A sensação de não ter uma música que preencha, nenhum texto que emocione. A mordaz incomodação de me sentir sem sentimento. Ontem eu passei no vestibular e, enganada, achei que sairia essa coisa chata que eu carrego comigo, essa insatisfação, essa incongruência com as coisas que eu vejo por ai. Antes eu tinha a maior sensibilidade do mundo, os pingos de chuva no asfalto me comoviam, as janelas me atingiam. Por notar a passagem das coisas, da água no asfalto, da paisagem se modificando, da janela ali, entreaberta porque alguém abriu pra ver o movimento, pra ver o que é sempre igual mas diferente nas posições, nas presenças. Coletar esses detalhes em mim era magnífico. Imaginar milhões de possibilidades de evasão pra um único cenário indiferente, imperceptível e nunca captado por quem passa. Nunca reparado. Agora eu estou aqui tumultuada por ter, de novo, me sentido um pinto molhado e abandonado quando me trataram como se eu fosse qualquer coisa sem valor, sem educação e sem o zelo dos pais. Rezando pra que o Caio saia do aniversário do amigo dele e me dê um "boa noite" só pra eu me sentir um pouco mais acarinhada, coisa que eu sei que ele não vai fazer. Eu queria que ele fizesse porque até uma caretinha irritante vinda dele me agrada, porque em meio a toda essa gente suja, que liga só quando quer uns beijos e uns amassos, o Caio diz que sonhou comigo e depois não me conta o sonho, me fazendo morrer de duvida entre a possibilidade de ter sido um sonho lindo ou estupidamente insignificante. Porque ele, mesmo muito diferente do que já foi um dia, consegue me tranquilizar, me deixar com uma esperançazinha de que eu ainda posso gostar de alguém, conversar com alguém sobre qualquer assunto bobo. A Renata acabou de me dizer que tudo o que me acontece de ruim só acontece porque vai fazer com que fique um pouco mais trabalhoso algo me atingir depois, me deteriorar. Talvez seja isso mesmo, talvez a gente se deteriore, mas se melhore e se reconstrua, reinstaure. Porque eu detesto ter que admitir a minha fraqueza por me encontrar com gente mais fraca ainda e ficar, no fim das contas, me sentindo contaminada por um toque desprezível e puramente carnal, que não significa nada além de confirmar que essas coisas do corpo são muito fúteis em relação às coisas da alma, porque as coisas da alma são filtradas e absorvidas e utilizadas, enquanto que esses encontros patéticos servem pra dar o maior desgosto de ter atendido ou ter ligado, de ter topado, de ter entrado em um carro sem o meu cheiro, sem a minha frequência. Porque eu não vou mentir, tô de saco cheio! Cansada de me apegar às cinzas do Victor quando a porra da vida tá amarga, quando eu sinto nojo dessa minha realidade e dessas minhas atitudes superficiais. Porque o pouco que eu me lembro do que eu sentia por ele é exatamente o que não existe mais desde que eu parei de me tratar com a prioridade de antes, com o cuidado de antes, com aquela coisa que eu tinha, de só aceitar se fosse do meu jeito, com os meus requisitos, com a poesia, com a música boa e com as mãos bonitas. Deixei de lado isso tudo pra "viver", como eles dizem. Como o Neto disse que me ensinaria e não me ensinou nada além de que homens são muito mais cruéis em carne e osso do que quando estão do outro lado da tela do computador, do outro lado do país. Eu quero as minhas prioridades de novo, a minha precisão em encontrar coisas agradáveis pra ler e escutar, a minha vontade de me arrumar e sair pra qualquer lugar, pra assistir qualquer filme água com açúcar desde que seja em boa companhia. E por falar nisso, espero que o Caio não arrume algo melhor pra fazer amanhã do que assistir Atividade Paranormal comigo, por mais que eu ache que não é muito difícil ele arrumar algo melhor pra fazer. Mas se por acaso der certo, ele tá lascado, porque eu vou dizer pra ele que passa a ser responsabilidade dele me tirar daqui, de mim. Porque só pra ele eu diria "me leva pra onde tu quiser" quando perguntasse pra onde eu quero ir. E decidi, nunca mais digo isso pra qualquer um dos meus casos sem paixão, eles nunca sabem pra onde me levar.
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