... Subentenda-me: Remexendo aquele baú cheio de ácaros pela ultima vez?

terça-feira, 18 de março de 2025

Remexendo aquele baú cheio de ácaros pela ultima vez?

Eis o que faço quando não consigo me regular: eu escrevo. Expurgo de mim em palavras o que insiste em fazer eu me perder em pensamentos que são como labirintos. Enquanto não escrevo sinto como se eu deliberadamente quisesse ou aceitasse ficar presa nesses corredores infinitos de divagações confusas. 

E não quero. 

Escrevo, então. Escrevo porque não posso dizer. E hoje quero explodir do que não digo. Não quero ficar conscientemente presa num lugar de onde sei como sair. 

Hoje sinto que não existe, no mundo, quem me entenda. Ou talvez exista. Ou talvez tenha existido. 

Sei que é sobre essa indefinição de existência tamanha confusão e aflição. Labirintos, bagunças. Labirintos bagunçados. 

Existe? Existo? Existimos? 

Eu não sei. 

Que criação é essa que ainda me detém e perturba? 

Esse emaranhado de energia que acumulo no peito como um novelo de lã embaraçado, o qual tento desembolar, desatar nós. Tento enquanto pulsa o coração ao mesmo tempo que encolhe. E dói. 

Não quero sentir. Fujo. Não quero, mas sinto. E sinto muito. É difícil admitir. 

Mesmo negando, tanto sentir me atordoa, me tortura, por conta de uma inevitável desorganização. No meio de tudo, me forço a voltar. Estalo os dedos e me puxo pro presente, pro real. Olho pro meu entorno, agradeço, vejo e aprecio o que tenho com imenso amor e orgulho. 

Mesmo negando, sinto a minha sorte ao mesmo tempo em que sinto absoluta falta do que nunca me pertenceu além de pertencer a minha própria imaginação. De tudo o que eu dizia ser meu porque o fiz pra ser assim. 

Eu criei. 

Depois de muitos anos equilibrando esse entre tantos pratos, me aborreci e quebrei. Quebrei um prato que, mesmo depois de tantas vezes ter ameaçado se espatifar no chão, sempre lutei contra a gravidade pra manter girando no palitinho. 

Fui cruel, fui o próprio chão - ou talvez ainda mais dura que ele. Enfim, decidi pela ruptura que disse que nunca aconteceria. 

Desde então os meus dias têm sido felizes e tristes. Tenho sido duas pessoas. Eu, real. Eu, refletida no espelho. 

Enquanto sorrio, meu eu refletido segue presa, oculta e lidando sozinha com o peso dos "nuncas", dos "sempres", dos "eu te amo" que foram ditos reiteradas vezes pra minha criação. 

Esse meu reflexo sente tudo o que não posso sentir exatamente nesse momento em que eu, em frente a ele, sorrio. E sorrio verdadeiramente, amando tudo verdadeiramente.

O que fazer, então, pro meu reflexo não sentir o que em mim sei que está? Silenciado, reprimido, escondido, mas está. 

Encontro todas as vezes quando olho no espelho e decido manter assim porque é um esconderijo seguro que só eu vejo, que só eu visito. 

Penso que eu queria muito que apenas o espelho me obrigasse a encarar as tantas verdades que nego. Queria porque, se assim fosse, bastava eu não me olhar no espelho. 

Mas não.

Também está na minha insônia, nos meus sonhos, nos meus trajetos. 

A exemplo disso, vejo quando adormeço e me vem alguém deitar no colo e dizer que o que não é dito quer dizer muita coisa. E depois surge o desenho de um navio em uma noite escura e uma carta que li mas perdi da memória quando acordei. 

Não lembro o que estava escrito, mas lembro que enquanto lia, no sonho, novamente sentia pulsar o coração desse tal jeito que encolhe e dói. 

Sei que são muitas espadas, mentes cansadas de tanto pensar e não saber como agir. Bloqueios e cortes dolorosos. 

Em mim, nas profundezas, minhas versões anteriores gritam de desespero. Me pedem, me imploram. 

