... Subentenda-me: 2024

segunda-feira, 23 de dezembro de 2024

Amarelo

"[...]
Vejo a vida passar num instanteSerá tempo o bastante que tenho pra viver?Não sei, não posso saberQuem segura o dia de amanhã na mão?Não há quem possa acrescentar um milímetro a cada estaçãoEntão, será tudo em vão? Banal? Sem razão?Seria, sim, seria, se não fosse o amorO amor cuida com carinhoRespira o outro, cria o eloO vínculo de todas as coresDizem que o amor é amarelo
É certo na incertezaSocorro no meio da correntezaTão simples como um grão de areiaConfunde os poderosos a cada momentoAmor é decisão, atitudeMuito mais que sentimentoAlento, fogueira, amanhecerO amor perdoa o imperdoávelResgata a dignidade do serÉ espiritualTão carnal quanto angelicalNão 'tá no dogma ou preso numa religiãoÉ tão antigo quanto a eternidadeAmor é espiritualidadeLatente, potente, preto, poesiaUm ombro na noite quietaUm colo pra começar o dia
Filho, abrace sua mãePai, perdoe seu filhoPaz é reparaçãoFruto de pazPaz não se constrói com tiroMas eu miro, de frenteA minha fragilidadeEu não tenho a bolha da proteçãoQueria eu guardar tudo que amoNo castelo da minha imaginaçãoMas eu vejo a vida passar num instanteSerá tempo o bastante que tenho pra viver?Eu não sei, eu não posso saberMas enquanto houver amor, eu mudarei o curso da vidaFarei um altar pra comunhãoNele, eu serei um com o mundo até verO ponto da emancipaçãoPorque eu descobri o segredo que me faz humanoJá não está mais perdido o eloO amor é o segredo de tudoE eu pinto tudo em amarelo"

Principia - Emicida

quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

Belo mundo, onde eu estou

Eu tenho apreciado minha dedicação em me fazer presente no presente de todos frames que compõem essa minha realidade. 

Tenho me achado mais bonita e confiante. E isso se confirma quando sou surpreendida pelo meu antigo chefe que para, abaixa o vidro do carro, me cumprimenta e me elogia de uma maneira muito respeitosa, enquanto eu retorno pra porta do meu trabalho depois do cancelamento inesperado do Uber que eu estava esperando. 


Fico contente com a abordagem do meu antigo chefe e percebo que é porque concordo com o elogio. Diante disso, relaciono imediatamente que concordar com o elogio e me achar mais bonita e confiante está acontecendo exatamente por conta dessa minha recente intenção de estar atenta ao agora, ao invés de conjecturar inconscientemente sobre como eu gostaria de ser, sobre o que falta pra eu ser quem eu gostaria de ser. 


Nesse momento eu sei que essas fantasias me ocorriam de forma imperceptível, mas me impactavam o suficiente pra uma constante sensação de não me saber de fato, pra eu me sentir continuamente descontente comigo mesma. 


Abandonei essa mania nos últimos tempos, quando me conscientizei de que não existe o que eu gostaria de ser, e que a atenção dada a esse desejo é o que propriamente me afasta da identidade que quero incorporar.


Eu sou o que eu sou agora, nada mais. O depois não existe. Eu só tenho o agora pra ser quem eu quero ser. 


De posse dessa nova perspectiva, me percebo mais interessada e focada em não permitir qualquer devaneio que me distancie da imagem presente de mim mesma. Da imagem de quem eu JÁ sou. 


Evito que meu subconsciente vague por qualquer lugar que não seja exatamente o lugar físico e mental em que eu me encontro. Direciono meus pensamentos de forma consciente pra aceitar que eu estou onde eu deveria estar, que eu sou quem eu deveria ser, e a minha versão mais aprimorada está exatamente nesse frame, nesse agora. 


Meus pensamentos então passam a ser menos idealistas e mais apreciadores das coisas reais que me envolvo a cada instante. Tudo está vinculado com o que de imediato se apresenta na minha vida.


