... Subentenda-me: Tributo à covardia

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Tributo à covardia

Cinco dias.

Hoje é o quinto dia que a tua vida não faz mais parte da minha. O quinto dia desde a tua última aparição pra me dizer que aquilo tudo foi um engano. Por que será que mesmo sentindo como se um milhão de mãozinhas estivessem espremendo o meu coração? Sabe, eu não me surpreendi com a frieza, com a indiferença. Deve ser porque inconscientemente eu já estava esperando. Querendo acreditar que não, que você ia ficar, que seria loucura tumultuar tudo, empurrar tudo de tão alto. 

Eu tinha uma amiga que sempre perguntava se estava tudo bem, se estávamos bem. E pra evidenciar ainda mais o quanto eu sempre estive consciente das possibilidades do fim, ainda que eu estivesse estupidamente feliz com nós dois nos dias em que ela perguntava, eu sempre respondia que por enquanto eu estava bem. Eu já sabia que se tratando de você eu era obrigada a ficar secretamente na defensiva. 

E foi secreto o sentimento de "por um fio" porque com o passar do tempo o fio foi ficando mais resistente. Parecia uma corda que gradativamente ia ficando mais difícil de romper. Bobagem, né? A tua imprevisibilidade sempre foi a marca desse relacionamento. E talvez fosse o que me prendia tanto. O não saber que me inspirava a tentar, insistir, continuar. E foi só o que eu fiz: tentei, insisti, continuei. 

Eu nunca me dediquei tanto, nunca. Juro que queria um terço desse empenho em tentar te fazer querer ficar no resto dos meus compromissos. Eu seria bem sucedida porque o resto dos meus compromissos dependem só de mim. 

Sabe, eu não tenho chorado. Achei que se um dia eu tivesse realmente que lidar com a tua ausência definitiva tudo seria mais complicado. Mas já não dói respirar, a minha garganta não está mais acompanhada por tantos nós. Enfim. Isso tudo só durou um dia. Um dia chorando, um dia em que eu batia insistentemente no volante me perguntando o que eu tinha feito de errado enquanto dirigia e corria sérios riscos de bater algum carro devido ao meu desajuste emocional. Mas passou. Chorei no chuveiro, chorei no colo da minha melhor amiga, chorei no colo da minha mãe, chorei lendo os conselhos de quem quer me ver bem. Passou. 

E se eu chorei não foi de saudade, não foi de medo por não saber como lidar com tudo daqui pra frente, não foi por estar meio perdida sem você. Chorei de frustração. Chorei de, mais do que todos os outros motivos, decepção. 

Durante um bom tempo achei que por eu tentar com todas as minhas forças ser menos exagerada e dramática você, por provocar isso, estava me fazendo ser melhor e mais leve. Hoje vejo com mais clareza o quanto isso foi prejudicial, e por sorte você foi embora antes que eu absorvesse essa tal "leveza" pros meus comportamentos. 

Eu não sou assim. Eu sou esse texto aqui, longo, comprido, dramático, exagerado. Tentei não ser o que eu sou por você. E foi o amor mais repressor que já senti. Eu me deixei levar nem sei mais pelo quê. Só sei que existia algo em você que me deixava louca de medo de ter que viver sem. 

Preciso ser sincera em dizer que eu não estou com saudades. Mas que sim, estou em confronto armado comigo mesma pra tentar destruir todo esse apego e costume. Saudade não. Acho que saudade é querer reviver o que acaba, o que passa. E eu não quero. Pra minha sorte e pra sorte de quem me ama, eu realmente não quero. Não consigo nem pensar nessa possibilidade sem ficar nauseada. 

Não estou escrevendo esse texto pra te lembrar da sua total falta de coerência e honestidade e caráter. Primeiro porque você não vai ler e segundo porque você certamente acredita ser possuidor dessas virtudes e de forma alguma deve achar que elas não se fizeram presentes quando me chutou. Não é o que eu penso, obviamente. 

Semanas atrás eu estava pensando se devia continuar com isso, tentei dar um ponto final mas não consegui porque tudo o que eu estava vivendo com você era tão completo de tudo que eu sempre quis que foi apavorante pensar em ficar sem e nunca mais viver algo parecido. 

Uns dias depois foi a sua vez de se sentir inseguro e me dizer justamente da possibilidade de acordar um dia e ter vontade de fazer tudo o que fez há cinco dias atrás (talvez por isso eu não tenha ficado surpresa). Ainda que levantada a possibilidade você continuou, ocultou de mim durante os dias seguintes que estava se enganando, e ao contrário disso me fez, na verdade, ficar cada dia mais apaixonada com as suas atitudes que eu considerava tão verdadeiras e significantes. Eu ia dormir feliz, sabia? Em paz, tranquila. 

Se hoje eu não sinto saudade é porque o desprezo é maior. O desprezo por você ter me convencido tão bem de que eu importava e depois cortar as asinhas que cresceram só por sua causa. E eu juro que eu quis mais do que tudo chegar ao fim dessa nossa história ainda te considerando a melhor coisa que já tinha me acontecido. Não consigo mais. 

Não vou mudar nada, e também não vou desacreditar em nada por sua causa. Eu sei seguir em frente, eu sei dar um ponto final, eu sei não viver de passado, eu sei ter ambições saudáveis pra um futuro livre de qualquer desilusão, diferente de você. E nossa, que bom que eu sou diferente de você. 

Alguém vai aparecer e vai ter a certeza que você nunca teve. E por você não ter tido certeza sei que não posso te culpar. Eu quis te dar razões, e dei todas. Fui até o fundo de todo o sentimento que eu tenho em mim. Não foi suficiente, e quanto a isso eu só posso lamentar, mas jamais poderei achar que não fiz o meu melhor e que o meu melhor vai ser pra sempre insuficiente. Pode não ter sido pra você, mas um dia vai ser o tudo de alguém. 

Bom, acho que além de tudo isso eu não posso mais dizer nada. Quando o assunto é você me sinto vazia. Apesar de ser muita coisa te dedicar um espaço pra ser lembrado aqui. Mas, infelizmente, como esquecer? Isso me lembra certa vez em que você me disse que eu não ia viver com mais ninguém o que eu vivi com você. Claro, querendo dar o sentido de que ninguém me faria feliz como você me fez. Acontece que a felicidade que me deu foi mínima perto do que eu ainda vou viver, e a realidade é que: UFA, ainda bem que eu não vou viver o mesmo, e nem sentir o mesmo. Eu quero é mais. 

De fato não vou te esquecer, e nem quero. Na vida a gente necessita de referências, e não só de boas referências. Preciso muito lembrar de você e lembrar dos meses que passamos juntos pra nunca mais me submeter a algo parecido. 

Eu já devia ter imaginado o quanto você me machucaria, afinal não é à toa que dizem que o que começa mal termina mal. Você fez tudo começar mal, inclusive meu ano. Mas com relação a ele, posso afirmar que vou, mais uma vez, dar o meu melhor pra terminar bem, e eu sei que pra isso o meu melhor vai ser mais do que o suficiente. Finalmente. 

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