segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
Uma carta para alguém
Alguém, por favor me impeça. Não deixe mais eu dizer sim sem pensar. Não me deixe mais planificar uma vida que eu não quero pra mim. Não me deixe insistir no que eu sei que não quero. Não me deixe contentar com o que eu já sei como termina. Não me deixe achar que dessa vez vai terminar diferente. Me coloque em um carro e me mande pra longe se preciso, mas não me deixe de novo com aquela sensação de não saber como fazer, de não saber como sair, de não saber como dizer que não quero mais. Corra, conserte as minhas insanidades, peça desculpas por mim, diga que eu não fiz por mal. Diga que eu não sei viver no mesmo banco, na mesma sacada. Diga que eu fui feita pra sair por aí, pra gostar do improvável, do incerto, do insulto, do atrevimento. Viaje não muito longe pra dizer que eu me encantei, pra dizer que eu gostei do cheiro, da inteligência, da sagacidade, do jeito que ele trata a mãe dele, do bom humor, da humildade, do abraço, mas isso não foi o bastante. Minta pra me fazer acreditar que nem tudo está perdido, porque se eu achar que está eu enlouqueço. Me faça tomar um porre, depois me coloque pra dormir e não me lembre de nada do que fiz. Abrace, perdoe, sinta minhas dores junto comigo e não permita que eu me faça mal, que eu faça mal a alguém. Console ele quando eu não puder mais suportar. Console porque eu fui atrás de felicidade e queria que ele pudesse ser tão louco e capaz de me dar toda a loucura que a minha felicidade exige. Grite pra todo mundo saber, quando todo mundo me odiar, que eu não sou tão má assim. Perdoe quem me fez mal porque eu já fiz mal a muita gente e também mereço perdão. Aceite a minha indisciplina, a minha dispersão, o meu desinteresse. Ria comigo, me chame pra curtir a noite quando eu fracassar de novo. Me ensine matemática, entenda quando eu não entender. Me carregue, me balance, não me jogue fora. Veja a minha sinceridade diabólica, critique as minhas falhas, mas não me ignore. Seja meu amigo, meu advogado, meu juiz, meu pai, minha mãe, meu irmão, minha irmã, meu parente. Seja tudo pra mim. Seja um desconhecido qualquer, mas me suporte. Me aguente quando eu cair, tenha dó de mim. Sinta pena se necessário, mas me ame. Interceda pela minha inconstância. Trabalhe comigo os meus desafios, os meus medos. Seja visível ou invisível, apenas seja. Me ajude a não ficar doente, me ajude a dizer a eles, quem quer que eles sejam, que eu sei me cuidar, que eu vou conseguir. Brigue comigo, me xingue, me escute. Vá atrás de quem eu amar, peça desculpas, peça abrigo. Alguém, por favor não me deixe pegar chuva porque eu sempre gripo muito rápido. Fale sobre as minhas irritações, sobre como posso ser insuportável quando quero. Conte as minhas próprias histórias para mim, me lembre delas. Por favor continue comigo quando a gente estiver longe demais. Seja sincero, não me iluda, não me cuspa para fora de você nos meus piores momentos. Me faça pensar. Me faça ser eu quando eu me perder. Preciso de você, e preciso porque sou sozinha demais, e quando se é só demais a gente se contenta com o que não pode ser real apenas para reafirmar um controle inexistente. Seja meu controle, não seja real.
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