... Subentenda-me: agosto 2014

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é.

Hoje eu sinto a necessidade de escrever. Faz tempo que eu não tenho vontade de expor a minha vida, as minhas histórias tão tímidas, as minhas reflexões. Não tão abertamente. É que na maior parte do tempo nada do que eu penso costuma fazer sentido além dos limites da minha cabeça. Mas hoje não. Hoje muita coisa fez sentido. Hoje nem foi um dia tão especial, mas foi um daqueles dias que me trouxe a ternura que eu preciso pra me sentir digna a escrever e por pra fora alguns pesos.
Hoje eu notei que a minha vida mudou, simples assim. É oficial que agora já não sou a mesma de uns textos atrás, de uns dias atrás. Talvez a Ana Carolina de agora já seja outra pessoa, ou então esteja nas fases finais de sua transição. E como é bom mudar! Hoje eu não mudei de cabelo, não mudei o jeito com que me visto, nem deixei de falar com meu jeito estridente, nem de gargalhar alto. Tem abandonei aquelas certas coisinhas que são características próprias demais, únicas demais. Como a minha mania de sempre ir aos mesmos lugares, sentar nas mesmas mesas, pedir o mesmo prato, lanche e/ou suco de abacaxi. Como a profundidade que eu consigo alcançar a partir de conversas tão bobas, tão simplórias. Hoje tudo isso fica, e fica porque no todo eu sou isso mesmo e não vou deixar de ser.
Ainda que a vida esteja acontecendo com tantas mudanças necessárias e queridas, decidi que por hora prefiro não falar sobre elas. Hoje não quero falar sobre o que está vindo, mas sim sobre o que contribuiu e contribui pra chegada de tanta coisa, tanta coisa que eu ainda não conheço e me impulsiona a continuar andando pra encontrar (porque eu conclui curso intensivo sobre diferença entre correr atrás das borboletas e ficar parada esperando que elas pousem¹). Na verdade, quero falar sobre o que nunca vai deixar de ser, consequentemente, sobre o que não muda, mas se aprimora pra me fazer subir degraus.
É, esse texto é sobre o que não muda que me faz mudar.
Hoje eu vi que não quero, não pretendo, não vou mudar a minha forma de ver as coisas, de encarar as coisas, de ser as coisas, ser nas coisas, ser com as coisas. Sei lá. Não quero deixar de ser quem eu sou porque apesar de me angustiar o meu deslocamento, o meu não encaixe, as minhas bolas foras, nada de bom que eu conquistei e continuo conquistando estaria comigo hoje se eu não fosse assim. Meus amigos não seriam os mesmos, eu não compartilharia histórias de vida com as pessoas que eu mais me orgulho de ter por perto ensinando cada vez mais sobre o valor das coisas mais simples e significativas. Porque eu não quero e me recuso até o ultimo dia da minha vida a ser alguém que não ache lindo o amor de mãe, que não se comova com a história de vida de alguém, que não se entregue a tudo o que envolve o mais intimo de quem se quer bem. Eu me recuso a ser quem não valoriza esforços, quem não respeita sentimentos, diferenças, humores. Eu tento todo dia da minha vida não deixar de ser eu e aceitar de todo o meu coração que ninguém tem que deixar de ser quem é.
São tantas coisas que me fazem ser quem eu sou. As pessoas com quem eu convivo, a minha família, os figurantes que em todos os filmes da minha vida que sempre acrescentam um detalhe válido. A minha essência não permite tantas alterações - modéstia a parte -, só acréscimos e aprimoramentos. Talvez o dia de hoje tenha me feito enraizar em mim a máxima que deixar tudo como está não quer dizer estagnação, imutabilidade, mas quer dizer que, desde que o que fica seja essencial pra garantir a própria essência, não tem problema nenhum em continuar ficando.
