oscilações, minhas e dos outros. Nunca neguei meus medos e como me atingem. Fujo deles, mas sempre estão aqui. Está aqui também a supervalorização e centralização do meu eu. Me orgulho da consciência de que é tudo sobre mim, mas, na mesma proporção, me envergonho. Bobinha. Mas quem é que vai me dizer que eu não sou o centro do meu universo? E quem não é o centro do seu? E pra quem eu escrevo? Ai, que horror que eu tenho dessa pessoa pra quem escrevo. Eu tenho horror, eu saio correndo. Mas eu amo. Amo porque não sou eu, mas ao mesmo tempo sou. Mais cedo anotei num post-it: "me reescrever a partir de outros olhos". Escrevi quando ouvi que se escreve sobre si a partir do outro. Lembrar disso me exaure e eu sei bem o motivo. Mas achei, num lapso, que listar outros olhares que me descrevem poderia ressignificar esse meu drama. Ana Carolina. É estranho ler meu nome. Sempre achei. Não sei me apresentar. Nunca soube. Eu nunca sei se vou dizer "Ana Carolina", "Ana", "Carolina", "Carol". Acho Carol infantil, tenho dito que sou Carolina com mais frequência. Esse tal de infamiliar me pega bem nessas horas. Às vezes não me sinto nada Carolina, mas também não gosto mais da Ana, acredita? Eu nunca sei quem eu vou ser, é uma perdição. Mas ouvi outro dia: "não acho a Ana Carolina preguiçosa, acho que ela só tem energia pra fazer bem feito o que é do interesse dela". Nossa, como acertou. E nem foi uma crítica. Me reconheci aí e são desses olhares que quero me reescrever, porque são honestos. Talvez eu seja mesmo a Ana Carolina. Não é que me pareceu menos estranho agora? Mas, seguindo, também li algo sobre me permitir entrar nesse vale da estranheza, sobre não correr atrás desse reconhecimento de mim. Então é isso? Fazer desse lugar sombrio um lugar bom? Não, cala boca! É só pra deixar esse lugar sombrio ser sombrio mesmo. Um novo amor é sempre sombrio porque é novo. O novo assusta mas é divertidíssimo. Não quero não querer acertar só pra não parecer ser tão autoindulgente comigo mesma. É óbvio que eu quero sempre acertar. Não tenho dúvidas de que sei lidar com meus erros. Ora, veja só, até pra errar eu estou acertando. É um tanto problemático gostar tanto de mim assim até quando estou me odiando, não é? Eu não sei ser diferente disso mesmo que agora eu não tenha mais nada igual. Sabe? Coisas minhas, novinhas em folha. Ou não? Não, claro que não. Nunca é. Mas quem disse que isso tem que me preocupar ainda? Não tem. É viver na sabedoria de que eu sempre vou escrever aqui, me vangloriar, e me permitir me olhar por esse meu olhar também. Vou mandar mensagens desaforadas pra fornecedores que me destratam porque ninguém pode me destratar. Porque eu sou mulher destemida. Eu faço de um tudo pra ser vista como quem é. Coitadinha de mim. Vê só como eu passei a ser bem nojentinha? Mas eu não quero que me achem nojentinha. Quero ser quem entende das coisas, quem as pessoas procuram pra pedir orientação. Desde uma coisa banal até sobre uma teoria não sei das quantas que eu faço parecer pra todo mundo que entendo. Eu sou isso. Sou muita coisa e entre elas sou uma farsa. Nesse limbo talvez seja confortável isso de ser uma farsa. E é. Tem sido. É o tal do vazio. É isso de eu saber que sou tudo e também não sou nada e tá tudo bem? Que beleza. Eu gosto. Tenho vivido menos momentos de me projetar a uma certa consciência alheia a minha pra me avaliar, mas ainda acontece. Vou mentir pra quê? Outro dia aconteceu. Estávamos reunidos em família comendo churrasco numa segunda-feira despretensiosa. Estava fazendo uma noite estrelada, daí lembrei de me ver por cima. É dificílimo superar meus vícios. Mas quem foi que disse que preciso superar? Então deixa eu esfregar de vez em quando na cara desse fantasma que eu sou feliz à beça mesmo quando me desconheço. Deixa eu esfregar na minha cara, até porque é pra isso mesmo que servem os fantasmas. Servem pra lembrar que somos iguais e até nos confundimos entre nós mesmos. Porque na minha cabeça toda alma vagante é uma alma só fragmentada em infinitas almas. Eu não deixo de ser ninguém e ninguém deixa de ser eu. Mas que a gente muda, a gente muda. Mudamos e continuamos sendo. Loucura total. Mas tá vendo como eu me suporto e me lambuzo toda nesse lugar de confusão? Ou será que eu estou escrevendo tudo isso pra me convencer de que eu sei viver na falta? Será que eu sei que na verdade eu nunca vou de fato saber quem sou? Que droga! Espera. Vou começar de novo. 