Eis então que sentada na sala de espera de uma clínica, em vez oscilar nas projeções sobre onde eu gostaria de estar futuramente, sobre minha aparência, sobre o corpo ideal, sobre tudo o que eu consideraria longe do meu instante atual, me observo justamente dispensando todas essas construções. 


Essa dispensa sou eu estando presente. 


Me volto pra mim, gosto do que vejo e do que sou, sinto meus pensamentos transacionando tranquilos pra que eu consiga continuar a ler um livro. E leio, acessando integralmente os cenários da história, inteiramente concentrada como há pouco tempo eu jamais conseguiria, ainda mais em público, ainda mais esperando um atendimento. 


Estou lendo “Belo mundo, onde você está”, da Sally Rooney. Releio algumas vezes o e-mail que uma das personagens escreve pra sua melhor amiga descrevendo suas impressões a respeito de Jesus. 


Ela diz que se comove e contempla sua vida e morte, nutrindo carinho e apreço por sua figura, mas que, ao invés de se encher de paz espiritual, se sente banal e rasa comparada à existência dele porque, mesmo falando sempre sobre a ética do cuidado e do valor da comunidade humana, em sua vida real sente que não assume o trabalho de cuidar de ninguém além de si mesma. 


A personagem, Alice, observa que ninguém depende dela pra qualquer coisa, e, apesar de se culpar por isso, ela entende que é um fracasso generalizado porque, de toda maneira, as pessoas de trinta e poucos anos abandonaram o modelo antigo de união, e, ainda que o afastamento da ideia de casamento tradicional evite alguns tipos de fracasso, pelo menos esse modelo representava um esforço em prol de alguma coisa. 


O questionamento seguinte me pareceu muito válido porque a personagem encara que, apesar de não querer repetir velhos erros pra sustentar um estilo antigo de união, ninguém pensou no que colocar no lugar e, da sua perspectiva, nada ficou no lugar. As pessoas passaram a detestar muito mais quem comete erros do que amar quem faz o bem. Sendo assim, qual seria o certo, afinal? Não amar ninguém? Não fazer nada? 


Antes que esse diálogo interno da personagem chegasse ao fim, viajo na minha própria análise sobre o assunto. E muito mais aberta pra uma reflexão livre de julgamentos, justamente pela minha dedicação em me abster de algumas idealizações, pensei que, mesmo acreditando que o propósito de viver por alguém ou algo não leva em consideração as eventuais frustrações e os eventuais fracassos dessa vivência, mas sim a justa, desinteressada e generosa entrega de si para esse alguém ou algo, também encontrei sentido em não cuidar de ninguém além de mim mesma. 


Enquanto a personagem discorria numa espécie de lamento, eu fui para o lado oposto pensar que cuidar de mim é muita coisa, e, dentro de uma crença particular, me remete a aceitar que é uma excelente maneira de cuidar do resto do mundo, ou da mencionada comunidade humana.


Gosto de pensar assim, sinto uma expansão no peito, um foguinho no coração. Sei que é porque está ressoando com meu momento de vida. Não é um pensamento vão, infrutífero. Representa exatamente o que internalizei. E, mesmo que eu esteja consciente do meu lugar de privilégio por ter por quem viver além de mim, de todo modo eu me recuso a pensar que viver por mim é pouca coisa. É tanto quanto. É o meio pra viver saudavelmente por alguém ou por algo. 


Pensar assim me entusiasma


Ao chamarem meu nome pra fazer o exame, volto dessa viagem e fico feliz em perceber que fui pra outro lugar e esse lugar não me afastou de mim, só comprovou que me pertence agora o domínio sobre estar onde quero estar e isso pode ser considerado a mais nova habilidade que me orgulho de ter conquistado. 


Sinto, então, aquele tal acréscimo de estima por mim mesma porque realmente pareço estar entrando numa existência superiormente interessante.


Levanto pro exame de audiometria feliz e com o coração estranhamente aquecido e emocionado. 


Me vejo sensível a todos os estímulos desse momento, e sinto uma ternura inexplicável pelo médico que me atende com gentileza. Um senhor idoso, com as mãos trêmulas, que delicadamente coloca um aparelho em meus ouvidos. 


