... Subentenda-me: Eu só preciso me perder mais, de vez em quando

sábado, 11 de agosto de 2012

Eu só preciso me perder mais, de vez em quando

Fiquei sentada vendo a minha rota se afastar e não me desesperei. Pensei: "Que bom. Que me leve pra bem longe daqui". E levou. Ri do meu descompasso, da minha distração. No caminho já diferente do destino inicial, encostei a cabeça na janela, - com o tremor do ônibus fazendo minha cabeçabater no vidro deixando meu drama menos dramático - e me veio o antigo costume de pensar pra onde eu realmente queria estar indo. Diferente das outras vezes, eu não sabia. Eu só queria continuar ali imaginando os exageros com que eu iria repassar a história sobre o que aconteceu quando subi no onibus errado. Algo como: "E veio um assaltante, apontou a arma pra minha cabeça, levou todo o meu dinheiro e o meu cordão paz e amor". Ou: "E então apareceu um moço muito mal encarado e sentou do meu lado, querendo me alisar. Saí correndo, desci num bairro estranho, e lá tentaram me sequestrar pra fazer um tráfico com os meus órgãos. Nem sei como consegui escapar". Sim, eu fiquei pensando nisso, e dei risada sozinha outra vez. Eu sei me divertir comigo mesma. Como ninguém me daria ouvidos, fui pensar em outra coisa. Pensei em descer em qualquer lugar pra ver se algum lugar se encaixava em mim. Até me enchi de coragem pra puxar a cordinha, porém eu ficaria muito assustada caso as minhas mentiras imaginadas virassem realidade. Vai saber, né? Então decidi controlar a minha vontade permanente de me encaixar, de me encontrar. Continuei. Eu não queria achar o caminho de volta pra casa, mas precisava. Pensei: "Uma hora ele vai voltar pra onde veio, e eu vou descer bem onde eu subi". Até que lá pelas tantas chega o fim da linha. O fim da minha linha já chegou faz tanto tempo, só naquele momento que pôde, finalmente, se fazer literal. Tive que voltar. Voltar pra esse não sei o que. Que nasce não sei onde, vem não sei como e dói não sei porquê. Cheguei nem sei como no lugar que minha distração tentou me desviar. Depois de imaginar outras inúmeras utopias no ônibus certo, e de estar atrasada umas duas horas, subi aquelas escadas, conhecidas por terem como ofício principal me lembrar um dia ruim. Fui atrás do compromisso talvez já adiado. Cadê? Não estava. Ao descer pelas mesmas escadas, senti a tristeza do mundo sobre as minhas costas, e o barulho da sandália nos degraus de mármore se assemelhava a bombas atômicas explodindo dentro da minha cabeça. Sentei. Chorei. Chorei porque pensei na agonia de não caber em nada e de nada caber em mim. Chorei por me demorar sempre, por nunca estar ao mesmo tempo que alguém. A essa altura a ausência do meu celular se deu como empecilho. Eu queria a minha mãe. Não pude fazer nada. Não tinha ninguém, e o meu pânico de desconhecidos jamais me permitiria pedir um celular emprestado.  Fui atrás de outro ônibus. E, ora vejam só, mais um ônibus errado. Antes de ficar distante outra vez, saí. Eu nunca fiquei tão sem saber pra onde ir, mas fui. Pouco importava o norte, pouco importava o sul. Por mais que tenha havido um instante de extrema bravura, logo recordei do meu medo de tudo, do meu medo de estar em meio a tudo. Um... dois... três... quatro... cinco. Cinco quarteirões até eu decidir se ia pra casa ou continuava andando reto - visto que ir pra minha casa necessitava que eu dobrasse a esquerda. Continuei reto e cantarolei baixinho: "Quando eu te vi fechar a porta, eu pensei em me atirar pela janela do oitavo andar..." E de repente me dei conta, sem querer, que estava na rua de um grande amigo meu. Ao me aproximar o avistei, sentado na calçada, junto com a família que eu adoro. Abracei. Liguei pra mãe, pra avisar que eu estava bem. Ela sabia. Eu fiquei. Deitei no ombro do meu amigo. O ombro me coube. E agora, já em casa, refleti sobre o dia turbulento e cheguei à conclusão: às vezes a gente complica o nosso encontro com o lugar que nos pertence, quando, no fundo, sabemos exatamente onde ele fica, só precisamos nos perder um pouco pra chegar lá. 

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