Se eu estou dizendo agora que coisas novas estão chegando, mudanças boas estão acontecendo, e continuo sendo quem eu sou, é porque ser quem eu sou ocasiona isso. Hoje eu consigo ver que eu nunca mudei quem eu sou, só fui acumulando novas pessoas dentro de uma só, lapidando defeitos e imperfeições dos quais não tenho exatamente como me livrar. É complexo mas ainda assim faz sentido aqui dentro. Eu sou um novo eu com meus eus antigos remodelados. 
Sejam lá mudanças boas ou ruins, elas sempre dependerão unicamente de uma pessoa só: de mim.
Continuar sendo sempre a mesma pessoa não quer dizer que eu não possa ser uma pessoa nova, que fique claro. Não quer dizer que eu nunca vá mudar opiniões ou comportamentos. Quer dizer apenas que o que a vida me ensinou a considerar como útil, eu devo manter.
Eu considero útil pra ser uma pessoa admirável não deixar de ver beleza nas coisas simples, não deixar de me emocionar, de me entregar, de acreditar.
Olha, sociedade, eu não quero ter que deixar de lado uma comilança boa com gente amada sempre que me der vontade só porque isso me acarreta uma dobrinha. Se vocês sabem lidar, que bom, mas eu não. Eu também não ligo a mínima pro meu clichê de estar elaborando um texto de autoajuda pra mim mesma, porque, que se dane, eu preciso me ajudar a perceber que eu sou muita coisa todas as vezes que eu esquecer. Eu não sou a melhor, mas eu sou muita coisa, e não quero deixar passar nada que me ajude a continuar sendo muita coisa.
Eu quero continuar do meu jeitinho com tudo o que tiver que ser, quero me adaptar ao necessário, quero não me acostumar com o que me inibe de mim mesma. Eu quero muita coisa que ainda nem sei. E isso me lembra que, pra acrescentar ainda mais o dia de hoje, o meu professor de Direitos Humanos disse algo que definiu essa minha reflexão: "Eu não sei de tudo o que eu quero, mas eu sei exatamente de tudo o que eu não quero". E é isso. Eu quero tanta coisa que eu nem sei, mas essa parte eu cuido correndo atrás pra conquistar quando souber, mas sei exatamente o que eu não quero: não quero me perder de mim.
Pra finalizar eu gostaria de dizer que, mesmo às vezes chorando e me achando um nada, pensando no quanto eu sou desinteressante, no quanto eu não sou lá essas coisas pra ninguém, e no quanto às vezes nada parece dar certo, ser quem eu sou, incluindo nesses momentos, determina muito do que eu tenho. Se por vezes eu acho que não tenho muita coisa, é porque eu não estou sendo eu, estou sendo uma loucura, a minha diabinha interior que nada tem da minha real personalidade. Porque sendo eu, eu sei muito bem reconhecer a imensidão de grandiosidades que eu possuo, que tudo passa, e que se eu continuar sendo eu, eu chego em algum lugar. Quero seguir me esforçando pra ser eu do jeito certo pra conseguir dormir com a paz de estar em paz comigo.



¹ Sobre isso, a lição que ficou foi: é, pode ser que estando parado uma linda borboleta pouse e te traga muitas alegrias, mas determinar a borboleta como sendo a sua condição pra chegada de alegrias é um fato futuro e muito incerto. Você pode esperar demais e se decepcionar, porque talvez a borboleta nem vá mudar muito a sua vida. Mas se você for atrás das suas, você as escolhe, e não perde tempo, e no meio do caminho vai aprendendo exatamente o que realmente te faz feliz.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Queria ter mais tempo pra ler Bukowski

Queria ter mais tempo pra ler Bukowski. Não sei. A putaria, o lirismo da devassidão me fascina. Porque a vida é desse jeitinho, devassa, porca, amarga na sua superfície. E, ainda assim, é magnífica. Mesmo não valendo nada, a porra da vida vale muito, muito quando se repara na profundidade da porcaria. É terrível, mas é profundo e bonito sentir tanta coisa ruim e ainda conseguir gostar de estar aqui. E a gente gosta porque nada é tão infame que não guarde no fundo o desejo pela beleza de tudo.