Estou atenta, curiosamente grata e feliz. Me distraio por um momento e penso no que o médico poderia ter que lhe fazia tremer. "Parkinson, talvez? Ah, não importa." Solto o pensamento e volto pro agora e pra sensação de felicidade que estava sentindo desde a hora em que me deparei com a minha capacidade de me auto apreciar sem viajar pra outra realidade distante do meu momento presente.


Logo o médico me convida pra entrar na cabine de audiometria. Ouço apitos e sinalizo com atenção até onde consigo ouvir cada som. Sigo feliz. Concluo o exame e tenho como resultado que a infecção forte de meses atrás não me causou danos auditivos. 


Retorno pra sala de espera e me encontro ainda voltada pra percepção de me saber.


Decido escrever esse texto. Me proponho a lembrar sempre dessa manhã comum, de um dia comum, com obrigações e responsabilidades de autocuidado comuns, que me fazem apreciar com graça a vida que poderia até ser considerada banal, mas que pra mim se apresenta em outra etapa de um processo de cura e de pertencimento próprio. 


Escrevo pra que eu não esqueça de notar que os dias bons não precisam ser extraordinários, e que a evolução pessoal não se mostra apenas quando algo notoriamente bom acontece. Tudo já está acontecendo e a poesia de tudo mora, justamente, na beleza do agora de um dia normal, enquanto espero meu Uber pra voltar pro trabalho.  


sábado, 14 de dezembro de 2024

Do tarô pra minha vida

Há quem não acredite nos misticismos das coisas todas. Mas como eu poderia não acreditar? 

Se não há correspondência entre a vida real e o esotérico, o sobrenatural, como se explica, por exemplo, que na minha vida a carta da morte tenha sempre representado o que, em seguida, aconteceu?  

Sei que as cartas de tarô descrevem vivências reais, e a realidade da morte é, por si, a mais forte transformação e finalização de ciclos. Mas quem, senão um representante do lado de lá, interviria pra que justamente essa carta pulasse pra fora do deck um pouco antes da morte acontecer? 

A carta da morte é sempre um marco. Sempre que surge, tudo muda. 

Da primeira vez, a morte, de fato, veio. No tarô e na vida! 

E depois disso tudo mudou. 

Dessa vez, a morte, propriamente dita, veio impiedosa com quem fica, como geralmente é. 

Antes dela chegar oficialmente, eu pedi perdão e perdoei.

Aconteceu em uma tarde qualquer. Eu saí do elevador e fui em direção a uma sala fria. Chegando lá, me encostei na barra de proteção de ferro gelado da cama e fiquei encarando o homem que participou diretamente do desenho de toda a minha existência. 

Pedi perdão e perdoei, ao som dos ruídos e apitos de aparelhos salva-vidas, respirando um cheiro forte de álcool que até hoje quando sinto me remete instantaneamente àqueles dias tão brancos e inevitáveis. 

E depois segui pra uma rua tumultuada como a vida da qual eu estava me despedindo. Ou das vidas. Da minha, ou pelo menos o que eu sabia dela até então. E da dele, que estava indo embora sem outra possibilidade de escolha.

O choro desse dia foi inesquecível. 

Era choro com lágrimas de quem queria voltar no tempo pra crescer de novo exatamente do mesmo jeito, pra entender tudo, se rebelar menos, abraçar mais. 

Choro de quem queria mais praias com ondas fortes aos cinco anos e um braço que segurava pra sentir a força delas sem permitir afogamentos. Choro de quem queria dormir ao lado de roncos por tardes inteiras mais um pouco, mesmo com tanta infância lá fora. Era o meu choro profundo querendo dizer que:

"Eu ficaria trancada em casa de novo porque agora sei que tinhas medo que o mundo me levasse de ti. Eu ficaria de novo porque agora, nesse momento, eu também tô morrendo de medo que o mundo te leve de mim e queria poder fazer alguma coisa. Queria poder te prender nessa vida pra sempre como me prendias em casa. Hoje sei que fizeste por amor, apesar dos danos. Era amor do mais puro e genuíno, porque se não fosse eu não estaria chorando e pensando em voltar a viver tudo o que tanto me limitou só pra viver de novo a alegria dessa infância limitada contigo, a parceria da juventude limitada contigo. Era amor porque eu reconheço, aqui, na iminência da tua perda definitiva, que todos os males me vieram para o bem de me fazer ser quem eu sou." 