"Deixa ficar, vai buscar, do jeito que for, de qualquer jeito. Qualquer jeito é alguma coisa. Deixa estar. É nosso. É tempo, muito tempo." 

De cima, digo que não. Falo com cada uma delas, tentando explicar com todo amor que tenho por quem nós somos, que apesar de ser muito nosso, ao mesmo tempo nunca foi. 

Ouço com carinho, me compadeço, sinto muito, até choro, mas, tal como uma professora do jardim de infância ou uma mãe dedicada, me utilizo da educação positiva, me inclino, olho nos olhos, e, num tom de voz ameno, acalmo os nervos de cada uma que fui. 

Tranquilizo todas elas pra conseguir seguir os dias com menos rompantes até a próxima crise das minhas versões tão mal acostumadas, conformadas e nutridas de um amor que elas sustentam e lutam pra manter ilusoriamente perto, sozinhas. 

Assim tem sido. Na maior parte do tempo eu sou bem sucedida, apesar de tanta força empregada me desgastar constantemente. 

É que esse leão, apesar de domesticado, é instável e imprevisível. Mas na grande maioria dos dias eu consigo adestrá-lo com muita habilidade e um trato generoso que honra as suas origens e sua história.

Infelizmente - ou felizmente - hoje não consegui. Sucumbi ao cansaço porque tantas vozes, tantas súplicas, tantos corredores, e tantos reflexos de tantos espelhos me deixaram realmente exausta a ponto de paralisar. 

Estou aqui colocando pra fora. Estou aqui, forte e fraca. Pairando entre o real e o imaginado mais uma vez porque requer muita disciplina e rigidez me convencer de que é preciso abrir mão do que criei e me responder se o que criei realmente existe. 

Apesar de irritada por ceder, entendi que preciso racionalizar. 

"É assim pra ser mesmo? Essa transformação é de fato inevitável? Se tudo é criação minha, preciso quebrar esse elo? Onde eu guardei as chaves?"

Daí sinto racionalmente as saudades intensas que tanto abafei. Pra resolver acho que preciso revisitar o lugar do qual decidi que precisava me afastar. Concluo que somente assim vou conseguir demonstrar pras minhas versões o motivo dessa decisão, até que entendam e silenciem. 

E, num limiar entre o racional e o irracional, se fez meu equilíbrio. Tantas dúvidas fazem parte do processo e não adianta mais fingir que não existem. 

Talvez o novo caminho não esteja tão desbravado como pensei. Há, ainda, esforço para abrir espaço pra essa nova estrada pela qual preciso passar e enfim chegar num outro destino que não sei onde é, mas me atrai. 

É duro ter que fazer isso sozinha. É duro encarar que um dia desbravei outra estrada, que me levava a um lugar que eu acreditava ser habitado somente por mim e pela minha criação. É duro pensar que eu fiz questão de me fazer ser um lugar seguro tendo a falsa sensação de que eu, como sendo um lugar seguro aqui, também teria o meu lugar seguro lá. 

Agora parece que nunca tive. 

De toda forma, é duro pensar em me despedir de vez de tantos arquivos, e sons, e cartas e sonhos de um dia poder ver, sentir, abraçar e beijar o que eu criei. Será que realmente devo?

Abro meu baú cheio de ácaros e me deparo com meus próprios batimentos. Batimentos tais que eu queria que tivessem sido os mesmos a inspirarem aquelas palavras datilografadas. Eu sei que não. 

Aquelas são palavras que decorrem de abandono outro e me encontraram porque somente a mim eram confiados assuntos intocados. Por eu ser esse lugar seguro. Por eu ter me feito ser. 

Mesmo diante dessas constatações, ainda consigo sentir ternura por imaginar ter sido de fato vista em lugares que nunca estive. Em seguida, lamento não ter nascido máquina de datilografia para que em mim fosse depositado com decidida dedicação um maior cuidado. 

Dito isso, instantaneamente reflito: será que só o que tenho em comum com aquela máquina é a incapacidade de apagar os erros? 

