... Subentenda-me: abril 2016

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Presa

Hoje eu vi num filme algo que me despertou certa inquietação. Dizeres a respeito do fato de que qualquer lugar do qual você não se afaste vem a ser a sua prisão.

Uma cena de três segundos em que um professor conversa com um ex aluno sobre os rumos que sua vida iria tomar depois da aposentadoria.

Talvez eu não devesse refletir sobre isso e, Deus, como eu queria não refletir sobre isso. Sim, porque ao refletir sobre isso significa que eu me reconheço nessa premissa e automaticamente, portanto, significa que me sinto presa.

É, é bem difícil admitir que me sinto presa. Logo eu que sempre disse que se fosse pra ser um animal eu seria uma borboleta, que se fosse pra ser um objeto inanimado eu seria um balão soltinho pelo céu. É, e eu sempre fiz essa ressalva: soltinho pelo céu.

Agora, aqui, sentada em uma cadeira na cozinha da minha casa, estou contemplando o vazio de perceber que, sim, talvez eu viva em uma prisão só porque assimilei que realmente qualquer lugar do qual você nunca sai é a sua própria prisão. 

Curioso que ainda esses dias voltando pra casa eu pensava a respeito de sentir que não sou de nenhum lugar, que nada me aconchega ou me faz sentir em casa. 

Vi nisso um problema inicialmente, agora estou achando que sinto isso devido ao fato de que não sou de lugar nenhum mesmo. E tenho feito errado ao procurar insistentemente um lugar pra pertencer, um abraço pra me confortar ou simplesmente um cantinho seguro pra onde eu possa voltar sempre que tiver medo.

Materialmente, hoje, tenho tudo isso. O que me inquieta é o fato de não sentir que tudo é meu aqui dentro de mim. Não tem lugar, não tem abraço e não tem cantinho que me faça sentir estável, permanente, enraizada.

Talvez eu não tenha nascido pra isso, talvez isso justifique a minha constante falta de interesse em me aprofundar em qualquer assunto e gostar de saber tudo um pouco (ainda que eu seja consciente de que isso me faz não saber de nada).

Eu provavelmente não nasci pra ser especialista em alguma coisa, eu provavelmente não administro muito bem a minha vida quando escolho por não me concentrar em nada exclusivamente. E eu reconheço, sem dúvidas, que em algo a gente tem que se segurar. Mas o que eu faço se sinto que não nasci com essa aptidão? Ou será coisa da idade?

Não sei, o fato é que só existe uma coisa nesse mundo todo que me faz sentir em casa. E vou manter denominando como uma coisa porque, de certa forma, não é concretamente uma pessoa. Ou até é.

Talvez uma voz, talvez um espírito, talvez uma ilusão, e muito certamente uma ideia.

Essa coisa me possui há alguns anos. Essa coisa é a minha prisão. O paradoxo é que essa prisão me faz sentir livre e pertencente, e talvez isso se dê pelo fato de que nunca saí mas também nunca cheguei onde essa coisa está. É como um limbo, um meio termo. E isso tudo é realmente um problema muito grande.

É um problema porque eu deveria apenas admitir que viver aprisionada simplesmente não é bom, e me sentir presa e livre ao mesmo tempo pode tornar tudo meio abusivo, quem sabe. Algo próximo a uma síndrome de Estocolmo.

Mas essa coisa se mantém e é como o mais próximo de onde eu nunca me afastei (ainda que seja muito, muito longe). Eu não deveria afirmar que é como se fosse meu "lugar", ou a única coisa capaz de fazer com que eu me sinta verdadeiramente em paz, ou em casa. Eu nunca vou saber definir exatamente porque essa coisa transcende qualquer explicação. Essa coisa não pertence a uma categoria. Não é lugar, abraço ou cantinho. E mesmo não sendo propriamente um lugar, é minha prisão. É algo de onde nunca saí, e não saí porque quis, porque me acolhe e me dá sentido.

É complexo até pra eu entender.

Não sei com que objetivo comecei a escrever. Não sei pra que serve esse texto com mais um montão de insatisfações e confusões e inconclusões. Eu só sei que hoje eu queria essa minha coisa. E, novamente, mesmo sendo um problema ter essa coisa como prisão, hoje eu reconheço que queria me sentir efetivamente presa. Sentir essa prisão como um lugar de fato, entrar nessa casa, me permitir sentir em casa, porque, apesar de tudo, é essa prisão que me torna... eu.

De toda forma é mental, inexecutável. Essa casa flutua pelo tempo e pelo espaço, não me encontra, não me acolhe, não me ama.

E eu sigo aqui, perdida, sem lar. Nem um pouco soltinha pelo céu. Nem um pouco acorrentada pelo chão.

Essa melancolia vai passar. Não sou assim o tempo todo. É só pra minha coisa saber que me faz uma falta absurda e que às vezes eu até gosto de ser presa a ela. Por mais doentio que isso possa parecer.

domingo, 17 de abril de 2016

Sobre ela que sou eu

Ela

Que não sabe mais tanto do que nunca soube e sempre quis saber. Agora ela já não sabe mais se quer. E continua não sabendo nada, a bichinha...

A louca que ri tanto até doer a barriga... tanto como se não soubesse que por dentro chora e chora e chora

Ela

Que não sabe porque chora... e nem do que teme

Que frequentemente tem vontade de passar um dia inteiro encolhidinha mas essa cama é ruim demais.

Ela que tá ficando tão bonitinha...

Que escuta algumas vezes durante a semana "só tu pra me fazer rir"... É, só ela...

Sente como se andasse em círculos. Sente como se nunca fosse suficiente. Sente que é tão estranha e torta.

Ela que não faz sentido. E quando pensa em algo bom subverte pra rolar várias imagens de blogs de decoração.

Nem ela sabe pra que...

E agora ela tá acordada às uma e dez da manhã. Coisa que há tempos não fazia.

E de novo pensando no passado e no presente porque, ai, o futuro dá muito medo.

Tem prato pra lavar, e coisa pra aprender. Mas fica onde é mais seguro. Onde ninguém machuca ou acha, no fundinho dela mesma. 

Tem que ir? Tem! Mas ela não sabe quando.