segunda-feira, 23 de março de 2026

Morta-viva

Quem eu fui não existe mais e eu preciso elaborar isso. Sentir esse luto, encarar essa verdade. 

Há mais de um ano vivo esse processo de troca de pele. E nem eu sabia que meus rompimentos, minhas tragédias, minhas dores, eram apenas o início da minha morte. Eu até imaginei que aquele furacão de vontades inexplicáveis que tomou conta de mim e me fez agir tal qual esse fenômeno da natureza, destruindo tudo, pudesse significar algo sobre transformação, renovação, mas não exatamente que se tratava da morte inteira de mim.

Achei ser apenas sobre um novo mundo com espaço pra eu seguir por novos caminhos. Um mundo menos tumultuado por desejos irrealizáveis, por idealizações. Mas agora percebo minha ingenuidade. Esse mundo novo não dependia só de algumas despedidas pra ser inaugurado. Subestimei o furacão. Foi tudo muito além. 

Racionalizo agora, friamente, que talvez eu não tivesse a consciência real de que eu estava me matando. Naquele momento, eu, tola, sabia somente que algo precisava morrer. E matei, estripei, com requintes de crueldade. Eu fui junto. 

Talvez em alguma medida, com o passar do tempo, eu tenha suspeitado algo sobre minha existência estar se esvaindo. No entanto, sinto que me preocupei muito mais em sair do buraco negro que o luto pela perda de pessoas estruturantes me enfiou. Despreocupei de olhar pra mim com a benevolência que quem também estava morrendo merecia. 

O fato de eu estar morrendo me era sabido, até porque que uma parte de mim morresse era inevitável. Mas eu assumo que encarava essa morte apenas sob a perspectiva de que estava se abrindo espaço para um novo lugar melhor do que o lugar antigo. Eis mais uma demonstração da minha ingenuidade, do meu otimismo tóxico. É claro que essa promessa não se cumpriu. 

O novo lugar veio, mas não era bonito e ensolarado como imaginei. No primeiro momento achei que era pela morte de quem eu matei, e então me esforcei pra tratar minhas perdas, ter paciência pra ver o sol nascer. Na medida que os raios tímidos iam surgindo, eu até ia vivendo, mesmo morta. Mas tudo era de uma transição imprecisa. Morta-viva. Eu ainda não tinha a real dimensão do quanto de mim havia morrido. Achei que era pouco. 

Não era. 

Em certo momento eu mal sabia onde eu estava e assim estava tudo bem já que minhas energias estavam em outro canto, em outras dores. Mesmo com pouca visibilidade, fui construindo intuitivamente uma nova eu, em cima de uma eu toda morta, apodrecida, necrosada. Era tudo muito nebuloso. E sinto que ainda estou assim, meio lá, meio cá, mas agora de fato lúcida de que morri.

Minha lucidez veio de transmutação real. De corte real, de pontos cirúrgicos, de reestruturação completa. Remodelei quem eu era ainda no escuro sobre a intensidade da minha morte. Mas fiz o que eu senti que devia fazer. Quase que em abstração completa, em transe, apenas decidi pela metamorfose. 

Precisei mudar minha imagem pra entender que eu, definitivamente, não existo mais como eu era. Agora sou, de fato, outra. Outra em aparência, em crença, em cinismo. 

Me sinto cínica diante de tudo. Me sinto sã, mas endurecida. Estou mais rígida, intolerante. Estabeleci regras indiscutíveis e me coloquei a frente de mim mesma com um escudo indestrutível. Eu protegendo a mim mesma.

Agora, aqui, estou identificando minhas armaduras, e ainda trocando de pele. Chego a uma conclusão sofrida: quem eu fui não existe mais e eu ainda não havia chorado por isso. Chorei por tudo mas nunca exclusivamente pela minha morte. E nem me culpo, já que eu não sabia o tamanho do estrago até realmente me desconfigurar. 

