... Subentenda-me: abril 2011

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Centro-oeste

Não tenho medo de morrer,
O meu medo está em não viver.
O meu medo está em não poder ficar grudada, deitada
Morta em cima do seu peito
Bem naquele dia de chuva branda
Que cai lá fora, mas está bem chovendo dentro da gente.
E eu estaria morta em cima do seu coração pulsante
Por não existir mais vida além dalí.
Além do peito pálido, magro,
E dessas mãos tão bonitas que eu sonho que me toquem.
De morrer só sei que morro mais, porque não vivo
Não deito, não ouço.
Tampouco espero carinhos na madrugada fria de nós dois.
E vivo sem viver
E vivo com você aqui, mas tão lá
E mais lá sem mim.
E você sorri esse sorriso tão manso, que acalma.
Coisa de quando o dia está quase pra acabar e a gente se eterniza alí.
E eu o espero além do fim.
Se acabar amanhã e eu continuar esperando,
Estarei viva, mesmo não estando.
Eu morro contigo, meu bem.
Dessas coisas tão lindas que dizes,
Desses planos tão lindos que fazes
Desses olhos que, de tão longe, penetram, invadem,
E chegam perto.
Mais perto do que quando estou perto de outros olhos quaisquer.
Se você me espera, querido, eu digo:
Estou chegando devagar.
Ando para o sul, você para o norte
Lá pelo centro-oeste a gente se encontra.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Deixa ser

Tem gente que me inspira a escrever. Tem gente que me faz querer mergulhar em um olhar sem fim. Que eu reviro, reviro, tento decifrar, e nada. Do que se faz? Do que se fazem pessoas lindas que a gente vê por aí em uma dessas esquinas tumultuadas que a vida acaba deixando pelo nosso caminho? É tanta gente. Gente com cara de legal, gente com cara de "tô aqui pra tudo". E que esteja! Quero muito dessa gente que parece ter vontade de amor, ter vontade de beijos, abraço, carinho. Quero muito dessa gente carente. Quero o tudo dessa gente. Quero gente que me transmite do mais lindo ao mais confuso. Gente que me rebuliça o estômago. Gente que eu amo só de olhar. E sei lá se amor é a palavra certa. Sim, porque, de repente, em um diazinho frio, você pára, se analisa, e diz: "tô amando". Cabô. E aí? E aí que você fica tentando se explicar pra ninguém. E daí que as definições de amor são as mais variadas possíveis, é só escolher. Não dá pra definir que amor é isso, aquilo, e pronto. Amor é diferente pra cada um, e por cada um. Amor é essa coisa de mistura de gente, de sensações. Que envolve das situações mais ridículas e bobas. O amor é o chute no traseiro depois daquela ligação no sábado a noite. O riso embasbacado, o choro dilacerado. E vendo de forma totalmente generalizada, digo que amor não tem que ter motivo pra ser amor. O amor gira mais em torno do dia, da hora, do lugar, do olhar, do sorriso. Posso sentir amor hoje por alguém que nunca havia visto antes. Amor é a ternura captada de gente que te faz suspirar. Gente que passa emoção sem nem abrir a boca. Gente que ama a vida, gente que luta, gente que quer e quer e vai ter. Meu amor por gente assim transborda. E quero mais dessa gente. Gente que te faz querer viajar o mundo por um abraço. Gente que te faz querer todos os fins de tarde guardados em um potinho. Gente que te sorri suave, que olha nos olhos, que não explica, às vezes até complica - e o amor é complicado mesmo. Gente que me diz do amor. Gente que se confunde tanto quanto eu. Gente que se arruma sem destino, e vai até onde quer chegar, e na maioria das vezes não sabe onde quer chegar e realmente quer qualquer lugar. Gente que é carregada de luz, que brilha em tudo, que tem a auréola e o chifrinho - porque bonzinho demais enjoa. Eu quero dessas gentes reais. E quero já. Quero poder dizer de todos os "eu te amo". Quero poder ouvir de todos os "eu te amo". E não me cansar. E querer dizer de novo de novo de novo. E querer ouvir de novo de novo e de novo. O amor não é o problema. Se é de mais, ou de menos, tanto faz. Amor já é uma palavra tão bonita sem precisar ser explicada. Por que complementar o que sozinho já é tudo? Deixa o amor sozinho em frases. Deixa ele sozinho na teoria. Tentar explicar só aproxima da racionalidade o que de racional não tem nada. Deixa ser irracional. Deixa ser. Mistura com a vontade de ser feliz, um respeito pelo outro - porque é sempre bom -, e um montão de gente boa que já tá ótimo. Deixa ser amor sem medo. Deixa ser amor no vácuo. É bonito. Deixa ser.