Esse era choro de antecipação da morte. 

Aconteceu intenso quando eu estava parada em frente a entrada de um supermercado movimentado, com muita gente me olhando e querendo me consolar, enquanto eu perdia o ar e pensava em tudo isso que eu queria dizer mas só consegui por telepatia. 

No fatídico dia do fim, o choro mudou e passou a ser um choro de finalização da morte. Finalização porque, até ser concretizada de fato, a morte estava sendo vivida diariamente. 

Esse choro era mais eterno do que emergente. O ar era como água, entrava e saía dos meus pulmões preenchendo tudo como uma enxurrada. Não me faltava o ar, como da outra vez. O ar veio em excesso e saiu pelos meus olhos. Me afundando igual Alice no país das maravilhas. 

Até que o caixão fechou e a morte veio.

A morte veio. 

Ele foi. 

Nesse dia, ele foi. 

Pra sempre. 

Pra sempre aqui no que dá pra ser visto, mas nunca dentro da minha cabeça e do meu coração. 

Ele precisou ir pra eu ressignificar quem ele foi pra mim, fazendo ser tão bonito quanto eu nunca tinha permitido que ele fosse. 

Só depois do fim ele se tornou leve. E não que eu tenha esquecido dos tantos impactos, das crenças que criei, dos medos que além de me assustar, me limitaram. 

Não esqueci, só transformei em amor. 

A carta da morte estava certa e houve, enfim, a transformação. 

A morte dele me fez potência, me fez mulher destemida, me preparou pra vida que eu tanto descrevi como a que eu queria viver. 

E a vida que a gente quer viver, pra ser vivida na essência do sonho, com tudo de bom que foi idealizado, só se sustenta se o terreno estiver seco, sólido, capinado, organizado. 

É certo que a morte bagunça tudo, mas não tem campo que não floresça depois de uma tempestade. 

Sem a bagunça causada pela magnitude da morte, o ímpeto de faxinar tudo seria, talvez, menos intenso, mais preguiçoso ou até inexistente. 

Há quem se acostume com essa bagunça e bagunce ainda mais o buraco profundo que a morte deixou. Mas quem sonhou tanto com uma vida real, consistente, colorida e diferente de um passado que precisasse ser ressignificado depois de uma perda, dificilmente desapega desse sonho. 

Eu não desapeguei. 

A morte foi impulso. A morte transformou, como sempre faz.

E, até que enfim, depois de muito chover, trovejar, me alagar e me afogar, eu consegui florescer. 

A vida veio. 

Me abri pro meu encontro comigo e com tudo o que sempre sonhei pra mim. Decidi. 

Eu quero! 

Isso tudo o que sobrou depois da morte - a bagunça - eu vou ajustar, arrumar, consertar, reformar. 

Ajustei, arrumei, consertei, reformei. 

Fiquei melhor do que nunca fui pra conseguir viver o amor sem o peso que me ensinaram que o amor deveria ter. 

Consegui, depois de tanto suplicar, viver o amor leve que eu sempre achei que merecia. 

Ele veio.

Veio um amor distante da urgência dilacerante e desesperada de antes. Veio um amor calmo, com jeito de manhã que não obriga a acordar cedo. 

Veio um amor de rolar na cama, de permissão pra dormir mais um pouco, todos os dias. 

Amor de conforto. 

Amor de casar e desacreditar em tudo de ruim que dizem que o casamento pode ser. 

Amor de sentir bem fundo a verdade da personagem mais amável que já vi nascer de um livro. 

Sim, esse amor fez com que eu, assim como Aurora, mãe de Dalva, em Tudo é Rio, também não quisesse tomar conta pra medir com régua o que falta. Me fez querer escolher, todos os dias, tomar distância e diminuir distância, mas, sobretudo, caminhar. 

