... Subentenda-me: Os filmes e seus efeitos sobre mim

domingo, 13 de novembro de 2011

Os filmes e seus efeitos sobre mim

Semana passada eu assisti "Titanic" e enfim pude perceber que não basta ser um ícone, um clássico, pois se você não tiver idade suficiente pra entender e interpretar, nada fará sentido. Quando eu era criança ficava encantada com a história, e ao ver a chamada pro filme durante os comerciais eu sempre ficava eufórica, gritava: "Mãe, mãe, 'Titanic', mãe!". Nunca entendi porque as pessoas choravam, nunca entendi a emoção, nunca entendi o poder que a música da Celine Dion tinha sobre os reles mortais, mas eu adorava. Eu cresci sabendo da história, sabendo que o navio afundava, sabendo que o Jack morria. Até semana passada eu nunca tinha chorado com "Titanic", nunca tinha sequer me emocionado. Então eu entendi. Cresci e entendi. Acima de tudo, e de qualquer análise mais profunda sobre o filme, o principal motivo que me fez ficar chorando quietinha, comendo cup noodles e molhando o travesseiro com lágrimas e caldo de macarrão instantâneo enquanto os créditos do filme rolavam, foi o simples fato de que eu nunca tinha prestado tanta atenção no esforço e no amor de alguém pra salvar a vida de outra pessoa. A gente vê por ai muitos outros filmes aonde os mocinhos viram o mundo de cabo a rabo pela sua mocinha, mas o Jack, não, o Jack fez mais, o Jack foi mais. Tudo ficção, tudo. Mas uma linda ficção. A Rosie disse que ele tinha sido tudo, que ela o tinha amado mais do que qualquer outra coisa, e nem sequer tinha uma fotografia, ele só existia em sua memória. E eu chorei, sim, eu chorei. Chorei com os olhos enrugados de Rosie, chorei vendo ela cumprir a promessa que fez pro Jack de nunca desistir da vida. Chorei vendo ela morrer dormindo. Sim, a Rosie não desistiu, a Rosie viveu. O diferencial de tudo, de todos os outros filmes que eu já vi ou que eu me lembro agora, é que o Jack lutou até o fim pela vida de alguém que não conhecia quase nada. Jack morreu deixando com a Rosie alguns dias de felicidade e uma oportunidade pra continuar vivendo dentro dela. O que mais me surpreende é que as minhas lágrimas não escorrem por causa do destino que os impediu de viver um grande amor, eu choro, na verdade, porque o Jack foi nobre e corajoso, porque a Rosie foi forte e apaixonada. Choro porque ele morreu mas envelheceu com ela durante todos os anos que ela teve que ser obrigada a viver sem ele, porque ele não existia mas estava presente. O fato de ela seguir uma vida inteira não diminuiu em nada a fidelidade que ela dedicou a ele, à promessa, ao amor. E agora, depois de ficar boba chorando tudo de novo, não pelo filme mas pelas minhas circunstâncias, sinto que todo o meu romantismo está vivo mesmo eu não esperando que alguém lute pela minha vida, ou alguém que seja capaz de não ser egoísta com um sentimento. Eu continuo chorando por todas as impossibilidades, as inverdades, e por tudo que eu queria que fosse real, que fosse bonito. Eu não perdi nada, eu conquistei muito mais. Conquistei a maturidade necessária pra entender "Titanic", conquistei a maturidade necessária pra entender que não errei em nenhum segundo da minha vida que foi desperdiçado com sentimento. Eu senti, eu chorei, eu achei que devia. Não salvei a vida de ninguém, ninguém nem chegou perto de salvar a minha. Ninguém foi leal, ninguém foi verdadeiro, ninguém. Mas eu conquistei. Eu conquistei alguns meses, algumas ligações. Eu conquistei decepções que guardei até o momento em que eu estivesse realmente preparada pra encará-las de frente e dizer obrigada. Eu conquistei os meus choros sinceros vindos de filmes românticos dramáticos e filmes de cachorros amigos que te esperam na porta de uma estação de trem mesmo sabendo que você não vai voltar. Eu choro, eu posso. Eu posso dizer que eu sinto falta, que dói. Mas eu senti, eu senti como o Jack. Por mais que existam controvérsias, eu senti. Eu senti, eu chorei, eu chorei por alguém, eu chorei por um filme, eu chorei sentada no pátio da casa da minha avó, encolhida, sendo iluminada pelo poste da rua. Eu me recuso a esquecer tudo aquilo que esteve na minha vida. Eu aceito todas as lágrimas, todos os filmes, todos os meus amores, todos os meus encantos. Eu aceito tudo. Eu aceito o Adam Sandler triste voltando pra normalville. Eu aceito meu coração, meus cup noodles, meus travesseiros melecados. Eu aceito tudo, aceito sempre, mas não me contento. Eu quero ver o Adam Sandler com a jornalista sacana que mentiu pra ele em "A herança de Mr. Deeds", fazer o que? Eu quero ver. Eu quero a realidade da vida que não é nada romântica como em "Titanic" e a realidade de que as pessoas que não são fiéis como o Hachi. Eu quero a realidade infame de que cachorros são melhores do que pessoas porque as pessoas não são como o Jack. Eu troco toda utopia dos filmes românticos pela vida real, mesmo que esses filmes me façam escrever um texto honrando o quanto seria maravilhoso se a vida fosse exatamente como eles fazem parecer ser.

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