... Subentenda-me: fevereiro 2013

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Dina e as primeiras lições de amor.

Quando eu tinha uns seis anos de idade minha mãe contratou uma "babá" completamente diferente de todas as outras. 

A Dina tinha vinte anos quando começou a trabalhar lá em casa, e lá continuou os quatro anos seguintes. 

Eu tenho inúmeras razões pra dizer o quanto a Dina foi inesquecível - e é, porque até hoje mantemos contato. Ela tinha uma paciência de cão comigo, pra pentear o meu cabelo, pra limpar a minha bagunça, pra deixar eu ficar brincando até bem mais tarde lá no prédio em que eu morava. Ela acobertava as minhas perversidades de moleca endiabrada.

Resumindo, a Dina era o cara. 

Lembro que no primeiro dia dela, eu, de tão péssima, amassei toda a roupa que ela tinha acabado de passar e depois me joguei de cima de eu não me lembro onde quando vi que ela tava chegando pra brigar comigo. A parte ruim foi que tinha um copo bem na minha área reservada estrategicamente pra pouso. Copo de vidro - ou vrido, pros mais íntimos. Fiz um belo de um corte na perna, e chorei feito uma condenada. Também, pudera. 

Coitada da Dina, não sabia o que fazer, corria sérios riscos de ser demitida, mas com todo o cuidado do mundo me deu um banho digno de uma profissional do banho, porque só sendo profissional mesmo pra conseguir me acalmar e me convencer de que eu não podia ir pro hospital com cheiro de moleca suada. 

Enfim, a Dina foi responsabilizada sim, mas por sorte a mamãe deixou ela lá, quase que adivinhando o tanto que ela ia ser essencial na minha vida. É, eu amo a Dina, demais. 

Então, todo esse falatório serviu pra expressar todo o meu amor pela minha quase Nanny McPhee, mas também pra eu contar um dos grandes mistérios da minha infância que foi revelado a não muito tempo atrás.

Pois bem, vamos a ele. 

Contextualizando. Naquela época um certo rapaz, muito bonito e forte, que sempre jogava bola no campinho que tinha em frente a janela da cozinha de casa. Era o nosso vizinho do andar de baixo. Eu sempre via a Dina espiando ele pela janela, toda as tardes que ele ia exibir aquele corpinho sarado lá pelo condomínio. E isso acontecia frequentemente.

Na minha meninice eu já sabia que a Dina gostava dele. Eu chegava até a cantarolar aquelas musiquinhas canalhas que as crianças cantarolavam pra constranger os romances alheios.

"Dina e fulano debaixo de uma árvore se beijando, lalari lalará."

Mas era bem mais grave do que isso. A Dina amava aquele homem, e disso eu sei porque depois de eu ter crescido ela me confessou. 

Ah, se eu já entendesse da vida como entendo hoje, era pra eu ter sacado tudo quando, em uma daquelas tardes de futebol, ela se apoiou na parede, encostou a cabeça no braço e chorou. CHOROU. Chorou como eu nunca tinha visto alguém chorar na vida. E eu, meio desesperada, meio confusa, meio achando que ela tinha feito dodói, perguntei o que tinha acontecido. É, o amor tinha acontecido. E o pior, o amor proibido.

Ela me disse: "Um dia tu vais saber, Carol. Quando tu crescer tu vais entender o que é amar alguém e vai sofrer feito uma condenada, e chorar do jeito que eu tô chorando.". É claro que eu não lembro as palavras, mas sei que foi tudo isso aí que ela quis dizer. 

Ela era uma humilde secretária do lar e ele um bonitão classe média. É, a diferença de classe social contava, e muito. 

Enfim, a história deles não deu certo, como tantas outras que não dão. Nada como crescer, não é mesmo? Crescer pra entender das coisas da vida, crescer pra entender o que é chorar quase que desesperadamente por alguém que não se pode ter. 

Eis, então, a revelação do tal mistério, eis a minha realidade vivendo o mistério do porquê chorar por um amor, do porquê doer tanto quanto doeu na Dina e em todas as pessoas do mundo. 

