Eis que um belo dia uma pessoa surge. Te surpreende assim de repente, te encanta logo nos primeiros minutos de conversa. Fala da vida, te alcança. E então vocês ficam cada vez mais próximos. Com o passar dos dias você percebe que já vai ficando mais complicado encarar a realidade sem contar com os momentos em que vocês vão dividir os acontecimentos do dia-a-dia. Antes mesmo de se dar conta vocês se incluem, às vezes até demais, nas decepções do passado do outro, nas ambições pro futuro.
E você passa a semana esperando o momento de vocês se encontrarem, e quando se encontram a mágica está na simplicidade com que ele deita no tapete da sua sala e te puxa pra junto dele. A mágica está na preocupação que ele tem ao ver que você está comendo besteira no jantar. A mágica está naquele final de tarde que vocês passaram rindo à toa e ele se deitou na sua rede pra descansar e acabou dormindo abraçado no seu braço esquerdo. Você passou quase meia hora com o braço dormente pra não acordá-lo.
E você sente que cada momento foi eterno, cada conversa, cada cheiro no cangote, cada piada. Foi eterno quando ele disse que poderia ficar pra sempre ali. Você concordou porque até este exato momento da sua vida você nunca tinha se sentido tão plena, tão tranquila, tão em paz. Você concordou porque ficou revirando o baú da sua memória pra ver se conseguia encontrar alguma imagem mais bonita do que os olhos castanhos dele te sorrindo. Nada superou. Nada superou vocês dois deitados na rede, nada no seu histórico conseguiu ser mais significante.
E é aí que você percebe que está perdida, que não tem saída, que ou aceita que está realmente apaixonada ou passa o restante do mês de dezembro triste por achar que vocês não vão dar certo porque ele confessou que coleciona fracassos nas tentativas de esquecer a antiga namorada.
É certo que ele insinua que desde aquele fim ninguém o fez querer tanto voltar pra um abraço, um beijo, um cafuné como você. Mas é certo também que você tem doutorado em amar errado e isso faz com que você reconheça de longe o perigo. E então você passa manhãs inteiras se perguntando se a coluna aguenta carregar uma bagagem tão pesada quanto a dele, e se isso valeria a pena. Uma hora você pensa que sim, que sente que quando ele fica te olhando e te fazendo carinho na orelha ele está se permitindo viver algo novo e bom, que o fato de ele não querer ir embora demonstra o empenho em tentar fazer dar certo. Outra hora você pensa que não, afinal, como convencer alguém que viveu boa parte da vida achando que não encontraria amor em outra pessoa de que você está aqui e disposta a fazê-lo feliz? Por fim, você pensa também que independente do que for pelo menos ele está sendo honesto. Pelo menos.
Você não sabe se consegue defender a tese de que você é maravilhosa e perfeita pra ele. Não sabe se consegue não derramar uma lágrima ao dizer pra ele olhar em volta e observar o quanto ele combina com a sua sala, com a sua rede que agora está com todo o cheiro dele. Não sabe se consegue falar sem gaguejar que foi lindo tê-lo visto dormir e que queria passar o resto da vida assim, o admirando num sono gostoso. Não sabe se conseguiria listar cada compatibilidade sem ficar exaltada pelo fato de ainda restar algum tipo de dúvida de que vocês se encaixam perfeitamente. Você simplesmente não sabe. Mas você quer. Você quer tudo com ele. Você quer viagens, passeios, e mais tardes chuvosas.
Você não sabe. Você tem que decidir se deixa de lado a pessoa que conseguiu em alguns meses te fazer desfrutar de todas as sensações maravilhosas possíveis de quando se gosta de alguém ou se o deixa ficar mesmo sabendo que corre um grande risco de ser apenas uma figurante, ou alguém que faz bem e é confortável de ter por perto. Você sabe que seria difícil ser o "tudo" dele, e a parte mais difícil é ter que admitir que ele tem séria propensão a ser o seu.
Você sabe que não deve dedicar toda a sua existência a uma só pessoa e sabe também que não quer precisar de alguém, mas você já não consegue lidar com o fato de que tudo seria mais triste sem as doses, ainda que pequenas, de felicidade que ele te dá. E você tenta ser otimista, e você tenta ver que trás consigo todo o amor do mundo capaz não de apagar outro amor falido da vida dele, mas sim de fazer ele viver um amor completamente novo, leve e inspirador. E você até acha que consegue, e inspira fundo e sente que deve permanecer. No entanto um segundo depois você solta o ar e repara que a garganta dá um nó.
E depois você volta a se perguntar por que diabos não pode ter algo que quer muito sem muita dificuldade? Você olha pros personagens da sua vida e repara que pra eles foi fácil se estabilizar. Que foi fácil aquele seu antigo amor começar um namoro e engatar pra uma união estabilíssima, que foi fácil pra aquele outro reencontrar a namorada de infância e noivar com ela, e que foi fácil pra sua melhor amiga começar a viver o amor mais lindo, puro, sincero e desinteressado que você já pôde ver diante dos seus olhos. Foi muito fácil pra todo mundo. E então você tenta entender o motivo de pra você ser tudo tão difícil. Por que os poréns sempre marcaram presença em todas as suas histórias? Poréns que remetem ao conteúdo dos roteiros em questão um quê de exagerada impossibilidade. Por quê?
Você não sabe.
Você não sabe o que fazer com o pendrive dele que está aqui, não sabe o que fazer com as lembranças boas que ele já enraizou em você. Com certeza não saberá o que fazer com todas as músicas que vocês cantaram juntos enquanto se olhavam e sorriam. Músicas que certamente farão com que você chore rios de lágrimas quando voltar a ouvir sozinha.
E então você começa timidamente a reparar que essa é a sua vida. Que surpreendente seria se não fosse impossível, complicado, complexo e absurdamente apaixonante.
E então você pensa em interromper a angústia, tomar um calmante ou algo que te faça dormir, ligar o ar condicionado, se encasular no edredom e acordar só quando você souber um pouco mais. Ainda que você saiba que isso é uma ilusão porque na realidade você saberá muito menos.
O que você faz?
Ah, se você não sabe, imagine eu...
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