O não dito é ruído de quem não exercita memória, de quem teme a dor e, por tanto temer, repete. O não dito é dito mesmo quando não se quer dizer. O não dito é palavra ausente que se faz presente. Palavra que não é dita, mas existe. E por existir, se expressa. Palavra não dita de dor não visitada vira cena. Cena de filme repetido, que já se sabe o final. E, mesmo assim, é filme que se assiste em looping porque ultrapassa o caráter de mero entretenimento. É padrão. Padrão de dor descuidada confirmando existência na palavra que não se diz. E existir é só o que se quer, ainda que pela dor. Os clássicos do cinema mudo são em branco e preto. Essas cenas sem palavras, também. A falta de cor na cena corrói a palavra. Ou a palavra morre soterrada por sintomas no fundo do poço do recalque, ou encara a dor de frente até lembrar de onde vem, pra tentar resgatar sua voz emudecida. Encarar a dor de frente resgata a voz da palavra porque essa voz nasce do grito abafado de dor que não se quer sentir. Tolice da palavra pensar que o que dói é o som. A dor continua doendo mesmo com grito abafado porque nesse fundo do poço até grito abafado faz eco. Essa voz é voz de lembrança escondida pelo contraditório medo que tenta proteger da dor, sem perceber que tanta proteção leva à recorrência. Tanto da dor sentida quanto das dores derivadas dela. Esse medo faz a cena acontecer exatamente igual incontáveis vezes e manda recados que, mesmo silenciosos, são ouvidos. São recados mudos de quem não quis ouvir a voz da dor. É recado de criança que quer colo mas não sabe falar, que atua em resmungos, mexendo aleatoriamente os bracinhos em busca do leite, em busca do colo, em busca de alguém que limpe a sua fralda suja. A criança, pra sobreviver, depende dessa cena bem feita, do recado bem dado. Essa é a representação do fato de que o não dizer também diz. No entanto, o não dizer gera dependências, gera cansaço. Cansaço pra quem não diz, e cansaço pra quem vive de interpretar recados. É a fralda? Não. É fome? Não. Que exaustão! Nunca vai conseguir dizer, mas era só uma etiqueta. Daí porque importa aprender ou reaprender a deixar a palavra falar. A cena esgota. Mas, para além disso, é certo que uma criança pequena não cabe de exemplo. Ou cabe, até. Existir, pra criança, é novidade, e isso também pode ser uma dor. De todo modo, criança pequena só tende a crescer e ainda está sendo apresentada à palavra. Lhe resta, ainda, a alternativa de aprender direito. Ou, lhe resta pelo menos a eventual sorte de que lhe ensinem, não a palavra por si só, mas a capacidade de ouvir suas dores pra que as palavras exerçam seu papel de palavra que pode ser dita. Não se trata da criança lembrar da voz da dor pra se curar de palavra que não vem pro mundo. Mas, talvez, se possa falar da gente grande que se encontra com a criança que foi e não aprendeu a ouvir suas dores. Encontrar essa criança de fase qualquer, exatamente quando a dor nasceu. Lembrar da criança, lembrar da voz da dor da criança. Ir de encontro, sentar pacientemente e ouvir. A voz da criança, a voz da dor. A origem da palavra não dita. Aí então a criança fala, a dor dói. Todos choram. Desmoronam e aquele fundo do poço vira lama. Ninguém se mexe, ninguém faz nada. Só tem dor e lama. Mas as palavras surgem, tímidas. As palavras doem. Tudo dói. Dói mas não mata. É dor de liberdade. De quem vai subir as paredes desse poço. É sempre possível subir as paredes desse poço. Essa dor que não mata é dor de criança que está crescendo e aprendendo a dar voz a palavra. Crescer dói e aprender a falar também. E a dor de liberdade ensina que o grito não precisa ser abafado, que ele se transforma e, aos poucos, ameniza. A criança enfim aprende que a dor pode não deixar de doer, mas pode deixar de gritar. Aprende que se a dor gritar, não precisa mais ser soterrada no fundo do poço. A voz do grito é a voz da palavra. É a palavra que pode ser dita em alto e bom som. É o som da palavra que faz filme novo e colorido. É o som da palavra que substitui os recados silenciosos pela honestidade e transparência de quem sente a dor. É justo ser honesto e transparente com a sua criança. E o silêncio dá lugar à clareza de uma vida plena sem tantas encenações, sem tantos padrões nocivos, sem tanta dor de repetição. E, no fim das contas, agora se sabe dizer que era só uma etiqueta.