A Dina casou, é feliz com dois filhinhos lindos e fim de todo o sofrimento. Fim mesmo? Sabe lá. 

Da ultima vez que eu perguntei pelo fulano do futebol ela me explicou melhor, relembrou da história toda, lamentou, e etc. E, de quebra, lançou mais uma profecia, mais um dos mistérios da humanidade que agora eu podia entender logo de cara: me disse que todo mundo tem um ponto fraco!

Um só. Os que têm vários não se pode confiar - ainda mais atualmente com a evolução dos relacionamentos e da fluidez com que se ama todo dia uma nova pessoa. E é. Eu tenho o meu ponto fraco, a minha melhor amiga tem o dela, a minha mãe, a minha avó, a Dina. Esses pontos fracos são os tais rapazes do futebol, do computador, daquele bolero com as amigas, da rua de trás. Eles que apareceram e marcaram, e ficaram mesmo tendo ido embora. 

A gente casa, tem filho, arruma um bom emprego, é feliz pra caramba, reúne a família nos almoços de domingo, mas não, a gente nunca vai esquecer dos nossos pontos fracos. 

Talvez doa pra sempre, talvez doa pra sempre enquanto durar a dor. Talvez a gente lembre deles quando ouvir uma música de tempos antigos, ou assista um filme que lembra toda a história. Talvez a gente os esqueça quase que o tempo todo, talvez a gente acorde na madrugada meio ofegante por ter sonhado e lembrado deles. 

Talvez, talvez, talvez. 

A verdade é que a gente sempre consegue seguir em frente e cantar com gosto aquela parte da música Olhos nos olhos: "E tantas águas rolaram, quantos homens me amaram bem mais e melhor que você...". Sim, nós conseguimos.

Nós vamos sair de noite pra encontrar os nossos novos namorados, vamos gargalhar e beijar e levitar. Vamos dizer que amamos alguém de novo, e de fato vamos amar. Amar com toda a vontade e a sinceridade que o amor exige. 

Mas, infelizmente, nada no mundo, nem o suborno mais bem feito e irrecusável, vai ser capaz de eliminar completamente os nossos pontos fracos. Nem comer e não engordar, nem malhar um mês e já ficar gostosa. Nada, nada mesmo vai fazer com que a gente esqueça. 

Afinal, todo mundo precisa de um primeiro grande amor antes do segundo, do terceiro, do quarto... 

Não é? 

A gente sabe que sim. 

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Veja a sorte que eu tenho tido.

Não te quero correndo e me puxando pelo braço pra dizer o que tem que ser dito, te quero me olhando no olho e não dizendo mais nada. Te quero dormindo de bruços, te quero me pegando pela cintura e me roubando um beijo. Te quero com os olhos castanhos de costume e a barba mal feita. Te quero numa esquina que seja nossa, num banco que seja nosso, numa chuva que seja nossa. Não te quero com buquê, nem presentes. Te quero abrindo a porta pra eu entrar, te quero me fazendo cócegas, me obrigando a dizer que te amo enquanto eu tranco a boca e viro a cara dos seus apertos. Te quero só, te quero na cozinha fritando salsicha pra gente comer no jantar. Te quero o mais simples possível. Te quero num quarto branco com janela de madeira e uma cortina com flores amarelas. Te quero me abraçando por trás enquanto a gente pega vento. Te quero mordendo a minha orelha e bagunçando o meu cabelo. Te quero dançando na sala, cantando comigo. Eu quero te ver chegar, eu quero te buscar. Te quero o mais louco do mundo porque a sua loucura parece com a minha. E quero brigar com você, surrar você até eu não aguentar mais e me apoiar chorando no seu ombro. Quero fugir com você, quero colocar a cabeça pra fora da janela do carro e gritar bem alto qualquer coisa que só nós dois saibamos pra você rir e me puxar pra dentro. Te quero comigo cantando alto aquela nossa música do The Smiths. Te quero de tarde, de manhã, de madrugada. Te quero um monte mas não te quero nada. Não te quero mais como te quis e te querendo agora te quero menos. Te quero como sempre quis mas sempre quis e não soube te querer. Te quero hoje e amanhã quem sabe. Não te quero. Te querendo...