Entre os encantos do mês, entre as maravilhas que pairam sobre o seis antes tão esperado e cobiçado, esse ano surpreendeu. A fantasia dos estalinhos e das músicas alegres, que geralmente falam sobre pular fogueirinhas, não aconteceu. Mais do que qualquer dor de amor adolescente ou de dedos mindinhos surrados pelos cantos de móveis dispensáveis, esse ano o Junho doeu. Doeu a perda. E não foi qualquer perda. Ela se foi. Ela que há 17 anos me fazia feliz sempre ao chegar cantando uma música de autoria própria e de letra sem nenhum significado aparente. "Ticabocobocobocoboco". Ela que tinha os cabelos mais lindos e lisos e curtos e quase ruivos. Ela que adorava dizer: "Ana Carolina, pára de roer unha" ou "Ana Carolina, não anda descalça". A única que fazia valer meu nome composto. Ela que sempre foi um anjo com aquelas mãos delicadas que jamais revelariam a sua verdadeira idade. Ela: esotérica demais, tagarela demais, cartomante demais e ela demais. Ela só sendo ela, com aqueles passos inquietos que oscilavam entre a cozinha e a sala quase que a tarde toda. Ela, minha avó. Eu perdi, nós perdemos. Foi embora, não volta mais. Minha primeira perda pra morte. Ah, é, dói. Dói a saudade. Dói querer ter dito e não poder mais dizer o quanto eu amo, o quanto eu sempre amei aquele jeitinho afoito e apressado. E eu até achei que eu soubesse o que é de fato sentir saudade de alguém. Eu não sabia, agora eu sei. Sei que é muito mais que uma nostalgia. É querer alcançar o inalcançável, é a agonia de nunca mais poder ver, ouvir, ou falar com quem se ama. Tá doendo te perder, Gildinha. Vai doer até o fim da vida. Vai doer até quando Deus decidir me fazer te ver de novo. Até quando eu puder me abaixar pra te abraçar forte, como nunca fiz e me arrependo. Vai doer ver teus óculos quando eu não aguentar mais de saudade. E já dói, constantemente, quando olho pro teu anel na minha mão. Ele ficava tão mais bonito no teu dedinho. A senhora era bem mais do que uma avó com todos os cuidados típicos, era a nossa mãe. Mãe da minha mãe, além de nora. Mãe dos meus irmãos e da mãe deles. Mãe dos teus sobrinhos, das tuas amigas. MÃE do meu pai. E que falta uma mãe faz, hein? É ruim demais pensar que o Círio não vai contar com a tua presença. Com a sua roupa de cama nova, seu sapato novo, seu conjunto novo, tudo novo. É ruim demais, Vó. Outro dia, um pouco antes da senhora dizer tchau pra todo mundo, eu te vi entrando no carro e dizendo que eu era o amor da tua vida. Ai, que sorte eu tive. Deus, a maior sorte do mundo. Ser o amor da tua vida, dividir com teus outros amores um lugar dentro do teu sentimento tão bonito. Se não for pedir muito, que Deus te dê meu recado: eu te amo! E é o amor mais lindo do mundo. O amor que veio da felicidade que a senhora tanto quis pra mim. Que veio do carinho, do cuidado e de tudo que a senhora sempre foi. Obrigada e... até um dia.
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