Fiquei sentada vendo a
minha rota se afastar e não me desesperei. Pensei: "Que bom. Que me leve
pra bem longe daqui". E levou. Ri do meu descompasso, da minha distração.
No caminho já diferente do destino inicial, encostei a cabeça na janela, - com
o tremor do ônibus fazendo minha cabeçabater no vidro deixando meu drama menos dramático - e me veio o antigo costume de pensar pra onde
eu realmente queria estar indo. Diferente das outras vezes, eu não sabia. Eu só
queria continuar ali imaginando os exageros com que eu iria repassar a história sobre o que aconteceu quando subi no onibus errado.
Algo como: "E veio um assaltante, apontou a arma pra minha cabeça, levou
todo o meu dinheiro e o meu cordão paz e amor". Ou: "E então apareceu
um moço muito mal encarado e sentou do meu lado, querendo me alisar. Saí
correndo, desci num bairro estranho, e lá tentaram me sequestrar pra fazer um
tráfico com os meus órgãos. Nem sei como consegui escapar". Sim, eu fiquei
pensando nisso, e dei risada sozinha outra vez. Eu sei me divertir comigo mesma. Como ninguém me daria ouvidos,
fui pensar em outra coisa. Pensei em descer em qualquer lugar pra ver se algum
lugar se encaixava em mim. Até me enchi de coragem pra puxar a cordinha, porém eu ficaria muito assustada caso as minhas mentiras imaginadas virassem realidade. Vai saber, né? Então decidi controlar a minha
vontade permanente de me encaixar, de me encontrar. Continuei. Eu não queria achar o
caminho de volta pra casa, mas precisava. Pensei: "Uma hora ele vai voltar pra onde veio, e eu vou descer bem onde eu subi".
Até que lá pelas tantas chega o fim da linha. O fim da minha linha já chegou faz
tanto tempo, só naquele momento que pôde, finalmente, se fazer literal. Tive que
voltar. Voltar pra esse não sei o que.Que nasce não sei onde, vem não sei
como e dói não sei porquê.Cheguei nem sei como no lugar que minha distração tentou me desviar.Depois
de imaginar outras inúmeras utopias no ônibus certo, e de
estar atrasada umas duas horas, subi aquelas escadas, conhecidas por terem como
ofício principal me lembrar um dia ruim. Fui atrás do compromisso talvez já
adiado. Cadê? Não estava. Ao descer pelas mesmas escadas, senti a tristeza do
mundo sobre as minhas costas, e o barulho da sandália nos degraus de mármore se
assemelhava a bombas atômicas explodindo dentro da minha cabeça. Sentei.
Chorei. Chorei porque pensei na agonia de não caber em nada e de nada caber em mim. Chorei por me demorar sempre, por nunca estar ao mesmo tempo que alguém. A essa altura a ausência do meu celular se
deu como empecilho. Eu queria a minha mãe. Não pude fazer nada. Não tinha
ninguém, e o meu pânico de desconhecidos jamais me permitiria pedir um celular
emprestado. Fui atrás de outro
ônibus. E, ora vejam só, mais um ônibus errado. Antes de ficar distante outra
vez, saí. Eu nunca fiquei tão sem saber pra onde ir, mas fui. Pouco importava o
norte, pouco importava o sul. Por mais que tenha havido um instante de extrema
bravura, logo recordei do meu medo de tudo, do meu medo de estar em meio a tudo. Um... dois... três... quatro...
cinco. Cinco quarteirões até eu decidir se ia pra casa ou continuava andando
reto - visto que ir pra minha casa necessitava que eu dobrasse a esquerda.
Continuei reto e cantarolei baixinho: "Quando eu te vi fechar a porta, eu
pensei em me atirar pela janela do oitavo andar..." E de repente me dei
conta, sem querer, que estava na rua de um grande amigo meu. Ao me aproximar o
avistei, sentado na calçada, junto com a família que eu adoro. Abracei. Liguei
pra mãe, pra avisar que eu estava bem. Ela sabia. Eu fiquei. Deitei no ombro do
meu amigo. O ombro me coube. E agora, já em casa, refleti sobre o dia turbulento e cheguei à conclusão: às vezes a gente complica o nosso encontro com o lugar que nos pertence, quando,
no fundo, sabemos exatamente onde ele fica, só precisamos nos perder um pouco pra chegar lá.
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