... Subentenda-me: Vida que segue

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Vida que segue

Haverá um dia em que você vai acordar de um sonho querido e sentir um monte de emoções diferentes. Aí então você vai precisar levantar, andar um pouco pela casa, beber uma água, voltar e sentar na sua cama, ficar parado ou se esconder entre as cobertas, tanto faz. Vai ficar do jeito mais confortável possível pra organizar aquelas emoções. Você vai se sentir por um lado saudoso, nostálgico. Por outro lado você vai perceber bem claramente como tudo sempre muda e tem que mudar, como você deixou pra trás ou foi afastado de coisas que amava e não pode mais voltar pra essa realidade e ainda assim se sentirá bem por isso. Bem porque tudo o que viveu até esse dia fez você ser quem você é, fez você se diferenciar do resto do mundo, porque o resto do mundo pode ter vivido um milhão de experiências maravilhosas mas não tão grandiosas quanto as suas. Não tão grandiosas quanto você julga que as suas experiências foram. 

Nesse dia você vai lagrimar muito, seu estômago vai embrulhar. Ah, com certeza vai. Você vai se encolher lentamente em posição fetal, e nem vai se dar conta disso. Você vai pensar no quanto foi feliz, no quanto se frustou, no quanto teve que lidar com muitas aflições. E nesse momento, ao pensar nos contras do seu passado, você vai olhar pro presente e agradecer pela sua atual tranquilidade - em comparação à confusão que vivia anteriormente, agora você vive tranquilo. Você vai continuar com o peito apertado, mas essa sensação vai se dissipando aos poucos quando perceber que não foi de todo ruim. 

Não, a vida até aqui não foi ruim. Foi angustiante, às vezes alegre, às vezes melancólica. Foi... 

Você vai notar que você continua vivendo angustias, diariamente, e pode até acontecer de você ainda não conseguir comparar as suas angustias de agora às angustias passadas. Mas você já viveu, você já sabe como a vida funciona, você já tem em mente as possibilidades do que está por vir. Você já não se engana mais, você sabe que daqui a um tempo a angustia do passado pela qual você se lamenta agora já terá sido substituída. Aquele amor antigo que você imagina que nunca mais sentirá igual certamente dará o lugar a outro. Sim, você sabe disso e isso vai amenizar cada vez mais o seu aperto no peito. 

Mas, em contrapartida, sua cabeça vai começar a trabalhar com comparações de antes e depois. Nesse momento pode ser que doa um pouco, pode ser até que você chore. Você vai pensar em tudo o que teve e já não tem mais. Depois vai aceitar que não tem por um motivo simples que talvez justifique a ausência de tudo o que já foi presente: o tempo. Sim, podia ser a vida, o destino, as ocasionalidades, mas ah, o tempo engloba tudo isso. O tempo e as suas surpresas, o tempo sempre trabalhando pra que você mude junto com a sua realidade. O tempo mudando a realidade de todas as pessoas, mudando tudo e todo mundo. 

Ao lembrar de tudo o que tinha e perdeu você vai começar a sentir algo semelhante a agulhinhas te perfurando, ou seja lá o que for. Mas sabe, você vai conseguir pensar direito. Afinal, você optou por organizar as suas emoções. Sim, você vai conseguir espremer algumas coisas boas. Você vai pensar que perdeu muito do que tinha, mas em compensação todas as perdas foram, ao mesmo tempo, te reconstruindo. Reconstruindo a pessoa que você é, reconstruindo o que de fato é importante pra você, reconstruindo pelo que vale a pena se entregar, sofrer, chorar. Você vai ver que aprendeu com tudo isso e de novo vai se voltar pra sua realidade e sentir que tudo está em constante mudança, que o tempo tem esse poder de te tomar coisas e te presentear com outras na mesma proporção. Você, por vezes, pode até ser indiferente aos presentes do tempo, vai achar que não compensa a perda, mas em momentos como esse, em um dia como esse, depois de um sonho bom, você vai ver que sim, valeu. 

Valeu ter vivido o que viveu. Valeu ter chorado o que chorou. Valeu ter perdido o que perdeu. 

Você vai se arrepender muito de ter pedido pra esquecer pra sempre aquela pessoa. NÃO. Agora você não quer mais esquecer ninguém. Você quer ter por quem chorar, ter por quem sentir saudades. Você já sabe que isso faz você ser quem é, amar as coisas que ama. Você sabe que todas as pessoas que viveram junto com você até aqui te fizeram gostar do que você gosta, abominar o que você abomina. Você percebe que gosta de ser quem é justamente por ter tido na sua vida certos "alguéns" que deixaram um pouco de si com você. 

Você vai sentir muito, ainda muitas vezes, a falta de pessoas, a falta de uma época, de uma antiga facilidade em escrever e descrever o que sente, e vai se lamentar porque já não se sente a vontade pra isso. Mas então você vai se recuperar, sentar na sua cama de novo e começar a pensar nas suas obrigações. Vai pensar nos textos que tem pra ler, na pessoa boa que você conheceu e mal vê a hora de reencontrar.

Você vai enxugar as lágrimas, que a essa altura não se aguentaram e se esparramaram pelo seu rosto. Vai respirar fundo numa sensação deliciosa de alívio e boas lembranças. Você vai se sentir uma boa pessoa, você vai dar bom dia pra todo mundo, você vai sorrir amigavelmente, você vai ajudar quem precisa de você. Você vai fazer o que tem que fazer. Sim, você vai continuar...

Continuar, sabendo que logo mais haverá outro dia em que vai acordar de mais um sonho querido, e assim por diante. 


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