Escolho, todos os dias, continuar caminhando ao lado desse amor tranquilo. 

Tranquilo como o nome da cor que decidimos pintar a sala da nossa casa, porque tudo nesse amor faz sentido e me conforta, me acolhe e me aconchega. Sem caos, sem dor, sem trauma.

Esse amor que veio pra me dar mais amor. Especificamente o amor que me fez duvidar de todas as definições que antes eu idealizava, por ser maior. 

O amor que nasceu de mim.

Quase exatos três anos depois, uma nova vida veio, decorrente da nossa.

Ela veio. 

Mais uma vez confirmando a transformação da carta da morte. 

E foi assim que eu conheci o amor infinito e indescritível de colocar outra vida no mundo. 

É tão forte, tão complexo, tão além de mim, que até hoje pouco escrevi sobre. 

Sempre me fugiram as palavras pra dispor sobre a totalidade do que é absoluto, do que vai acima de tudo o que eu achava que sabia sobre sentir e existir.

Não há descrição pra olhinhos que desde sempre me olharam como se eu fosse única. Os únicos olhos que me fizeram ter certeza disso. A certeza de que eu sou única simplesmente porque gerei a vida que pra mim é o meu próprio mundo.  

Não posso mensurar em palavras o que representa o sentimento de ver o meu mundo crescendo, tomando forma. 

Meu mundo me buscando. Primeiro com o olhar, depois com os movimentos limitados de um corpinho indefeso, depois com balbucios, depois com palavras, depois com gritos me chamando de mamãe todos os dias quando chego em casa, depois com o impacto de um abraço intenso, resultado de uma corrida que deu impulso pra uma pequeneza de gente me agarrar as pernas. 

Não tem como fazer virar texto a felicidade pela palavra nova, pela frase nova, pela ideia nova, pelo entendimento de conceitos, pelos conceitos aplicados no contexto correto, enfim... felicidade pelo amor que sustenta uma vida inteira. 

Da primeira vez que a carta da morte veio, o fim de ciclo precedeu o início de outro, maravilhoso, indescritível, cheio de vida e desse amor.  

Não tem nenhum outro amor que me sustente mais do que esse. 

Todo esse amor me fez não temer a morte. E qualquer morte. 

Não só a morte literal, que ceifa a vida e paralisa os batimentos cardíacos. Mas me fez não temer a morte das relações que deixam de me engrandecer e me afastam de viver o amor de tudo. 

E eis então que, cinco anos depois, a carta da morte volta aparecer. E eu, mesmo destemida dela por conta de todo o amor e vida que tenho e ninguém me tira, aceitei que algo estava pra mudar de novo.

Junto da morte, a torre. Estruturas que já não se mantém. Perdas, rupturas inesperadas, caos. 

Apesar de sem medo, não posso negar que o pressentimento do luto me entristeceu. Eu sabia o que precisava morrer, dessa vez. 

A falta do medo não significa ausência da dor. Significa apenas que aceito perder tudo pra ganhar tudo, ainda que eu sofra. Isso porque sei que a transformação que me aguarda no capítulo seguinte vai fazer com que essa dor seja ressignificada, inevitavelmente. Vai promover a cura e vai abrir espaço pra deixar mais vida entrar. 

E, sem surpresa alguma, a finalização de outro ciclo aconteceu.

Apesar da morte de agora não ter sido literal, ela é, de toda forma, existente. Uma finalização marcante, digna de choro, de lamento, e de uma dor semelhante à dor que a morte biológica causa. 

Com isso, me deparei com a verdade de que a morte das relações e amizades não é, necessariamente, menos dolorosa. A morte dói, de qualquer maneira. E algumas mortes, ainda que não ocorram ao pé da letra, doem como se assim fossem. 

Aceitei. Me permiti sentir essa dor. 

Ele foi.  

Um amor antigo, um amigo, uma outra parte de mim. 

Passados os primeiros dias de ausência, de luto e de estranhamento, eis que a temporada das flores não demorou pra surgir, dessa vez.