Meu marinheiro francês

Eu não tenho muito o que falar sobre o que eu senti quando assisti a esse vídeo, apenas que flutuei, sonhei, e sorri do começo ao fim. A melodia, a letra, as cenas, tudo tão perfeitamente compatível com um certo sonho meu. I wanted to control it. But love, I couldn't hold.



Camera Obscura - French Navy
Spent a week in a dusty library
Waiting for some words to jump at me
We met by a trick of fate
French navy my sailor mate
We met by the moon on a silvery lake

You came my way
Said, I want you to stay

You and your dietary restrictions
Said you loved me with a lot of convention
I was waiting to be struck by lightning
Waiting for somebody exciting
Like you
Oh, the thing that you do
You make me go uuuh
With the things that you do (you do, you do)

I wanted to control it
But love, I couldn't hold it
I wanted to control it
But love, I couldn't hold it

I'll be criticized for lending out my eye
I was criticized for letting you break my heart
Why would a stand disappoint unless
Fooling all but I'm more than dead love

uuuh with the looks
Oh tender boy,
Ooh, with the looks, the looks, the looks

I wanted to control it
But love, I couldn't hold it
I wanted to control it
But love, I couldn't hold it

Relationships were something I used to do
Convince me they are better for me and you

We met by a trick of fate
French navy, my sailor

I wanted to control it
But love, I couldn't hold it
I wanted to control it
But love, I couldn't hold

quarta-feira, 27 de abril de 2011

São os hormônios, querida.

Não se surpreenda com esse meu jeito, com essa minha compulsão em me mover a cada três segundos. Com as minhas gargalhadas, com a forma que eu te faço rir, que talvez às vezes pode parecer forçada, intencional, quando na verdade é inevitável, espontânea. Não me diga tantas verdades, ou me diga, não sei. Eu não me entendo. Às vezes quero ouvi-las, às vezes quero ocultar tudo que é real e viver no meu mundo de mentiras. Onde nada é mentira, são apenas desejos. Não quero parecer nada, pra ninguém. Nem quero parecer algo pra mim mesma porque sei que, mesmo sendo verdade, o meu exagero vai transformar em ilusão. Não se surpreenda se a qualquer momento eu levantar, sair, e bater a porta, frustrada, por um motivo que eu mesma desconheço. Sou do tipo que às vezes acorda feliz e em seguida entristece. Às vezes me sinto superficial por dar importância a coisas banais. Às vezes me sinto como algo banal. Às vezes sinto como se eu tivesse nascido pra viver dirigindo sem rumo. Às vezes sinto como se tivesse nascido para perpetuar em um lugar. Pelas pessoas que o rodeiam ou pelo contraste da luz do fim do dia, que bate na janela e que deixa um corredor iluminado com uma cor meio dourada, que me faz querer ficar olhando pra sempre, mesmo sabendo que nem sempre o contraste dessa luz é do mesmo jeito todos os dias. Também sinto como se eu tivesse nascido pra viver olhando o mar, eu me identifico. Me sinto como sendo uma onda. Primeiro calma, depois atordoada, depois muito agitada, depois violenta, e, quem sabe, no final voltando pro início desse ciclo. É um problema minha instabilidade. É um problema essa minha vontade de querer sempre fazer algo, sem nunca saber o que é. É um problema a minha impulsividade, a minha inconstância, a minha obsessão por querer saber de tudo um pouco que me faz não saber sobre quase nada. Parece pertencer a mim o desejo de mudar de sentimento, de mudar de humor, de mudar de astral. Enquanto acontece, me passa o desejo de não mudar em nada, e permanecer com os mesmos sentimentos, o mesmo humor e mesmo astral. Quando enfim permaneço, me sinto presa em um pote de vidro observando a minha própria vida cheia de indecisões, louca pra que eu volte a ficar sem saber o que eu quero para ela. E no final, eu não me surpreendo comigo quando eu sinto essa angústia de querer viver tanta coisa e continuar no mesmo lugar, mesmo sabendo que isso, na verdade, também é o que me faz estar em constante movimento.

