Eu odeio quem puxa o freio de mão a cada sinal fechado. Isso não tem propósito. Odeio esperar. Odeio sentir fome e odeio também o mau humor que eu fico quando estou com fome. Odeio meu trabalho naquilo que envolve meu trabalho. Apesar de amar quem divide os dias obscuros comigo e deixa tudo mais leve. Odeio a cara de pau de quem acha que pode fazer o que bem entende com o dinheiro público. Odeio muito quando chove e eu não estou em casa. Odeio borrar as unhas do pé recém feitas. Odeio. Odeio mais do que borrar as unhas da mão. Odeio aquela velha chata e mal amada de energia ruim. Odeio ser alérgica. Odeio mais que tudo no mundo quando a Livia adoece. Apesar de ser fofo, odeio quando o Diego fala sem parar sobre as mudanças que ele faria em cada ponto problemático da cidade e como ele repete todas as vezes que passamos por cada ponto, quase todos os dias. Odeio, mas finjo que ouço com atenção, me indigno e ainda incentivo toda a revolta dele. Odeio quando alguém que costuma me chamar por determinado nome meu, resolve me chamar por outro. Odeio quando a minha mãe ainda tenta me controlar. Odeio quando ela está de mau humor e automaticamente me contamina. Odeio o fato de ela ser a pessoa mais ingênua e trouxa que eu já conheci. O que falta nela é ódio. Odeio quando eu odeio ela, mas odeio. E odeio de forma proporcional ao amor que sinto por ela. E sim, eu amo muito. Odeio o meu chefe, odeio a burrice dele, o mau caratismo dele, a presença dele. Meu Deus, eu odeio muito esse homem! Odeio como ele subestima a todos enquanto que ele é o maior panaca da face da terra, plagiador, ambicioso, miserável e infeliz. Ele jura que ninguém percebe. Odeio que meus joelhos entregam que não tenho mais vinte e poucos anos. Odeio quando eu mexo no que tá quieto na tentativa de viver bem com o meu passado, mesmo sabendo que viver de passado é viver enterrada entre as coisas que não podem mais voltar. E também odeio essa minha mania de tentar estar em paz com tudo, enquanto que eu sei que isso é uma grande ilusão. Odeio ficar procurando sentidos, elaborando até exaurir. Odeio porque nada faz sentido, e nunca vai fazer. Nem eu. Odeio que todo mundo acha que a minha casa virou um salão de festas e agora tudo precisa ser aqui. Odeio até a hora de começar a festa, porque quando começa eu gosto. Odeio quando surge uma demanda urgentíssima justamente no momento em que eu estou vivendo o auge do meu descanso remunerado, lendo um livro ou assistindo novela de fruta. Isso acaba com meu astral de princesa good vibes dos chakras alinhados. Odeio ter que bater meta de proteína. Odeio nunca conseguir bater meta de proteína. Odeio quando eu me odeio porque eu me amo tanto que não admito me odiar, mas às vezes me odeio. Me odeio quando me percebo ainda buscando aprovação alheia, quando me pego esperando validação. Me odeio porque sinto que trabalhei muito duro pra me livrar desses hábitos, mas eventualmente ainda retornam. A evolução é uma estrada cheia de curvas. Odeio ter tanta consciência disso. A ignorância é realmente uma dádiva. Odeio meu antigo nariz. Odeio meu novo nariz. Odeio que eu sou uma pessoa que está vivendo entre narizes. Isso é horrível. Odeio quando minhas unhas quebram. Odeio que o Alto Pindorama não fica a uma hora daqui. Odeio conversas de mães. Dependendo das mães, claro. Mas de modo geral odeio quando me reúno com outras mães e o papo se encaminha pra um mar de lamúrias sobre a criação dos filhos, sobre os aborrecimentos, os desafios, as birras, as mal criações. E eu fico lá tentando não menosprezar as reclamações de quem não entende nada sobre comportamentos naturais de um cérebrozinho imaturo pra não parecer a mãe que se acha perfeita. Longe de mim me achar a mãe perfeita, mas não sei enxergar minha maternidade com olhos de quem perde algo se eu só ganhei. Se eu sento com mães é pra falar das gracinhas, das sacadas fantásticas, dos raciocínios geniais. Mas sempre tem a chata. Vai chata, fala chata. Eu odeio as chatas. Enfim, eu odeio muita coisa. Acho importante listar. Isso me aterra no presente, no que é material. Me afasta dos devaneios. O amor leva a gente pra um mundo de fantasias, de primavera, de mentira. Não é saudável morar no que não pode existir sempre. Eu preciso do ódio pra me lembrar que sou real, ainda que eu prefira mil vezes o fogo que arde sem se ver, a ferida que dói e não se sente, o contentamento descontente e a dor que desatina sem doer. Mas, deixa pra lá, de amor eu falo todo dia. Hoje eu quero o ódio do poema em linha reta, o ódio que fez Chuck Noland jogar Wilson pra longe. Hoje eu só quero odiar com muita dedicação, pra sobreviver. Amar demais não salva, aliena. Preciso odiar pra me equilibrar. A minha balança quase quebrou pro lado do amor e eu odeio coisas com defeito. Ocupam espaço e não servem pra nada. Amanhã eu vou acordar mais bonita porque o ódio também faz bem pra pele.
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