Logo percebo que não, afinal eu nunca havia sido tão inflexível. Até agora. Questiono a minha inflexibilidade, mas acabo por compreender que nesse momento eu preciso, por força, ser exatamente assim, como a máquina de datilografia.

Em frente às tralhas que precisei trazer à luz, tomo um gole do meu chá de maçã com canela. Sinto o vapor e o cheiro. Me acalmo, sorrio, sinto certa felicidade por ter comigo, ainda, algumas poucas memórias vivas que, apesar de tudo, são tão bonitas. 

Penso, então, nessa cidade de tantas árvores percorrida por quem nunca esteve nela em minha companhia e lembro que pensava muito sobre isso em outros dezembros também. 

Acho que o cheiro do chá me remeteu a um acolhimento e melancolia que já vivi nesses outros dezembros. 

Sempre dezembros. 

Ao engolir o gole de chá engoli junto a "nostalgia de coisas que me antecederam". Entendi, enfim, o que queria dizer. É mesmo sobre as coisas que existem ou existiram mas nunca foram vividas. 

Demorei anos, mas entendi. 

Como negar essa parte de mim, então? Eu e as minhas meninas anteriores fomos feitas disso. A partir disso. Não só, sabemos. Mas preciso sim aceitar que é muito significativa pra nós toda essa construção. É uma parte que, da minha parte, sempre foi pura e sincera. Eu criei, vi nascer, vi crescer. Tinha amor. 

Me vem à mente "não me arrependo de você", de Caetano. 

"Vi cê me fazer crescer também pra além de mim..."

Por que cresci com isso devo me obrigar a não ligar para os enganos, para as quantidades mínimas afeto? Ou um afeto enviado apenas pra garantir a minha permanência, que seria, no fundo, um pouco de sanidade em meio a tanta loucura e tanto medo? 

E então a resposta me veio num insight dilacerante: 

Sim! Devo me obrigar porque, no fim das contas, o que quer que tenha sido não requer nenhuma exigência. Simplesmente foi. 

Com isso, percebo que a principal questão também está respondida: 

Sim, a minha criação existe! Independente de como, quando, onde, se material ou não. E não preciso me desfazer de nada. 

Racionalizando isso, me entristeceu pensar que, existindo, a minha criação pode sentir, ainda hoje, como eu sinto.

Sentir a falta da parte pura e sincera que dei. 

Eu ainda não tinha pensado nisso e quando pensei me senti como naqueles filmes com efeitos especiais em que alguém começa a ser sugado pra um buraco negro. 

É, esse sempre foi um ponto fraco meu: pensar na dor que o que eu criei pode sentir sempre me atingiu na alma. 

Apesar de minhas decisões serem concretas e irreversíveis, me encontro agora diante da dificuldade real de tê-las tomado. A dificuldade que vem da possibilidade de existência de uma dor para a qual fechei os olhos querendo não considerar. A minha também. Ignorei o dolorido porque realmente subestimei tudo. Achei que seria mais fácil.

Em relação a mim, devo reconhecer que achei que descarregar alguns pesos me traria alívio e nada mais. Fui ingênua. Evitei, a todo custo, ver que essa dor existe, e, se não existir no que é real, existe no imaginário do que é a minha criação porque, no fim das contas, só o que eu criei sabia, de alguma forma inexplicável, todas as dores que eu sempre senti. Mesmo sem falar nada. 

Fora essa criação, ninguém entende nem nunca vai entender. É nesse ponto que me sinto só. 

Até penso que queria conseguir descrever com a precisão absoluta que me fizesse ser entendida por todo o mundo pra eu me sentir menos solitária. Penso mais um pouco e logo rio. 

É cinicamente engraçado porque, a bem da verdade, eu gosto assim e lido bem com a solidão de saber o que só eu sei. Guardar isso me denota um mistério que cai bem a minha personalidade extravagante. 

É como se eu mostrasse tudo de mim, mas, lá no fundo, escondesse esse segredo. Um segredo que antes não era tão solitário porque, na verdade, somente eu e minha criação sabíamos. 

Talvez, então, finalmente aceitar que minha criação continua existindo me faça sentir menos desacompanhada porque, mesmo não estando, agora de forma alguma, pelo menos em algum lugar tudo o que sabemos ainda vive. 