Meu espelho reflete quase que literalmente outra pessoa que eu ainda odeio porque não me despedi de mim como eu deveria. Ainda vivo inebriada pela minha sombra que delimita meus contornos antigos. Não me reconheço em quem sou agora, mesmo me sabendo por inteira. Por tudo, acredito que o que me falta é chorar a minha morte desesperadamente. Chorar pelo apego, pelo medo profundo em perder a doçura que antes eu tinha. Medo de deixar de enxergar a vida com graça e leveza. 

Quero pensar que sei que é tudo meu e está apenas temporariamente desorganizado, e pra organizar só preciso desanuviar meu tempo ruim chorando a minha própria morte pra ver meu sol raiar inteiro. Preciso olhar pra essa nova que sou e encontrar nela só o essencial daquela que fui. No momento não acho. No momento é como se eu já tivesse gastado todas as minhas lágrimas. 

Não sei por onde começar, mas quero começar acreditando que o dia de amar essa nova pessoa vai chegar. Que vou conseguir me olhar na certeza de ser quem sempre quis ser. Não perfeita, não lindíssima, mas eu. Confiante, confortável na minha pele. 

Ainda está um alvoroço danado aqui dentro. Um estranhamento profundo. Uma tristeza por não ser quem eu era e uma tristeza por não me encontrar em quem sou. Apesar disso, essa tristeza não me faz me querer de volta. Eu continuo achando que aquela outra alguém não era quem eu nasci pra ser, apesar de sentir muito amor e carinho pela minha versão de tantos anos. 

Agora me vejo talvez mais próxima de ser quem eu sempre quis, ou talvez muito distante. Me sinto perdida. Consciente do chão que já percorri, mas momentaneamente perdida, ou paralisada. Não sei se o que me falta é coragem pra continuar andando ou se simplesmente é o momento em que preciso parar e descansar. Creio na segunda opção como a melhor resposta, até porque vai ser exaustivo demais chorar a minha morte enquanto sigo andando. 

Sei que preciso parar pra sentir minha perda definitiva de mim, recalcular a rota, reabastecer meu combustível. Achar um novo jeito de apreciar minhas transformações, por mais assustadoras que elas sejam. Apreciar meu tímido raio de sol. Olhar em volta, dizer adeus pra quem eu era com a mesma profundidade que eu disse adeus pra tanta coisa. 

Quero, depois desse descanso, me ver com amor. O amor que não sinto agora. Agora, precisamente, sinto pavor. Estou apavorada por não me encontrar e não conhecer muito bem essa nova que sou. É confuso, atordoante. Me sinto no limbo de mim. 

Apesar de tudo, vou deixar um pouco de lado a minha esperança habitual pra sofrer. Como sempre faço. Porque eu sei ser feliz, mas também sei não ser. Daí uma das minhas características que perduram mesmo que eu morra mil vezes: eu sei sentir o que for preciso. 

Agora vou forçar minhas lágrimas secas de quem já vem de um longo percurso pelo deserto. Nesse desacerto, nessa dor de me desconhecer em carne, corpo e mente, porque meu coração permanece intacto por trás da camada de gelo que se fez pra ele acalmar e parar de bater tão rápido. 

O desconhecido que eu desbravo sempre mas sempre me atrofia, agora está mais intimidador do que nunca. Eis que é a hora de mergulhar nesse desconhecido e chorar minha morte, enfeitar meu túmulo, lamentar a minha partida. 

Vou sofrer tudo o que eu puder, deixando me invadir toda a dor até a loucura me esclarecer o que está conturbado, fazendo todo esse estranhamento passar. E então, depois da tempestade, no conforto estarei eu, nova em mim, certa de que quem não me conhece não pode mais ver pra crer. Porque aquela que eu fui não existe mais. E aí, enfim, vou poder dizer: "Ainda bem. Bem-vinda, nova eu". 

terça-feira, 10 de março de 2026

De uma noite sem beijos antes de dormir

Ele me elogiou espontaneamente. Me chamou de extraordinária. Depois interrompeu, deu um passo pra trás e disse que não pode me elogiar muito porque a areia do meu caminhão pode tombar sobre ele. Eu pedi pra ele repetir o que disse. Ele repetiu, rindo, já prevendo as consequências dessa infeliz colocação. Comecei então o meu TED talk.