Em resposta

Ele era tão bonitinho, e tão limpinho, cheirosinho, tudo inho. Ele tinha cabelos lisos, negros, lindos. Ele sorria e iluminava o mundo. Ele era sério, compenetrado. Falava coisas que faziam os outros pensarem sempre no porque não haviam tido aquela ideia antes. Que bonito ele, que vistoso, elegante. Porte de rei, burguês, menino mimado. Mas ao contrário disso ele era um jovem revolucionário indignado com injustiças e determinado a de alguma forma tentar mudar isso. Ele sabia um pouco de tudo. Entendia de música como ninguém. Tocava todos os instrumentos que pudessem imaginar. Além de ser belo, persuasivo, com um tom levemente imprudente que me deixava completamente fascinada, ele também escrevia coisas bonitas. Vocabulário culto, eloquente. Prolongava discursos instrutivos e inúteis, pois também tinha um senso de humor incontestável. Usava o insignificante em tão bom contexto que significava algo rapidinho. Nós não éramos muito diferentes, talvez bem pouco até. A gente se entendia bem, a gente se comunicava bem até nos desentendimentos. A gente daria certo, super certo. Nos conhecemos meio assim "sei lá". No tempo errado que era certo, pois o tempo certo era errado demais. De um dia para o outro encontrei mais coisas em comum com aquele rapaz do que comigo mesma. E como era bem informado, e como era inteligente, amável. Eu, de certa forma, me inspirava naquele jeito intolerante e revoltado, que ao mesmo tempo era também portador de uma sensibilidade casual. Não sei o que ele me transmitia, era confusão sem fim. E como se não bastasse encontrar alguém tão eu, tão ilusório, utópico, me coloquei diante da utopia maior: o longe. Ele era bem previsível. É, aquela coisa paradoxal, previsivelmente imprevisível. E o que eu mais amava nele era a grande capacidade que ele tinha de me surpreender mesmo com uma coisa que eu consideraria tão óbvia, tão a cara dele. Eu o amava, e não me importava em escrever sobre ele mesmo sabendo que após isso não haveria maiores observações. Ou sim. Ou não sei. Ah, a gente até sonhava coisas bonitinhas, e eu até pensava nele quando lia alguma poesia. Dizíamos coisas irrelevantes que pra mim se tornavam essenciais, necessárias. Pra ele eu não sei. Sei lá pra ele. Acredito que também, mas ele é um não sei total. Combinávamos até no signo, onde certa vez eu li que se superássemos algumas divergências e se acrescentássemos paciência poderíamos nos considerar almas gêmeas. E quem acredita nisso? Ora, almas gêmeas. Ele não acreditava, era prudente demais pra isso. E eu me poupava de acreditar nessa coisa pré-suposta porque seria sempre a expectativa do tudo pairando sobre a minha vida tão sem atrativos maiores (tão sem ele). Ele me dizia coisas bobas, e era bobo que nem eu. Eu bem que queria ele pra mim... ô se queria. E pra falar a verdade, esse texto com tantos verbos no passado não faz muito sentido. A verdade é que a gente vive isso tão bem, que já dá pra imaginar um futuro sem sequer haver passado. Imaginar, imaginar. Eu sei bem que os caminhos podem nos afastar - mais ainda -, a vida pode mudar, os planos podem se distorcer, e quem sabe a gente acabe encontrando por aí em meio a essas cidades diferentes algo melhor pra viver, pra esperar. Ele provavelmente entende mais de amor do que eu, mas eu sei que mesmo tudo indo ao contrário, começando ao contrário, e a gente tendo vivido tempos contrários em um mesmo lugar sem nos conhecer, toda contrariedade amplia um meio tão pouco provido de coisas a favor, que eu acredito que, mesmo a par de toda essa improbabilidade, ele continua sendo um futuro sem haver passado. Bem, não sei se meus planos nesse sentido são tão compatíveis com os dele. Talvez ele pense que isso não passa de um devaneio adolescente da minha parte, não sei. Só sei que Meu Deus, como eu quero continuar com essa pessoa de alma tão híbrida de emoções que me deixa completamente encantada quando diz um ai sem necessidade, quando me manda uma carta incomum fazendo o resto do mundo desacreditar que isso é amor e me fazendo crer cada vez mais que, mesmo que tudo contribua pra dar errado mil vezes, é dele que eu preciso.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Lista: coisas a fazer antes de morrer.

