Mãe, o que a senhora acha disso? É, eu não sei o que quero ser quando crescer. Ser feliz, só feliz, vale? Ah mãe, sabe o que é? A gente tenta, a gente vai atrás, a gente busca. Mas busca o quê? Busca a plenitude, o salário no fim do mês que vai servir pra pagar o salário de outras gentes? Isso é a plenitude? Ah mãe, eu não sei o que eu quero. A senhora sabe e sempre soube de mim, dessa minha indecisão, dessa minha inquietude. Sabe que sempre que estou aqui passo logo pra outro canto, porque o aqui já me cansou. A senhora me conhece, mãe. E se eu cansar, e se eu enjoar de fazer o que eu possívelmente vá decidir fazer? Eu pulo pra outro canto? E se não for tão fácil? Mãe, a senhora não sabe o quanto é difícil não me enxergar nem um pouco completa vendo tudo isso que essa gente importante e bem sucedida faz. O que me completa é tão simples, que de tão simples não existe. Às vezes eu penso em pedir uma grana pra senhora, armar uma quitandinha na feira e vender qualquer coisa. É mãe, eu acho que eu não nasci pra ter chefe. Já tenho a senhora por toda a vida, não quero chefe. Eu gosto da senhora, sabe? Mas é que, mãe, às vezes a senhora pega pesado. E quando pega eu me encolho, choro, ou te respondo, grito, esperneio feito a criança que no fundo sempre vou ser. Ai, e o que a senhora acha de eu virar hippie? É, eu posso me vestir de um jeito mais legal, mais colorido, mais psicodélico, e nem me importar tanto com o cabelo, já que a senhora reclama tanto. Posso viver por aí, de um jeito mais zen, ecoando mantras, espalhando "peace and love" e criticando o uso das armas de fogo. Ah mãe, eu gosto disso tudo que essa gente boa tá me oferecendo. Eu gosto de tudo que eles me ensinam, que me estimulam, e que, de uma forma geral, também querem que eu conquiste. Mas eles sabem tanto, mãe. Eu não sei nada perto deles, perto da senhora. Eu não sei nada, mãe. Eu só sei que eu agradeço por todos esses caras legais. Agradeço aos iluministas mais sãos. Agradeço ao Rousseau por ter dito: "O homem é bom por natureza. É a sociedade que o corrompe". Acho eles legais, mãe. Acho que faz sentido tudinho que eles disseram. Acho que a história toda faz sentido. E acho que quando se dispuseram a lutar contra o absolutismo eles tinham uma coisa na cabeça, um foco, um objetivo. Se sentiam completos pensando assim, agindo assim, lutando pela liberdade, pelos direitos, transformando o mundo e tentando fazer essas transformações durarem para sempre. Eu não sei, mãe. Eu não acho um foco, eu não faço sentido, eu não mudo o mundo, eu não sei como me libertar, eu só tô confusa. Eu sei que vocês, é, vocês "gente grande", vão dizer coisas do tipo: "Mas ah, todo mundo passa por isso, todo mundo, muitas vezes, se encontra no impasse de não saber o que quer". Eu entendo mãe, e até concordo com vocês. Mas acho que a sociedade me corrompeu. Não que ela tenha me deixado má, ou que tenha me influenciado a não querer nada da minha vida. Eu até quero, mãe. Quero ser muita coisa na vida. Só que não me preencho nesse meio, nessa multidão de gente que também quer muito da vida. Eu posso ser como o Rousseau um dia? Não mãe, eu não posso. Ele já morreu e COM CERTEZA não reencarnou em mim.
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