Perguntei pausadamente se ele havia dito o que eu pensei ter ouvido. Ele confirmou, sem graça, achando que ainda estávamos sob o manto da descontração. Entreguei sutilmente mais uns metros de corda pra ele se enforcar e não demorou muito pra que as mais ocultas inseguranças se manifestassem.

"Então quer dizer que você não pode me elogiar pra eu não te superar?". Gaguejos vieram.

Educadamente e em tom de voz ameno comecei manifestando meu total descontentamento com o ato falho que a fragilidade da masculinidade dele me revelou.

Eu disse que não existe a possibilidade de eu me limitar por ele e que ele, se quiser, que me alcance ou banque toda a areia do meu caminhão. Que aguente e seja homem pra não intencionar que uma mulher restrinja sua evolução por ele, sendo o contrário disso a covardia para a qual eu não bato palmas e muito menos me submeto.

Ele paralisou, os olhos marejaram e as pálpebras inferiores ficaram vermelhas. O choro másculo entalado e o meu, digno, escorrendo pelo meu rosto e molhando os meus lábios que não paravam de proferir as palavras duras que eu lutei muito pra aprender a dizer sem parar pra respirar, sem me diminuir, sem temer qualquer abandono.

Mesmo sem fôlego segui comunicando o que acabara de me ferir porque doeu num lugar muito específico, conhecido por nós dois: o lugar da minha guerra contra minha baixa autoestima. Guerra esta que ele presenciou e me viu vencer. Ele, que tanto me ouviu lastimar por anos sobre a dificuldade que foi pra mim construir a fortaleza que hoje habito.

Chorei não como quem duvida de onde está ou de quem é, e sim como quem honra o esforço que foi aceitar que o que eu sou não se limita. O esforço de aceitar que ninguém mais me limita, nem eu.

Eu fiz isso comigo por muito tempo, e admito. Foi um processo árduo, triste e solitário me libertar de tantas amarras e correntes que eu mesma me envolvi, mas consegui.

Em nome dessa luta, o que começou como uma simples brincadeira machista, se transformou em um dos meus melhores e maiores manifestos. Na expressão real da minha cura.

Eu disse firmemente que ele não deseje me paralisar pra se sentir melhor consigo mesmo. Para além disso, acrescentei que não dependo de elogios pra me abastecer e esse caminhão vai continuar se enchendo de areia até transbordar, e seguirá assim.

Enquanto ele respirava ofegante e incrédulo, eu me posicionava, mais uma vez, a favor da minha autonomia e independência pra ir além das minhas proibições anteriormente auto impostas e que hoje assumem a função de ser impulso.

Eu não sou pouco, eu não quero pouco.

Segui construindo esse prédio que agora habita a mente dele: a cada frase, um novo tijolo. Afirmei com uma sinceridade ferina que minhas escolhas me trouxeram até aqui e que se as escolhas feitas por ele não o colocam no mesmo patamar de satisfação que hoje eu estou, sinto muito, que ele então faça novas escolhas, mas não me impeça, nem em pensamento, de continuar subindo as minhas escadas.

Logo mais ele tentou vestir a típica roupa de vítima acuada, reconhecendo sua insegurança e confirmando a existência do medo de me perder pra minha evolução. Lamento este que não me comoveu, apesar de eu compreender o motivo estrutural que o encaminha pra esse receio.

Internamente até reconheço a vantagem de poder dialogar com um homem não violento, racional e que demonstra considerável interesse na sua reconstrução, mas não me permito ludibriar por justificativas que me convidam pra um jogo emocional perigoso.

Diante disso, verbalizei que nenhum medo dele deve se interessar pela minha regressão, ainda que em segredo. Ele negou esse interesse e eu pontuei que não há outra interpretação.

Ele tentou me contornar apresentando outro ponto de vista mas não o deixei concluir e anunciei que minhas declarações são apenas o registro de uma premissa inegociável: aqui, nesse relacionamento, nunca haverá submissão ou limitação do meu progresso.

Ponto final.

O perdão veio agora com mais vigor. "Eu sou péssimo". Ele dizia repetidas vezes. Eu, impaciente, concordei mas disse que não admiro a autopiedade em excesso. Deixei em destaque que o que me mantém é o resultado prático dos ajustes que precisam ser feitos.

Enxuguei minhas lágrimas contidas mas honestas e finalizei a conversa propondo uma profunda reflexão.

Após alguns anos, nessa noite não nos beijamos antes de dormir.