Não vivi nem a metade do que eu gostaria de ter vivido, e acredito que isso cabe ao tempo resolver (se eu não morrer antes). O tempo e as ideias malucas que eu tenho colecionado a fim de fazer minha vida ser lindamente utilizada até o fim. 

Bem, nada mais justo do que começar explicando os meus motivos pra pensar em fazer essa lista. Organizar uma coletânea de coisas a fazer antes de morrer exige uma certa responsabilidade e certo embasamento. Não é o tipo de coisa que se pensa tão cedo, mas graças as minhas irrelevantes constatações sobre a vida, algo me acendeu a pensar sobre. E ignorando qualquer irrelevância, devo começar, por assim dizer, "relevando", admitindo que pensei e pronto. Assim vou revelando que da vida eu não espero mais nada a não ser poder ser feliz e essa lista que ainda estou elaborando é bem resumidamente sobre isso! 

Sobre a vida a gente já sabe demais, sem querer, sem procurar saber, pois, feliz ou infelizmente, nos é dada a infelicidade de não escolher ter nascido, e assim temos que arcar com todas as consequências. Ou seja, de que me custa começar a pensar desde logo no que quero fazer dela? 

Já tenho a consciência de que posso morrer amanhã, depois, ou semana que vem. E como a morte é uma coisa ligeira e obscuramente improvável, até o dia em que se morre, me autorizo a começar a colocar em prática todo o meu plano de viver intensamente.

Pois bem, após enfim ter ressaltado os motivos que me levam a listar minhas ambições antes da morte, digo à mim mesma que será estritamente proibido o não cumprimento ou a não tentativa de executar as minhas próprias regras. 

Meu primeiro, magnífico, e absolutamente privilegiado objetivo de vida é uma coisa simples mas de extrema importância a todos os objetivos seguintes. E é, tcham tcham tcham, pular de bung jump! 

Sim, por que não? Pular de bung jump. Ora ora ora, começando pela sutil ideia de que querer uma lista de coisas a serem feitas antes de morrer inclui necessariamente a perda dos meus medos para assim conseguir ter, pelo menos, a coragem (teórica) de fazer o resto, nada mais coerente do que começar ultrapassando um grande medo. 

Medo de altura é um medo comum que eu confesso ter, e o que o faz reluzir como primeiro, magnífico e absolutamente privilegiado é simplesmente porque penso em estabelecer um ponto alto, literalmente, pra ativar minha coragem e, assim, me obrigar a perder outros medos. 

Medos são sempre medos, penso então que talvez ultrapassando um grande medo a liga fica fraca e se a coragem veio para um, virá para todos os outros. Ou de repente, caso dê errado e pulo seja mal sucedido, já finaliza tudo e eu me desobrigo de ter que superar qualquer outra coisa. É um plano magnífico. E macabro, reconheço. 

De todo modo, é claro que estou brincando. Ainda que essa ideia tenha me aparecido pra me tornar atribuir uma personalidade destemida e radical, não tenho porque me enganar. É arriscado e fatal.  Esquece! 

Vamos a uma segunda primeira opção? 

De verdade, da vida o que eu quero mais é ter coragem, sem precisar temer meus medos! Sim, acredito que o medo ajuda a instigar um desejo superior sob um manto de proteção, tendo certo tom de benefício, exceto quando paralisa, obviamente. Talvez superar meus medos seja uma boa ideia, mas acredito que não seja seguro perdê-los por completo. 

O medo pode enfraquecer, mas não significa que deva desaparecer. Talvez quem sabe amenizá-lo seja a melhor saída. Quase emudecê-lo. Quero é isso: ter coragem pra encarar meus medos e seguir, ainda que na companhia deles. Canalizá-los a uma boa causa. 

Depois de dominar meus medos a meu favor, meu segundo objetivo, ou segundo item na lista de coisas a alcançar antes de morrer, é: gostar de alguém de uma forma menos louca! 

Os meus relacionamentos até aqui tem sido baseados na inconstância, na ausência, em um olhar, em ilusões. Talvez eu esteja precisando de algo mais real. Sim REAL. Verdadeiro, eufórico, arrebatador, catastrófico (no bom sentido da coisa) e REAL. Que me tome a alma mais de perto, e aí talvez eu seja feliz. Até tenho receio de que o amor suma depois que eu arrumar algo mais normal, mas, de toda forma, eu vivo tão implantada na minha loucura que estou urgentemente sentindo a necessidade de correr esse risco por um amor menos dolorido, ainda que entediante.