Não passei por tempestades e bagunças. Creio que porque minha plantação anterior floresceu muito resistente. 

Muito do que eu já havia organizado em mim se manteve, se estruturou e me protegeu. 

Me senti, logo, viva!

A vida está vindo. 

Já dancei no banheiro, já me emocionei com um sentimento forte de que nada mais me prende, me sobrecarrega. Já agradeci, já me liberei. 

Senti saudade, sim, porque faz parte do processo. Bordei o passarinho em linha vermelha, fiz um quadro das bordas da caixa e do alecrim. Me cerquei do amor que eu dei e voltou pra mim. 

Enfim, ressignifico, agora, essa morte. 

Levarei comigo lembranças do que não foi vivido em matéria mas me moldou pra uma vida inteira. 

E escolho levar comigo em nome da intensidade que entreguei, da disposição, do afeto e do amor que depositei sem esperar em troca nada além do mínimo. Hoje sei que às vezes o mínimo é muito pra quem não sabe lidar, mas não me cabe. 

Não me coube. 

Eu cresci. 

E agora, finalmente, estou pronta!

Pronta pra receber o sol, a estrela, a temperança, o mundo, o dez de copas... tudo isso que vem depois da morte. 

Já veio uma vez, quando eles vieram.

Que venha de novo agora, e ainda melhor do que eu posso imaginar. 


quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

Abram alas

No primeiro dia eu senti a dor de te ver morrer pra mim. Chorei num luto intenso. Solucei de dar dó. 

Me tranquei no banheiro, coloquei as mãos no peito e me encolhi um pouquinho. 

Meu coração partiu em pedaços porque nunca me ocorreu de ter que lidar com a tua morte. Não foi fácil. 

No segundo dia acordei ainda com a sensação de incredulidade de quando alguém próximo morre, mas depois reagi. 

Senti que já tinha te velado o suficiente, e então te enterrei. 

Foi quando segui, enfim, pra minha morte. 

A minha morte pra ti. 

Não foi uma morte tranquila, do tipo quando se morre dormindo. Eu sei. Foi uma tragédia!

Doeu muito ter que morrer, mas, ainda assim, contraditoriamente impassível, morri. 

E sinto que morri com maestria, com classe. Morri pelo o que mais amo: eu mesma. 

Morri com dignidade. 

Eis que no terceiro dia ressuscitei, pra mim. Ou só mesmo reacendi minha chama, já que morrer eu só morri pra ti. 

Segui a todo momento viva, aqui, por mim, mas apagada, confesso. 

Não demorou nada - até porque eu não permitiria que demorasse - e senti de novo vibrar o calor da vida que eu gosto de viver. Muito mais forte do que antes. 

Olhei pra mim e pro mundo com uma ternura indescritível, com um amor inabalável. 

Senti uma vontade absurda de viver com muito mais intensidade a felicidade que sempre me pertenceu. 

Tudo ao meu redor pareceu mais colorido. Eu não sabia o quanto me adoecias. 

Me vi impactada por uma urgência em viver tudo o que é meu de um jeito totalmente presente. 

Foi como ver dois enormes portões coloniais se abrindo iluminados por uma luz muito forte. 

Me senti esplendorosamente livre e receptiva pra deixar entrar mais felicidade por tudo que é meu e por tudo que já era mas ainda não tinha me alcançado justamente porque esses portões estavam fechados. 

E foi nesse dia que eu tive a certeza: nossas mortes - você pra mim e eu pra você - me libertaram. 

Essa corrente precisava se quebrar, esse ciclo precisava findar. 

Durou demais. 

Agora me sinto efervescente. 

Me sinto, finalmente, pronta pra viver a plenitude de tudo o que já me preenchia, mas não me transbordava.

Transbordou. 

Transbordei de mim e do que é meu por direito e merecimento. 

É maravilhosa a sensação. 

Eu sinto com clareza que há um milagre acontecendo. 

Uma cura. Forte, arrebatadora! 

Nesse terceiro dia eu me preparei pra, enfim, viver todos os próximos dias. 

