... Subentenda-me: janeiro 2019

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Ele foi a minha Marie Kondo

Agora que choveu lembrei da tarde que ele me disse que gostava do barulho da chuva. E que louco pensar nele depois de tanto tempo, depois de tanta vida. Talvez não seja tanto assim, mas foi tanto, tão rápido. Hoje ele se cuida, como sempre. E eu me cuido antes de ser cuidada. Gente saudável se cuida. E eu não posso deixar de considerar que eu me cuido, de maneira determinante, desde quando ele silenciou depois do meu grito de socorro. Eu não queria ele, eu queria paz. Eu queria um organizador e eu só conseguia atribuir essa função a ele. Porque eu só cheguei naquele ponto por lembrar que ele tentou, me desafiou. Ele disse que ia me fazer ser foda com tudo o que eu era e ainda não sabia. Eu acreditei e foi nesse momento que a isca foi lançada e eu fisguei. Eu fisguei porque ai meu deus como eu precisava de uma Marie Kondo pra organizar os meus fiozinhos embaraçados. Eu achava que ele era a minha Marie Kondo. Mas que bobagem, né? A Marie Kondo não organiza nada pra ninguém, ela ensina a gente a se organizar e a saber o lugar de cada coisa, se fora ou dentro da nossa vida. Ali eu não aprendi nada, ali eu só quis que fosse ele a solucionar tudo, ali ele não era minha Marie Kondo. Hoje talvez seja. Hoje porque ele foi embora, mas alguma coisa ficou. Um lamento que primeiro foi raiva, depois rancor, depois frustração, depois ego machucado, depois aceitação. Até que agora não é mais um lamento, e sim um sentimento que me remete à mudança no meu jeito de me tratar. Não nego que agora, além da maravilhosa conclusão que cheguei depois de meses, também me sinto saudosa de uma coisa que é só reflexo de uma expectativa corrompida, de algo que eu criei e me apeguei pra me sentir mais mulher, mais livre, mais única. Eu me senti única! Alguém, pela primeira vez, fez eu me sentir única! Se isso não ia me impactar? Como? Impossível! Mexeu, bagunçou, metralhou na quinquilharia que carrego comigo. O caso é que a dor que tá doendo agora é uma dor que eu nunca senti quando ele foi embora. Tá doendo a dor da percepção de que ele estava mais certo do que eu. De que ter acreditado naquele maniqueísmo não me levou a canto nenhum. Ele não foi o vilão, eu não fui a mocinha. A gente não tinha nem tempo suficiente pra ter sido qualquer coisa. Só sei que ele passou por mim como um furacão, pra desconstruir tudo e me fazer reerguer sozinha. Não durou nem dois minutos e já estava tudo abaixo. Ele disse que não padeceria, então eu padeci. E agora tô aqui, vasculhando minha tralha, me conhecendo e sentindo forte o que eu nunca senti por quem me tirou do eixo. Por que agora? Eu não sei. Pode ser pelo alguém novo que apareceu querendo segurar a minha mão, pode ser pela descoberta do óbvio, pode ser só pela chuva que tá chovendo agora e por todas as chuvas que ainda vão chover até eu esquecer que ele gostava do barulho. Pode ser por constatar que talvez ele nem gostasse tanto assim da chuva e eu ocupei espaço guardando essa referência inútil de alguém que eu nunca conheci de verdade. Pode ser muita coisa. Ele marcou, sim. Eu choro por isso. Choro porque eu confundi, porque eu deixei ele entrar na minha vida atuando simultaneamente em dois papéis. O de meu salvador e o de moço bonito que podia também ficar com o meu coração. Mas eu sei que foi a fusão dessas duas funções que causou o alvoroço que eu invoco como tendo sido meu ponto de partida. E foi aquele silêncio também. Eu choro um choro de "ufa, tô bem". Então agora acho que posso de fato dar esse lugar de Marie Kondo pra ele. Ele me ensinou, sem saber, e eu estou me organizando e tenho visto isso nas minhas atitudes, na minha decisão de ser leve e ir vivendo sem o peso de uma expectativa, tirando das coisas uma idealização que já não me serve. Tenho acreditado em mim cada vez mais, tenho me juntado com gente inspiradora, tenho tido papo cabeça que transcende a minha própria existência. É um choro de descoberta e entusiasmo. Não vou mentir que também é de saudade daquela sensação boa, não dele. Fico feliz, no fim das contas, de ter transformado aquilo nisso. Aquela confusão de sentimentos, aquele apelo, na minha emancipação, na minha arrumação. Na segurança que eu precisava pra dirigir a minha vida, pra me achar linda, e, sem a ajuda de ninguém, me sentir foda pra conquistar o que eu quiser. E é maravilhoso me dar conta de que eu não me importo mais com o que foi, com a verdade, com a mentira ou com a provável ocultação de coisas fundamentais. Tanto faz, um legado ficou. E hoje é dia de lavar a alma com esse choro, com essa dor inusitada. Os dias futuros continuam sendo de aprendizado e mais organização. Junto com a terapia, com os novos amigos e os novos objetivos. Eu já aprendi a reconhecer o que me traz felicidade, e que isso tem que ficar! Me traz felicidade dar conta de mim. A tristeza de não me saber e de não me sentir suficiente ou capaz me faz mal, e isso, assim como tudo que não reflete a minha alegria, tem que sair da minha casa. E "a verdadeira vida começa após colocar a casa em ordem". Então, mãos à obra porque nenhuma Marie Kondo aparece na nossa vida por acaso.