... Subentenda-me: Sobre Coragem e as várias vidas em uma só.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Sobre Coragem e as várias vidas em uma só.

Acabei de ver no Facebook uma imagem aparentemente insignificante e irrelevante, mas que na sua essência acabou por fazer com que alguns sentimentos desabrochassem em mim. A imagem nada mais era do que uma foto do Coragem (do desenho Coragem, o cão covarde) com uma legenda dizendo que ele, mesmo morrendo de medo, nunca deixou de lado quem amava. Eu não sei se lembro muito bem, mas todos os episódios do tal desenho envolviam o cãozinho e seus donos passando por frequentes situações incomuns no sítio em que moravam. Os donos nunca se davam conta do perigo e etc, e o Coragem, apesar de viver aterrorizado com todos os acontecimentos bizarros naquela casa, permanecia ali. 

Essa imagem desabrochou, na verdade, um sentimento que está intimamente relacionado a uma discussão que constantemente tem feito parte das minhas divagações noturnas: as nossas várias vidas dentro de uma só. Não estou falando sobre as pessoas que fazem parte da nossa vida e nós as intitulamos como "razões" para continuarmos vivendo - apesar de precisar ressaltar que a presença dessas pessoas, de forma permanente ou momentânea, é responsável pelas tais várias vidas em uma só, porém explico isso mais adiante. Quando me refiro as nossas "várias vidas em uma só" estou apenas rebatizando uma coisa óbvia e bem simples que podemos perceber com facilidade: as mudanças que ocorrem com a nossa maneira de pensar, de se comportar, e de lidar com outras pessoas com o passar do tempo.

É engraçado que a vida nos imponha várias realidades, em várias épocas, determinando quem nós seremos em cada uma das vidas que temos dentro da nossa própria vida (isso tá ficando estranho, mas acompanhe). Quando eu era criança eu era uma pessoa diferente de agora, não pensava muito além do sabor do biscoito do lanche da tarde, me comportava e lidava com as pessoas de acordo com o que a minha realidade de criança exigia de mim, e isso, com o tempo, foi se desenvolvendo até criar uma outra pessoa. Vemos muito em filmes e séries aquele encontro do "eu" adulto voltando ao passado e mudando alguma atitude do "eu" criança ou mais imaturo que altera um acontecimento do futuro. É sobre isso. Esses tantos “eus” que somos ao longo da vida. 

Agora eu posso dizer com toda a certeza que a interpretação do desenho que eu tinha quando criança deve permanecer intacta, assim como todas as minhas atitudes, afinal eu era criança, era uma outra vida, não era eu. O que diferencia as minhas interpretações de Coragem hoje e há dez anos atrás é o tempo, foram as pessoas que passaram, são as pessoas que ficaram, e tudo o que aconteceu nesse período. 

Se não fossem alguns personagens no seriado da minha vida, a tal legenda da foto não teria o mesmo valor pra mim. Se não fosse o amor da minha mãe e toda a sua dedicação eu não entenderia porque vale a pena lutar por quem a gente ama mesmo quando sente medo. Se eu não tivesse sido apaixonada por fulano de tal e se isso não tivesse me feito refletir sobre como é importante ignorar certas inseguranças quando realmente acreditamos em algo, eu não entenderia porque diabos o Coragem estufava o peito, se borrava todo mas enfrentava as assombrações pra salvar os seus donos. Se não fossem vários desses diversos fatores que fazem parte das minhas várias vidas em uma só, eu não seria o meu próximo eu. 

Pois é, ainda não conheço a Ana Carolina do futuro, não conheço as pessoas que ela vai conhecer, não conheço quem ela vai amar, não conheço seus filhos, seu marido. Mas eu sei que a Ana Carolina do futuro vai conhecer todo mundo que eu conheço, vai amar quem eu realmente amo, e ainda vai ser muito do que quem eu sou hoje é, graças a tudo o que a Ana Carolina do passado fez eu me tornar. 

Talvez a Ana Carolina do futuro mude algumas concepções, melhore, se aprimore, e agradeço desde já aos responsáveis por essas lapidações. A graça desse jogo de várias vidas em uma só é que, mesmo desconhecendo aquela pessoa que você foi um dia, foi essa pessoa, com todos os seus erros e acertos, que fez você ser quem você é, em qualquer uma das suas vidas. 

Obrigada a todos que acrescentaram algo de muito válido nas minhas vidas até hoje, vocês criaram uma boa pessoa, vocês me fizeram desenvolver o intelectual, o emocional, o lúdico, o racional, o relacional e seja lá mais o que houver. Obrigada as minhas vidas do passado e a minha vida do presente, vocês são responsáveis por algo muito bom que está por vir. E ah, um agradecimento especial para a Ana Carolina de oito anos: obrigada por ter assistido "Coragem, o cão covarde" mesmo sem entender muito bem a profundidade que aquilo teria pra você (pra mim) um dia. 

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