Eu sonhei. Depois disso, sabe-se lá porquê, você não sai da minha cabeça. O que é uma grande bobagem, pois eu sei que, afinal, em que mundo alguém como você olharia pra alguém como eu. Não que eu não seja boa, ou querida, ou amável. Eu sou tanta coisa. Mas sei que mesmo que eu quisesse e pudesse é bem provável que ao mostrar tudo isso você não sentisse por mim o mesmo fascínio que sinto por você. Depois desse sonho, olhar no seu olho ficou mais difícil. Eu não sei encarar a coisa mais bonita que já idealizei de perto. Apesar de que talvez esse sonho não te apresente tão idealizado assim. De idealizado teve apenas o fato de que tinha por mim o mesmo encantamento que eu sinto ao te ver. Mas eu continuo acreditando que a personalidade doce corresponde à realidade. Porque é assim que eu te vejo. E eu só te vejo, eu só te olho de canto de olho enquanto está concentrado e compenetrado. Competentemente, responsavelmente, lindamente. Ah, como me atinge. A eloquência, o andar, o tom de voz, a calma, a serenidade. O sorriso. Ah, o sorriso. Não tenho muitas chances de ver você sorrindo, mas quando vejo o mundo para, por um segundo, como parou no dia em que você passou e eu derrubei uma pilha de papéis. Como para todas as vezes que você entra e eu perco a concentração. E sobre esse sorriso, eu amaria ficar olhando pra ele um dia inteirinho. Vários dias inteirinhos. Fico imaginando seu jeito por trás daquele terno e gravata. Fico lembrando de você quando ouço Caetano. Fico querendo saber mais das suas músicas preferidas, mais dos filmes, dos livros, do seu universo que aparenta ser tão acolhedor. Eu sei da tolice tamanha que é te escrever porque, no fundo, é como se não te conhecesse. De fato, não conheço nada além dos cumprimentos pela manhã e de algumas curtas conversas. Mas escrevo pra esse amor platônico gostoso de sentir. Que se dane, eu me contento com ele. Me contento com os sonhos, me contento com nossos curtos diálogos. Me contento e me calo, abaixo a cabeça, respiro fundo, dou bom dia e estremeço por dentro. Até porque restam apenas seis meses e depois isso passa. Eu vou, você fica, e isso passa. Até lá vou te admirando de longe, em segredo, discretamente. Imaginando a sorte de quem te tem, de quem pode sentar e conversar sobre todas as coisas do mundo com você num fim de tarde de cor bonita. A sorte de quem pode saber dos teus anseios, das suas histórias, dos seus gostos. Só porque você é bonito o bastante, complexo o bastante, bom o baste...