Isso sim vai ser incrível

sexta-feira, 23 de agosto de 2024

Deixa eu descansar

Então eu paro, no meio do dia, do trabalho, em frente ao computador da firma e a uma pilha de processos verdes cheios de post-its e ligas que eu improvisei com grampeador pra envolvê-los. Paro, nesse exato, específico e desnecessariamente detalhado cenário com o coração apertado porque eu li um texto de quando nem vinte eu tinha e me veio a conclusão insuportável de que eu nunca me libertei de um certo não sei o quê. 

Quanta vida desde então, quantos sonhos realizados, quanta satisfação, quanta consciência eu conquistei. Mas sigo aqui vez ou outra encarando um aperto de adolescente, um sufoco que não combina com a minha vida adulta, responsável, materna, independente e satisfeita. Eu cresci tanto e tanto e tanto mas ainda, vez ou outra, fecho os olhos e sinto.

E não se trata simplesmente de lamentar ou perceber a falta desconhecida de uma experiência nunca vivida. Não. É sobre a minha identidade, é sobre o que reprimi em mim por receio de uma avaliação negativa imaginária de um inanimado real e tão referenciado que revira os olhos enquanto eu, entusiasmada, falo sobre o que me faz vibrar e me alinha com toda a minha crença sobre os mistérios que me dedico a desvendar, ou, pelo menos, tentar entender. 

Me inibi todos esses anos porque, na minha cabeça, é como se essa coisa fosse uma extensão de uma consciência que, mesmo que não minha, vive acoplada, ainda que eu saiba que é fruto de um delírio, uma idealização perdida no tempo.

É uma consciência alheia a minha, que me faz imaginar compulsoriamente o que diria, ou o que pensaria sobre as minhas ideias, minhas inspirações e minha forma de ver a vida. E ainda que uma parte de mim ache e sinta que até causo impactos emocionais significativos nessa consciência não minha, isso não supre em nada a parte que me faz sentir feia, menina, meio boba, sem bibliografia. 

E eu sou tão mais, sempre fui. Eu sou tão mais, cheguei tão longe. Por que - infernos - permito que esse grande vazio continue me limitando, me proibindo de me expressar, de me dizer pro mundo?

Não quero mais essa parte dessa identidade que, ao mesmo tempo que me faz sentir próxima de alguma poesia e inspiração, me afasta da liberdade da minha expressão, dos meus gostos, da poesia e inspiração que vem só de mim, das minhas próprias frases rebuscadas incompreensíveis, que eu, imersa nesse devaneio, julgo como tolas porque insisto em medir pela régua tal que está acostumada a ser academicamente perfeita, esteticamente bonita, musicalmente refinada, entre as tantas qualidades que eu mesma criei sem considerar que, ah, o desodorante pode ser que precise ser especial pra se manter olfativalmente harmonioso. 

E não que eu queira diminuir essa coisa inexistente pra me elevar, mas é que, meu Deus, como estou cansada! 

Trinta anos na porta e há quase quinze me vejo assim, aprisionada, e ora vai, ora volta, e mesmo quando não está, eu padeço, penso, me regulo e calo o que em mim é latente de começar, de dizer, escrever, criar. E não faço, eu nunca faço e sei o porquê. Só sei que quero findar com esse ciclo, essa persona que me segue por todos os cantos, todos os anos, todos os cômodos. 

Quero dispersar dessa companhia, quero desabilitar essa função do meu sistema operacional, quero eliminar esse personagem do roteiro do meu filme, porque eu, em essência, voo sozinha, e foi voando sozinha que cheguei até aqui. 

E nessa súplica autoimposta eu descanso na esperança de ser liberta pro que me espera, pro que me acende e é meu. 

Esse é o momento e o tal descanso é um adeus pra isso que precisa se desconectar pra sempre de mim. 

Essa sou eu querendo olhar pela janela e ver essa coisa seguir o próprio rumo, enquanto eu, aqui do alto, danço September livre, grata e totalmente entregue ao que é meu. Me pertencendo, finalmente, pra me permitir ser e manifestar toda a poesia e inspiração que vem de mim. Só de mim.