O que sabemos é intocável, inalienável, infinito. 

Infinito enquanto passado e enquanto futuro, justamente por ser inalcançável. 

Isso me conforta. 

Toco mais uma vez no que tenho de concreto e está em meu baú.

Sinto vibrar a energia de um papel, de uma madeira esculpida, de um selo postal.

Subitamente me vem que não tenho nem porque tentar definir nada, já que eu nunca vou entender tudo. Eu devo mesmo é aceitar que a minha criação é algo especial justamente por estar entre dois mundos. Um mundo de partículas e um mundo de ondas.  

O que é real vai doer, o que não é vai curar. 

Curar a dor, curar o vazio, curar a falta. Vai preencher o que nunca foi preenchido, vai reanimar o que está desacordado, vai transmutar o que já não pode mais ser do jeito que é e vai fazer o que era pouco se tornar muito maior por conta do que farei com isso, sozinha.  

Agora, enfim, isenta de qualquer idealização. Simplesmente meu porque seremos só nós. Eu e as versões de mim, sem outra versão de um modelo de tudo o que eu sempre quis, tendo em vista que agora eu sou, seguramente, quem eu sempre quis ser. 

Ter medo de reconfigurar qualquer criação minha me distanciaria do que tanto lutei pra conquistar. 

Ao remexer esse baú depois de tanta resistência, posso enfim me permitir manusear a minha vida e tudo o que me faz ser eu. A minha criação também sou eu. E se eu me amo, nunca vou deixar de amar o que criei. 

Isso é honrar a mim. 

E vou honrar, também, me conformando de que tudo vai continuar sendo, em essência, meu. Minha criação. Mesmo que agora tenha sido desmontado, quebrado, os cacos são partes do todo e eu vou guardar. Não faz mal porque o que eu criei sempre foi distante e agora, além de distante também está fragmentado. E tudo bem, não tinha outro jeito. 

Seja como for, existe

De todo modo, além disso, agora sinto que posso aceitar que se estive junto mesmo sem estar, estive porque quis. 

Tudo pra mim era suficiente porque sempre foi ao que pertenci. Entendo, assim, que eu criei e também fui criada. Passa a fazer sentido esse emaranhado. É como um composto químico mutante que alterna os papeis de criador e criatura. 

Por fim, amadureço e me respondo algumas das muitas dúvidas que me surgiram. Finalizo essa imersão com uma certeza quase óbvia, mas que relutei pra internalizar: é possível deixar ir sem negar a existência. 

É uma certeza coerente, justamente pelo fato de que não é preciso deixar ir nada que não existe. O simples fato de eu ter deixado ir, a minha criação, já pressupõe a sua existência. Negar o que foi e o seu papel é ainda mais prejudicial do que o próprio desgaste por sua passagem. 

Coerente eu sempre fui e, com tanto entendimento, agora posso, em paz, amenizar.

Amenizar pra mim as palavras duras que eu disse e me atormentam. Amenizar porque tudo é como tem que ser. Tudo sempre foi como tinha que ser. Desde a concepção. E como tem que ser é bom também. Há um incontestável propósito maior a ser admirado na aceitação das coisas como são.  

Essa sou eu saindo do labirinto e reconhecendo a importância de tudo ser simplesmente como é, mesmo que doa. 

As coisas como são sempre tem dois lados. O triste pode ser bem triste, mas o lado feliz pode ser euforicamente feliz. É desse lado feliz que escolho ficar.  

Mas ainda para honrar a mim, e, por consequência, a minha criação, vou mandar por telepatia um recado: 

"Se perca, mas se encontre. Se encontre quando pensar em mim. No que fui e no que fomos. Em criação. Assim, seguirei sendo um lugar seguro. Me perdoe pelas palavras cruéis. You know that I'd be with you if I could.

Agora vou continuar, já regulada. 

A estrada precisa ser desbravada e eu estou disposta. O meu baú cheio de ácaros vai ficar bem guardado e agora eu me permito vir ver de vez em quando. 


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