Tá doendo tudo.
Minha cabeça é um quarto todo bagunçado. Tudo o que tá aqui é meu, já veio comigo ou ganhei de alguém. Tudo isso me compõe e eu sinto que sei que tudo tem um lugar, mas não tenho forças pra levantar e arrumar, afinal, como eu disse, tá doendo tudo.
A morte do papai é, sem dúvidas, a maior das minhas dores. Ele é o responsável por grande parte do que eu me tornei. Minha parte boa e ruim.
Entender isso, deixar minhas mágoas de lado, ressignificar toda essa dor e culpa em um encontro comigo mesma, no meu despertar espiritual e pessoal, realmente não tem sido tarefa fácil.
Entender isso, deixar minhas mágoas de lado, ressignificar toda essa dor e culpa em um encontro comigo mesma, no meu despertar espiritual e pessoal, realmente não tem sido tarefa fácil.
De certa forma já consegui aceitar que a existência dele na minha vida, ou a minha existência derivada da vida dele, seja como for, representa o que eu essencialmente sou, serei, ou pretendo ser.
A única certeza que consigo ter é que todas as respostas pras minhas perguntas mais básicas estão intimamente relacionadas com a minha relação com ele.
A única certeza que consigo ter é que todas as respostas pras minhas perguntas mais básicas estão intimamente relacionadas com a minha relação com ele.
O jeito dele, a dureza dele, a bondade e a maldade dele, tudo isso é que vai me fazer aprender o que preciso aprender pra fazer o que tenho que fazer.
Como eu vou aprender não sei. Acho que, na verdade, os dias, desde aquele 22 de julho, ainda que aparentemente vazios, monótonos e tristes, têm sido, no fundo, o maior aprendizado.
Enfim.
Eu tenho uma tendência à melancolia, sempre tive. Mas, apesar disso, sempre priorizei ficar feliz. Na realidade, ficar feliz de fato sempre foi a maior das minhas ambições. Não apenas externamente, porque isso sempre fui. Aqui dentro é que eu queria mesmo que fosse permanente a alegria que eu tento fazer parecer lá fora.
No entanto, agora eu estou tão, tão triste que parece que não vai passar nunca. Apesar das minhas piadas diárias, da minha veia cômica que salta o tempo todo, aqui dentro tá tudo muito frio, escuro e desconfortável.
É normal, eu espero. Espero sozinha conseguir desembaraçar esses nós. Mas ser só também é uma das dores que carrego comigo. Ser só e lamentar isso também é um nó. Me sinto só e verdadeiramente impotente. Sinto que sozinha é muito mais difícil lidar com tudo.
É muito mais difícil lidar com a solidão da minha mãe, com a realidade de que, sem o papai, o futuro apavora ainda mais pela possibilidade de que um dia ela também pode não estar.
E, além de tudo, ela depende de mim, só de mim, da minha presença, da minha companhia. Isso é um peso que sozinha é difícil carregar.
Me encontro numa realidade em que além de triste e solitária ainda tenho que dar conta da tristeza e da solidão de outra pessoa.
Sei que minha solidão é uma dor a mais, além de todas essas dores, mas eu sei também que tenho que passar por isso, que aguento passar por isso. Sozinha.
E eu aguento... aguento, mas eu não quero!
Eu choro copiosamente porque não quero. Choro porque eu quero ajuda, porque eu insisto em acreditar que alguém pode me ajudar. Alguém que não esteja chorando e consiga enxugar as minhas lágrimas pra que eu, mais forte, possa enxugar as lágrimas dela.
Não tenho.
Sei que é cruel comigo e seria cruel com qualquer pessoa do mundo querer alguém só pra cuidar dos meus machucados, mas eu queria!
Eu sei que me sustentar só com a minha relação comigo mesma é o que mais tenho que cultivar agora, eu tenho consciência de tudo, tudo, tudo.
Mas era pra ser mais fácil.
Era mas não é. E apesar de muito contrariada, aceito a realidade que não tem nada do que eu queria que tivesse. Aceito a solidão, a dependência dela, e a morte do papai. Aceito sentir isso, chorar por isso, fincar raiz na minha cama, me dar conta de que sou fraca, e sofrer o que for preciso.
Aceito o aperto no peito, a tontura, o tremor. Aceito que eu sou um cachorrinho perdido no escuro, tentando me proteger da chuva. Aceito o vazio. Aceito também a tristeza do sentimento de que estou presa nisso, de que nada pode me libertar tão cedo.
Aceito a raiva, o desespero e a revolta.
Mas, acima de tudo, aceito o que vai vir depois. Depois, quando tudo parar de doer. Porque uma hora pára. Né?
Eu acho que sim...