 Agora, como terceiro objetivo de vida antes da minha morte, preciso dizer que já não consigo elaborar. Sim, eu também esperava mais de mim, eu também imaginei que essa lista deveria ser inédita, com o mesmo impacto de quem se desafia a encarar aventuras pela mata atlântica, mergulho com tubarões, ou algo mais eufórico e interessante. 

Mas não, me ocorreu agora apenas a conclusão de que eu não preciso de muito pra ser feliz. Talvez eu precise só de mais. Mais tempo, mais coragem, mais amor. Ou talvez, quem sabe, eu não precise de nada. Talvez eu seja feliz e não saiba. Talvez me falta é fazer tudo ao contrário do que planejo, não esperar nada. Administrar meus medos, encará-los. Viver meus amores malucos, amá-los. 

Não sei. Só sei que comigo não combina uma aventura pela mata atlântica, um mergulho com tubarões, e pular de bung jump. E, no fim, esse texto aqui só foi um pretexto pra eu falar de amor, de medos e da minha vontade de ser feliz. Fiquei sem criatividade pra pensar mais a fundo no que quero fazer antes de morrer, então acho que é melhor focar no simples bem feito: quero viver! 

Algo me diz que não tem erro se essa for minha única exigência.

Frustrações de logo cedo.

Logo de manhã cedo é esse vazio. Mas por quê?
Imaginar pessoas, imaginar futuro, e pensar qual é a relação do passado com tudo isso
Não querer não ter vivido, só querer viver melhor.
Tudo me leva a crer que quanto mais idealizo, mais me perco.
E a sensação de estar perdida me causa vertigem.
Não gosto de não saber o que falar, não gosto de não saber o que pensar.
Muito menos dos sentimentos loucos que eu tenho medo que passem ou fiquem.
Querer achar a solução pra tudo é meu pior defeito.
Me atrapalha muito mais quando não sei o que acontece, a solução fica mais distante...
E distante é a palavra que eu menos gosto.
Queria ter o que dizer, motivos para dar e argumentos para contestar
O bom é quando sei o que se passa, aí sim fica fácil de me questionar sobre o que sinto.
Que sentimento é esse? Parece amor, mas amor não é assim. Confuso...
Ou é? É... talvez seja amor.
Mas amor pelo que? Isso me deixa com vontade de descobrir.
Porém também é o que me reprime, por medo de machucar-me.
E machucar-me não é tão ruim. Ruim é a dor da espera até que sare.
É meu medo. Mas nada justifica, estou perdida mesmo.
Perdida entre o que parece ser tudo, e o vazio de quando acordo e vejo que não é nada.

Um dia

Imagine um dia...

Um dia livre, daqueles raros de se ver, com o céu laranja meio rosado (um desses eu só enxerguei quando criança). Um dia em uma praça com folhas caídas de outono, ou simplesmente outro lugar sutil, desses que existem por aí.

Primeiro, uma moça de roupas leves, com cores cintilantes combinando com a cor de seu cabelo, ou da bolsa, quem sabe.

Depois, um rapaz, com cabelos lindos, negros. Que faz ignorar qualquer tipo de roupa leve, quando se vê aquele cabelo indo junto na direção do vento.

Caminhavam meio perdidos, assim, bem com uma sensação de vazio. De querer achar sem procurar. De querer ver, mas sem aqueles olhares embasbacados quando se deparam com um casal feliz. Como um poeta, que quer inspiração, mas não se esforça pra encontrá-la. Se quer vir, vem.

E eles estavam alí, bem nesse jeito de "deixa a vida me levar"...

O rapaz, calmo, mas preocupado com outros problemas. A moça, calma, mas apreensiva com outras situações.

Diante de tais devaneios pessoais, tinham algo em comum: queriam alguém. Queriam sentir outra vez o que é ter seus olhos cheios de lágrimas ao avistar alguém por quem sentiam saudades desconhecidas. Queriam sentir o abraço mais aconchegante, que os permitisse o desejo de viver alí pra sempre.

Eles eram perfeitos para se apaixonarem devotamente um pelo outro à primeira vista.

O tempo favorecia, o vento favorecia, o clima favorecia, a beleza de tudo natural ao redor favorecia.

E depois então veio o olhar... Tão esperado, inconscientemente, por ambos. 

Aquele olhar de todos os contos de fadas, aquele de bater forte o coração, de ter a boca seca e as borboletas no estômago. Esses todos que os mais românticos descrevem, por conhecer, vivenciar, ou apenas sonhar.

De primeira, era uma confusão de neurônios. Mas ela de alguma forma sabia que algo mudava dentro do seu coraçãozinho embaraçado. E ele sabia que alguma pontada involuntária estava tocando seus mais improváveis sentimentos.

E diante de tanto fervor, acabo esquecendo... como é aquela moça mesmo? Devo citar algumas características de sua personalidade? Acho que sim...

Pois então, ela era dona de um sentimento tão bonito que ainda não havia encontrado ninguém com a prudência necessária para lapidá-lo e moldá-lo de um jeito que ela queria pra si própria. Ela não queria alguém perfeito, ela queria alguém pra ela. Mesmo já tendo tido outras paixões, vivia por aí, pelos cantos, declamando a vida, e se questionando a respeito de quando ia chegar alguém que a realmente fizesse despertar todo o sentimento mágico que ela gostaria de sentir. Ela era divertida, brincalhona, dita pelos outros com uma luz interna contagiante. Conselheira, não gostava de ver ninguém chorar, e se por acaso visse apertava tanto o coração que a fazia chorar junto. Ela não merecia ser colocada em um altar pois tinha seus defeitos, e os reconhecia. Mas aquela moça tinha uma paixão pela vida tão grande, que mesmo distante do que ela queria para ser completamente feliz, não conseguia se conter de tanto amor a tudo. Tinha muito amor em si, mesmo com uma pitada de falta de carinho, e de saudade do que ainda não havia conhecido, de saudades do futuro. A alegria de estar com os amigos, de ver que tinham pessoas que a queriam bem, era tudo o que ela mais amava possuir, e de resto, o pouco que faltava seria a cereja do maravilhoso sundae de chocolate que ela tinha preparado durante a vida.

E diante de tantos detalhes a respeito da moça, acabei esquecendo... e aquele bonito rapaz? Devo citar algumas características de sua personalidade? Acho que sim...

Ele era culto, inteligente, e com a alma mais linda e colorida de todas. Conseguia ter graça, ser bem humorado, sem fugir dos seus padrões e princípios. Tinha perseverança, e consciência de tudo o que sentia. Já tinha tido outros amores, como a moça. Frustrados ou não, eram suficientes pra ele ter aprendido tudo de necessário sobre o que seria gostar mesmo de alguém. Ele queria ser aquele grande homem que tinha ao lado sua grande mulher. Respeitava a vida, sabia como vivê-la. E também não era santo, não era e nem queria ser melhor do que ninguém. Apesar de tanta delicadeza, se o machucassem, ou se machucassem quem ele realmente amava, estariam derrubando um portinha entre seu lado amável e seu lado defensor, defenestrador, que ele quase nunca revelava. Sabia o que queria, tinha sentimentos. Não era apelativo, não era conservador, era engraçado. Gostava de brincar com seus amigos, e tinha uma relação muito boa com todos eles. Contava piadas, ria. Era feliz sem uma pitada de sal. Já tinha vivido bastante, não tanto em idade, mas em experiências. E percebeu que queria um pouco mais de divisão do que apenas a adição. Entendia de tudo um pouco. Fazia sucesso com as meninas, mas ainda não havia encontrado peça que faltava no quebra-cabeça. Ele era feliz, ele gostava da vida, não reclamava dela. Só sentia falta, e possuía um buraquinho dentro de si que precisava ser preenchido. E que fique longe a visão de que ele era perfeito, porque ele não era...

Mas para aquela moça...

Ele era, sem saber, a cereja do tal sundae...

E ela era dona, sem saber, do tal pedaço com encaixe perfeito pra esse buraquinho que ele tinha dentro de si.

Os dois eram tudo, não pro mundo, mas para eles. Um completo, uma foto bem tirada, uma vista bonita, uma janela com cortinas fofas.

De resto, o olhar cruzado entre eles se encarregaria. Um sorriso em seguida, uma conversa despretensiosa, um "oi". Aos poucos eles saberiam. Um dia é o que basta para que outros venham. Não é assim que é o que chamamos de vida? Pois é...

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Coloco esta moça como sendo eu, e me reconhecendo diante do que eu vejo em mim, sem falsas modéstias. Coloco este rapaz como sendo reflexo de tudo que eu acho mais lindo, e de tudo que, por hoje, parece ser o mais adequado diante do que eu procuro e idealizo.

Sonhar é de graça.